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oitentaeoitosim

21
Abr20

Antes fosse um mau sonho

Jorge

Apetece gritar, mas ninguém grita.

Apetece fugir, mas ninguém foge.

Um fantasma limita

Todo o futuro a este dia de hoje

Excerto do poema Dies Irae, de Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

Uma doença, Covid-19, está a deixar em casa a maioria dos habitantes da Terra (acontecimento singular!).

Uma doença que é entretecida pelo voraz SARS-CoV-2, (sigla do Inglês), o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2, que ninguém conhecia de parte alguma e que, pelos vistos, é mimético.  

(Sabe-se que o resfriado comum é provocado por um microrganismo, mais benigno, desta família).

Uma doença, inesperada, revertida em pandemia – que seja breve! -, está a pôr a maioria dos habitantes da Terra (o aumento não para, de há muito), não só de pés enfiados em tamancos, mas também lívido, de nervos à flor da pele e de credo na boca, neste período de clausura.

Uma doença quase ubíqua, entretecida, em pouco tempo, por um inimigo de muito reduzido porte, sagaz, de pé ligeiro, está a deixar muita gente órfã de familiares e de sentimentos.

(É estarrecedora a frivolidade oficial na declamação das estatísticas de vítimas).

Uma doença que só pode ainda ser combatida à espadeirada, quando o generalíssimo dela tem a seu dispor manchis topo de gama, dispostos a manter respeito em todas as frentes e campos de batalha.

 

Muitos crentes, com um encolher de ombros, veem nesta coita uma profetizada intervenção de divindades que, há muito, andam a torcer o nariz a muitos pecados levados a cabo por seres humanos, ao ponto de estar prestes a chegar-lhes a mostarda ao nariz e ir tudo a raso, chega de brincadeiras!

(Os entendidos que controlam o relógio do juízo final dizem que o futuro da Terra está por um fio, acaba de ficar a 100 segundos da meia-noite fatídica).

 

Outros, não-crentes, não vão por aí, preferem versões, mais comezinhas, como estas:

1 - A Covid-19 difunde-se, por más práticas, depois do microrganismo SARS-CoV-2 ter sido parido em laboratório - no âmbito da guerra bioquímica?- , na cidade da Wuhan, na China (país que pretende conquistar a liderança da economia e das finanças globais, ou não fosse ela o País do Meio da Terra e do Universo também).

2 – A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2, microrganismo transmitido aquando de repastos de animais exóticos - como o pangolim e a cobra que o terão ido buscar ao morcego – e que são tidos como boa pitança e/ou boa mezinha, pela maior população do mundo, a da China (país que estará empenhado em tomar o leme do mundo).

3 - A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2, microrganismo que dantes hospedava seres vivos irracionais, mas que, com o encurtamento dos ecossistemas passa a colonizar também os humanos ávidos de arrecadar mais fundos e que se chegam perto, sem muitas cautelas.

4 - A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2, microrganismo que se fortalece nos diferentes tipos de poluição, a qual já assumiu um caráter global e que tem vindo a ser vituperada por muita e boa gente, a viver principalmente em países de abundância material.

5 – A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2 - microrganismo cuja patente será detida por uma empresa dos EUA - que poderá ter sido espalhada aquando duma competição desportiva internacional de militares, realizada, em outubro passado, precisamente em Wuhan, na China (ação supostamente intentada para contrariar o expansionismo sínico?).

6 - A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2, microrganismo peçonhento e capaz de ser burilado por conta de radiações emitidas das antenas que alimentam as novas tecnologias de comunicação 5G; na China, a cidade de Wuhan é fiel depositária dalgumas.

7 – A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2 e é uma infestação extraterrestre, pois consta que terá mesmo caído um meteorito, em outubro, perto de Wuhan e dos seus resíduos se libertou o sobredito infestante.

 

A pandemia existe, sem que qualquer profeta da desgraça a entrevisse tão arrasadora.

A pandemia existe e tomou de surpresa o planeta, há poucos dias - que mais parecem anos - e terá vindo para ficar.

A pandemia existe e está sobretudo a ser combatida com ações profiláticas que têm exigido muito a profissionais ligados à Saúde, de colaboração com a clausura imposta à maioria dos cidadãos, por esse mundo fora (tão inimaginável quanto os preços do crude a preços negativos!).

A pandemia existe e não há ainda arma eficaz – apenas paliativos - que a desterre; seja em países de carestia, seja em países onde corre o leite e o mel, as vítimas contam-se por largos milhares.

A pandemia existe e muitos laboratórios esgotam-se ao pretenderem criar uma panaceia capaz de pôr a salvo a imensa mole humana que habita a Terra e que desespera pela sua aparição.

 

Aqui e agora, esperam-nos mais tempos difíceis, na expetativa que as medidas de controle e o Sistema de Saúde caseiro se aguente firme, na contenção desta pandemia do dialho.

Aqui e agora, esperam-nos mais tempos difíceis, tanto mais se os rendimentos teimarem em diluir-se na austeridade e na inflação que aí vem a galope, na linha da lógica dos mercados que não se deixam envolver em perdões de dívida, ou lucros maninos.

Aqui e agora, esperam-nos mais tempo difíceis, sobretudo porque ainda vivemos num país vergado ao peso da dependência financeira e económica de outros mais poderosos (são poucos, mas não quererão largar o osso).

 (Maiores angústias habitam os refugiados e todos aqueles que sobrevivem em áreas de conflitos bélicos).

 

Muitos milhões de habitantes da Terra andam consternados, mas afiançados na sobrevivência.

Morituri te saluant?

Qual quê!

Lamenta-se todos aqueles gladiadores que já partiram e que provavelmente, lá no espaço etéreo, fazem uma forcinha para que lhes sobrevivamos, cá em baixo, preferencialmente em moldes mais solidários.

A esperança e a vida são formas de património inalienável.

 

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