Terça-feira, 28 de Julho de 2009

   

   Esteve prometida  grossa enxurrada para esse dia. As folhas do calendário caíam à cadência das folhas do plátano outonal. Ao ritmo diabólico do tempo sucedia-se tempo cada vez mais quente e o ar ficava mais difícil de sorver. Cedia-se às tentações do ar artificialmente arrefecido. Dormitava-se ao ritmo da maquineta refrigeradora; as actividades da casa de banho e da cozinha não dispensavam o suave refrigério. Fora de casa, em 2 passadas céleres alcançava-se o popó, o autocarro ou o comboio, em busca do consolo do ar frio. A vulgarização do ar climatizado eliminou a preocupação de manter os carros particulares símbolos-da-civilização no fresco das garagens. Ficavam esparramadas ao pino do sol, em sobre passeios avençados, longe das sombras de ervas, arbustos e árvores que tantos riscos podem fazer nos popós.
     Esteve prometida grossa enxurrada para esse dia. Sob o céu e a terra há muito que se resistia aos dias soalheiros. O ar climatizado ampliava a resistência dos viandantes que gastavam a rodos energia arrancada às explosões solares, proviesse ela do ar, do vento, das marés, das ondas, dos girassóis ou dos hidrocarbonetos. O sol, quando malha a sério, fere tudo e todos, não poupando a chaparia dos popós. Fazia dó vê-los a estiolar ao braseiro, uma impressão só comparável com os enchidos ao fumeiro ou as sardinhas no forno solar. Mas, eles não se queixavam.
     Nesse dia houve grossa enxurrada, sem que estivesse prometida. A atmosfera sobreaquecida saturou, despejou água a cântaros e a potes, cães e gatos rebolaram de encontro ao chão ressabiado. Putos de tenra idade e velhos da última  desatinaram e puseram-se aos berros. Alvoroçados pela força das gotas, pelo gorgolejar da água nos algerozes, pela dança frenética da água suja em linhas de água abertas à força, pelas poças que se formavam em qualquer desvão de terreno, engrossaram com lágrimas gordas os grossos caudais. Mudaram de registo, assim que se aperceberam das árvores, cães, catres, sofás, contentores de lixo selectivos, hortaliças, entulho, fruta e outros que tais que passavam à porta das casas, a caminho do mar. A perda de uns é o ponto de encontro de outros.
     Nesse dia houve grossa enxurrada e estava prometida. Os carros atingiram o limite das suas forças. Alapados aos passeios de lugarejos, lugares, vilas, cidades e metrópoles mantiveram-se pletóricos de força na luta contra a intempérie. Fincavam-se ainda aos ramos das árvores, aos bancos de jardins, às vitrinas das lojas, às vedações dos espaços mais ou menos ajardinados, às habitações. Os donos deram-lhes todo o apoio de que precisavam: puseram-nos a ar condicionado, ataram-nos a muros de edifícios públicos e moradias, escoraram-nos a paragens dos autocarros, a carris dos comboios, a pilares dos prédios. Alguns foram mesmo enviados enxutos e climatizados através da raia que separava o país vizinho. Todavia a força das águas, em trabalho de sapa e à desfilada por aquele imenso corpo retiravam-lhes o chão debaixo das rodas e as esperanças na manutenção do seu estatuto social.
  Nesse dia já não houve enxurrada da grossa, apenas da fina. Carros de todas as formas e feitios, com ar condicionado miraculosamente preservado, juntaram-se em grosso ajuntamento ali para as bandas da barra do grande rio castanho. Peixes assustadiços perderam os seus queridos nichos.  Mudaram-se para o mar alto e nunca mais foram vistos.
   Nesse dia parou a grossa enxurrada, o sol festejou sobre os passeios livres e nunca mais houve dias quentes.

 

 



publicado por Jorge às 23:31
Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

   Hoje é dia de exame.

   Sofia acorda sobressaltada. Coisa pouco habitual: o desassossego infecta os inquietos, não os quedos e ledos, como ela se vê. Enquanto esfrega os olhos, livra-os das remelas suspeitas e recorda-se, com mágoa infinda, que tem um exame a enfrentar, naquela mesma manhã. No relógio de pulso que não a larga de noite e dia, descobre que lhe faltam 2 horas para sentar a bunda num banco de escola, para 2 horas e meia extenuantes. Embirra ser acordada assim, porque começava a habituar-se à doce sensação do pouco fazer, mas ela acredita que os exames apuram, depuram e não atrofiam. Disparate é gramar as aulas, testes, dias culturais, visitas a museus, cartolinas nas paredes, trabalhos de grupo, trabalhos expositivos, tudo uma seca. Felizmente que se estavam a desbravar novas sendas que prometiam o céu ao alcance da mão.
    Hoje é dia de exame.
    A escola é coisa obrigatória, discute-se a sua validade antes de lá entrar, depois é aturar até mais não. Se não pões lá os butes, os pais levam que contar, é uma chatice, mas fazer um filho não é só fechar os olhos, dar um gritinho de êxtase e já está, estou realizado, cumpri a minha tarefa no mundo. A única coisa fixe da escola é essa cena de ter muita gente e, entre tantos, sempre se pode fazer ou desfazer amizades ou conhecimentos. Locais de encontro a preceito, sem gastar algum, para além dos cafés, dos quartos, dos centros comerciais, dos locais dos concertos, das buates são escassos na selva de betão. Mas custa aturar aqueles maraus que aproveitam a mínima ocasião para se porem aos berros, aguentar as aflições dos profes para conter a turbamulta! Ainda bem que os telemóveis são como as pistolas para os mauzões ds fitas: há sempre um à vista e outro escondido. Nunca teve problemas com os profes, mas pouco aprendeu, para além do que costumava levar nas cábulas. Ainda por cima tinha que aguentar a tortura durante todo o ano escolar.
    Hoje é dia de exame.
    Ontem teve a última explicação. Não é dessas de perder tempo a estudar em casa, no café, na casa de amigos ou familiares. Pouco capta nas aulas, só quando a distracção faz intervalos. Por isso, as explicações se impõem, em casa de um professor do quadro da escola vizinha, mesmo que isso tenha representado tirar à barriga uns bons almoços. Faz a higiene corriqueira, ingere cereais, pega na mochila e lá vai ela a caminho da escola, ali mesmo ao fundo da rua. À voz de comando do vigilante, entra e ocupa o local religiosamente consabido. Ao toque mágico da campainha sai o enunciado do envelope e ela atira-se à resolução. O vigilante, pé ante pé, pergunta-lhe pelo bi ou pelo cc. Não sabia que era preciso, tinha ficado em casa, não gosta de cartões ou de bilhetes. Não faz mal, pequena, acalma-te e boa viagem! Lê o enunciado de enfiada e começa a vacilar. Havia perguntas difíceis de roer. Bem, vamos à primeira. Que nada, a máquina de calcular não abre. Que se passa?
     Hoje é dia de exame.
     Por amabilidade da casa, trocam-se as pilhas à geringonça. Nada, ou é dia de greve da maquineta ou ela avariou sem que se tivesse dado conta. A imprevidência de uns é sempre colmatada por outros. Toma, aqui tens uma máquina novinha em peça, com os cumprimentos da gerência. Depois preenches este formulário e formaliza-se as formalidades a preceito. Obrigada, de nada. Que é isto, agora a carga da caneta chegou ao fim, que azar! Posso mudar de caneta? Claro que sim. Ó filha, não uses essa, continua a escrever a azul com esta. Uma campainha toca nervosa. É a do telemóvel do mãe que trouxera ao engano. Apalpa a algibeira e cala-o. O vigilante curva os ombros, com um sorriso amarelo na comissura dos lábios. Ouçam todos, a prova contém um erro, onde se lê isto, deve-se soletrar aquilo. De imprevisto a imprevisto, foi-se varrendo a sabedoria do toutiço.
   Hoje é dia de exame.
   Quem embirra, encabula. Sofia não saiu do seu lugar, durante 120 minutos e não saiu da primeira resposta que ficou em branco.


publicado por Jorge às 00:17
Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

  Os indígenas do velho rincão não viam como empresar doutro jeito, a não ser em pequeno. Noutros tempos e noutras fidalguias a visão esteve empolada, produziu-se em grande, de forma a caçar néscios. Nos tempos que corriam contavam-se pelos dedos das mãos e pés as empresas apontadas aos chorudos lucros injustos. Pelo terreno ajeitavam-

-se restaurantes de esquina, pastelarias de ruela, lugares de frutas e hortaliças, pasquins paroquiais, fabriquetas de bolso, clínicas de trazer por casa, hortos que mitigam a subsistência e lojas dos trezentos, muitas ópticas e clínicas de bairro.
    Um dia, um régulo de olhão pôs foice em seara alheia e própria. Suspendeu os longos conciliábulos que apontam à reforma e acabam na galderice e cortou cerce com os madraços do sistema. Os anais da história testemunhavam que a turbamulta  gosta de quem faz sangue. Ao nascer de uma bela aurora, ordenou a fusão de empresas anãs, com regras duras de roer. Muitos indígenas riram à desfilada.
    Logo os mini-empreendedores mais ameaçados de serem varridos da face da terra intentaram resistir pacificamente. Desencadearam manifes e greves de fome. Aí as polícias acorreram unidas e distribuíram porrada de criar bicho, que para isso foram criadas. Estavam proibidos os ajuntamentos de mais de 5 pessoas no olho da rua (dantes eram só 2, mas a explosão demográfica criou novos ditames).
   No dia que lhes deram o arroz, o apetite atacou voraz aos decisores, que cérebro prendado está ligado a estômago sustentado a lautos pitéus. Tiraram a barriga de misérias, no aconchego de doces lares e doces restaurantes e caturraram em ir comprar cigarros à rua. Lá ficaram uns quantos dias em que tentaram uma golpaça cinzenta, pois já tinha havido movimentações de todas as cores, só sobrava aquele tom mestiço nas artes reivindicativas.
   De nada valeu aos minorcas, o chefe não mudou de ideias e caiu-lhes em cima, sem tibiezas ou deslavadas temperanças. Os agentes de autoridade receberam ordens para lhes malhar com matracas, cassetetes, azorragues, forquilhas, pedregulhos, água e toda a parafernália do diabo a 4 que mói, mas não mata. Saíram da refrega uns feitos num oito, outros politraumatizados, mas sobretudo espezinhados no orgulho da sua nação. Levaram que contar e botaram palavradura em blogues, chats, entrevistas em directo e em diferido e em milhentos jornais..
   Encenaram a flexibilidade de posições, com recurso a formas emergentes de trabalho, como trabalho temporário, auto-emprego, trabalho a tempo parcial, trabalho ao domicílio, teletrabalho, etc…Depois, as organizações de classe ainda se atreveram a morder o ambiente.  Acabaram de dentes e maxilares partidos. Num dia de nevoeiro, lobrigaram a capitulação montada em cavalo alazão, puseram a viola no saco e pernas para que te quero!
  Confessaram-se ao padre e disseram que estavam de alma e coração com o novo mandador. Só em jornais pagaram 8 páginas em que punham de manifesto a vontade de aderir à quarta e mesmo à quinta via. Aquiesceram em pagar impostos altíssimos e prometeram trazer para o projecto os liberais de profissão que queriam fugir à nova dança. Tudo se fez como aprouve a Sexa.
    De um momento para outro havia restaurantes, pastelarias, cervejarias, marisqueiras, cafés e correlativos com o dobro da área e mais 1 ou 2 empregados. Os jornais já se não editavam por lugarejo, mas sim por distrito ou região (tinha sido criadas as regiões demarcadas da água pé). As hortas viraram latifúndios e explorações bem demarcadas, bem equipadinhas e especializadas em produtos triviais, integrados e orgânicos. As escolas passaram a ensinar a fazer dinheiro, não a qualquer preço, mas incutindo com sucesso a ideia a responsabilidade social que se dispõe a compensar melhor todos quantos ajudam a aforrar os decisores, salariando à maneira. As lojas instalaram-se em áreas comerciais decentes. As fábricas apostavam em vender bom e barato lá para fora. Os clínicos e meirinhos constituíram equipas mais maneirinhas. Sexa jazia enlevado no seu etéreo trono.
   O Zé acordou pronto a dar o peito às balas. Pôs cara de caso, quando se deu conta que caíra na esparrela de sonhar novamente o mundo a contraluz. Dormiu à pressa e só acabou às 3 da tarde, porque era feriado.


publicado por Jorge às 00:05
Domingo, 26 de Julho de 2009

 

 

  O meirinho fustiga sem dó nem piedade os possuidores da leprosaria topo de gama do bantustão. Ali, uma alma penada, daquelas que não fazem mal a uma mosca, tinha passado um mau bocado e esteve vai-não-vai para se passar de armas e bagagens para o outro lado da contenda. Ouvido apurado, percebe-se que o indivíduo denuncia  tratamentos de polé comprovados. O dito senhor toma as dores de um utente da caixa que ficou às portas do caixão.
    Por todo o lado percebe-se que a populaça se dedigna ao escutá-lo: com 600 milhões de macacos, já não há respeito, onde já se viu um rafeiro ter pretensões a caniche?! Se ainda tivessem obrigado o paciente a vender um rim, para fintar a inanição! Que não, tinham-se esquecido de ministrar o soro durante a noite e numa transfusão deram-lhe o tipo errado de sangue. Ia batendo a soleta, lá isso ia, mas nada que não pudesse ser remendado a tempo, como o foi com uma mezinha alternativa. Quem assim desacredita o tratamento vendido por aquela instituição benemérita - embora a troco de grossa maquia está bem de ver -  merecia um aperto no pelourinho. 
    O impenitente orador andava com a pedra no sapato. Na semana anterior, com pompa e circunstância, tinha sido amplamente divulgada a morte das ideologias, menos uma. Conclamada a justeza da medida em fóruns de discussão licenciados, passou-se à prática em todos os fogos, em todos os dias, em todos os lados. A ideologia consentida erguia à glória dos altares os anseios e desejos dos que têm unhas para tocar guitarra, os detentores do céu cá na terra. A ciência, a tecnologia, a filosofia e até a geografia já defendem que maltrapilhos são iguais aos peralvilhos só na aparência dos sentidos, que na essência são distintos como água e azeite que se toleram, mas rejeitam.
    Mas, o homem queria a sua ideologia.
    Noutros tempos a novela evolucionista ressumava da cor da epiderme, da nacionalidade, do género e seus derivativos, do clube, do bairro. Finalmente fazia justiça a quem mais acumulou nos colchões, nos paraísos fiscais, nas sociedades corretoras, nos bancos, nas donas brancas, sejam jóias, quadros, géneros alimentares para os humanos, derivados, tabaco, CO2, ou mesmo alpista. Finalmente fazia-se justiça da elementar!
    Mas, o homem queria a sua ideologia.
    Os especialistas desenham códigos e encíclicas, propositadamente prolixos, que regulamentam as benesses celestiais aos iconoclastas do pensamento uno. Tinha sido vedado o acesso dos vírus de pestes negras, brancas ou azuis, das imunodeficiências e das gripes aviárias, suínas ou cavalares, as bactérias e bacilos e todos os microrganismos patogénicos ao topo da pirâmide social. Mas a coisa estava a ficar preta e nada garantia que as quintas das marinhas não fossem tomadas de assalto pelo lúmpen. Urgia arredar para cascos de rolhas os quais ainda eram necessários; os excedentes deveriam ser condenados a passear o resto dos dias nos desertos, nos altos mais altos, nos glaciares ou mesmo em locais que se sabia serem arriscados normalmente. Assim se fez! Uns quantos mais audaciosos propugnavam a institucionalização da roleta russa para os minguados da fortuna.
   Mas, o homem queria a sua ideologia.
   Deu-se cabal cumprimento ao espírito e letra das determinações forenses. Dado que a razão não se lhe meteu pelos olhos dentro, o estulto denunciante foi empalado, merecidamente e sem contemplações, aos primeiros alvores da manhã seguinte. Esticado o pernil, foi a enterrar em campa rasa de pés para trás.
  
   


publicado por Jorge às 23:56
Domingo, 26 de Julho de 2009

 

  Fabiano disse «aqui mando eu»! A exclamação foi acompanhada de um pontapé à campeão. Testemunhas oculares viram levitar o caixote do lixo, esse fiel depositário de papel bem timbrado, cedês último grito e quejandos que, pelas mais desvairadas razões, se tinham ali acumulado, em datas anteriores. Produtos classificados de tendenciosos ou verrinosos tinham sempre o mesmo destaque, caixote com eles! Foi o que aconteceu a um artiguelho, daquele rapazelho pretensioso, ali desembarcado há meia dúzia de dias. Foi parar ao galheiro do santo ofício. E de pouco lhe valeu a proximidade ao legítimo proprietário. Toda a gente já sabia que, enquanto ele ali durasse, a última palavra era sua, ditada pela independência dos cânones da profissão, embora, lá no fundo, até aceitasse que podia ser a penúltima ou a antepenúltima, em caso de força maior que era quase sempre.
 Fabiano disse «lá estarei»! À exclamação juntou um chorrilho de calão do mais castiço das peixeiradas, depois de desfeita a ligação da telefónica sem mãos que manteve com outro homónimo que lhe falava pouco ao coração. Não era muito dado a conciliábulos de conspiração social, mas aquele era um caso de força maior, de apostolado. A sua presença podia augurar-lhe voos mais altos. Mandar tinha sido o seu destino, bem atestado na análise ao ADN que fizera por suspeição de uma alma que pretensiosamente lhe queria impor um filho, após uma sessão fogosa de fellatio falacioso. Concordou com a confabulação aprazada para a hora da ceia, com reticências.
   Fabiano disse «assim seja»! Não respingou, não refilou, antes respirou a plenos pulmões, com a vibração sonora de quem regressa à tona, após 3 minutos sumerso na água de um delta poluído. No dia seguinte todos os médias haviam de ejacular a notícia que dava conta que o céu jamais haveria de cair sobre a cabeça de quem quer que fosse, palavra de rei. O céu, de facto, estava mais pesadão, quase irrespirável, até os abutres já se queixavam de falhas respiratórias. Mas, daí até cair ía uma grande passada. Foi essa a certeza que todos buscaram e acalentaram naquele concílio de mentores espirituais. De volta ao escritório, deitou mão ao caixote do lixo, sujou a mão em 2 bisgas, recuperou o artiguelho e fê-lo sair em todos os locais em que a empresa desfrutava.
   Fabiano não tugiu, nem mugiu, quando o dono lhe entrou de roldão porta dentro. Percebeu que o céu se vestiu de nuvens escuras como o breu. O proprietário vinha tresmalhado, acabado de perder uma fortuna danada na bolsa de CO2, apesar de uma boa dica de dentro. A malta do golfe ia pintar-lhe a manta, caso não fizesse sangue. Prometer o céu dá estatuto, mas fazer rolar cabeças dava mais.
   Cabisbaixo, Fabiano pôs uma mão à frente e outra atrás, bateu à porta do xerife, do sindicato, do desemprego, da segurança social, do avô, do banco alimentar e das misericórdias. Tanta tampa levou que se pôs quase cego, surdo e mudo. Testemunhas oculares dizem que o céu lhe caiu em cima, no exacto momento em que entrou no banco que faliu ali mesmo, naquele momento, a seus pés.
 


publicado por Jorge às 23:51
Domingo, 26 de Julho de 2009

 

 

   As contas públicas estão mal? Receita: aposte-se na solidez da receita do Estado. Como consegui-lo? Da mesma forma que a linha recta estabelece a distância mais curta entre 2 pontos, assim o curativo para este mal é bem linear: arremete-se contra os proventos dos dependentes da força de trabalho. Só estes são capazes de usar o cinto uns furos mais abaixo. As lágrimas de crocodilo não comovem ninguém.

   Não chega? Reduza-se as comparticipações municipais, regionais, nacionais e internacionais nos medicamentos, nas canadianas, pensões, nos subsídios, nos ordenados, nos óculos, nas próteses, nas bolas de naftalina. O mexilhão já tomou  gosto nisso, quando o mar bate na rocha.

   Não chega? Reescalone-se o irs, com pouco alarido, pela calada da noite, com punhos de renda, de forma que os mais baixos passem ao escalão de cima, uma promoção para todos os efeitos. Suprema felicidade essa de passar à frente de outros, sem dar nas vistas. É um garante de superioridade nas discussões de bairro, no que toca a quem é mais quem.

    Não chega? Imponha-se o trabalho por toda a vida, até às portas do paraíso, que o inferno até lá foi vivido. A vida pode ser gasta de muitas maneiras, a mandar, a rezar, a ensinar, a prender, a subornar, a enriquecer. Importa que o seja até se cair de velho. Convença-se os infantes, os púberes e os maduros que os espera a mesma receita. E que a alternativa é a lua por habitar.

   Não chega o trabalho até ao último suspiro? Venham os descontos até ao último estertor, recusa das reformas dá vantagens na linha de partida para a felicidade suprema. Em lume brando, aperalte-se com todos os requintes da poupança energética, da agricultura biológica e da alimentação racional estoutro pitéu: um segundo e mesmo um terceiro emprego que vivificam a felicidade. A alternativa do subsídio de desemprego até ver deverá ser colocada de parte, por razões de sobrevivência nominal.

    Num dia destes, deus porá na mão de possidónios possidentes máquinas pensantes capazes de gerar automaticamente todos os dividendos. Então, mais se clamará contra os excessivos excedentes de terráqueos deserdados pela tecnologia. Valerá a pena ser decretada a igualdade entre os supervenientes, cuja existência escorrerá para todo o sempre, sem défices.

 

   Dias de Melo pôs na boca de uma das suas personagens isto: «Em todo o mundo são escravos dos homens os homens que trabalham por conta de homens».

 



publicado por Jorge às 20:50
Domingo, 26 de Julho de 2009

 

    

    O xerife disse: eu sou humilde. E pôs um olhar feroz, pelo que toda a gente se riu a bandeiras despregadas

    O xerife disse: há-de nascer quem mije mais longe que eu. A esguichadela seguinte saiu-lhe flácida e directa aos pés.

    O xerife disse: um grou escreveu ao dono da Terra, para lhe dizer que pousasse a vista no sistema educativo indígena. Assim o fez o suserano dos suseranos, uma das vítimas enroladas do avastin.

    O xerife disse: ó seu caramelo, custa-lhe tanto admitir que eu tomei a medida certa? O caramelo replicou: custa-lhe assim tanto admitir que eu tenho a proposta certa?

    O xerife disse: eu sempre guiei pela esquerda. Mesmo ao lado, um sinal testemunh que todo o bicho careta ali só pode conduzir pela direita.

    O xerife disse: vamos equilibrar as contas. As contas espalharam-se pelo largo, quando tentava acomodar o fecho do colar.

    O xerife disse: não recebemos lições de ninguém. Ele tinha muito orgulho em ser analfabeto.

    O xerife disse: errámos na política cultural. Apressou-se a guardar um bilhete para o próximo concerto do marco paulo que o assessor nº 53 lhe estendia pressuroso.

    O xerife disse: falhámos na avaliação do desempenho dos docentes. Palavras não eram ditas, partiu para uma aula assistida que estava a ser transmitida em directo para todas as galáxias.

    O xerife disse: vamos emprestar dinheiro aos mais necessitados. No minuto seguinte, pegou nos tostões e foi salvar mais um banco.

    O xerife disse: demos dinheiro a rodos aos agricultores. Ninguém conseguiu encontrar um empresário agrícola em território autóctone.

    O xerife disse: até os comemos vivos. Não tardou muito que tivesse de engolir um sapo vivo.

    O xerife disse: vamos fazer um aeroporto. Uma hora volvida, decreta o fim de todos os voos de todos os insectos e artefactos parecidos  sine die.

    O xerife disse: vamos acabar com a corrupção. Não tardou que ligasse ao instrutor de Chinês, a agradecer-lhe o envio do diploma de curso completo e com excelência, feito por correspondência na semana anterior.

    O xerife disse: vou criar empregados a rodos. Acto imediato, mandou que os abonos das parturientes subissem em flecha.

    O xerife disse: vamos melhorar a assistência a todos os doentes. Fechou para cima de dezenas de entrepostos de saúde e atirou as chaves ao oceano Índico.

    O xerife disse: vamos acabar com as filas de espera. As filas de espera apresentaram queixa judicial, continuando o caso em segredo de justiça.

   

  

 

 



publicado por Jorge às 20:36
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