Quinta-feira, 19 de Março de 2020

A liberdade é defendida com discursos e atacada com metralhadoras.

Carlos Drummond de Andrade

 

Do Serafim, toda a gente dizia ser bom homem.

Do Serafim toda a gente dizia ser bom cidadão.

Do Serafim toda a gente dizia ser bom profissional.

Como médico, era muito amistoso, no relacionamento pessoal.

Como médico, era muito contido nas análises e exames que mandava fazer.

Como médico, era muito competente, nos diagnósticos e operações que recomendava.

Um dia, Serafim aparece nas primeiras páginas dos jornais.

Um dia, Serafim aparece logo a abrir os noticiários das tevês.

Um dia, Serafim aparece referenciado, em muitas redes sociais.

De véspera, tinham morrido 2 pessoas, num feroz acidente rodoviário.

De véspera, tinham morrido 2 pessoas, num feroz acidente rodoviário; ambas tinham sido levadas ao hospital mais próximo.

De véspera, tinham morrido 2 pessoas, num feroz acidente rodoviário; ambas tinham sido levadas ao hospital mais próximo, onde trabalhava Serafim.

Meio mundo asseverava que Serafim estava de escala às urgências.

Meio mundo asseverava que ele, Serafim, estando de serviço às urgências, fora incumbido de assistir aos 2 sinistrados.

Meio mundo asseverava que ele, Serafim não se apressara a dar assistência aos sinistrados, que estava ferrado no sono, após muitas horas de laboração e que não o conseguiram arrancar à soneca, naquela situação de emergência.

Mais tarde, Serafim, abalado, disse de sua justiça e nega a insídia.

Mais tarde, Serafim, abalado, depois de negar a perfídia, apresenta as condolências aos familiares dos sinistrados.

Mais tarde, Serafim, abalado e uma vez apresentadas as condolências à família dos mortos e denegada a velhacada e retira-se para parte incerta.

Só então, aquele comandante de bombeiros surge a testemunhar que os sinistrados, uma senhora e uma filha adolescente, haviam encontrado morte imediata, numa curva fatídica duma estrada, há muito referenciada.

Passadas muitas luas, ainda abalado, Serafim está de regresso, que há muitas vidas por que lutar.



publicado por Jorge às 11:11
Terça-feira, 10 de Março de 2020

No chão estava um saco de plástico sujo.

Pareceu-me que ali jazia, há muito, por indiferença.

Apanhei-o e dirigi-me ao contentor mais próximo.

Estou na iminência de introduzir a coisa no dito cujo.

Nisto, alguém, em alta grita, atira uma série de impropérios.

Cabrão, estúpido imprestável, analfabruto de merda!

Viro-me na direção da voz alterada

E logo fico a saber que os Insultos a mim se destinavam.

Alguém, que acabara de se plantar à minha frente,

Gesticulava com cenho reprovador.

Aí fez-se luz no meu espírito, eureka!

Não é que me preparava para introduzir a peça,

No contentor azul, dos papéis, que distração!

Onde se metera o meu sentido cívico, caramba?!

Mas, ferido meu brio, não me fiquei:

Mandei a gentil senhora aquela parte, assunto arrumado



publicado por Jorge às 20:22
Domingo, 01 de Março de 2020

   Não anda com muito tempo, a constatação que Portugal é o país que menos cumpre as recomendações do Conselho da Europa contra a corrupção: relatório fidedigno garante que, no final de 2018, não estavam cumpridas 73% das recomendações daí emanadas. Logo, Portugal fica mal na fotografia, posicionando-se inclusive atrás da Turquia (70%), Sérvia (59%), Roménia (44%), Bélgica (42%) e Croácia (39%).

(A enunciativa faz ainda questão de "lamentar" que Portugal - à semelhança de outros 13 países - ainda não tenha ratificado a Convenção sobre Corrupção e Lei Criminal).

(Ser detentor da patente dos «brandos costumes» tem muito que se lhe diga…).

 

   Diz-se à boca pequena que, em Portugal, há muito disto: falta de controlo sobre as usuais derrapagens dos custos de obras públicas e do seu caráter; falta de controlo sobre o desperdício o destino dado a subsídios e financiamentos comunitários e nacionais; evasão fiscal à fartazana; a persistente sangria das empresas públicas, através de toda a sorte de atos de nepotismo e compadrio e por aí fora.

E não é por falta de disposições legislativas sancionatórias que são mais que muitas.

(A quem e como atuar é que traz muita gente e muitos agentes confundidos, ao que parece…).

 

   Em busca de propostas de combate a tal lástima social, reúno aqui - e com sua licença! – algumas, da autoria do magistrado Euclides Dâmaso Simões, um cidadão apostado no rigor das leis e nas boas práticas sociais que não se coadunam com o «deixa passar esta linda brincadeira». Sugere(que):

       . A criação de um programa coerente de prevenção, adaptado à realidade nacional, sobretudo com recurso a campanhas de sensibilização dos cidadãos que seriam alertados para os males da corrupção e promoção dos valores da “transparência” e da “probidade”.

       . Ao Conselho de Prevenção da Corrupção seria atribuído papel mais determinante, quer dinamizando essas campanhas, quer apresentando ao poder legislativo propostas de códigos de conduta no exercício ético de funções, por parte de funcionários públicos em geral e de titulares de cargos políticos e/ou públicos.

        . O reforço da capacidade de prospeção e da fiabilidade das instâncias de fiscalização administrativa, vulgo “inspeções”, encarregadas de comunicar às instâncias formais de controlo (polícia e MP) os atos de corrupção de que tomem conhecimento no exercício das suas funções.

       . A criação de um regime adequado de recolha de queixas dos cidadãos, que não exclua as feitas sob anonimato.

      . A promoção e proteção da liberdade de se procurar, receber, publicar e difundir informação sobre a corrupção(...), sem fazer perigar o sigilo das investigações e a reputação dos visados.

       . No campo da “prevenção dirigida”, se impõe o robustecimento da vigilância, por parte do Conselho de Prevenção da Corrupção sobre alguns dos setores mais sensíveis: as parcerias público-privadas, as privatizações, a aquisição de bens e serviços de grande vulto e a adjudicação de obras de maior significado económico. 

       . A afetação da Polícia Judiciária à investigação da corrupção e da criminalidade similar investigadores e peritos em número adequado e especialmente vocacionados e motivados para uma atitude proativa.

      . A concentração no Ministério Público de tais investigações, em Departamentos que recorram a magistrados e oficiais de justiça com vocação, formação especializada, experiência e adequado enquadramento hierárquico (DIAP sobretudo).

(E fazer votos que, nas instâncias propostas, não se instale o ovo da víbora…).

 

   Por mim, não doam as mãos a quem se dispõe a cercear a propagação de corruptelas, embora seja voz corrente que só com recurso a cunhas e padrinhos - tidos em alta consideração, olaré! - o sistema funciona à maneira…

   (Importante será não ser apanhado(a) com as calças na mão, que o perdão espreita para todos).

   Será inglório o esforço dos incorruptíveis?

 

PS1 - Já agora, ficava bem às autoridades do país verterem para a legislação doméstica convenções internacionais tidas por indispensáveis na propagação da corrupção junto das massas!

PS2 – Nem por acaso, há poucos dias soube-se que Portugal recuou dois pontos no Índice de Perceção da Corrupção (62, em 2019, contra 64, em 2018), segundo a organização Transparência e Integridade, associação cívica de utilidade pública, independente e sem fins lucrativos. O «score» luso fica abaixo da média da União Europeia (64) e a par do Qatar, Barbados e da Espanha (está em recuperação).

911770b8b7ee7e58db324de0e7e0f6b0.jpg«Sejamos sérios, estamos a falar de ética empresarial, não da ética (pd).»



publicado por Jorge às 12:03
Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2020

a - “Enquanto que mais de metade dos adultos do mundo tem uma riqueza inferior a 10.000 dólares, cerca de 1% dos milionários detêm 44% da riqueza mundial”, consta em alguns relatórios de entendidos da coisa.

E a tendência parece ser, segundo muitos peritos (de mercados e correlativos), o reforço da parte do bolo que compete aos milionários.

(Previsão baseada em estratégias atualmente em vigor.)

Previsão ousada, não acha?

 

b – Que os climas andam incertos, parece indesmentível. Há quem jure e trejure que a principal causa do inequívoco aumento da temperatura média do ar da atmosfera da Terra, é uma consequência inevitável do desatino das atividades do Homem - sempre em busca de mais e melhor -, as quais tirocinam o ambiente, muito por conta do CO2.

Outros juram e trejuram que estamos a entrar em novo episódio de aquecimento global normal na história do planeta (alternam com períodos de arrefecimento) e que costumam durar pra burro! Não anda com muitos milhares de anos que a Terra aqueceu à brava, pela última vez, e, para tal, não concorreu de modo algum uma produção extremada de CO2 coisa nenhuma!...

Em qualquer dos casos, estamos feitos ao bife!

Venha o dianho que ouse na escolha!...

 

c – A senhora é indiana e trabalha todos os dias até às tantas, a troco de cinco reis de mel coado.

A senhora vive, num habitáculo, junto à usina, para que não falte à chamada, sempre que seja convocada para tarefas rotineiras de ocasião.

Uma vez sem exemplo, a senhora pede uma licença que lhe é concedida a título excecional.

A senhora encaminha, sem delongas, os seus passos para uma clínica, sita nos fundilhos de tortuosa travessa, perto do local trabalho, onde se submete a uma histerectomia (ablação do útero).

Estava assim garantido que a maternidade não a arredaria do ganha-pão…

Muito ousa quando se luta pela sobrevivência imediata!...

 

d – Uma atleta portuguesa participa duma final duma prova de um campeonato europeu, disputado, há pouco, em país distante: entre 8 concorrentes, fez o oitavo lugar.

Logo ali alguém a convence ser merecedora do apreço do país e - quem sabe! – até de uma comenda, entregue em mão pelo PR.

Porra, nenhum dos colegas seus chegou a uma final, foi ou não um grande feito da sua parte?! Em tempos recentes, presentearam-se comendas por méritos menos expressivos que o seu!...

De regresso, descobre que o seu resultado tinha apenas sido mencionado, de raspão, num programa de uma rádio nacional, em hora de seca noticiosa!...

Isto não fica assim! – fica assim prometida a vingança, na próxima oportunidade.

Ousar vencer!



publicado por Jorge às 21:16

1 – O CELE (Comércio Europeu de Licenças de Emissão) foi criado à sombra do famoso protocolo de Quioto - entrado em vigor em 2005 - e que propugna pela redução de gases com efeito de estufa para a atmosfera.

O CELE – imagino - é assim a modos duma bolsa de valores: não se transaciona ações e outros títulos, mas sim licenças para emissão de CO2.

(Se a minha cimenteira não pode poluir mais, compro umas licenças a quem as tem, em casa, ou na estranja, a troco d’algum, naturalmente).

Com tais movimentações bolsistas, há empresas, sobretudo da Alemanha, que conseguem faturar milhões, garantidamente.

Onde não há negócio, não há virtude garantida!...

Há pouco tempo, um ambientalista nativo lamentava-se em público que o CELE “tem sido, infelizmente, um instrumento controverso” no combate ao aquecimento global e às alterações climáticas.

A tanto não me atreveria eu!...

 

2 – Uns quantos bilionários (detentores de biliões de dólares) estado-unidenses, há uns meses atrás, manifestaram a sua determinação em pagar mais impostos. “A América (leia-se EUA) tem a responsabilidade moral, ética e económica para taxar mais a nossa riqueza». Eles acham que um novo imposto sobre as suas fecundas fortunas constitui uma medida justa, patriótica e fortalecedora da liberdade, da democracia e da riqueza do país, para além de ajudar a enfrentar a crise climática da Terra (presume-se).

Consciência pesada?

(Bill Gates também está na onda).

A tanto não me atreveria eu!...

 

3 – Há alguns meses atrás, uma governante portuguesa, do alto da sua cátedra, decretou que os atrasos no atendimento dos Serviços (de Registo) que tratam do cartão de cidadão, por exemplo, se devia ao facto de os utentes das Lojas do Cidadão persistirem «sistematicamente» em formar densas filas à porta», muito “antes da abertura do atendimento ao público”.

Ignoro se o cenário junto de tais repartições públicas - montado por quem não tem acesso direto aos gabinetes do mando -, ainda persiste, posto que a comunicação social nunca mais se fez eco de tais irregularidades.

Mas, consta que contratação de mais funcionários solucionaria a questão.

Tanto não me atreveria eu propor!...

 

4 - Um investigador (português, por acaso) é taxativo: "Não há fundamentos biológicos para a monogamia". Que na Natureza nenhuma espécie é monogâmica. Que não há uma única espécie animal em que 8% a 10% dos indivíduos não sejam homossexuais (numa certa espécie de morcegos chega a 35%), a mesma percentagem que se admite para o ser humano, e que tal acontece naturalmente, em todas as espécies.

"O sexo é natural, mas o género é construído", rematou.

Só quem sabe, se atreve a tanto…



publicado por Jorge às 21:01
Terça-feira, 17 de Setembro de 2019

Aos 11 anos, fora vítima de assédio sexual.

Aos 14 anos, fora vítima de estupro.

Aos 17 anos, é uma jovem atormentada, perseguida por fantasmas: todos os dias perpassavam pela sua mente cenas horripilantes daquelas intromissões violentas do seu corpo e da impotência para escorraçar os agressores.

O pânico instalara-se na sua vida: fosse dia, noite, tarde ou manhã, estivesse a dormir, ou acordada, em casa ou fora dela, o medo acompanhava-a, fosse para onde fosse.

Sobreviera ao pânico apatia, indecisão falta de motivação, insegurança, sensação de vazio, irritabilidade e perda de apetite.

Radica-se nela a convicção que está a mais nesta Terra, considera-se assim a modos de um peso morto para quem lhe quere e continua a fazer bem.

Aos poucos, na sua mente aloja-se, insidiosa, a perspetiva que nunca mais escaparia às malhas que o pânico engendra, até à hora da sua morte.

Decide que escapar à Vida é a decisão certa!

Evita alimentar-se; todavia, não lhe consente tal (des)propósito os mais chegados.

Tenta (outras) formas de suicídio, diversas vezes, mas sem sucesso, graças à intervenção rápida de quem ousava atentar nos seus passos...

«Ó moça, põe isto nessa cabecinha: és tão nova, podes recuperar, há tratamento para os teus problemas, há que fazer fé em soluções mais fiáveis, de futuro, tens a vida toda por diante!»  

Ela, a contragosto, toma pastilhas, mas não se rende do seu propósito.

(Há remédios que não curam os males das almas sensiveis.)

Tenta a eutanásia que está posta em letra de Lei do seu país.

Que não, está fora de questão, derivado à sua idade tenra.

Os dias sucedem-se em sofrimentos, para ambos os lados.

Até que os pais se rendem e consentem que não se alimente nunca mais.

Ficam a seu lado, até ao momento em que ela parte, céu fora!

Antes, deixa escrito:

«Depois de anos de dificuldades e luta, acabou. Depois de muitas conversas e avaliações, foi decidido que serei libertada, pois o meu sofrimento é insuportável. Acabou. Na verdade, há muito que não estou viva, sobrevivo, mas não é real. Respiro, mas já não vivo».

Onde pairas, esgotou-se a dor, Noa?



publicado por Jorge às 13:44

Tenha-se em conta que:

.A intervenção nos ecossistemas naturais da Terra não conhece travão, sendo que as espécies de seres vivos irracionais, importantes para a gestão dos mesmos, continuam a diminuir a olhos vistos.

. A Amazónia, um dos pulmões restantes da Terra (outros houve que foram destruídos à conta da exploração sistemática, noutras eras), está cada vez a ser mais defenestrada, à custa da agricultura comercial e da exploração mineira.

. A poluição da água e do ar da Terra, resultante sobretudo do consumo de combustíveis fósseis em automóveis, aviões e atividades fabris, não cede.

. As alterações climáticas na Terra, derivadas do aquecimento global, ampliam-se, afetam muitas regiões e assustam cada vez mais a população (há quem defenda a tese que o planeta já passou por outras fases de aquecimento e esta é tão só mais uma, oxalá!).

. Catástrofes naturais e outras com a assinatura humana na Terra sucedem-se a um ritmo inusitado e matam cada vez mais (à semelhança dos acidentes de automóveis e aviões).

. Há muitos países que não conhecem ainda farta expansão económica, pelo que é de esperar que as agruras ambientais do planeta se agravem, de futuro (os negócios não param).

Será, também, por conta disto que:

. Se expandiu, nos países economicamente mais ativos, um movimento de protesto, liderado, de momento, por jovens, (dantes o alerta chegara sobretudo de personalidades da Ciência), contra alterações climáticas, uma deriva do aquecimento global.

. Um pouco por todo o lado, há gente cada mais gente dedicada à Ciência a ominar que a humanidade se aguentará bem nas suas coordenadas, apenas por mais 3 a 5 dezenas de anos, mais coisa-menos coisa?

. Está a dar os primeiros passos um movimento que propõe a extinção humana voluntária (para escândalo de todas as boas almas defensoras do sistema imposto pela racional espécie humana ao planeta Terra)?

(A branda ONU atira também a sua acha para a fogueira, há «apartheid climático»: as consequências do aquecimento global recaem mais sobre pobres e remediados da Terra, que os ricos defendem-se melhor. E apresenta provas factuais como esta: em 2012, aquando da passagem do furacão Sandy, alagamentos e cortes de energia atingiram indelevelmente 650.000 pessoas de N. Iorque, mas a sede da Goldman Sachs foi poupada, por estar protegida por dezenas de milhares de sacos de areia e graças e graças a ser detentora de geradores próprios; mais, bombeiros privados foram disponibilizados para proteção de mansões. Não há direito!)

Querem lá ver que há muita gente cansada de girar n(est)a Terra!



publicado por Jorge às 13:24
Terça-feira, 20 de Novembro de 2018

Traduzido por miúdos, os espetáculos tauromáquicos incluem as corridas de touros, as corridas mistas, as novilhadas, as novilhadas populares, as variedades taurinas, os festivais tauromáquicos e as corridas de toiros. Os espetáculos tauromáquicos, sobretudo as touradas, são protagonizadas por artistas (sic) cujas lides envolvem o recurso a garraios, bezerros, cavalos, potros, novilhos, vacas, mas sobretudo touros que se veem na necessidade de ir à luta, mesmo que para tanto se vejam compelidos a fazer figuras de urso, para gáudio de plateias embevecidas que esperam sempre o melhor desempenho possível dos intervenientes.

(Há bichos vocacionados para bestas de tiro, outros para bestas de roda, sendo que, quase todos acabam no prato dos humanos, pelo que muita gente os toma por bestas quadradas.)

Não vem com muito que os humanos foram alertados a manter os seres vivos irracionais nos ambientes em que melhor se sintam. Assim, e em desfavor de circos, aquários, jardins zoológicos e quejandos, têm vindo a ser criado(a)s áreas protegidas - parques nacionais, parques naturais paisagens, protegidas e monumentos naturais - ,sobretudo em países e recantos mais civilizados do globo terráqueo, assim ao estilo das velhas reservas.

(Proteger vale mais saúde e mais pilim.)

Na sequência, uma certa consciência social vem subindo de tom, sobretudo em países e recantos mais civilizados, a reclamar mudanças nos comportamentos e atitudes dos seres racionais, perante os animais irracionais, como o testemunham o surgimento de organismos, instituições, observatórios, fundações, movimentos e plataformas a pugnar pelos direitos dos animais, nomeadamente o pelo fim de comportamentos humanos torturantes.

(Quem dera a muitos que a carne animal estivesse a perder adeptos.)

De forma que, por aqui há, por exemplo, cada vez mais as vozes a erguer-se contra o sofrimento e o estresse cominados a bichos, nomeadamente os que são infligidos de livre alvedrio nos espetáculos tauromáquicos, sobretudo nas toiradas, que resistem à introdução de alterações paradigmáticas.

De facto, os espetáculos tauromáquicos, sobretudo as toiradas, estão a perder algum fôlego, pois já estão proibidos em algumas localidades, há arenas desativadas e as transmissões de tevê estão mais escassas, neste país civilizado. Contraditoriamente, em tempos recentes, tem aumentado a clientela atraída seja pela intrepidez dos artistas, seja pela garridice dos paramentos que são exibidos os artistas, seja pelos cerimoniais envolvidos, ou pelo sangue redentor de medos e fantasmas que rola na arena, ou ainda pelo patuá da malta do milieu, assim a modos dum direitês, de requinte e distinção.

(Sabendo da sua atração pelo esotérico, desconfia-se que, neste pormenor, os turistas deem força a estes números.)

Segundo versão mais recente, posta a circular pela nata da consciência social, os espetáculos tauromáquicos, sobretudo as touradas, investem contra a civilização (ocidental), hipótese essa ainda não comprovada e imediatamente contraditada, em alta grita, pelos aficionados, com argumentos culturais: a tourada faz parte dos usos e costumes cá da malta, desde tempos imemoriais e sempre resistiu a qualquer tentativa ao seu banimento, mesmo que provenientes da clerezia, ora vai-te lá curar!

(Em que pé está a propositura da elevação da tourada a património da humanidade?).

Recentemente foi tida por peregrina proposta de aplicar taxa máxima de IVA aos bilhetes de acesso a touradas, ao-fim-e-ao-cabo uma espécie de pilhéria: segundo entendidos na matéria, muitos dos bilhetes de acesso aos espetáculos tauromáquicos, sobretudo às touradas, são tradicionalmente distribuídos, a fundo perdido, pelas entidades oficiais supervisoras e não estão previstas alterações a este processamento, no curto, médio, ou longo prazos.

Não se afigura ser esta a altura azada para mudanças no nível e na qualidade de vida de artistas, apoderados e donos de curros, ganadarias e latifúndios; descansem os corações mais apaixonados pelas faenas e correlativos que ainda não é desta que a tauromaquia cederá o passo, apesar da contestação da nata da consciência social. Queriam a tauromaquia a gerir negócios de animaizinhos de estimação (por acaso um ramo em franca expansão em recantos e países tidos por mais civilizados), queriam? Nunca se sabe as voltas que o mundo dá, embora convenha lembrar que maldades aplicadas a canitos e bichanos estejam a ser punidas com severidade, pela Justiça.

Portanto, aos espetáculos tauromáquicos, sobretudo as touradas, para já, está garantido que não vão parar, em breve, aos museus, estâncias que estarão disponibilizadas a albergar a pobreza, nas palavras do pai do microcrédito, o que implicará a alterações na estrutura e na conjuntura do mesmo, restando, assim, pouca disponibilidade para outras operações de cosmética, no imediato.

(A propósito, para quando a contestação à música pimba, aos programas pimbas de tevê, ao folclorismo, etc...)

Um cavalheiro empertigado dizia, há dias, sobre uma oclusão dos espetáculos tauromáquicos, sobretudo as toiradas: «Mais depressa acaba a fome no mundo»! Tal inferência traz preocupada a nata da consciência social, muito interessada em manter/melhorar a posição destacada deste recanto no ranking dos países civilizados, bem poderia incentivar a denúncia do encaminhamento, par o sector, de lautas maquias, sob forma de subsídios (o período das exibições só ocupa metade do ano, será por isso?).

Por certo estarão programadas novas confrontações verbais entre opositores (em tom delicodoce e voz contida) e aficionados (em tom enxofrado e voz poderosa) dos espetáculos tauromáquicos, sobretudo das touradas. Até lá, que haja paz – o mundo civilizado convive bem com a guerra - e acabe mesmo a fome no mundo!

(Os contrincantes, na questão se um país pequeno e com garantias de civilização dadas, deve ter exploração de petróleo perto das suas praias, puseram-se de acordo, em menos de um fósforo.).

Touro.jpg

Mãe, puseram-me numa arena circular e está para ali um fulano a mostrar-me um pano vermelho. Que faço?

 

 



publicado por Jorge às 11:42

Diletantismo quatro

 

A luz ténue do dia, há pouco surgido, permite-lhe descobrir, em cima da sua secretária, uma mensagem em papel fino e perfumado, contendo este decálogo (terá ali havido mão divinal?):

1 - Só é bom lutador quem sabe lutar consigo próprio.

2 - Saber baixar a bolinha, ou fazer um compasso de espera, na altura certa, é uma virtude.

3 – A amizade fecha os olhos, amor é cego.

4 - A vaidade é o alimento dos tolos.

5 – A competição pode ser estímulo; como pretexto para aniquilar a concorrência é contributo para a barbárie.

6 - Pior que ser agarrado ao pó é ser agarrado ao poder.

7 - Nas refregas, convém saber escolher os aliados, eles podem ficar-se a rir, por fim.

8 - Não batas nos teus, que, um dia, deles necessitarás.

9 – Sabes o que aconteceu a um jogador a quem o presidente do clube apelidou de «menino mimado»? Rescindiu e nunca foi inculpado.

10 - Não te esqueças nunca de aviar a medicação prolongada.

Empalideceu primeiro, arrepelou-se depois e mais tarde rasgou as vestes, numa palavra, o senhor passou-se. Gritou às 4 paredes que nada, nem ninguém o faria descer do pedestal, cambada de ingratos, foram 5 anos de sucessos, sim o clube sou eu e o seu inverso também, só os biltres se recusam a reclinar-se perante os meus conseguimentos, acima de mim ninguém (o Criador, ao ouvir tal, terá ficado sem pinga de sangue)!

Como teria alguém conseguido ali entrar?

O senhor permaneceu no gabinete, ensimesmado e em prolongado blackout; entretanto, pôs-se a alinhavar um plano de ação/retaliação que haveria de passar ao papel para recolher assinaturas dos colegas de administração da entidade patronal. Eles vão ver como elas lhes mordem!

Depois, ainda naqueles preparos, o senhor desarvorou rua abaixo, em busca dum escritório onde encomendou a ereção dum bunker pré-fabricado. Dava tanto jeito ao senhor que não demorasse a fundação...

 

PS1 – Uma produtora de telenovelas, solidamente estabelecida no mercado audiovisual, terá endereçado um convite ao senhor, no sentido de conseguir a sua colaboração como guionista. Para já levou tampa, a seguir se verá!

PS2 - Não se confirma que o senhor tenha recebido um convite, por parte de uma novel formação populista, para ser cabeça de cartaz.

(A quem possa interessar, consta que Nero terá mandado incendiar Roma, para gáudio pessoal...)

nero.jpg

 



publicado por Jorge às 11:16
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018

A golpes implacáveis de machado facilmente cedem sobreiros e carvalhos robles.

Rosalia de Castro

 

     O senhor decidiu dar a cara e intervir na política oficializada, de Portugal, ligando-se a um partido situado na extrema-esquerda do espetro político democrático.

    Pelos cânones, dado que aos militantes da organização estão acometidas ações de defesa dos cidadãos mais desfavorecidos, só um émulo do banqueiro anarquista do Sr. Fernando Pessoa se lembraria de imiscuir-se em manobras empresariais, sem se dar conta da (latente) incongruência.

     Pelos cânones, os empresários ger(a)m a iniciativa privada, sacam bons prémios e vivem na maior, quando os mercados os favorecem; a maioria dos cidadãos dignifica-se a trabalhar por conta dum salário curto; de permeio, o Estado zela pelos direitos e pela qualidade de vida de todos os cidadãos e dá-se por satisfeito, quando não há conflitos (os cidadãos não são todos iguais, como fazia questão de lembrar recentemente uma raríssima e contumaz senhora).

     Pelos cânones, comprar prédios e ceder à especulação, assenta bem a quem defende e pratica a iniciativa privada, prática essa que assentaria mal aquele senhor, apostado que estava na luta contra a exploração dos trabalhadores.

     Pelos cânones, assenta mal aos bons samaritanos, aos escuteiros sociais, aos apiedados da pobreza exibirem-se como o tio Patinhas, fadado apenas para olhar para o seu umbigo; agir como o pato Donald (grande pachola!), altruísta como poucos da sua espécie, é o que se lhes pede, sem ceder à usura, ou, pelo menos, sem a mostrar na praça pública...

    Ora, o senhor apostou (de parceria com uma familiar, a qual não deveria estar para cantigas da carochinha) comprou um prédio e preparava-se para arrecadar dividendos pingues, com a cedência do imóvel para negócios de arrendamento local.

    Ora, o senhor tinha sempre exorcizado, na praça pública, a especulação imobiliária, a tal que atualmente engendra lucros capitosos no alojamento local (até ver) e bem dispensa a procura do arrendamento de casas para habitação prolongada.

    Ora, desse jeito, o senhor esborratou a pintura toda, antes tivesse pregado aos peixinhos - como o fazia tão ardilosamente o Sr. S. António de Lisboa, no seu tempo, para desopilar -, sobre os malefícios sociais das práticas capitalistas, por exemplo, ou sobre os malefícios da (recém-descoberta) gentrificação, ou ainda sobre a obtenção de mais-valias pela porta do cavalo.

    Ora, o partido a que o senhor estava vinculado só tomou conhecimento do negócio montado por aquele seu militante, ilustre vereador na edilidade da capital do reino, já a procissão ia no adro, quando alguém soprou a novidade ao ouvido dum jornalista; aí os responsáveis fizeram saber que tinham comido, mas não tinham gostado.

     Foi quando adversários políticos, sobretudo à direita do espetro político, lembraram ao senhor que a superioridade moral é como as vitórias morais, não interessam nem ao menino Jesus.

     Foi quando um perito de Economia lembrou que o respeitinho pelas convenções sociais é muito bonito e aconselhou a que o senhor crescesse e depois aparecesse a investir declaradamente, sem falsosprurido.

     Foi quando um perito de Finanças lembrou que mais depressa rebenta a bolha especulativa do que muda o apego às sacrossantas e democráticas leis dos mercados e outras convenções que fazem funcionar as democracias que estão em vias de expansão, a par da globalização.

     Foi quando um popular lembrou que quem não quer ser tomado por lobo não lhe vista a pele e que andava cansado de ver sempre a mesma fita, repetida pelos mais ou menos prendados políticos profissionais da praça.

     Foi quando o partido, numa tentativa da preservação dos seus princípios e valores, o mandou dar uma volta ao Bilhar Grande e ele foi!...

 

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Quando você diz que eu tenho dificuldade em comunicar com os meus colaboradores, o que quer dizer exatamente com isso?

 

    



publicado por Jorge às 18:52
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