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oitentaeoitosim

30
Ago11

Topa-a-tudo

Jorge

   Diamantino é um entradote habilidoso, que, só por acaso, não é natural de Olhão. Onde quer que esteja, desenrasca qualquer emergência. Gaba-se de nunca ter recorrido a técnico de manutenção, de reparação ou coisa que o valha! Por conta disso acumula muitos encómios, prémios e até condecorações. Apenas embirra com o epíteto de mãozinhas com que o mimam, de quando em vez. Contra susceptibilidades, não há argumentos, pois.

   Reformado e mal pago, põe-se a fazer contas ao nível de vida adregado, tira a prova dos nove e uma evidência salta à vista: tinha de fazer pela vida. Precisava de um complemento circunstancial para a sua pensão.

   Possui uma caterva de alfaias dos mais variados tons e feitios e não é por aí que o gato vai às fihós. A questão da sede operacional, também fica solucionada em 2 tempos: assenta arraiais numa garagem contígua à sua residência, não sem que antes se tenha assegurado da conivência silenciosa duma maioria dos condóminos.

  Porque os tempos não se compadecem com generalidades, decide especializar-se na reparação de fogões de todas as gamas e marcas. «Diamantino põe tudo que nem um brinquinho!» - eis a palavra de ordem que publicita em caixas do correio, pára-brisas, candeeiros e cafés.

    Diamantino visita apartamentos e faz orçamentos; recibos e facturas só os rubrica, no dia de S. Nunca, de madrugada. Depois, é vê-lo, cheio de desvelo, embrenhado nas suas reparações, de sol a sol, a examinar as mazelas e a experimentar as reparações num espaço onde mil papéis, caixas, e caixotes convivem em espaço confinado.

   Diamantino não prescinde da militância em causas sociais do mais variado quilate. Ainda recentemente foi visto numa manifestação que visava os trânsfugas aos impostos. «A cadeia para quem se alheia!» - era uma das muitas palavras de ordem gritadas, até que a voz doesse. Berrou este e outros pregões, na convicção de que a fuga ao pagamento dos dízimos é sobretudo lendária nos grandes que fogem para praças, paraísos e nimbos fiscais; dos pequeninos não reza a história. No dia em que os grandes decidam não esquivar-se com o rabo à seringa, ele imita-los-á, caso contrário…. «Viesse um governo com tomates e acabava-se a economia paralela!» - comenta para o parceiro do lado.

   Para sua infelicidade o parceiro do lado, não se fica por palavras e passa à acção: apresenta queixa na autarquia de maior proximidade sobre a actividade clandestina de Diamantino. Este, por portas travessas, toma conhecimento da denúncia do vizinho. Diamantino trava-se de razões com o denunciante, a quem serve 2 sopapos na hora da despedida. «E há mais donde vieram estes!» - assevera, perante o gáudio dos presentes que não mexem um dedo para impedir aquele justiçamento popular.

    Um vedor apresenta-se, muitas quinzenas volvidas, no estaminé do Diamantino. Nada que uma bica com cheirinho, um pastel de nata à maneira e uma nota bem passada e bem levada abaixo da mesa não tenham resolvido! Confrontado com os factos, o delator da situação anterior é, de novo chamado à pedra e mimoseado com 2 arrochadas; fica com 2 dentes a menos, um braço ao peito e um olho descaído, para gáudio dos bons cívicos que, por uma questão de feitio, aplaudem o feito.

   Um agente da lei visita Diamantino que é apanhado com a boca na botija. «Não, está enganado, tudo o que aqui vê me pertence, porque sou coleccionador». O agente olhou desconfiado para as 2 dezenas de electrodomésticos, ele que só tinha uma casinha, mas admite que outros possam herdar muitas outras. À falta de provas consistentes (essa coisa de tirar o número de série do fabricante implicava levar aquela brutalidade de fogões para o precinto), não se fala mais no assunto! O queixinhas é de novo chamado à pedra e submetido a tratos de polé e pontapé, findo o qual é atendido no centro de saúde. Ficou de baixa durante 1 mês, o que põe a nu uma das fraquezas deste tipo do empreendedorismo diamantino. Do acto não há testemunhas, pelo que as investigações prosseguem até às calendas gregas.

   Não entra no bestunto do Diamantino essa coisa de haver uma tróica que manda bitaites e caga sentenças ao país. «Se fosse comigo!»... Comprem-lhe a receita, senhores potentados. É como ele diz: «Catrapaz, paz paz!  E não se fala mais no assunto!». Aquilo era trigo limpo, farinha Amparo…

  Lidava com estas e outras ideias, quando lhe cheira a esturro. Lobriga a vizinhada aos pinchos, com ar de poucos amigos e pronta para pedir contas a alguém. E vinham na sua direcção… Antes que o pessoal lhe caísse em cima, dá às de vila-diogo. Salta para a carripana, exangue, e põe-se ao fresco. 

   Mais à frente pára para respirar e assesta os binóculos. Faz-se luz, do prédio donde zarpara saíam uns fumos e uns fogachos um bocado para o esquisito. Afinada a lira, rapa da partitura e põe-se a cantar a plenos pulmões o fado do desgraçadinho.

 

  

 

 

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