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oitentaeoitosim

26
Jun11

No país do meu vizinho 1

Jorge

 Inspirações

         1 - A locutora de têvê leu uma peça na qual se afirma que, por cada feriado, dia de fim-de-semana ou de tolerância de ponto, a nação perdia largos milhões de dracmas. Fez-se luz nos neurónios cerebrais de Betina: agora já entendia essa bizarria da mais-valia.

         2 - A utente disse que não achava justo que, tivesse esportulado uma mão-cheia de dracmas para comprar um título de transporte e que as transportadoras não a levassem ao locais do costume, em dia de greve. A seu lado, o porta-voz da transportadora depôs seraficamente e atribuiu as culpas aos colaboradores e seus representantes. Fez-se luz nos meus neurónios cerebrais de Quitéria: essa bizarria do marketing não era pilhéria.

         3 - Os colaboradores daquela empresa de expressos insistiam, em tempo de crise, à revelia da ética e dos bons costumes, na paralisação das suas coadjuvações. Aconteceu uma, duas, dez vezes. Um dia a tutela governamental cedeu estrepitosamente e os gerentes da empresa foram autorizados a aumentar o soldo dos colaboradores. Fez-se luz nos neurónios cerebrais de Vicência: agora já entendia que persistência nem sempre se confunde com penitência.

         4 – O povo unido jurou que nunca mais seria vencido. Mas, esse povo agiu com displicência: substituiu as moscas da cozinha e deixou a casa tal e qual. Até que um dia o povo unido se declarou vencido e convencido que a um passo atrás nem sempre corresponde dois em frente. Ou que a casa não se remodela só porque o lixo foi para debaixo do tapete. Fez-se luz nos neurónios cerebrais de Antão: ninguém abre mão do seu belo quinhão.

 

 Rigor

    a) - O repórter perguntou a um senhor bem-posto o que desejava que fizesse o novo condestável que se dispõe a gerir a crise:

    - Que aprenda Português!

   Acto imediato, deu 2 exemplos taxativos da falta de rigor gramatical atribuídos ao novo homem forte da governação.

    b) - O repórter perguntou a um senhor dirigente partidário que nunca esteve em qualquer executivo o que pensa do novo governo que se dispõe a gerir a crise:

     - Preocupa-me a falta de experiência!

   Acto imediato apontou um a um os infractores que eram a maioria.

    c) - O repórter perguntou ao jovem contestatário -  que, incansável, proclamava aos 4 ventos que a democracia ia nua -  qual era a alternativa.

     - Queremos o Banco Mundial, em vez do FMI, a OCDE em lugar do BCE e a ASEAN em substituição da UE.

 

Consta que:

i)  - as centrais sindicais vão passar a contratar os grandes cantores românticos para as grandes manifestações na grande avenida;

ii) - os grandes craques contratados pelos grandes clubes exigem grandes contratos indexados às grandes taxas pagas pelos empréstimos da grande dívida soberana;

iii) - alguns grandes nomes da política profissional ficaram alarmados com as grandes reformas impostas pelo grande irmão que continua grandemente alarmado e não aceitaram grandes cargos;

iv) - ao grande conquistador da bola, do Minho a Timor, foi presenteado com um grande contrato e aceitou ir treinar um grande clube, depois de renovado os votos de grande amor que tinha pelo grande clube chefiado por um grande magano;

 

Penitência

   O grande chefe das causas fracturantes ajoelhou-se no genuflexório, bateu com a mão no peito e confessou o seu pecado: fez mal em ter recusado a trindade. Mas, estava repeso. Aceitou, em conformidade e humildade a penitência imposta contra semelhante apostasia:  durante uma legislatura, teria de descontar para o rendimento mínimo dos tribunos seus apaniguados que o serviram na duma e perderam o emprego.

 

Na hora certa

    I - Um movimento de malta de gente catita ultima os estatutos do movimento que querem divulgar neste verão. O programa começa assim: «Propomo-nos lutar pelo fim aos chumbos no ensino; chumbos só nas canas de pesca!»

    II - Duas mulheres (aparentemente ligadas à profissão mais antiga do mundo) tinham morrido carbonizadas num sótão. Foi quando se ouviu o comentário daquela mulher misógina:

  - Voltou-se o feitiço contra o feiticeiro. De tanto pôr os homens em brasa, acabaram chamuscadas.

 

Tasquinhadas in:

     - Somos mesmo um país de labregos! Em vez de desfiles marciais, ou de moda, ou mesmo de descamisados na avenida principal, fez-se uma exposição pimba, um piquenique pimba, durante o qual se ouve música pimba, alguns dias depois de desfile de marchas pimba!

    - Somos um país de igualitaristas! A justiça não funciona para todos, é justo! As leis são, de facto, feitas para servir o peixe graúdo. O espírito da lei, os decretos-lei, os regulamentos protegem quem deve ser protegido e mais nada! A arraia miúda, - quanto muito -  só tem direito a bónus. Por exemplo, aos implicados no caso Colombo, saiu a sorte grande!

 

Ideias fixas

     - A democracia é um regime político imposto a todos, em nome da liberdade de reduzido número dos detentores do poder.

    - A monarquia é o regime mais decantado, por ser pouco usado.

    - Para a política profissional vão todos aqueles que dão poucos erros nos ditados.

    - Só as falsas réplicas apresentam dona Justiça de olhos completamente vendados; no original um deles está destapado.

    - As grandes reformas são como as campanhas de vacinação: aliviam, mas não curam.

 

Aquela máquina

            O homem reinou absolutamente em nome dos mal-afortunados. Para sua má fortuna, num belo dia do messidor, foi corrido à pedrada pela turbamulta que lhe invadiu os paços e não deixou pedra sobre pedra.  Só conseguiu levar a farpela que tinha entranhada na pele e era de marca registada, patenteada e socialmente valorizada. Antes de alcançar a entrada secreta que dava para o túnel secreto que terminava no deserto secreto (onde, nos seus tempos áureos, se recolhia, para colher ideias), voltou-se para os seus sequazes e, no volume máximo das cordas vocais, gritou-lhes: «Adoro-vos!». Soube-se mais tarde que foi tragado por areias movediças.

           O homem quis ser figura grada das capelinhas do mando. Sempre acreditou que, quando se sonha, a obra nasce. Ele soltou fantasmas, liberou dragões, vendeu bruxas e casas assombradas, para manter-se à tona de água e conseguiu pôr-se à frente de todos. No dia e hora da verdade, o galo cantou. Então soube que tinha atraiçoado muitos fiéis. Apanharam-no descalço, de calças na mão, a caminhar pela verdura. Deram-lhe com os pés, ataram-lhe uma mó de moinho à volta do pescoço e atiraram-no ao charco. Ainda continua a lutar pelo seu destino fatal, prodigalizado pelos vates supremos: o de vil e apagada figura.

  

Coisas de  pascácios  

    Naquele país, as provas só faziam fé, quando o capitango as autenticava. Um dia, foi-lhe presente um falsificador, acompanhado de uma mala de porão, prenhe de notas de 500, laboriosamente forjadas na tipografia de grande renome. O falsário saiu multado numa nota de 20 por se ter provado que a mala era de imitação. Pagou com uma nota de 500.

    Naquele país o copianço era evitado por sistema no ensino inferior e impedido por aparência no superior. Um dia soube-se que os auditores de justiça  tinham cabulado num teste de cruzes. Os candidatos, copistas ou não, todos foram corridos a 10, o que deixou meio mundo de cara à banda. Até que o sentido de justiça se impôs e o teste vai ser repetido e conterá apenas perguntas de desenvolvimento. Teme-se pela sanidade dos correctores.

      

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