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oitentaeoitosim

10
Ago11

O último a saber

Jorge

A falta de argumentos descamba em diatribe, ponto final, parágrafo, travessão. Quando seca a argumentação, sobrevêm insultos e molestamentos, em alta grita, com teórico efeito demolidor. Muitos biribíris se puseram a troar, por falhas silogísticas.

   Uma renomada odalisca fazia questão de vincar: «o que se leva desta vida é o que se come, o que se bebe e ai-ai!». Estas palavras não eram ditas, quando já muita gente ginasticava as meninges, na busca sagaz das causas próximas e afastadas pelas quais as piores injúrias descambam no presuntivo mau desempenho sexual dos mortais. A teoria explicativa mais incensada filia-se na praxis do hedonismo místico. O sexo duro e puro arrebanha delíquios, paroxismos e espasmos, todavia projecta-se na órbita perigosa do pecado. Só o lapsus carnis envolto em devoção confirma a reprodução. Destarte, a fruição dos mais virtuosos chiliques, desmaios e arroubos estão reservados a oblatos excelsos, pelo que o amor platónico compensa. Os enxovalhos endereçados aos humanos fazem parte do plano descomunal da expiação dos pecados.

   José, plebeu de nome e currículo, era um reinadio cidadão do mundo. Sempre se reconheceu a reagir com o coração e pouco com a cabeça, daí que consumisse roupas de marca e música de pechisbeque que lhe dissipavam os cabedais necessários à dieta alimentar. Diga-se, a talhe de foice, que usava e abusava de linguagem menos cuidada que não indecorosa: mulher era uma gaja e homem gajo, pior só criatura chifruda ou rebento de ervoeira. Mas não gostava que o metessem ao barulho.

   José tinha João por seu amigo de longa data e estimação. Empenhados na disputa da finalíssima de um campeonato interno de bisca lambida, realizado com pompa e circunstância nas instalações dos sapadores, com direito a transmissão radiofónica, travaram-se de razões e o caldo entornou. José jurou que João começou por o catalogar de trambiqueiro; na mesma linha, teve de arrostar com um chorrilho de asneiras que desembocou numa ladainha de cabrão para cima. Aí as coisas deram para o torto. Tinha sido boa a amizade, enquanto durou, mas no imediato se esfarrapou! Na última oportunidade, José atraiu o amigo da onça a um canto escuso da sala de operações e aconselhou-o a ter tento na língua, não fossem os outros acreditar. A coisa ficou por ali, mas, pelo sim, pelo não, evitou cruzar-se ou chegar à fala com o badameco nos dias sequentes. Nunca mais percorreu qualquer itinerário que incluísse Peniche. De volta à moradia, tentou tirar nabos da púcara da cônjuge, mas levou tampa. Ficou, até mais ver, de pulga atrás da orelha.

  Na quinzena seguinte, Marcos, um conhecido de José, detentor dos mesmos centímetros de ossatura, também não se fez rogado: após acalorada discussão clubística, no boteco da travessa da Vida Airada, não se conteve e, em bom vernáculo, denunciou José como empedernido enganado, apesar de aparentar ligeiro traços fisionómicos de ascendência viking. Aí as coisas deram para o torto: José pôs-se em bicos de pés, o dedo em riste e em tom preclaro arremeteu lesto: «Conhece-me de algum lado? Cornífera é a sua prima em que você se arrima e casou-se 5 vezes!». A troca de mimos não se finou por ali e teve direito a prolongamento e a penalidades. Quando esfriaram os ímpetos, cada um foi à sua vida, não sem que antes José tenha despejado uma bojuda bagaceira nos gorgomis, para a viagem. Mal chegado a casa, fez aturadas pesquisas nos armários da consorte, não tendo chegado a uma opinião balizada. Ficou, até mais ver, de pulga atrás da orelha.

    Meses volvidos, Mateus, um seu desconhecido de todo, de estatura meã, borrou a pintura, quando, após casuística política no botequim central da terra vizinha, se atreveu a chamar-lhe de minotauro excelentíssimo, sem ofensa, claro. Aí, os acontecimentos precipitaram-se. José, detentor de mais de 10 centímetros em largura e altura, ameaçou que lhe dava cabo do bocalvo e do canastro. «Conhece-me de algum lado? Cornúpeto é você, mas já lhe dou a faena!». Atirou um piparote, mas o pequenote rodou sobre os calcantes e zarpou. José arremessou-lhe uma cadeira que se estatelou contra a sua sombra. No aconchego do lar, pôs a consorte a par da insinuação. Entre juras e ais, a cena ficou olvidada. No dia seguinte, aconselhou-se com o psicólogo da família. Ficou, até mais ver, de pulga atrás da orelha.

    Anos volvidos, Pedro, um tipo longilíneo que conhecia de vista e que o olhava com sobranceria, pois o suplantava em 2 palmos de altura, na sequência de um desaguisado sobre o timing do último aumento de taxas, cometeu a impertinência de o visar com 3 sonantes palavrões de caixão à cova que lhe beliscavam a virilidade. Aí os acontecimentos precipitaram-se. José, não se conteve e gritou para quem o quis ouvir, alto e em bom som: «Agarrem, que me vou a ele e desfaço-o!». Nisto, saltou para o tampo da mesa mais sustentável e mais à mão de semear que se escangalhou, não depois de ameaçar o audaz com queixas na polícia e no ministério público. Nessa altura, os presentes agarraram-no, pediram por todos os santinhos que se acalmasse, e aconselharam-no a dar uma volta ao bilhar grande, o que fez sem detença. Voltado a penates a casa, tentou tirar a coisa a limpo. Não levou que contar, pois a companheira dormia o sono dos justos. No dia seguinte aconselhou-se com o pároco. Ficou, até mais ver, de pulga atrás da orelha.

    Um lustro volvido, Paulo, um marau de gostos retorcidos e que constava do seu índex de José, na sequela de uma discussão sobre metafísica, despachou-o com um sonoro arroto e com dois palavrões que o deixaram tão petrificado quanto a mulher de Ló, pois lhe velicavam a masculinidade. Aí os acontecimentos precipitaram-se. José agarrou-lhe os colarinhos, jurando pelas alminhas todas que o estrafegava. Sacou da atiradeira e aqui vai disto. Disparou porta fora, quando lhe cessou a propensão para o disparo. Andou um bocado aos papéis, mas não resistiu à tentação de voltar ao remanso do lar. À cautela, não passou da dispensa e não pregou olho durante a jornada, sempre atento a vultos e sussurros. Pela manhãzinha abalou e só se deteve à porta do advogado que o aconselhou a alegar justa causa ou defesa da honra, caso o filassem. Entretanto bem faria em devolver à procedência a mulher com quem vivia mancomunado.

    No dia seguinte, mudou para a província mais longínqua, onde subiu a vida por seu próprio pulso. Montou estaminé à mulher dos seus sonhos com quem se costumava encontrar em lugares esconsos, nas semanas, meses, anos e lustros anteriores. Viveu à grande e à francesa, pelo que nunca mais foi vítima de assédio de amigos, conhecidos ou inimigos, tão pouco de pulgas. Até mais ver, nunca mais pecou.

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