Terça-feira, 1 de Maio de 2012
Pardacenta

    Pardacenta era aldeia alvacenta. Delambido o Sol, derretia-lhe geadas, dispersava neblinas e evaporava águas supérfluas, ao primeiro raio. O chilre da passarada, a cantarola do vento, o sussurro dos regatos marcavam a compasso certo o ritmo da vida que brotava em borbotões do verde omnipresente.

   Pardacenta esparramava-se por múltiplas lombadas matizadas, num trecho fértil daquele trato de quietude, por onde gizavam por junto as juntas de bestas que, a um tempo, estrumavam e amanhavam terras, sob a comandita dos tratadores. Todos os vizinhos dispunham de uma leiva, de um pasto e de um arroio. Os desamparados contavam com a ajuda operativa dos mais afortunados. Os pimpolhos aprendiam as primeiras letras na escola primária, gerida por uma balzaquiana de nota avaliativa máxima. Os enfermiços recebiam toda a atenção de parabolanos e galenos dedicados, na casa do povo, dia-sim dia-não. Pelos domingos e feriados a capela acotovelavam-se crentes, temerosos descrentes das espúrias benesses da vida terrena. Na mercearia/botequim central atascavam-se os devotos da boa pinga e do bom falatório. Ao regedor poucas queixas foram ouvidas, a não ser queixumes derivados do reumático. O senhor Aguiar, fazendo jus ao apelido, calcorreava montes e vales e fazia ali escala por conta da produção biológica do sítio e para dar a conhecer as «coisas usadas pelos senhores e senhoras da vila». Aos fins-de-semana havia ainda tempo para ensaiar modinhas à moda da terra, de autoria de um taxista que correra mundo e que delineou também as fatiotas dos pares saltimbancos.

Um a um, os vizinhos de Pardacenta descobriram que havia telefones, televisões e carros a dar com um pau na aldeia global. Alguns vizinhos magicaram na abalada pela calada da noite e não hesitaram. Outros partiram pela clara luz da jornada, em busca de jornas mais reconfortantes. Os putos em idade escolar foram transferidos para estabelecimentos polivalentes, a muitas pernadas dali, o que promoveu o arrasto dos entes, mesmo dos mais renitentes. O prior, queixoso da escassez de óbolos e de coro afinado, foi pregar para outra paróquia. O regedor abandonou a farpela e atavios do ofício à naftalina, posto que, face ao absentismo reinante nos fogos e leiras, pressentia já não reunir condições para o mando. O dono do tasco carregou os proventos para o banco do município e pôs-se a viver de juros e alcavalas regimentais. Na casa do povo, um retirado funcionário despachava assuntos correntes até ver. O posto de correios, há muito, tinha servido de pasto à voragem da formiga-branca. O rancho folclórico aderiu aos cantos de sereia. O senhor Aguiar quedara-se nas suas tamanquinhas, a rogo de João Semana. Os anciãos resistentes feneceram ou cederam às solicitações da terra prometida. O último a sair, desligou o interruptor.    

 

  Uma comunidade esotérica alienígena acaba de aterrar em Pardacenta. Dos objetivos para a próxima época consta a proclamação da independência.

 



publicado por oitentaeoitosim às 09:32
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Domingo, 8 de Abril de 2012
Uns comem os figos...

Abirão contou esta estória que muitas cabeças atribuem à sua imaginação fértil.

 

  Uma anciã decidiu despojar-se dos seus bens terrenos, antes de encontrar-se face a face com o seu criador. Chamou ao seu leito de doente impenitente a filha única, Sabina, de sua graça. Posta a par da decisão, a herdeira deu, sem peias, o seu aval à resolução inspirada da genitora. Esgaçado o pé-de-meia, só assim a cria podia continuar a sufragar a paixão pela jogatina que a consumia. Só dinheiro vivo com fartura serviria para ressarcir-se de perdas e danos ao património.

  Sem mais tardanças e atavios, pôs pés a caminho a esperançosa donzelona.

  Nisto, sai-lhe a terreiro o cocheiro-mor do reino, Tácio de seu nome, que acumulava funções de autarca de alto coturno e latifundiário de alto lá com o charuto! Era igualmente especialista em cavalgar toda a sela, sem reproche. Sabina já o conhecia de ginjeira.

- Que temos desta feita?

- Minha mãe quer vender, antes de partir.

- Sua mãe vai finalmente conhecer este mundo?

- Será uma viagem só de ida, para o outro mundo.

- E quer vender tudo?

- Sim, tudo, para que a terra e a minha vida sejam leves. Alinha, caro senhor?

 Que sim! Tácio sabia que estava avençada a edificação de um terminal de diligências, estilo último grito de Paris. Os terrenos da anciã caiam nos parâmetros requeridos que nem ginjas.

 Fosse Sabina mais dotada de argumentação financial, saberia que, nestas questões da oferta posta à frente da procura, fica a perder quem dá parte de fraco. O cocheiro-mor do reino, ao invés, macacão de rabo calejado, sabia-a toda. À desfilada, alcançou a moradia de 10 ha do fogueiro-mor, seu compadre e sócio. Este concordou que teria todo o gosto em incluir o seu nome na lista futura dos outorgantes ativos. Nova viagem, de calcantes a fustigarem-lhe o rabo, ei-lo à porta do condomínio fechado do escrivão-mor, seu compadre e sócio, que não se fez rogado perante o capitoso negócio que se avizinhava.

  Três dias volvidos sobre a desditosa data em que os torrões se fecharam sobre o ataúde da anciã, os outorgantes promitentes encontram-se num boteco.

- Ofereço-lhe 500 milhões de reis, é o que se pôde arranjar! – disse o cocheiro-mor.

- Quando vou ver a cor ao dinheiro? – perguntou Sabina do alto da sua esfusiante alegria.

- É para já! - ripostou Tácio, enquanto sacava de 10 saquiteis prenhes de graveto - Fiz questão de vir acompanhado por um tabelião, para a escritura e por um forneiro, para o pato assado que vem já preparado para fecho das negociações.

  Transação consumada, Sabina desembarcou no casino, donde saiu tesa que nem carapau; Tácio e companhia deram de frosques e só detiveram os cavalos à entrada do prostíbulo mais próximo, onde saciaram, durante 3 dias e 3 noites, a luxúria e a gula associadas ao sucesso.

  Abordaram Matusalém, o promotor do terminal de diligência, com quem fecharam negócio, por 1500 milhões de reis. Sabina, já nessa altura tinha recolhido a penates; cabisbaixa, lamentava a falta de empatia com os seres benfazejos que determinam as sortes dos jogos de cartas. Tácio e companheiros partem para a 2ª comemoração consecutiva, no serralho mais à mão. Ali permaneceram 5 dias e 5 noites, período em que deram o litro, se desforraram da falta de talento das consortes e tiraram a barriga de misérias a seu talante.

  Ainda carpia Sabina a sua desdita, pelo que vertia capitolinas bátegas, ao peso de marreca pronunciada, quando os editais alvoroçaram a plebe. Prometiam alvíssaras a quem desse informações sobre os matadores de Matusalém. O empresário havia sucumbido a uma tosa monumental, quando fazia contas à vida e o seu anjo da guarda se distraía a recolher mais um exemplar para a sua coleção de borboletas. Os meliantes confiscaram e deglutiram os documentos assinados com Tácio e amigalhaços e deles nunca mais houve novas, nem mandados.

   Os 3 da vida airada abancaram no alcoice mais próximo, para um terceiro estágio por conta do grande negócio das suas vidas. Por lá se mantiveram por 7 dias e 7 noites, tentando dar o seu melhor na satisfação dos prazeres da carne. Esgotados os fluidos da satisfação, puseram-se cá fora e apressaram-se em construir novas caixas fortes, reforçadas a 7 chaves. Continuavam donos e senhores do terreno comprado a Sabina e muitos mais candidatos se apresentavam ao engano e à ereção de novo terminal de diligências. Os regabofes dos 3 amigalhotes prosseguiram a bom ritmo, para gáudio também das caras metades que poupavam nas canseiras e amealhavam joias.

 

   Abirão, contou esta estória de fato às riscas, no intervalo de um julgamento, que enfrentava por questões de somenos importância, ao que dizia. Estava previsto que teria de comparecer mais 50 vezes perante o justiceiro-mor, se entretanto o carrasco não recebesse ordens de o garrotear. Ou se não o vitimasse o mal da caspa, uma maleita incivilizável, sobre a qual recaiam as atenções dos profundadores.

 

   Tês semanas mais tarde, Abirão pôs-se ao fresco. Aproveitou um pifo monumental dos peões de brega que montavam guarda à sua cela e pernas para que te quero! Foi dar uma volta e descobriu a sua aptidão natural para andarilho. Em pequeno sonhou um ror de vezes que queria viver a toque de caixa, quando fosse grande.

 



publicado por oitentaeoitosim às 11:52
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Sábado, 7 de Abril de 2012
Compostura

   A descoberta apodera-se de todas as parangonas: dezenas de milhões de planetas da galáxia vizinha da via láctea contêm H2O, o precioso líquido fiador da vida no universo do big bang. A descoberta pôs de cara à banda muitos dos supremacistas terráqueos, confundidos pelas assunções do design inteligente. Na lista dos investigadores surge um nome: Sertório I.

   Organiza-se um peditório para um foguetório de homenagem ao herói, uma vez que o torrão pascal, perdão, torrão natal está a braços com crise aguda de brotoeja. Também se arranja uma parada militar à maneira do império, durante a qual e o laureado se compromete a escutar de cabo a rabo uma heróide lavrada por vate assaz louvaminhado.

   A coisa esteve compostinha!

  Todas as aberturas de telejornais são peremptórias: afinal há vitrinos que conseguem mover-se a velocidades superiores à da luz. A descoberta dissemina-se a uma intensidade estonteante e baralha antigos fados, mas também permite novos cálculos sobre juros vindouros. Mais tarde desceu alguma descrença sobre esta teoria, mas, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Uma vez publicada a lista dos escabichadores, lá estão os nomes: Sertório II e Sertório III.

  Há peditório para novo foguetório de homenagem aos heróis, uma vez que o torrão pascal,  perdão, torrão natal convalesce de uma crise aguda de sarampelo. Também se arranja uma parada de injustiçados anónimos e de ocupas e os premiados são contemplados com a versão mais recente da ode marítima, dedilhada por um companhia de artistas despidos de convenções, mas dependentes de subvenções.

   A coisa esteve compostinha!

   Todos os jornais digitais, blogues e redes sociais publicitam e comentam a notícia com segundos de diferença e em tom maior: um grupo de cientistas descobre uma forma prática de reverter o plástico ao petróleo original. A descoberta baralha os partidários da teoria inorgânica do ouro negro, mas também permite devaneios à volta de lucros futuros de estadão. Compulsada a lista dos papelistas, encerra os nomes que se seguem: Sertório IV, Sertório V e Sertório VI.

  Impõe-se outro peditório para outro foguetório, porque o torrão pascal, perdão, torrão natal vive uma recaída de acne aguda. Também se disponibiliza uma parada de autarcas com guia de despejo, outra de militares defenestrados e outra de patos bravos indigentes. Os galardoados aturam uma dúzia de discursos, alguns pícaros, outros pícaros, estoutro picaresco que continham obrigatoriamente elucubrações  homéricas.

  A coisa esteve compostinha!

  Todo o mundo anuncia que as crises de brotoeja, sarampelo e acne são obra do homem do saco. O achado é recente e transtorna os espíritos recatados e os iluminados. As contas sobre lucros passíveis prolongam-se para as calendas gregas e troianas. Da lista dos descobridores não consta nenhum nome do torrão pascal, perdão torrão natal. Em boa hora, porque os foguetes estão extintos, o dinheiro segue o mesmo descaminho e o tom laudatório é valhacouto dos áugures. Permitidas estão apenas marchas de agiotas compungidos, de provocadores de chuva, de ciliciados e auto flagelados.

   As descobertas podem esperar por melhores dias, caso não sejam sonegadas.

   A coisa está compostinha!



publicado por oitentaeoitosim às 11:28
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Domingo, 4 de Março de 2012
Ida ao brejo

  Segismundo, ao primeiro dia, levanta-se macambúzio. Folgazão, lembra-se do entrudo, altura em que se suporta tudo. Compõe e afivela a máscara de conhecido político profissional, ali mesmo à mão de semear. No desvão da escada do habitáculo, entre as reminiscências de velharias, descobre a fatiota adequada ao disfarce. À porta do local de trabalho faz-se anunciar a todos os colegas e chefes com a melopeia saída de cornetins e alaúdes feudais, tocados a preceito por músicos de rua que se desunham para arranjar graveto para a bucha. Levam-no a mal. Cobrem-no de injúrias, de farinha e de ovos, durante toda a manhã. Sai feito num oito e a cara num bolo.

   De tarde, volta à carga: na tabacaria do bairro compra uma máscara de monarca, com coroa dourada, diadema cetro, etc... Na cave da moradia, descobre farpela a fazer companhia. O regresso ao trabalho, em tempo de vésperas, é anunciado por pajens recrutados à porta do tabernáculo, entre uns quantos polidores de esquinas que por ali vegetam e lhe invejam a sorte do emprego e todos os dias lho fazem saber. Aí os colegas desbarretam-se, cobrem-no de confetes e fitas. Oferecem-lhe o chá das 5 e ei-lo que volta em glória a caselas.

   Segismundo, ao segundo dia, levanta-se impante como infante em dia de visita de gente d’algo à escola. A seu lado, jaz outra máscara de político profissional da aliança. Na arrecadação, entre presuntos, queijos e fiambres fora de prazo comprados como tal no híper da zona, catrafila um fato de grilo, salvo às bravatas das traças por bolas de naftalina das que teimam em não perder o rasto e o lastro em décadas de barrelas sucessivas. Esfusiante, faz-se anunciar em 3 línguas vivas e 3 dialetos, á entrada do pelourinho. Os colegas cobrem-no de mel, esfrangalham meia dúzia de galináceos e fazem-no rebolar sobre as penas. Assim o mandam de volta a casa, à hora do pitéu, para alvoroço e posterior solidariedade das organizações que lutam pela existência de rotundas ou praças da constituição em todas as terras do país.

   À tarde, não desiste: na papelaria do bairro, descobre uma máscara de anjo andrógino. Na arrecadação do aposento, entre trastes do tempo do rei quinze, descobre a indumentária a preceito. À entrada do local onde esportula as horas mais mimosas do dia, de mãos cruzadas e apontadas ao trono etéreo, faz-se anunciar pelo estrépito das harpas e charamelas empunhadas por querubins, serafins e potestades. Os colegas, esses desfazem-se em vénias, cumulam-no de beijos de paz e preparam-lhe o maná das cinco, com a conivência da entidade diretiva, de olho também atento no banco de horas. Volta ao bem aventurado lar, onde acaba por descobrir que a vida é bela, não fosse a humanidade a conspurcá-la.

    Segismundo, ao terceiro dia, levanta-se reconciliado com a vida, quando se lhe depara sobre a mesa-de- cabeceira a máscara do dono do mundo. Apressado, entra na cave do fogo onde vive com pouco desafogo. Surripia uma embalagem de salsichas e poupa nas conservas, mas encontra a roupinha a preceito. De regresso à tribo laboral, faz-se anunciar por todas as campainhas de alarme do prédio multiusos onde se esmifra. Os colegas é que não vão em cantigas; de má catadura, moem-no de porrada e à cachaporrada, trâmites completados com a inefável justiça de Fafe. Volta a casa, para tirar a barriga de misérias.

    Aí puxa pelas meninges e num último esforço decide-se pela recriação do episódio Grimm em que o rei vai nu, o que dispensa qualquer adereço. À entrada do edifício onde reina o seu amo e senhor é anunciada por sirenes e luzinhas de discoteca. Vinham por ele, em nome da moral púbica. Uma lei recente obriga os cidadãos a rapar os pelos todos dos gasganetes para baixo. Ele é alérgico a depiladores. Lá vai catrafilado, que não ledo.

    Levam-no para as masmorras, dão-lhe um lençol de papel, não vá ceder á tentação de conselheiros suspeitosos. Aí terá renegado a teoria velha de séculos: afinal a vida e o carnaval são mesmo 2 dias.

 



publicado por oitentaeoitosim às 11:14
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
As ações ficam com quem as pratica

1 – Artur queria trazer para a pátria sua amada o melhor jogador chinês, pois assim garantia a ocupação de muitas camas de hotel. Riram-se-lhe na cara, soltaram os cães nos mídia e quase o nomearam charlatão-mor de aquém e além-mar. Se tal não aconteceu, foi porque o júri empatava sempre na votação, pois havia um outro candidato forte à comenda, um beltrano que acreditava na honra do país e que a mesma se salvaria com numerário extirpado com suor e lágrimas aos plebeus. Transcorridas algumas luas, empresas mancomunadas com o estado sínico estabeleciam-se no território. E foi ele quem se pôs a rir. Artur gozou à fartazana com a vingança do chinês.

2 – Alexandrino, renomado distribuidor de pastéis de nata, a granel ou por atacado, era um brincalhão dos antigos. Numa das suas arremetidas, disse, zombeteiro, mas corando de pudicícia, que mais adorava a pátria do que a charmosa balzaquiana a quem sobrevinham requebros só de pensar no Ferrero Rocher. Houve quem ouvisse e registasse a tirada d’oiro. À conta disso, contou com muitos votantes, na hora da consagração do vulto mais amado do rincão. Já oficialmente, declarou à saída da melhor casa de pasto do país: «Não tentes saber o que o Estado pode fazer por ti, mostra que sabes que fazer-lhe». Lá dentro, muita gente,  impunemente ilustre, acabava de saborear nacos e postas  a propósito da imposição de medalhas aos colaboradores mais zelosos do terceiro vulto do país, os tais que trabalhavam 12 horas diárias pela paga de 7. Transcorridos alguns sóis, pôs a recato teres e haveres, num país que vive sempre com água pelas barbas. Assim mesmo, Alexandrino pôs literalmente as barbas de molho. Só os pastéis de nata se rebelaram.

3 – Originário de famílias de posses, Jacinto herdou grosso quinhão de terras de lavradio. Viu-se cumulado de capitosas benesses da união, para se desfazer do património, mas só se pôs a milhas, assim que o bmw topo de gama, ganho a expensas do absentismo, se desfez contra uns dioritos duros de roer da serra mais baixa da terra. De malas aviadas e sempre ataviadas, correu seca e meca, disfrutando da companhia falaz dos pecados capitais que, um dia, sonhava exorcizar. Decorrido lustro e meio, apenas sobraram uns tostões nos fundilhos duma lata de salsichas. No burgo de proximidade, instalou-se como comprador de ouro, prata, platina a quem o procurava sedento de uma bucha. Bafejado por Midas e sobraçando Pantagruel, Henry Miller e Sade, abalou para a cidade mais setentrional da nação, onde viveu à tripa forra no lustro e meio seguinte. Voltou à grande capital, quanto se esgotaram as tenças, tomado do propósito costumeiro de encher o saco com pouco dano da sua parte. Virou corretor, na sequência de um curso de formação para desenraizados sobre a nobre arte de dar pontos sem nós, ação orientada por um marinheiro sem saudades da maresia. Quando o quiseram meirinho e mais tarde regedor, desfez-se em desculpas e abalou uma vez mais, desta feita para os antípodas. De saco cheio de divisas conseguidas com vendas no momento certo, deu prosseguimento à vida de rimance e destemperança. Lustro e meio volvido sobre este fartar vilanagem, secou-se a fonte e veio nova abordagem. Na capital da união, fundou uma sociedade de consultadoria para provimento de países encalacrados. Terá contribuído para a resolução da situação de falência eminente das ilhas da Macarronésia, o que lhe valeu mais prebendas que as dádivas dos génios das lâmpadas, cada vez mais fuinhas nos tempos decorrentes. Abalou para os cús de Judas e meteu-se nos assados do costume. Na rodada seguinte, pôs de pé a fundação «nobre povo» que se propunha organizar a verdadeira viagem ao centro da Terra. Ainda de lá não voltou, após par e meio de lustros.

 



publicado por oitentaeoitosim às 12:52
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
A sabedoria não vem dos ricos, vem dos pobres

1 – Soube-se recentemente que uma associação secreta daquelas que detêm alguns segredos longe dos olhares do mundo tem contribuído para a promoção de importante segmento das exportações desta praça, o dos aventais. Igualmente terá contribuído para o aumento do sucesso em matemática, pois do compasso faz uso de mestre. Assim, por tudo isso e pelo apoio a nautas, pedreiros e arquitetos, hoje mesmo será imposta à dita corporação uma das comendas de mais alto coturno. Qual? Está ainda no segredo dos deuses. Entretanto sabe-se que a cerimónia, de pompa e circunstância, ocorrerá em Mação.

2 – O puto era bravio, estrebuchava que nem javali filado pela rede. Um matulão, por pirraça, prendera-lhe os braços atrás das costas; ato contínuo, arremessou a presa ao chão e depôs um joelho vitorioso nos costados do reguila. Debatia-se com apego à causa da honra o petiz, o sansão de trazer por casa mostrava, em toda a sua plenitude, a alvura do esmalte dentário. «Sai de cima de mim!» - conseguiu debitar o minorca para o latagão, enquanto de debatia com todas as ganas. Um transeunte tentou arredá-los, mas saíram baldados os seus esforços. Só quando chegou a polícia, se soube que ambos praticavam a última versão do jogo dos indignados.

3 – O comandante das tropas botou a boca no trombone e disse de sua justiça. Que os proventos da família por si geridos nem davam para comprar tremoços, quanto mais pevides. Ato imediato, uns amigos de Peniche se reuniram e juntaram umas moedinhas, para que não lhe faltasse nada. Outros condoeram-se, a pontos de ofereceram a casa, mulher e filhos, pois já não sabiam que lhes fazer. Outros, insidiosos, queriam que ele levantasse a tenda e fosse pregar para outra freguesia. O último a opinar, sugeriu melhor: que fosse caçar gambozinos para a ilha da Páscoa. Proposta aceite, hoje é um moai.

4 – O xerife disse que os seus súbditos são pobres piegas. Em apoio da sua tese, vieram arremelgados os ricos por lei e os ricos por portas e travessas. De cenho desanuviado, diziam-lhe: «Conte connosco!», ao que o xerife respondia que sim, mas que não era preciso. Pardeus, que se mantivessem a operar as rédeas dos seus empreendimentos, que estariam a ser prestáveis. Os pobres não gostaram de serem assim tratados e decidiram dar conta ao xerife. Uma coisa é ser pobre piegas outra é ser apontado a dedo à conta disso. Uma coisa é ser o bombo da festa, outra, bem diferente é dar à palheta, como o faz sua senhoria. Pediram-lhe encarecidamente que se retratasse. No dia seguinte, a fotografia do xerife apareceu em todas os mídia, de cenho semi carregado, semi aliviado, acabadinho de deixar o confessionário.

 



publicado por oitentaeoitosim às 20:16
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
Camisa de onze varas

 

    Uns grandes crânios vivos rezam todos os dias às alminhas penadas e às do purgatório já mortas. Outros tentam entrevistas mediúnicas com os espíritos afamados e versados na ciência do deve e haver de afamados, letrados na arte de bem dissecar os tecidos cavernosos de défices e superavits. Smith, Max, Keynes, Galbraith, Hayek e Furtado - entre outros - são continuamente assediados, por dá cá esta palha. Têm conseguido furtar-se à abordagem, com sucesso, até hoje, à custa de audaciosos golpes de rins. Os atormentados espíritos terráqueos, ao verem o chão a sumir-se debaixo dos pés, é que não se rendem. Sem o seu precioso auxílio, continuam a bolsar justificações a pataco, servidas por pratos requentados, erigidos com muita perícia, mas pouca substância. Longe deles que a sua amada ciência caia na rua e vire segredo de polichinelo.

      Salvar o establisment das garras do consumismo, das cavilosas confrarias de corretagem, da bolsa predadora, da banca insaciável e mesmo das mafias internacionais visíveis e invisíveis, seria tão fácil, noutros tempos, como limpar cús a meninos. Atualmente, veem-se à brocha, balbuciando ninharias como infantes desdentados. Os arcanos também lhes fazem vista grossa  e ouvidos de mercador. Por isso a borrasca estará para breve, segundo todas as previsões. Enquanto o pau vai e vem, arranca-se cabelos, rói-se unhas até ao sabugo e, à sorrelfa, encomenda-se estudos sobre poções mágicas tipo druida Panomarix, sobre a localização do reino de Prestes João e mesmo sobre o Eldorado.

      De pouco tem valido: o vírus da crise, diabolizado por todos, teima em trautear o estribilho «daqui não saio, daqui ninguém me tira!». E continua a atacar pela calada, como a cáries os dentes, com pertinácia e perfídia.

   Os bolsos das formigas pobretanas estão a esvair-se de copeques, as carteiras repassadas bradam aos céus, os mealheiros jazem esventrados. Os bolsos das abastadas cigarras ameaçam implodir do alto do seu castelo: as ações, as obrigações, os títulos estão a sentir-se acossados. Resistem, irmanados no instinto da sobrevivência das imparidades.

    Fazem-se promessas a ser cumpridas no triângulo Fátima-Santiago de Compostela-Lourdes; outros itinerários alternativos estão a ser congeminados a outras sedes de imprecação, posto que, em tempo de guerra, não se limpa armas.

    Se a coisa não se compõe, teme-se que este clone do mostrengo do cabo das Tormentas continue a engordar e a crescer em todas as frentes.

    Num belo dia de inverno, repleto de neblina daquela que se entranha nos poros e vísceras, um guru, convidado de honra num dos mais lídimos areópagos, descobre a pólvora: a culpa é dos ingleses e seus abencerragens. Sim esses mesmos que são useiros e vezeiros em comer as papas na cabeça de toda a gente; esses mesmos que porfiam na toleima do uso de medidas escaganifobéticas; esses que teimam propagandear, no tempo e espaço, os seus complexos de superioridade ilhota (alguns miramolins da santa terrinha teimam em segui-lhes as pisadas). Os camones e seus séquitos espartilharam, em tempos idos, as costas e contracostas do globo, em nome de veneranda globalização; foram eles que, mais recentemente se estiveram nas tintas para o euro e se abstiveram de o salvar, quando seguia de cabeça perdida rumo às cascatas ignotas.

    Palavras não eram todas ditas, e já o togado, afinal um infiltrado duma associação secreta de renome, – como se apurou mais tarde - patenteia a sua receita para a crise: anule-se a semana-inglesa para toda a gente, todos, sem exceções, vão alombar pro bono, ao sábado de manhã, em prol da nação. Assim se mitigaria a mitológica calaceirice dos indígenas, ao mesmo tempo que se poria em sentido a malversação corsária.

    Em sede de concertação, está a ser ponderada a questão, não vá a diligente classe dirigente ficar cerceada nos seus direitos de descansar ao 7º dia. Que S. João Wall os acolha em seu beneplácito!



publicado por oitentaeoitosim às 11:47
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Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
Tricas ou nicas

1 – Zé Nababo, aponta, dedo em riste, o cartograma; aclara a voz e socorre-se de epítetos horripilantes para desancar no país que está ali mesmo ao alcance da extrema do seu dedo médio. «Está falido, não se fala mais no assunto, resta refundá-lo». Compõe, por esta ordem, o melhor sorriso, o porte altaneiro e o nó da gravata. Os colaboradores não fazem a coisa por menos, quais carpideiras profissionais, desfiam o rosário das misérias indígenas: cambada de parasitas, caterva de estéreis, horda de improdutivos. O discurso de tão eficaz faz soerguer e chorar as pedras da calçada.

   De forma que só ele e outros que tal seriam capazes de levar avante a cruzada de elevar o país, entalado entre a cruz e a caldeirinha. Sugere a travessia do deserto aos paisanos. Encomenda-se a S. Expedito, a quem dedica homenagem de grande estadão. Arrecadados os óbolos do ofertório, Zé Nababo põe o ar compungido, dá garantias da reconquista do orgulho e glória perdidos e dá as vilas de Diogo. Toda a gente julga que segue em demanda do santo graal. Puro delíquio dos sentidos; deixa-se tentar pela serpente do paraíso fiscal mais à mão de semear.

   A plebe ignara sabe que a alternativa passa pelo génio da lanterna cuja aparição se dará sem dúvida, nos próximos dias, ou nos anos-luz mais chegados.  Se 7 são  os céus, como os véus, há sempre lugar para mais um…

 

2 – Zé Pimpão não costuma fazer ondas; passa desapercebido, frequenta o ginásio em pontas de pés, faz uma dieta rigorosa e realiza muita massa. Empresário de sucesso nos 4 cantos do mundo, tem cofres, barricas e colchões atulhados de divisas conseguidas nos mercados de bens, derivados e CO2. Um belo dia, aparece citado nos jornais. Alguém o tinha surpreendido a falar com os botões, garantindo que o rei vai nu. Para ele, os manajeiros da produção não passam de biltres incompetentes, de minorcas de trazer por casa, de ídolos com pés de barro. Que não! - sustentam os mandaretes da coisa pública que há muito se excediam no rapapé aos feitores. Eles recorrem a truques encantatórios, para se eximirem às suas obrigações - insiste Zé Pimpão. Que não, só eles são capazes da redenção – retrucam os eleitos do mando. Um escoliasta comenta que não vale extremar posições, que no meio reside a virtude, muito malbaratada, por sinal, nos tempos que correm – remata ele. Consta que desta altercação pública retirou sustentação uma força política embrionária.

    O soba é que não se contém. Numa partida de chinquilho, aprazada para a materialização de verbas destinadas ao acudimento dos desprotegidos da sorte e da crise, volta-se para o empresário de sucesso e diz-lhe sem rebuço que vá caçar gambozinos, que lhe desampare a loja.

    Sem rebuço, fez-lhe o gosto Zé Pimpão. Partidário que o dinheiro não tem cor ou pátria, estabeleceu-se na Neerlândia. De quando em vez, volta com 2 malas de cartão, para uma partida de bisca lambida, ou para se esparramar nos areais aborígenes. O soba tem sido visto a dar corda às orelhas à vez, a ver se delas jorra pinga de sangue. Sem sucesso, até à data…

 

3 – Zé Acácio, teve um percalço. Legífero de coração e treino, adestrado, desde a primeira infância, na leitura do futuro na palma das mãos, nos pauzinhos, nas conchas e astros, não encontrou melhor maneira de abanar a árvore das patacas, do que fazer-se ao piso a um lugarzinho na câmara corporativa, atividade que concluiu com sucesso. Em noite de ramboiada, prende-se-lhe o indicador no gatilho da canhota, a qual dispara a torto e a direito. A protetora dos animais regista o abate de 2 avestruzes, 3 ursos e 3 paquidermes. Cassam-lhe a licença de caça, limitada apenas ao abate de leporídeos. A multa derivada pôs-lhe os olhos em bico, mas pagou sem tugir ou mugir.

   Uma reunião comicieira de desagravo é conclamada. Amigos do peito, curiosos de ocasião e penetras não perfazem meio moio, mas berram que se fartam o apoio. Para os anais ficaram slogans elucidativos: «Não pagamos!», «Os patos bravos que paguem a coima!» e «Catirinas ao poder; os progénitos já lá estão!». Apenas se calam, quando já a voz lhes dói a bom doer.  

   No dia seguinte, Zé Acácio é convidado a substituir Sísifo, tarefa de que se incumbe com elevado espírito cívico.

  

 



publicado por oitentaeoitosim às 10:16
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Domingo, 11 de Setembro de 2011
Ética 1

Ética 1

Há dias, ouvi dizer que um indivíduo boçal se dá a conhecer, entre outras evidências, pelas seguintes manifestações:

falar pelos cotovelos;

consumir tempo a torto e a direito;

comer com arrimo dos dedos;

meter dedos no nariz à cata de burriés;

cuspir para o chão;

assobiar para o lado;

atirar lixo para o chão;

atirar piriscas para o chão;

largar-se por tudo e por nada;

deixar o cão sem  trela;

evacuar  em lugares públicos;

fazer nudismo em lugares não destinados ao efeito;

parcar o popó sobre os passeios;

dizer com todos os dentes da boca que certo clube vendeu jogadores;

dizer alto e bom som que o senhor Obama é presidente da América;

afirmar que os alunos são as molas motoras das escolas;

afirmar que os doentes são a mola motora dos hospitais e centros de saúde;

garantir que o imposto especial sobre o 13º mês é equitativo;

garantir que os brandos costumes não são a principal causa da resolução dos problemas;

dizer que o perfume foi inventado para obviar ao maus cheiros do trabalho;

dizer que as modas são marcas distintas de socialites;

asseverar que o jet set é o motor da sociedade;

asseverar que codícia é sempre sinal de nobreza.

 

PS: Dá para acreditar?



publicado por oitentaeoitosim às 11:23
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011
Questões em aberto

A – Por que razão há países que não saem da cepa torta? Muitos tratados foram admiravelmente compostos sobre a temática. No fim, uns inclinam-se mais para variantes de insuficiências democráticas, outros para variedades de deficiência financeira, outros para matizes de défice de conhecimentos. Alguém não se quedou pelas meias-medidas e proclamou, alto e bom som: a culpa do subdesenvolvimento deve ser atribuída aos países ricos e um pouco menos aos países emergentes. Foi o bom e o bonito…

B – Por que razão certas e determinadas agremiações desportistas não empregam praticamente cidadãos nacionais nas suas equipas? A maioria das conjecturas aponta ou para a falta de oportunidades dos nativos, ou para a desvalorização das compras estrangeiras e a valorização das, ou para a falta de uma política patriótica do desporto (vulgo ppd), na esteira do que é nacional é bom. Alguém não se quedou pelas meias-medidas e proclamou, alto e bom som: a culpa é da globalização e um pouco menos da regionalização. Foi o bom e o bonito…

C – Por que razão uma atleta abandona o centro de estágio, de armas e bagagens, pela porta do cavalo? Fala-se de falta de respeito, de desconsideração ou mesmo de perrice, à boa maneira da malta do showbiz estadunidense que levanta o cu da cadeira, quando se sente provocada, em directo. Alguém não se quedou pelas meias-medidas e proclamou, alto e bom som: a culpa advém sobretudo do mercenarismo, da defecção, e um pouco menos da desertificação, podendo a solução estar no ponto médio das três variávei. Foi o bom e o bonito…

D – Por que razão o chefe se atira mais, como gato a bofe, à arrecadação de receitas e menos à contenção de despesa, quando se bateu pelo contraditório? Surgiram teorias belicistas, estilo «a dívida declarou guerra à gente»; despontaram também as de cariz gastronómico, estilo «não há almoços grátis»; outros peritos ainda deram paternidade a conjecturas de cariz social, estilo «não há nada para ninguém». Alguém sugeriu que se fizesse aparecer medidas legais contra corruptos e corruptelas. Foi o bom e o bonito…

E- Por que razão as depressões aumentam na ordem directa da diminuição das regalias sociais? Fala-se da redução da auto-estima, da propensão para as rixas e até há quem lembre a famosa teoria de «casa em que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão». Alguém sugeriu que faz falta uma campanha nos mídia para levantar o moral das tropas, ou a realização de uma conferência internacional para a qual sejam convidadas apenas vítimas da crise. Foi o bom e o bonito…

F – Por que razão as sublevações encetadas em países da África branca e do Próximo e Médio Oriente são recebidas com expectativas reservadas no ocidente? As conjecturas não se têm alheado das teorias da conspiração basilares, tipo jogo de sombras, teatro de sombras chinesas e mesmo de ensombros com origem nos depósitos pós-diluvianos do ouro negro. Alguém preferiu ler nos acontecimentos a infalibilidade do avanço do ecumenismo, para mais tarde dar o dito pelo não dito, argumentando que aquela era mais uma manifestação que o fim do mundo chegará mesmo em 2012. Foi o bom e o bonito…



publicado por oitentaeoitosim às 22:19
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