Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

oitentaeoitosim

27
Jul09

Contraluz

Jorge

  Os indígenas do velho rincão não viam como empresar doutro jeito, a não ser em pequeno. Noutros tempos e noutras fidalguias a visão esteve empolada, produziu-se em grande, de forma a caçar néscios. Nos tempos que corriam contavam-se pelos dedos das mãos e pés as empresas apontadas aos chorudos lucros injustos. Pelo terreno ajeitavam-

-se restaurantes de esquina, pastelarias de ruela, lugares de frutas e hortaliças, pasquins paroquiais, fabriquetas de bolso, clínicas de trazer por casa, hortos que mitigam a subsistência e lojas dos trezentos, muitas ópticas e clínicas de bairro.
    Um dia, um régulo de olhão pôs foice em seara alheia e própria. Suspendeu os longos conciliábulos que apontam à reforma e acabam na galderice e cortou cerce com os madraços do sistema. Os anais da história testemunhavam que a turbamulta  gosta de quem faz sangue. Ao nascer de uma bela aurora, ordenou a fusão de empresas anãs, com regras duras de roer. Muitos indígenas riram à desfilada.
    Logo os mini-empreendedores mais ameaçados de serem varridos da face da terra intentaram resistir pacificamente. Desencadearam manifes e greves de fome. Aí as polícias acorreram unidas e distribuíram porrada de criar bicho, que para isso foram criadas. Estavam proibidos os ajuntamentos de mais de 5 pessoas no olho da rua (dantes eram só 2, mas a explosão demográfica criou novos ditames).
   No dia que lhes deram o arroz, o apetite atacou voraz aos decisores, que cérebro prendado está ligado a estômago sustentado a lautos pitéus. Tiraram a barriga de misérias, no aconchego de doces lares e doces restaurantes e caturraram em ir comprar cigarros à rua. Lá ficaram uns quantos dias em que tentaram uma golpaça cinzenta, pois já tinha havido movimentações de todas as cores, só sobrava aquele tom mestiço nas artes reivindicativas.
   De nada valeu aos minorcas, o chefe não mudou de ideias e caiu-lhes em cima, sem tibiezas ou deslavadas temperanças. Os agentes de autoridade receberam ordens para lhes malhar com matracas, cassetetes, azorragues, forquilhas, pedregulhos, água e toda a parafernália do diabo a 4 que mói, mas não mata. Saíram da refrega uns feitos num oito, outros politraumatizados, mas sobretudo espezinhados no orgulho da sua nação. Levaram que contar e botaram palavradura em blogues, chats, entrevistas em directo e em diferido e em milhentos jornais..
   Encenaram a flexibilidade de posições, com recurso a formas emergentes de trabalho, como trabalho temporário, auto-emprego, trabalho a tempo parcial, trabalho ao domicílio, teletrabalho, etc…Depois, as organizações de classe ainda se atreveram a morder o ambiente.  Acabaram de dentes e maxilares partidos. Num dia de nevoeiro, lobrigaram a capitulação montada em cavalo alazão, puseram a viola no saco e pernas para que te quero!
  Confessaram-se ao padre e disseram que estavam de alma e coração com o novo mandador. Só em jornais pagaram 8 páginas em que punham de manifesto a vontade de aderir à quarta e mesmo à quinta via. Aquiesceram em pagar impostos altíssimos e prometeram trazer para o projecto os liberais de profissão que queriam fugir à nova dança. Tudo se fez como aprouve a Sexa.
    De um momento para outro havia restaurantes, pastelarias, cervejarias, marisqueiras, cafés e correlativos com o dobro da área e mais 1 ou 2 empregados. Os jornais já se não editavam por lugarejo, mas sim por distrito ou região (tinha sido criadas as regiões demarcadas da água pé). As hortas viraram latifúndios e explorações bem demarcadas, bem equipadinhas e especializadas em produtos triviais, integrados e orgânicos. As escolas passaram a ensinar a fazer dinheiro, não a qualquer preço, mas incutindo com sucesso a ideia a responsabilidade social que se dispõe a compensar melhor todos quantos ajudam a aforrar os decisores, salariando à maneira. As lojas instalaram-se em áreas comerciais decentes. As fábricas apostavam em vender bom e barato lá para fora. Os clínicos e meirinhos constituíram equipas mais maneirinhas. Sexa jazia enlevado no seu etéreo trono.
   O Zé acordou pronto a dar o peito às balas. Pôs cara de caso, quando se deu conta que caíra na esparrela de sonhar novamente o mundo a contraluz. Dormiu à pressa e só acabou às 3 da tarde, porque era feriado.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub