Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

oitentaeoitosim

16
Abr11

Os donos das noras

Jorge

Peco 1 – Os bons técnicos, os bons comentadores e os políticos de bom escol do país, da união e do globo olharam à sua volta e viram a vidinha a andar para trás. O pessoal que tem a faca e o queijo na mão - vulgo mercados, agências de rating, bolsa e banca – asseverou que a árvore das patacas, guardada numa redoma, longe dos olhares dos ignaros pagantes, estava a definhar. Havia que submeter a paciente ao tratamento do costume. Cortava-se uns ramos, umas raízes, uns limbos, sobretudo os labiados, aplicava-se químicos, fungicidas, pesticidas e congéneres. Um homem bom disse que não concorda, escreveu que não concordava, jurou que nunca mais concordaria, mas fez uma genuflexão e corcovou-se ao interesse nacional, uma espécie de mezinha sem símplices que depura e saneia todas as maleitas e amarguras do foro fisiológico e psicológico. Mesmo assim se fez! Aguardou-se pelos resultados que foram vistos a escoarem-se pelo cano abaixo.

Peco 2 – Os técnicos bons, os comentadores bons e os políticos de escol do país, da união e do globo  olharam à sua volta e constataram que tristezas não pagam dívidas. Queriam andar contentes, como manda a sapatilha. Bateram à porta certa e souberam pelos gurus que o pessoal da faca e do queijo na mão - vulgo mercados, agências de rating, bolsa e banca – não estava satisfeito, pois a árvore das patacas continuava a definhar, embora estivesse agora guardada numa redoma dupla, longe dos olhares dos contribuintes ignorantes. Acabadinho de ser inventado, havia um tratamento por experimentar em primeira mão, era só comprar a patente. Cortava-se mais ramos, mais raízes, mais limbos, sobretudo os falciformes, aplicava-se novos químicos, fungicidas, pesticidas e correlativos. Um bom homem disse que não concorda, escreveu que não concordava, jurou que nunca mais concordaria, mas prostrou-e perante o interesse nacional, uma nova modalidade de placebo que sana todas as maleitas e amarguras de base fisiológica ou psicológica. Mesmo assim se fez! Aguardou-se pelos resultados que foram vistos a escoarem-se pelo cano abaixo.

Peco 3 - Os bons técnicos, os bons comentadores e os políticos de escol do país, da união e do globo olharam à sua volta e viram que a vidinha persistia em andar para trás. O pessoal da faca e queijo na mão - vulgo mercados, agências de rating, bolsa e banca – disse que o mal não estava debelado, tinha, pelo contrário, medrado, apesar de terem encafuada  a árvore das patacas numa redoma de vidros fumados, longe dos olhares de ignaros amadores pagantes. Era preciso submeter a doentinha a tratamentos de polé, ou vai ou racha! Estava mesmo ali à mão de semear um novo sinapismo, único nas suas virtualidades, vindo de ser aplicado em ratinhos de laboratório. Cortava-se mais ramos, mais raízes, mais limbos, sobretudo os rômbicos, aplicava-se novos fertilizantes, encomendados à multinacional mais especializada, outros herbicidas e insecticidas acabadinhos de dar à costa e correlatos. Um homem bom disse que não concorda, escreveu que não concordava, jurou que nunca mais concordaria, mas acabou por ceder ao interesse nacional, uma espécie em vias de extinção, mas que é panaceia para  maleitas e amarguras do foro fisiológico e psicológico. Mesmo assim se fez! Aguardou-se pelos resultados que foram vistos a escoarem-se pelo cano abaixo.

Peco 4- Desta vez foram os técnicos bons, os comentadores bons e os políticos de bom escol  do país, da união e do globo que olharam à sua volta e viram que as tristezas continuavam a não pagar dívidas. Queriam voltar a ser felizes, como manda a sapatilha. Foram pela porta do cavalo consultar o pessoal da faca e do queijo na mão - vulgo mercados, agências de rating, bolsa e banca –  que continuava insatisfeito, pois a árvore das patacas estiolava a olhos vistos, embora estivesse presentemente guardada numa redoma de chumbo duplo, longe dos olhares de ignaros amadores pagantes, com guardas munidos de taser à vista. Só o último tratamento de choque, acabadinho de ser produzido nos fornos das multinacionais associadas, seria capaz de incapacitar as sezões da pobrezinha. Cortava-se mais ramos, mais raízes, mais limbos, sobretudo os orbiculares, promovia-se a aplicação de desfolhantes fungicidas, herbicidas e semelhantes e estava o caso arrumado. Foi então que o bom do homem disse: «Alto e pára o baile!». A orquestra sossegou a contragosto, os pares de entendidos congelaram e não houve mais bebidas para ninguém. Zarparam todos de monco caído, jurando vinganças.

   Recentemente foi contratada uma equipa de experts  na recuperação de bonzais e de canos rotos. Dizem que não são nada pecos!

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub