Terça-feira, 20 de Novembro de 2018

Traduzido por miúdos, os espetáculos tauromáquicos incluem as corridas de touros, as corridas mistas, as novilhadas, as novilhadas populares, as variedades taurinas, os festivais tauromáquicos e as corridas de toiros. Os espetáculos tauromáquicos, sobretudo as touradas, são protagonizadas por artistas (sic) cujas lides envolvem o recurso a garraios, bezerros, cavalos, potros, novilhos, vacas, mas sobretudo touros que se veem na necessidade de ir à luta, mesmo que para tanto se vejam compelidos a fazer figuras de urso, para gáudio de plateias embevecidas que esperam sempre o melhor desempenho possível dos intervenientes.

(Há bichos vocacionados para bestas de tiro, outros para bestas de roda, sendo que, quase todos acabam no prato dos humanos, pelo que muita gente os toma por bestas quadradas.)

Não vem com muito que os humanos foram alertados a manter os seres vivos irracionais nos ambientes em que melhor se sintam. Assim, e em desfavor de circos, aquários, jardins zoológicos e quejandos, têm vindo a ser criado(a)s áreas protegidas - parques nacionais, parques naturais paisagens, protegidas e monumentos naturais - ,sobretudo em países e recantos mais civilizados do globo terráqueo, assim ao estilo das velhas reservas.

(Proteger vale mais saúde e mais pilim.)

Na sequência, uma certa consciência social vem subindo de tom, sobretudo em países e recantos mais civilizados, a reclamar mudanças nos comportamentos e atitudes dos seres racionais, perante os animais irracionais, como o testemunham o surgimento de organismos, instituições, observatórios, fundações, movimentos e plataformas a pugnar pelos direitos dos animais, nomeadamente o pelo fim de comportamentos humanos torturantes.

(Quem dera a muitos que a carne animal estivesse a perder adeptos.)

De forma que, por aqui há, por exemplo, cada vez mais as vozes a erguer-se contra o sofrimento e o estresse cominados a bichos, nomeadamente os que são infligidos de livre alvedrio nos espetáculos tauromáquicos, sobretudo nas toiradas, que resistem à introdução de alterações paradigmáticas.

De facto, os espetáculos tauromáquicos, sobretudo as toiradas, estão a perder algum fôlego, pois já estão proibidos em algumas localidades, há arenas desativadas e as transmissões de tevê estão mais escassas, neste país civilizado. Contraditoriamente, em tempos recentes, tem aumentado a clientela atraída seja pela intrepidez dos artistas, seja pela garridice dos paramentos que são exibidos os artistas, seja pelos cerimoniais envolvidos, ou pelo sangue redentor de medos e fantasmas que rola na arena, ou ainda pelo patuá da malta do milieu, assim a modos dum direitês, de requinte e distinção.

(Sabendo da sua atração pelo esotérico, desconfia-se que, neste pormenor, os turistas deem força a estes números.)

Segundo versão mais recente, posta a circular pela nata da consciência social, os espetáculos tauromáquicos, sobretudo as touradas, investem contra a civilização (ocidental), hipótese essa ainda não comprovada e imediatamente contraditada, em alta grita, pelos aficionados, com argumentos culturais: a tourada faz parte dos usos e costumes cá da malta, desde tempos imemoriais e sempre resistiu a qualquer tentativa ao seu banimento, mesmo que provenientes da clerezia, ora vai-te lá curar!

(Em que pé está a propositura da elevação da tourada a património da humanidade?).

Recentemente foi tida por peregrina proposta de aplicar taxa máxima de IVA aos bilhetes de acesso a touradas, ao-fim-e-ao-cabo uma espécie de pilhéria: segundo entendidos na matéria, muitos dos bilhetes de acesso aos espetáculos tauromáquicos, sobretudo às touradas, são tradicionalmente distribuídos, a fundo perdido, pelas entidades oficiais supervisoras e não estão previstas alterações a este processamento, no curto, médio, ou longo prazos.

Não se afigura ser esta a altura azada para mudanças no nível e na qualidade de vida de artistas, apoderados e donos de curros, ganadarias e latifúndios; descansem os corações mais apaixonados pelas faenas e correlativos que ainda não é desta que a tauromaquia cederá o passo, apesar da contestação da nata da consciência social. Queriam a tauromaquia a gerir negócios de animaizinhos de estimação (por acaso um ramo em franca expansão em recantos e países tidos por mais civilizados), queriam? Nunca se sabe as voltas que o mundo dá, embora convenha lembrar que maldades aplicadas a canitos e bichanos estejam a ser punidas com severidade, pela Justiça.

Portanto, aos espetáculos tauromáquicos, sobretudo as touradas, para já, está garantido que não vão parar, em breve, aos museus, estâncias que estarão disponibilizadas a albergar a pobreza, nas palavras do pai do microcrédito, o que implicará a alterações na estrutura e na conjuntura do mesmo, restando, assim, pouca disponibilidade para outras operações de cosmética, no imediato.

(A propósito, para quando a contestação à música pimba, aos programas pimbas de tevê, ao folclorismo, etc...)

Um cavalheiro empertigado dizia, há dias, sobre uma oclusão dos espetáculos tauromáquicos, sobretudo as toiradas: «Mais depressa acaba a fome no mundo»! Tal inferência traz preocupada a nata da consciência social, muito interessada em manter/melhorar a posição destacada deste recanto no ranking dos países civilizados, bem poderia incentivar a denúncia do encaminhamento, par o sector, de lautas maquias, sob forma de subsídios (o período das exibições só ocupa metade do ano, será por isso?).

Por certo estarão programadas novas confrontações verbais entre opositores (em tom delicodoce e voz contida) e aficionados (em tom enxofrado e voz poderosa) dos espetáculos tauromáquicos, sobretudo das touradas. Até lá, que haja paz – o mundo civilizado convive bem com a guerra - e acabe mesmo a fome no mundo!

(Os contrincantes, na questão se um país pequeno e com garantias de civilização dadas, deve ter exploração de petróleo perto das suas praias, puseram-se de acordo, em menos de um fósforo.).

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Mãe, puseram-me numa arena circular e está para ali um fulano a mostrar-me um pano vermelho. Que faço?

 

 



publicado por Jorge às 11:42

Diletantismo quatro

 

A luz ténue do dia, há pouco surgido, permite-lhe descobrir, em cima da sua secretária, uma mensagem em papel fino e perfumado, contendo este decálogo (terá ali havido mão divinal?):

1 - Só é bom lutador quem sabe lutar consigo próprio.

2 - Saber baixar a bolinha, ou fazer um compasso de espera, na altura certa, é uma virtude.

3 – A amizade fecha os olhos, amor é cego.

4 - A vaidade é o alimento dos tolos.

5 – A competição pode ser estímulo; como pretexto para aniquilar a concorrência é contributo para a barbárie.

6 - Pior que ser agarrado ao pó é ser agarrado ao poder.

7 - Nas refregas, convém saber escolher os aliados, eles podem ficar-se a rir, por fim.

8 - Não batas nos teus, que, um dia, deles necessitarás.

9 – Sabes o que aconteceu a um jogador a quem o presidente do clube apelidou de «menino mimado»? Rescindiu e nunca foi inculpado.

10 - Não te esqueças nunca de aviar a medicação prolongada.

Empalideceu primeiro, arrepelou-se depois e mais tarde rasgou as vestes, numa palavra, o senhor passou-se. Gritou às 4 paredes que nada, nem ninguém o faria descer do pedestal, cambada de ingratos, foram 5 anos de sucessos, sim o clube sou eu e o seu inverso também, só os biltres se recusam a reclinar-se perante os meus conseguimentos, acima de mim ninguém (o Criador, ao ouvir tal, terá ficado sem pinga de sangue)!

Como teria alguém conseguido ali entrar?

O senhor permaneceu no gabinete, ensimesmado e em prolongado blackout; entretanto, pôs-se a alinhavar um plano de ação/retaliação que haveria de passar ao papel para recolher assinaturas dos colegas de administração da entidade patronal. Eles vão ver como elas lhes mordem!

Depois, ainda naqueles preparos, o senhor desarvorou rua abaixo, em busca dum escritório onde encomendou a ereção dum bunker pré-fabricado. Dava tanto jeito ao senhor que não demorasse a fundação...

 

PS1 – Uma produtora de telenovelas, solidamente estabelecida no mercado audiovisual, terá endereçado um convite ao senhor, no sentido de conseguir a sua colaboração como guionista. Para já levou tampa, a seguir se verá!

PS2 - Não se confirma que o senhor tenha recebido um convite, por parte de uma novel formação populista, para ser cabeça de cartaz.

(A quem possa interessar, consta que Nero terá mandado incendiar Roma, para gáudio pessoal...)

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publicado por Jorge às 11:16
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018

A golpes implacáveis de machado facilmente cedem sobreiros e carvalhos robles.

Rosalia de Castro

 

     O senhor decidiu dar a cara e intervir na política oficializada, de Portugal, ligando-se a um partido situado na extrema-esquerda do espetro político democrático.

    Pelos cânones, dado que aos militantes da organização estão acometidas ações de defesa dos cidadãos mais desfavorecidos, só um émulo do banqueiro anarquista do Sr. Fernando Pessoa se lembraria de imiscuir-se em manobras empresariais, sem se dar conta da (latente) incongruência.

     Pelos cânones, os empresários ger(a)m a iniciativa privada, sacam bons prémios e vivem na maior, quando os mercados os favorecem; a maioria dos cidadãos dignifica-se a trabalhar por conta dum salário curto; de permeio, o Estado zela pelos direitos e pela qualidade de vida de todos os cidadãos e dá-se por satisfeito, quando não há conflitos (os cidadãos não são todos iguais, como fazia questão de lembrar recentemente uma raríssima e contumaz senhora).

     Pelos cânones, comprar prédios e ceder à especulação, assenta bem a quem defende e pratica a iniciativa privada, prática essa que assentaria mal aquele senhor, apostado que estava na luta contra a exploração dos trabalhadores.

     Pelos cânones, assenta mal aos bons samaritanos, aos escuteiros sociais, aos apiedados da pobreza exibirem-se como o tio Patinhas, fadado apenas para olhar para o seu umbigo; agir como o pato Donald (grande pachola!), altruísta como poucos da sua espécie, é o que se lhes pede, sem ceder à usura, ou, pelo menos, sem a mostrar na praça pública...

    Ora, o senhor apostou (de parceria com uma familiar, a qual não deveria estar para cantigas da carochinha) comprou um prédio e preparava-se para arrecadar dividendos pingues, com a cedência do imóvel para negócios de arrendamento local.

    Ora, o senhor tinha sempre exorcizado, na praça pública, a especulação imobiliária, a tal que atualmente engendra lucros capitosos no alojamento local (até ver) e bem dispensa a procura do arrendamento de casas para habitação prolongada.

    Ora, desse jeito, o senhor esborratou a pintura toda, antes tivesse pregado aos peixinhos - como o fazia tão ardilosamente o Sr. S. António de Lisboa, no seu tempo, para desopilar -, sobre os malefícios sociais das práticas capitalistas, por exemplo, ou sobre os malefícios da (recém-descoberta) gentrificação, ou ainda sobre a obtenção de mais-valias pela porta do cavalo.

    Ora, o partido a que o senhor estava vinculado só tomou conhecimento do negócio montado por aquele seu militante, ilustre vereador na edilidade da capital do reino, já a procissão ia no adro, quando alguém soprou a novidade ao ouvido dum jornalista; aí os responsáveis fizeram saber que tinham comido, mas não tinham gostado.

     Foi quando adversários políticos, sobretudo à direita do espetro político, lembraram ao senhor que a superioridade moral é como as vitórias morais, não interessam nem ao menino Jesus.

     Foi quando um perito de Economia lembrou que o respeitinho pelas convenções sociais é muito bonito e aconselhou a que o senhor crescesse e depois aparecesse a investir declaradamente, sem falsosprurido.

     Foi quando um perito de Finanças lembrou que mais depressa rebenta a bolha especulativa do que muda o apego às sacrossantas e democráticas leis dos mercados e outras convenções que fazem funcionar as democracias que estão em vias de expansão, a par da globalização.

     Foi quando um popular lembrou que quem não quer ser tomado por lobo não lhe vista a pele e que andava cansado de ver sempre a mesma fita, repetida pelos mais ou menos prendados políticos profissionais da praça.

     Foi quando o partido, numa tentativa da preservação dos seus princípios e valores, o mandou dar uma volta ao Bilhar Grande e ele foi!...

 

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Quando você diz que eu tenho dificuldade em comunicar com os meus colaboradores, o que quer dizer exatamente com isso?

 

    



publicado por Jorge às 18:52
Domingo, 22 de Julho de 2018

Onde mais fundo vai o rio, aí menos ruído faz.

Adágio

 

    Não anda com muito tempo, por acaso dei atenção a certa reportagem incluída num serviço informativo das 13 horas a que dou atenção em diferido, à uma porque fujo a notícias desinteressantes, em segundo lugar porque detesto o conúbio entre notícias e publicidade.

    Não se pode despachar os anúncios todos no fim dos telejornais? Assemelha-se contraproducente e rebarbativa a mistura entre passível factualidade e a factual boçalidade. Estão a ver o género, depois de uma notícia de um acidente fatal numa estrada, entram anúncios (quase sempre do estilo lingueirão, acéfalos, portanto), tendo à cabeça semblantes voluptuosos de quem curte estar ao volante dum popó altamente, mas ao preço da chuva?!

    A peça em questão dava conta de uma iniciativa de um grupo de cidadãos portugueses – militantes duma associação benemérita -, que se manifestavam, na capital, a favor dos direitos dos animais que são exportados vivos, em barcos, mas em condições tidas por degradantes, às 3 pancadas, para certas partes do mundo.

    Manifestamente há aqui desvios às normas instituídas, quando:

    - Os animais são embarcados pela porta do cavalo, para que não sejam visíveis as tropelias cometidas já no acesso a bordo.  

    - Muitos dos animai exportados vivos morrem, ao embarcarem, durante a estadia (más condições de peação), ou no desembarque.

   - Os animais, uma vez embarcados, não dispõem de condições de assistência a bordo, são postados a trouxe-mouxe no espaço a que ficam confinados, comem os que podem, não conseguem descansar em condições.   

    - Como se não bastasse tais condições degradantes, as fezes acumulam-se, sem que haja um esforço mínimo de higiene, inclusive os animais podem ser vítimas de sevícias, durante a viagem, ou mais tarde nos matadouros, antes de lhes desfecharem o golpe de misericórdia.

    Antes a morte que tal sorte! Já vai sendo tempo de serem implementadas a sério as disposições internacionais que regulamentam estas trocas comerciais. Melhor fora a proibição cabal das trocas de rezes vivas, sejam elas destinadas ao consumo de pessoas que, antes do abate, as querem ver vivas e sujeitas a normas teologais estritas, seja por razões reprodutivas.

    Foi então que me dei conta da presença do Sr. Geraldo, um meu conhecido de fresca data, no meio dos manifestantes, naquela manife comemorativa do Dia Contra o Transporte de Animais Vivos.

 

    Conheci o Sr. Geraldo, no fim duma caminhada - prevista para todos os dias, mas nem sempre cumprida, para mal dos meus pecados e problemas de saúde –, a qual se prolongara por largos 30 minutos.  

    Na oportunidade, surpreendi-me ao ver um senhor, debruçado sobre o seu cão - devidamente atrelado e aparentando estar bem registado - e que limpava um presente que o bicho depositara no passeio público. Pareceu-me, que trazia igualmente uma garrafa com água de litro de água, decerto para acorrer à limpeza assim que o bichano vertesse águas.

    Aproximei-me do senhor que não conhecia de parte alguma:

    - O senhor merecia um prémio!

    - Desculpe, se não o acompanho! – replicou o Sr. Geraldo.

    Dei-lhe os parabéns pela correção da sua atitude, pois tenho visto poucos amigos de cães dispostos a cumprir com recomendações e normativos. O espaço público é fruído ao sabor da real gana de cada um, sem incómodos por-aí-além, a não ser que surja um reparo mais vivaz de um outro circunstante, logo devolvido à procedência (se todos os amigos de cães dispusessem de mais espaço habitável, outro galo cantaria!).

    - Aqui onde me vê, acho que se deve cuidar bem dos bichos, sem multiplicar incómodos para a vizinhança!

 

    Desde então, tenho trocado amiudadas opiniões e tido frequentes tocas de cumprimentos com o Sr. Geraldo. Mais, já está apalavrado que, num destes dias, vamos trocar mais ideias, num restaurante, o que pode ser o início de uma boa amizade.

    Por conta dessa proposta, ando preocupado: não me conto no número crescente de apreciadores de animais de companhia (escusada); não sou muito de touradas, mas aceito plenamente exibições de bichos nos circos, em zoológicos, oceanários, aquários e correlativos; mais, resigno-me perante o quadro de muares e equídeos a alombar com carregos; não recrimino as caçadas e sou apreciador de um bom naco de carne de animais criados em cativeiro (que, por acaso, na hora do derrube, passam suplícios tantálicos).

    Por gentileza, terei de omitir estes meus pecadilhos ao Sr. Geraldo?

    Temas para conversa não faltarão: à cabeça, como não podia deixar de ser, as condições indescritíveis que presidem ao transporte de animais exportados vivos para abate ou para reprodução; naturalmente que o desrespeito pelas disposições legítimas ao lidar com bichos de estimação; eventualmente, para não fugir muito ao tema, os métodos dilacerantes usados no abate de bovinos, porcinos, patos e frangos, etc. são um bom tema para mais 2 dedos de conversa, não esquecendo; os direitos dos animais (entre os quais o acesso ao seu ambiente e/ou reserva natural).

    Não seja por isso, assunto para conversa à mesa não faltará!

    Mas, outra coisa me traz preocupado: será o Sr. Geraldo vegan ou vegan? É provável, não tem ar de quem frequente casas de pasto banais (antes freegan!)...

    É que quem opta por sistema de alimentação alternativo raramente abdica uma só vez dos seus princípios. Por uma vez sem exemplo, eu não me importarei de abdicar de uma comidinha enfarta-brutos. Mas, há por aí boas alternativas, como sejam as especialidades provindas da Tailândia, da China, do Japão e até da Índia e do Nepal, para variar, não fica mal...

    Afinal, sabe bem viver econviver em países em que os bichinhos de estimação já ocupam uma boa talhada das conversas (moles) da malta...



publicado por Jorge às 09:35
Segunda-feira, 09 de Julho de 2018

Chora por mim ó minha infanta
Escorre sangue o céu e a terra
Ah pois por mais que seja santa
A guerra è a guerra

Fausto B. Dias

 

    Não anda com muito tempo, por acaso, dei atenção a certa notícia incluída no serviço informativo das 13 horas que vejo e ouço sistematicamente em diferido, à uma porque fujo às notícias desinteressantes, em segundo lugar, fujo à publicidade - quase sempre rasca -,porque detesto o conúbio entre notícias pungentemente patéticas com anúncios formalmente patetas.

   A voz da locutora, límpida e clara – por aí campeiam comunicadores que não investem muito numa dicção precisa – dá conta de mais uma impiedosa ação de guerra, no Iémen: junto a uma cidade portuária, 250 000 pessoas estariam cercadas por tropas da aliança saudita, um dos dois contendores da guerra dita civil que incendeia aquele país (conta com a colaboração insidiosa de potências estrangeiras e aliados extremistas).

   Mesmo em guerra,infelizmente,o Iémen recebe migrantes em trânsito, provindos doutras latitudes com conflitos; agora há mais iemenitas a juntar-se aqueles no trajeto seguinte.

   A voz da locutora, límpida e cristalina continua a debitar esclarecimentos: dum lado estão lutadores sunitas da coligação saudita, do outro, combatentes xiitas, gente temente ao mesmo deus, cada um à sua maneira.

  (Os conflitos bélicos eclodem após decisões de altas esferas, mas não tão altas que cheguem ao Céu...).

   Está dito, redito e comprovado que as proclamações de guerra se fazem por amor ao vil metal, logo, por mor da propriedade da liderança (quantas vezes os nacionalismos são malsãmente chamados à pedra!).

   A voz límpida e cristalina continua a dar conta de pormenores: a arremetida militar poderia estar a pôr em questão a assistência humanitária não apenas a 250 000 iemenitas civis, mas a um total de 8 milhões diretamente dependentes dos bens aportados  aquela cidade, ora sitiada.

 

   As guerras hodiernas têm uma componente bélica propriamente dita e outra humanitária; esta última cinge-se a rígidos códigos de conduta. A Cruz Vermelha, o Crescente Vermelho e outras organizações que ostentem um cristal vermelho oferecem os seus préstimos, de forma a minorar a crueldade

  (Do mesmo modo, organizações sociais, em tempos de paz, são apontadas à assistência aos derrotados da vida que bem existem, para contrastar com os heróis.)

    A guerra do Iémen, iniciada em 2015, segue de perto os regulamentos das convenções e protocolos de genebra, daí que, por um dos lados no mínimo, esteja submetida a avaliação, monitorização e até prestação de contas, sobre atropelos e sevícias infligidas.

   (A guerra, justa ou injusta, é uma púrpura debaixo da qual se ocultam homicídios.)

   A Organização das Nações Unidas – um arremedo de governo mundial - faz o que pode e pode pouco; sempre que se proporciona a ocasião, apresenta uma moção de censura do conflito,na sua sede,mas há sempre um vencedor da 2ª GM disposto a vetar o texto, porque lhe serve o contexto.

    Na disputa iemenita, a ONU tem no terreno uma Missão de Observação - é o melhor que se pode arranjar - que dá conta dos desatinos cometidos, das epidemias em desenvolvimento, das falhas de socorro, sempre na esperança que o conflito se extinga amanhã. 

   A ONU também não se importa de gerir zonas neutras, potenciais ou efetivas. Mas, às vezes também se oferece para gerir as chamadas zonas neutras. A soberania dos países exige respeito e contenção nas palavras, atos e obras.

   (Quem tudo abarca, pouco ata.)

    Conflito terminado, será tempo de discursos em Nova Iorque e noutras capitais do mundo, por parte do vencedor, se a democracia intramuros seja instaurada, bem entendido...

   Por aí se diz que quem compra terras, compra guerras.

 

   Eu vi-te, Alzira, naquela reportagem, enquanto a voz, límpida, cristalina continua a denunciar, galhardamente. Ao colo de tua mãe, decidida a pôr-se dali-para-fora, tu choravas copiosamente,angustiada talvez porque pressentisses que te aguardava o desconhecido, a contragosto. Lia-se no semblante da tua procriadora determinação em dar o fora, duma vez por todas, mesmo que isso implicasse deixar para trás entes queridos, objetos estimados e uma terra prezada. A tua mãe,face ao alvoroço,estendia-te um manto protetor.

   (Dói muito, mas o que tem de ser tem muita força!).

   Só consigo imaginar a aflição superveniente à fuga empreendida, para fora do alcance de tiros, de bombas e do barulho ensurdecedor dos carros de combate e aviões - provavelmente apenas com a roupinha sobre o corpo -, rumo a desejado porto seguro, onde seja possível acreditar que amanhã terá de ser outro dia. A esperança, sempre a esperança que a sobrevivência se faça com dignidade. Por aqui se dizia muito que ninguém foge ao seu destino, mas isso era a canção do velho bandido...

    (As guerras modernas são sempre comandadas à distância, onde corre o leite e o mel; é sempre a arraia-miúda que vai mais para o maneta e para pouco conta no momento de afirmar heroísmos.)

    De pouco vale dizer-te que lamento a tua sorte, mas digo-o e quando o digo fico tomado de impotência. Esta sensação que a maioria nasce para ser joguete nas mãos de poucos não me larga!

    Em nome das vítimas efetivas (tão pouco se lhes dá importância, a não ser às grandes patentes!) e colaterais, maldirei sempre, a plenos pulmões, a guerra, quem a faz e apoia, seja ela civil, aberta, fria, intestina ou santa, de pouco me importam!  

    (A medicina ensina a curar os doentes, a arte da guerra a matar os sãos.)

    Oxalá encontres arrimo e coragem suficientes, até ao dia em que te possas valer a ti própria. E não me saiu mais nada, lamento!

 

    Calada a voz clara e nítida, cai um anúncio não-institucional na pantalha, enquanto ainda matutava na tua desventura, miúda. Estive vai-não-vai para atirar ao plasma o livro volumoso que estava ao alcance da minha mão, mas recuei o braço a tempo, que os afetos não se exibem, sentem-se.

    (O Sr. Júlio Dinis escreveu que há aparências de dureza que ocultam tesouros de sensibilidade e afeto,mas também há afetos que se prestam a subjugar.)

    Sabes, Alzira, que, viver num país livre de operações militares geoestratégicas, económica e financeiramente desenrascado e avonde de boas consciências, facilita a sobrevivência... Desculpa lá qualquer coisinha!

 

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publicado por Jorge às 19:23
Domingo, 01 de Julho de 2018

 

Debaixo de belas palavras, pode estar o engano.

Adágio (adaptação)

 

    Para o Sr. Miguel Sousa Tavares (MST, doravante) há uma paixão assolapada pela educação que carateriza os sucessivos governos da nação, os alunos, os pais dos alunos e até os contribuintes, como ele, e que é tratada com desdém pelos profes (leia-se professores do ensino básico e secundário, oficial entenda-se).

    Assim argumenta o Sr. MST, no «Expresso», do dia 22/6/2018:

   . Os profes andam constantemente em lutas, em protestos, em manifestações, em greves.

   . Assim, os profes protestam por conta dos horários de trabalho, das aulas de substituição, da avaliação do desempenho, da contagem do tempo de serviço, das promoções automáticas, da integração nos quadros em concurso, das salas de aula onde fazia frio, da abertura do ano letivo sem que milhares de escolas estivessem prontas e por-aí-fora.

    . Os sucessivos governos têm cedido aos profes, senão vejamos:

    1 - Horários – No horário obrigatório estão incluídas horas de trabalho caseiro, até perfazer as 35 (tempos houve em que o horário das docentes e dos docentes se limitava às horas de aulas efetivas, vejam só o desplante!); foram criados inclusive «horários zero», em benefício de profes atingidos pelo «cansaço» e «desmotivação (?); estarão para avançar as reformas antecipadas (bonificadas?).

     2 - Salas de aulas em que fazia frio - Elas acabaram, em todas as escolas; mais, além do aquecimento e do ar condicionado, todas elas dispõem de relvados sintéticos e mais uma série de mordomias dignas de países do primeiro mundo.

     3 - Avaliação do desempenho - Deu lugar a uma autoavaliação de anedota.

     4 - Integração nos quadros do MEC - É feita sem concurso, conta apenas a antiguidade.

     5 – Escolaridade obrigatória e nº de alunos por turma - Para encaixar todos os profes nas escolas oficiais, alargou-se a escolaridade obrigatória (!) e diminui-se o nº de alunos por turma (?), façanhas só atingidas por países do primeiro mundo; assim se compreende que, em anos letivos anteriores em que se verificou a diminuição de entradas na faculdade, o nº de profes tenha aumentado (isso também tem a ver com o absentismo progressivo da malta docente).

     6 – Programas e manuais escolares – São linearmente delineados por profes que chegam ao ponto de impor os conteúdos dos exames que são feitos - pela amostra deste ano -, com ou sem notas finais publicadas previamente.

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     Depois de tanta cedência, de tantas benesses, concedidas, depois de tanta massa empatada, o ensino dos profes tem melhorado? A crer no crescimento da procura de explicações, é caso para duvidar... Mais, metade das criancinhas de 11 e 12 anos não sabe apontar Portugal no mapa o seu país e quanto à história das Descobertas estamos conversados...

    Daí que, para que os profes não possam mais fugir à paixão pelo ensino, o Sr. MST reivindique que os sindicatos (um monte deles!) antes se atrevam a avançar com sugestões para melhorias do ensino dos programas, do acompanhamento dos alunos e se deixem apenas de lérias e da acumulação de lordismos.

  (Pobrezinhos, mas honrados! Já não lhes basta saber que colhem o respeito da maioria das comunidades escolares?)

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     Em abono da verdade, reconheço que o Sr. MST poderia ter carregado mais nas tintas, caso estivesse ao corrente destas seguinte 3 indicadores: a) - que os estudantes portugueses têm uma carga horária bem pesada, comparativamente à maioria dos países europeus e de um ou outro da Ásia, segundo um estudo revelado em 2017; b) - em Portugal há um profe a tempo inteiro para cerca de 10 alunos, um indicador mais baixo que a média dos países da OCDE, em 2014; c) - Portugal é um dos países da Europa em que mais se chumba, até ao 6º ano (2016). Escaparam de boa, os profes!

    Outrossim, as estatísticas mostram isto: no período 2005-15, os alunos portugueses de 15 anos que fizeram o exame PISA colheram dos melhores resultados dos discentes da UE; em Portugal, os alunos imigrantes obtêm resultados satisfatórios, contrariando o sucedido na generalidade dos países de chegada; os profes portugueses, no período 2005-15, contaram-se entre os docentes da OCDE que registaram maiores perdas nos seus salários.

    Digo eu que a solução final do Sr. MST (deixem-se de andar sempre com lamúrias e  pedinchas, a gente fala depois de) rescende a bafio e traveste-se de descaro, tal a pretensão de ensinar o padre-nosso ao senhor vigário.

    (É de palmatória, não é?)

    Aliás, o Sr. MST junta-se, voluntariamente, como de outras vezes, ao coro de mandantes da governação que não vão na conversa dos profes. No protesto mais recente dos profes (não mesmo vontade de os provocar?), os decisores políticos dizem que não há guito para repor a contagem do tempo e o bago perdido, durante quase 10 anos, durante os quais os profes marcaram passo. Para todos eles,  «não há nada para ninguém», assim se verga a frivolidade de desapaixonados.

    (Achei castiça a tirada do senhor ministro da tutela, segundo a qual o tango deve ser bailado a 2, apaixonados naturalmente, ele que tem todo o ar de pezudo!).

    Daí que, ou muito me engano, no caso vertente, vão ver Braga por um canudo. A bancocracia instilada já não cede a pretensas vagas de fundo de meritocracia social.

    (Essa de fazer greve e pouco largar para o patrão é de mestre, ó profes!).

    Com as férias à porta, a vontade reivindicativa dos profes pode esmorecer. Parece garantido que já se aposta nisso, o lazer bem dispensa chatices...

   A propósito, nunca ouviram dizer que a paixão nada remedeia, ou soluciona?!...

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PS – Continua a fazer sentido, numa sociedade representativa, a imposição legal da comparência de todos os intervenientes no processo do ensino/aprendizagem dos alunos, no momento da avaliação final, no fim do 3º período escolar? Um sorteio de avaliadores que perfaçam a maioria simples até acrescenta alguma emoção à cena...

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«Inocente? Você quer ensinar-me o meu ofício?»



publicado por Jorge às 20:04
Terça-feira, 12 de Junho de 2018

Como culpar o vento pela desordem deixada, se fui eu que deixei a janela aberta?

Autor desconhecido

 

 

O senhor está, desde há 5 anos, na presidência dum clube (e da respetiva SAD) que integra o tridente dominador do futebol cá do burgo.

Nesse espaço de tempo, adregou muitas taças em competições de n modalidades, outrora tidas por amadoras, cá dentro e lá fora. Mas, para mal de seus pecados, apenas juntou no museu da agremiação 3 títulos secundárias na modalidade-rainha, o futebol (bola), pelo que a seca de glória continuou, quando ele fizera questão de proclamar o fim das vacas magras.

Assim sendo, e para mal dos pecados do promitente senhor, começaram consócios, adeptos e simpatizantes insatisfeitos a apontar dedos acusatórios na sua direção, outros a querer fazer-lhe a ficha (afinal, quem se lembrou dele para ocupar o cargo?). Aí o senhor deu início a um complicado período de transferência de culpas para atletas, para staff técnico, para antagonistas, para dirigentes da bola (verdade seja dita, sempre se mantiveram impávidos e serenos!), para órgãos do Estado, para desconhecidos, para entidades sobrenaturais possivelmente malévolas e para o diabo a 4.

O senhor é comummente tido por habilidoso estratega em delinear cruzadas desportivas virtuosas (ele está sempre do lado do bem), em conseguir boas contratações de atletas para a miríade de modalidades suas, em fechar operações financeiras favoráveis à coletividade, ou por aí. Por isso, muitos sócios, adeptos e simpatizantes da coletividade o têm na conta de salvador da pátria.

Para mágoa do senhor, opositores há que apontam aos altos salários, bem como a outros valiosos emolumentos e a outras mordomias disfrutados pelo senhor, para tão fraca obra. Mas, sem provas objetivas, a maioria silenciosa (e não só) vai ficando do seu lado e tanto lhe basta!

O senhor é bem-parecido (tem confiado a definição de um perfil sedutor a quem percebe do assunto), a que junta uma voz cava, bem treinada e que lhe vai a matar com o jeito mordaz de enfrentar os importunos e conquistar prosélitos para a sua causa.

Opositores bem podem alcunhá-lo de mauricinho, de casquilho, ou mesmo de canastrão, é para o lado que dorme melhor, tem a maioria silenciosa (e não só) do seu lado e tanto lhe basta!

O senhor safa-se muito bem em debates na língua de Shakespeare (coisa rara entre os seus pares), para além de dominar a preceito o dialeto mátrio e pátrio, verdade seja dita que costuma impressionar, quando participa em simpósios, em conferências, debates, sessões de esclarecimento realizados à porta de casa, ou mesmo na AR (os seus congéneres têm mais pilim que paleio).

No entanto, opositores há que do senhor o que Mafoma não se atreveu a dizer do toucinho, outros consideram-no um narcisista primário, enquanto outros os batizam de mitómano chapado. E ele, nas tintas, desde que a maioria silenciosa (e não só) esteja do lado dele, tanto lhe basta!

O senhor será o detentor do recorde individual (nacional, pelo menos) do tempo e espaço atribuído nas tevês a convidados estranhos à política profissional e ao mundo das artes e das letras (numa das suas melhores atuações, debitou palavradura, por mais de 2 horas, sem parar). De resto, qualquer suspiro do senhor sujeita-se a ser dado em direto, ou em diferido (as redes sociais também o cumulam de atenções).

Os opositores não estão com meias medidas: ele é dono dum ego maior que o país, duma cupidez maior que o continente e duma lata maior que o mundo. E ele não lhes liga meia, a maioria silenciosa (e não só) não o dispensa e tanto lhe basta!

O senhor diz que ama o seu clube, até ao delíquio – como se fora sua família, vê-se pela cara! - e, a quem não lhe dá crédito, trata abaixo de cão, clama pelos seus nomes na praça pública, enquanto os recobre de opróbrio, chegando ao ponto de pedir aos circunstantes que o agarrem, ou vai aos fagotes dos pretensiosos contestantes.

Por conta disso, opositores há que o apelidam de abominável homem das neves, de monstro de Loch Ness e de homem do saco, entre outros (não cabem aqui os epítetos e palavrões soltados na Net). Ora, passem bem, a maioria silenciosa (e não só) está com ele, tanto lhe basta!

Mais, o senhor confessa trabalhar 24 sobre 24 horas, para o sucesso da agremiação que chefia e que quer continuar a liderar, dê por onde der («daqui não saio, daqui ninguém me tira»!), que a consagração está aí à mão de semear (para grande cortação dos detratores)!

Opositores estão noutra: ele deixou empresas em escombros, postou muita literatura daninha para os interesses do clube e não se cansa de fazer o mal e a caramunha, em desfavor do clube. Que vão bugiar, a maioria silenciosa (e não só) está com ele e chega!

De momento, a presidência do senhor estará por um fio, mas ele vai-se aguentado ao mastro, a desejar que os maus ventos (também os semeou) não tragam piratas a bordo, ou golfinhos esfomeados!

É que vinha mesmo a jeito um título supremo, na bola; agora só para o ano...

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Sempre que eu saio vencedora duma discussão, ele organiza uma cruzada para desopilar.

 

 

 

 



publicado por Jorge às 18:45
Terça-feira, 05 de Junho de 2018

«Vive como se fosses uma alface do Lidl» - assim, sem tirar, nem pôr.

O alvitre votivo está assente num folheto aparentemente anódino - dos muitos que caem, todos os dias, em todas as caixas de correio deste país -, a marcar o arranque de mais uma campanha de descontos.

(A poupança no papel ainda não incomoda grandemente as grandes redes de distribuição alimentar do país. Parte de mim acha bem, que a distribuição de tanta papelagem garante a ganha-pão a alguns respeitáveis cidadãos.)

Nas tevês generalistas (sempre predispostas a cavalgar a onda) também passa publicidade afim. Mas, para mim, propaganda só no papel...

À primeira achei que o pregão não tinha ponta por onde se pegasse e não liguei meia.

Mais, até fiquei de pé atrás: querem lá ver que houve engano na mensagem, uma publicidade capaz não se atreveria a fazer votos de vida curta!

(Decididamente não me pareceu uma ideia forte, daquelas que muita gente adota, estilo «tou xim, é para mim!»).

Pus nariz de palmo e meio, eu que me tenho na conta de cliente fiel da sobredita rede que, dispôs, a 2 passos de casa, uma loja catita (não tenho popó às ordens, pelo que tenho de alombar com os sacos de compras).

Pensei de mim para mim: aqui há gralha, ou então o autor da gracinha estaria descompensado, grosso, ou pirado, quando a pariu... Também há a hipótese remota de se ter deixado tentar por outras alfaces, as do dianho, por exemplo!

(Um senhor famoso, Henry Ford de sua graça, terá dito isto: «Sei que metade da publicidade que faço é inútil, mas desconheço qual seja a metade inútil». Ou seja, às vezes, ideias peregrinas funcionam, certo?)

Só um pouco mais tarde, achei alguma piada ao dichote, havia ali um misto de nonsense e de mensagem subliminar capciosa...

(Atração fatal?)

Faço questão de proclamar que me incluo no número de pessoas que acham que um crescimento humano sustentado passa pelo consumo de alfaces, verduras e hortaliças, em geral.

Faço questão de deixar claro que me incluo no número de indivíduos que sabem ser a alface fonte de vitamina C e outros microminerais, que ajuda a prevenir cancro de pulmão e da boca, que retarda a queda de cabelo, que uma infusão de alface ajuda a dormir melhor e por-aí-fora. Há muito que uso e abuso da hortaliça verde em apreço.

Mas, também me incluo nas pessoas que sabem que uma alface é criada, na varanda, em hortas, ou em estufas e que ele se faz num abrir e fechar de olhos; que será comercializada rapidamente, depois de colhida, numa frutaria, num lugar, numa barraca, num super, ou num híper próximo; que aí fica submetida às apreciações dos curiosos, um dos quais acabará por lhe lançar a mão e por ela pagar por ela modesta franquia; que, já em casa do novo legítimo proprietário, na devida altura, será lavada e deglutida, em 2 tempos, desaparecendo do mapa, em 2 compassos.

Curiosamente, até à data, nunca experimentara alfaces do Lidl. Verduras e frutas só as compro nos mercados, mas, por que não experimentar?

 

Assesto os óculos do perto no papelucho e continuo a ler: «Para elas (sim, no plural) não há amanhã».

Aqui chegado, ainda permaneço de pé atrás: uma alface dura pouco e quanto a viver intensamente, estamos conversados, está para ali posta em sossego, com o pé de molho, sossegadinha da Silva...

Mas, a música já é outra, já se fala no plural, em alfaces, quanto mais comer, mais fortunas acumularei, certo?

Pelo-sim-pelo-não, no dia seguinte dirijo os meus passos à loja do costume e, num impulso, encho 2 sacos com alfaces, junto quantidade à qualidade, vamos lá tirar a coisa a limpo!

Em casa, cumulo as alfaces de todas as atenções, depois debulho 2-3 delas, acrescento-lhe tomate, pepino e pimento verde e aí está uma ótima salada, a acompanhar o bife da casa, ao almoço e um picadinho à janta.

À hora da sesta, dou-me a escutar uma voz interior que me desafia a ir surfar as ondas gigantescas de Peniche. Olha lá, nunca, até agora, uma voz interior foi capaz de me desafiar assim, a deixar o meu círculo de conforto e viver uma experiência louca, isto promete!

Na madrugada seguinte, acordo cheio de pica e ponho-me a escutar a mesma voz interior que me desafia, desta feita, a integrar-me no próximo Nepal Trekking que se realiza ali para as bandas de Katmandu.

Nessa manhã, volto às compras e de lá saio com mais 4 sacos de alfaces, não vão elas esgotar-se. Preparo nova saldada, mais substancial, desta feita, a acompanhar umas favas com entrecosto, ao almoço e um peixe feito na chapa, ao jantar.

À sesta e durante o sono noturno habitual, a vozinha impõe-se, com novas sugestões

Nos dias seguintes, atirei-me a um fartote de terrines, tortas, focaccias, pestos, galettes e muffins de alface, do Lidl, naturalmente!

E aquela voz a desafiar-me para novas aventuras e eu a sugerir-lhe que aguentasse os cavalos.

(De momento, todas as minhas refeições incluem daquelas alfaces da marca e seus derivados. Estou na esteira de uma vida emérita, longa e esfusiante, quase não tenho dúvidas...).

 

Dou uma última espreitadela ao citado panfleto, com os óculos do perto: «Os nossos frescos são repostos todos os dias».

Antes assim, a malta apreciadora de alfaces proactivas agradece (dando de barato que alguns frescos sejam renitentes e gostem de se exibir mais que os outros, uma exceção a uma regra bonita)!

Já agora, para que conste, decidi abandonar o regime omnívoro, a comida de plástico (ao regime gourmet nunca me habilitei). Tenho agora para mim que o regime ovo-lacto (mas sobretudo) vegetariano é o melhor para mim e que seria bom para todos os cidadãos do mundo interessados em paz e amor.

Conselhos de amigo são aviso do Céu...

(Entretanto, tenciono buscar panaceia para esta soltura travessa que me acometeu e que faz questão de fazer-se notar, mesmo em horas desencontradas. Como se percebe, só depois de restabelecido, estarei habilitado a seguir à risca as instruções da tal vozinha. Estas alfaces têm, de facto, um potencial diabólico!).

 

 

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- Tens um pedacinho de alface metido nos dentes.

                                                                               - Obrigado!

 



publicado por Jorge às 19:02
Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

Vai por aí uma polémica sobre a proposta de ereção dum museu das descobertas, na capital do país. Há quem opine pelo sim, outros pelo não a tal empreendimento: para os primeiros ele seria uma homenagem à coragem dos nautas afoitos que desafiaram mares desconhecidos, com o credo na boca; para os outros, a proposta valeria como uma consagração das safadezas cometidas por quem se apoderou de bens e pessoas, durante a expansão além-mar.

A questão mergulha efetivamente em ambas as vertentes. De facto, os marinheiros de antanho, a bem ou a mal, conseguiram demandar lugares desconhecidos dos europeus (que já lá estavam, há muito, diga-se de passagem, rezando a todos os santinhos que não houvesse monstros ali ao dobrar da esquina.

Foram os beneficiários políticos da Expansão além-mar – ou Descobertas, ou coisa no género – que se serviram dos achados para realizar milhões, com a traficância execrável de pessoas e também de bens. A defenestração de comunidades, imposta pelos poderosos do Retângulo e do continente europeu, em terras distantes, vista à distância e à luz dos direitos humanos do presente, é revoltante e é chaga que ainda não está sarada para quem teve ascendentes do «lado de lá».

(À época, seria provavelmente questão de fé a existência de etnias ditas inferiores, menos queridas das deidades, a par de etnias ditas superiores, mais estimadas por entidades superiores, que estariam votadas a fazer gato-sapato das segundas, o que se lamenta.)

Para bem da humanidade, há bastantes décadas, que se passou a fazer o elogio da diversidade cultural, da diferença.

(Atualmente o governo de pessoas e bens dispensa a escravização – Portugal foi das primeiras nações a libertar-se -, até porque são mais funcionais à submissão aos interesses económicos dominantes certas derivações dos códigos da ética e da moral.)

Muita da História hodierna – pelo menos a que se faz lá por fora - dá ligeira ênfase ao pioneirismo técnico lusitano, na expansão além-mar, mas não perdoa as trafulhices e pulhices consumadas por avoengos cá da terra.

(Continuasse Portugal nos lugares cimeiros da trama comercial internacional e já teria expiado os seus pecados.)

Já estive em contacto, noutras latitudes e noutras longitudes, com estrangeiros que se apresentaram, com orgulho, como sendo descendentes de portugueses de antanho, viajados até aos orientes. Longe dos olhos longe do coração, a autoafirmação pode trazer no bojo alguma mistificação da realidade...

(Quando se permite que o vento sopre sempre da mesma direção, a árvore crescerá inclinada.)

Por enraizada displicência, ou por má consciência, até hoje Portugal não dispõe de um espaço que vinque os méritos técnicos e (porque não?) os deméritos políticos dos Achamentos.

A existir, e desde que não se esforce por mostrar apenas o «lado bom», reputa-se de meritório.

O espaço museológico pensado até poderia levar o nome de Sagres, onde se apuraram, por exemplo, as caravelas - essa estrela das Navegações - que zarparam mar fora, beneficiando de conhecimentos bebidos de diferentes culturas.

(Museu do Mar Salgado, também não ficaria mal.)

Mas, num tempo em que elementos fundamentais do património material levam nome de viventes que acumularam fortunas ou fama, ou as 2 coisas, até que assentava bem  um museu Infante D. Henrique).

Para os que não querem, há muito, valha-nos Camões (estará ele chateado com a questiúncula da ereção dum museu comemorativo da expansão além-mar?)

PS1 – Há muitos anos, um chefe tribal, de um país do Terceiro Mundo, foi convidado oficialmente para um evento, num país da Europa. Mal pôs pé em terra firme, gritou, alto e bom som: «Descobri a Europa!». A verdade, nua e crua, dispensa enfeites!...

PS2 – O Sr. Eduardo Lourenço afirmou, num destes dias: «"Não sei por que é que neste momento parece haver uma necessidade de crucificar este velho país em função de uma intenção louvável, mas que ainda não redime aqueles que querem realmente a redenção, aqueles que foram objeto de uma pressão forte como o do nosso domínio enquanto colonizadores, de uma certa época".

PS 3 – O criador do «microcrédito». M. Yunus, escreveu, há uns tempos: «O único lugar onde a pobreza deve existir é em museus». Todos os tipos de pobreza, acrescente-se...

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publicado por Jorge às 17:28
Terça-feira, 08 de Maio de 2018

A Justiça branda faz um povo rebelde.

 

     A Comissão Europeia para a Eficácia da Justiça, há muito que acha que Portugal é dos piores países a fechar casos pendentes nos tribunais.

    A Pordata, em meados do ano passado, avançou que, por cada 100 casos resolvidos em tribunais cá da terra 172 ficam pendentes.

    A justiça por estas brandas bandas costuma ser estilo tartaruga, ou estilo caracol: lenta às vezes e muito lenta quase sempre.

    Estão em trâmites da Justiça, há muito, processos que envolvem altas personagens, a que a comunicação social sobretudo interna já dedicou e continuará a dar muita atenção, assim apareçam novidades (a lista não é exaustiva):

. BES/GES;

. BPN;

. Banif;

. Vistos Gold;

. Operação Marquês;

. Operação Monte Branco;

. Operação Rota do Atlântico;

. Operação Fizz;

. Morte de 2 Comandos;

. Desvio de armas em Tancos;

. Investigação a Álvaro Sobrinho;

. Investigações a políticos (Marco António Costa, Luís Filipe Menezes, v.g.);

    Estarão também em tramitação nas instituições da Justiça caseira outros casos que envolvem gente que torna os casos ilustres, como estes:

. Incêndios do Verão de 2017;

. O caso da Raríssimas;

. O caso da Fundação «O Século»;

- Benfica (processo emeiles, vouchers e resultados de jogos, combinados ou não);

. Operação Lex;

. Caso na Universidade Fernando Pessoa;

. Desvios de cheques da Segurança Social;

. Desvios de crianças adotadas.

    A comunicação social - justiça seja feita – dedica também largas franjas dos seus serviços noticiosos a casos de violência doméstica, roubos e homicídios, por exemplo, que envolvem a arraia mais miúda. Não dão tanto brado e têm pavio curto (raramente há massa para recursos). Como diz o outro, da Justiça o pobre melhor conhece os castigos.

    (Tempos houve em que pouco se recorria a tribunais. O meu pai - que deus tenha! -, por exemplo, desfazia-se em suores frios só de imaginar que seria submetido a juízo.)

    A Justiça, liberta e liberal, passa presentemente por muitos trâmites. Desconfio que, por via disso - não por estarmos num país de brandos costumes - ela precisa de mais gente a servi-la.

PS1 – A lentidão na Justiça está para ficar; por exemplo, constou que as decisões dum juiz (acusado de corrupção no caso Lex), irão ser revistas a pente fino.

PS2 – A exceção à regra: A Justiça morosa espreguiçou-se e deu um safanão: em 6 dias ficou arrumada, uma investigação ao ministro presidente do Eurogrupo, por causa duns bilhetes para jogos de bola, pedidos à revelia de códigos valentes e imortais. O caso ameaçava prolongar-se no tempo e no espaço...

 

Zelos XIV.jpg

                              Peixinho - Não há Justiça no mundo.

                              Peixe médio - Há alguma Justiça no mundo.

                              Peixão - O mundo é justo.

 



publicado por Jorge às 12:23
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