Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

oitentaeoitosim

05
Jun11

Terra de brandimel

Jorge

 

a - Falou assim o maioral para a carpideira de serviço:

           - Ouça lá, sua rameira sarapintada de fresco, não se arme aos cucos, eu bem a ouvi injuriar-me, sua mula da cooperativa. Há bens que vêm por mal, infelizmente a cesariana já tinha sido inventada, quando a sua genetriz a deixou dar o primeiro berro. Vá mas é trabalhar, seu culatrão, sua barrelona, sua brochadeira! E peça ao cornífero que a atura que lhe ensine as boas normas de civilidade! Tenha maneiras!

 

b – Juventino apontado ao Monte Aventino – diziam em letras garrafais 3 hebdomadários desportivos da praça, em época de defeso.

         Nesse dia, Juventino foi enxovalhado na praça pública, no restaurante cuspiram-lhe na sopa, encheram-lhe a entrada da casa com grafites obscenos e os directores do clube encomendaram um enxerto de porrada para a 2ª feira seguinte.

         No domingo, Juventino fez das tripas coração e conseguiu jogar contra o Monte Aventino e fez um hat-trick e um poker. No flash-interview disse que nunca lhe passara pela cabeça a mudança de ares.

          Na 2ª feira seguinte, os directores dos hebdomadários desportivos foram enxovalhados à porta de casa, viraram-lhes os carros de pernas para o ar e ninguém lhes deu de comer, beber ou prazer.

          Os 3 directores de jornais, mais tarde, fizeram constar, em comunicado redigido por um constitucionalista de alto coturno e abaixo-assinado por eles, que a língua portuguesa é traiçoeira. Eles apenas quiseram dar conta do regresso do renomado atacante às lides.

 

c - A senhora disse que as mulheres não deveriam transar com homens, enquanto os homens não se amanhassem no governo do rincão. Meu dito, meu feito!

            Nos dias seguintes constatou-se que:

            as mulheres públicas viram os seus pecúlios subir em flecha;

            os preços dos cintos de castidade subiram em flecha;

            a taxa de lésbicas aumentou em flecha;

            a taxa de gays aumentou em flecha.

   Foi assim que as mulheres descobriram a sua apetência para o mando.

 

d - Milagre I :

             Um país com cerca de 10 700 000 pessoas,  15% de pessoas de idade inferior a 15 anos, como pode ter 9 500 000 eleitores, dando de barato que alguns imigrantes estejam registados na estranja?

 

e -  Milagre II

           A senhora que morreu e foi encontrada mumificada na sua casa será em breve beatificada e depois canonizada. É milagre sobreviver incorrupta num país de faz-de-conta.

 

f - Milagre III

           No sacelo esperava-se um milagre. Queimava-se pivetes, incenso e ceras à divindade que se havia apaixonado pelo rincão. Nada de extraordinário ocorreu, porque os bancos celestiais estavam fechados a essa hora.

 

g -  O chefe disse:

           - Nós aplicámos uma taxa mais alta ainda sobre os maiores rendimentos dos mangas-de-alpaca.

           A opositora discordou, que deveriam antes ser taxadas as maiores fortunas. Só assim se fazia justiça social. Que mais uma vez estava a iludir o povoléu ignaro.

           O chefe voltou à carga:

           - Então taxas mais altas para os mais altos salários não traz uma equitativa redistribuição da riqueza? Qualquer um percebe, com excepção da senhora. Não estará a precisar de explicador, daqueles que passam factura e tudo?

          A oposicionista declinou a sugestão, pelo sim, pelo não.

 

h - Conversa de amigos:

         - Neste país só um tipo de empresas não vai à falência, por falta de clientela – observou o primeiro

         - Qual? – pergunta o segundo.

         - As agências funerárias – completa o terceiro.

 

i – Os fiadores determinaram que:

          Primeiro – Consentiam no empréstimo, se as contas estivessem certas.

          Segundo – Consentiam no empréstimo, se as maquias fossem parar aos bancos.

          Terceiro -  Consentiam no empréstimo, se os partidos do mando assinassem de cruz.

   Todos ficaram contentinhos da silva com aquela salomónica solução de truz.

 

j -Entremez I:

    Acto I - O barco mete água.

    Acto II - O barco está abaixo da linha de água.

    Acto III – O barco afunda-se.

   O obscuro comandante, ataviado e cheio de arrebiques, esbraceja do sítio da popa donde controla ventos e tempestades. Ordenas aos convidados que não abandonem o salão de festas e que siga o baile.

   Só não foi o fim da picada, porque tinham sido seguidos por um animado grupo de  mergulhadores sapadores que havia fundeado ali ao lado, na previsão de lautos despojos.

 

l - Um vai bem, outro mal…

             Um atleta foi contratado pelo clube contra o qual o seu actual clube haveria de defrontar-se, no domingo seguinte. O clube contratante foi criticado em uníssono, pelos ultramontanos  zeladores da infalibilidade da ética, da moral, dos bons costumes e da etiqueta nas relações sociais. Não estivesse o facto fora do alcance do medievo codicilo penal e outro galo cantaria!

             Um treinador disse que tinha sido contratado pelo clube contra o qual o seu actual clube haveria de dirimir, no sábado seguinte, um lugar de honra no campeonato da modalidade. O mister recebeu os maiores encómios dos ultramontanos abencerragens da boa moral, da boa ética, dos bons costumes e da boa etiqueta. O novel clube do noveleiro ganhou e ninguém se zangou.

          

m - O moralista criou o adágio popular «O dinheiro não tem cor», no dia em que o oftalmologista lhe prognosticou daltonismo.

      De caminho para a vivenda de luxo, persignou-se, quando um camaleão lhe saiu a terreiro.

 

n  – Prenderam o troglodita anunciado que vitimou milhares de inocentes. No segundo imediato e sem que lhe tivesse sido aplicada a presunção de inocência, todo o mundo disse que o odiava, aí incluídos  todos os vendedores de armas, todos os militares e os fazedores de guerras segundo os cânones. Ninguém disse o contrário.

     No segundo imediatamente a seguir, foram-lhe apresentadas 10 propostas para entrevistas, 10 propostas de livros, 10 propostas de documentários e 10 propostas de filmes.

 

o - Quatro personagens

 Veio o primeiro e disse: «O Rectângulo é só nosso!». Desferiu 2 sopapos na mãezinha, afastou-se da pátria antiga e plantou a tenda à beira-mar. Por mais arremetidas que viessem dos inimigos, cobrou a patente e por aqui se finou e deitou rebentos.

Veio o segundo e disse: «O mundo é só nosso!». Agarrou numa bússola e nas caravelas de velas latinas desfraldadas, deu novos mundos ao mundo e ficou a mandar em metade deles, porque os vizinhos – com mais de 30 cm de altura média - alambazaram-se com a outra metade.

Veio o terceiro e disse: «Angola é só nossa!». Mandou mancebos, adultos e veteranos para os pontos mais sensíveis da nação, triturou resistentes, fez tábua rasa dos bons costumes e ainda fez orelhas moucas aos ventos da história. Um dia, mão amiga fê-lo compreender a verdadeira dimensão de um bom lanço de escadas.

Veio o quarto e disse: «A crise é só nossa!». Promulgou a lei dos brandos costumes e convocou amigos, amigalhaços e amigalhotes, para o cerimonial de distribuição de tachos na praça pública. Quando as coisas deram para o torto, puseram-se a gritar que o rei dos outros ia nu, rasgaram as vestes dos outros e confessaram-se inocentes. Levou sumiço. Consta que vive na mansão do Homem-do-Saco. Os seus corifeus passaram à clandestinidade, em terras onde corre o leite e o mel.

 

           

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub