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oitentaeoitosim

26
Jul09

De pés para trás

Jorge

 

 

  O meirinho fustiga sem dó nem piedade os possuidores da leprosaria topo de gama do bantustão. Ali, uma alma penada, daquelas que não fazem mal a uma mosca, tinha passado um mau bocado e esteve vai-não-vai para se passar de armas e bagagens para o outro lado da contenda. Ouvido apurado, percebe-se que o indivíduo denuncia  tratamentos de polé comprovados. O dito senhor toma as dores de um utente da caixa que ficou às portas do caixão.
    Por todo o lado percebe-se que a populaça se dedigna ao escutá-lo: com 600 milhões de macacos, já não há respeito, onde já se viu um rafeiro ter pretensões a caniche?! Se ainda tivessem obrigado o paciente a vender um rim, para fintar a inanição! Que não, tinham-se esquecido de ministrar o soro durante a noite e numa transfusão deram-lhe o tipo errado de sangue. Ia batendo a soleta, lá isso ia, mas nada que não pudesse ser remendado a tempo, como o foi com uma mezinha alternativa. Quem assim desacredita o tratamento vendido por aquela instituição benemérita - embora a troco de grossa maquia está bem de ver -  merecia um aperto no pelourinho. 
    O impenitente orador andava com a pedra no sapato. Na semana anterior, com pompa e circunstância, tinha sido amplamente divulgada a morte das ideologias, menos uma. Conclamada a justeza da medida em fóruns de discussão licenciados, passou-se à prática em todos os fogos, em todos os dias, em todos os lados. A ideologia consentida erguia à glória dos altares os anseios e desejos dos que têm unhas para tocar guitarra, os detentores do céu cá na terra. A ciência, a tecnologia, a filosofia e até a geografia já defendem que maltrapilhos são iguais aos peralvilhos só na aparência dos sentidos, que na essência são distintos como água e azeite que se toleram, mas rejeitam.
    Mas, o homem queria a sua ideologia.
    Noutros tempos a novela evolucionista ressumava da cor da epiderme, da nacionalidade, do género e seus derivativos, do clube, do bairro. Finalmente fazia justiça a quem mais acumulou nos colchões, nos paraísos fiscais, nas sociedades corretoras, nos bancos, nas donas brancas, sejam jóias, quadros, géneros alimentares para os humanos, derivados, tabaco, CO2, ou mesmo alpista. Finalmente fazia-se justiça da elementar!
    Mas, o homem queria a sua ideologia.
    Os especialistas desenham códigos e encíclicas, propositadamente prolixos, que regulamentam as benesses celestiais aos iconoclastas do pensamento uno. Tinha sido vedado o acesso dos vírus de pestes negras, brancas ou azuis, das imunodeficiências e das gripes aviárias, suínas ou cavalares, as bactérias e bacilos e todos os microrganismos patogénicos ao topo da pirâmide social. Mas a coisa estava a ficar preta e nada garantia que as quintas das marinhas não fossem tomadas de assalto pelo lúmpen. Urgia arredar para cascos de rolhas os quais ainda eram necessários; os excedentes deveriam ser condenados a passear o resto dos dias nos desertos, nos altos mais altos, nos glaciares ou mesmo em locais que se sabia serem arriscados normalmente. Assim se fez! Uns quantos mais audaciosos propugnavam a institucionalização da roleta russa para os minguados da fortuna.
   Mas, o homem queria a sua ideologia.
   Deu-se cabal cumprimento ao espírito e letra das determinações forenses. Dado que a razão não se lhe meteu pelos olhos dentro, o estulto denunciante foi empalado, merecidamente e sem contemplações, aos primeiros alvores da manhã seguinte. Esticado o pernil, foi a enterrar em campa rasa de pés para trás.
  
   

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