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oitentaeoitosim

26
Jul09

Fabiano

Jorge

 

  Fabiano disse «aqui mando eu»! A exclamação foi acompanhada de um pontapé à campeão. Testemunhas oculares viram levitar o caixote do lixo, esse fiel depositário de papel bem timbrado, cedês último grito e quejandos que, pelas mais desvairadas razões, se tinham ali acumulado, em datas anteriores. Produtos classificados de tendenciosos ou verrinosos tinham sempre o mesmo destaque, caixote com eles! Foi o que aconteceu a um artiguelho, daquele rapazelho pretensioso, ali desembarcado há meia dúzia de dias. Foi parar ao galheiro do santo ofício. E de pouco lhe valeu a proximidade ao legítimo proprietário. Toda a gente já sabia que, enquanto ele ali durasse, a última palavra era sua, ditada pela independência dos cânones da profissão, embora, lá no fundo, até aceitasse que podia ser a penúltima ou a antepenúltima, em caso de força maior que era quase sempre.
 Fabiano disse «lá estarei»! À exclamação juntou um chorrilho de calão do mais castiço das peixeiradas, depois de desfeita a ligação da telefónica sem mãos que manteve com outro homónimo que lhe falava pouco ao coração. Não era muito dado a conciliábulos de conspiração social, mas aquele era um caso de força maior, de apostolado. A sua presença podia augurar-lhe voos mais altos. Mandar tinha sido o seu destino, bem atestado na análise ao ADN que fizera por suspeição de uma alma que pretensiosamente lhe queria impor um filho, após uma sessão fogosa de fellatio falacioso. Concordou com a confabulação aprazada para a hora da ceia, com reticências.
   Fabiano disse «assim seja»! Não respingou, não refilou, antes respirou a plenos pulmões, com a vibração sonora de quem regressa à tona, após 3 minutos sumerso na água de um delta poluído. No dia seguinte todos os médias haviam de ejacular a notícia que dava conta que o céu jamais haveria de cair sobre a cabeça de quem quer que fosse, palavra de rei. O céu, de facto, estava mais pesadão, quase irrespirável, até os abutres já se queixavam de falhas respiratórias. Mas, daí até cair ía uma grande passada. Foi essa a certeza que todos buscaram e acalentaram naquele concílio de mentores espirituais. De volta ao escritório, deitou mão ao caixote do lixo, sujou a mão em 2 bisgas, recuperou o artiguelho e fê-lo sair em todos os locais em que a empresa desfrutava.
   Fabiano não tugiu, nem mugiu, quando o dono lhe entrou de roldão porta dentro. Percebeu que o céu se vestiu de nuvens escuras como o breu. O proprietário vinha tresmalhado, acabado de perder uma fortuna danada na bolsa de CO2, apesar de uma boa dica de dentro. A malta do golfe ia pintar-lhe a manta, caso não fizesse sangue. Prometer o céu dá estatuto, mas fazer rolar cabeças dava mais.
   Cabisbaixo, Fabiano pôs uma mão à frente e outra atrás, bateu à porta do xerife, do sindicato, do desemprego, da segurança social, do avô, do banco alimentar e das misericórdias. Tanta tampa levou que se pôs quase cego, surdo e mudo. Testemunhas oculares dizem que o céu lhe caiu em cima, no exacto momento em que entrou no banco que faliu ali mesmo, naquele momento, a seus pés.
 

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