Sábado, 29 de Maio de 2010
O pastor de almas chegou-se a ele, sorriso mavioso, olhos brilhantes, mãos cruzadas atrás das costas e disse-lhe: - Rapaz, estamos em crises de óbolos e de almas. Precisamos que nos dês 1/3 do teu salário. Assina aqui! Assim o fez, assinou de cruz copta, a sua assinatura preferida e reconhecida, desde que se conhecia. Dava o litro para obter um lugar no céu, que bem podia ser o sétimo. Lá brotava mel e o leite de todos os endereços e adereços, sabia-o por consabida convicção. Homem de fé, desde tenra idade, achava-se no direito à desforra de um transe terráqueo de fel. Comprar o céu estava fora de questão, mas dava jeito ter um conhecimento à porta. O presidente da colectividade chegou-se a ele, sorriso estampado num rosto engelhado por múltiplas mágoas, mãos periclitantes a sufocar os gasganetes e disse-lhe: - Rapaz, estamos em crise de esféricos e de fiéis. Precisamos que liberes 1/3 do teu salário para os nossos debilitados cofres. Assina aqui! Ele persignou-se, assinou de cruz copta, a sua assinatura preferida e reconhecida, embora estivesse a matutar com os seus botões a mudança para a cruz quadrática, o que representaria tratar de muita papelada. Ele achava que o ar que sorvia, o pão que comia, a roupa que vestia, o patrão que servia eram os melhores de todos os mundos. Não percebia pevide do jogo e das jogadas a seu redor, mas sabia que a sua comunidade era merecedora da excelência. O comandante da fanfarra dos sapadores chegou-se a ele, mãos na partitura, olhos de peixe angariados à custa de bufos nos instrumentos e nas malvadezes dos seus executantes e disse-lhe: - Rapaz, estamos em crises de notas e moedas. Precisamos que nos dês 1/3 do teu ordenado. Assina aqui! Agradeceu à vida, fez sobre a face o sinal da cruz 3 vezes e assinou de cruz copta, a sua assinatura preferida e reconhecida, embora estivesse a magicar uma mudança para a cruz grega, mas desistiu por causa da crise. Que não fosse por ele que se acabassem os desfiles pedestres pela ruas do subúrbio, ou que se acabassem os desfiles de entronizar equipas de futebol ou de patriotas. E a música alegra a vida, encanta o maralhal, traz poesia e esquece necessidades. No último dia do mês dia foi visitar o indiano que não comia há 70 anos e pediu-lhe conselho. A bondade do homem venerando deixou-se comover. Ele ficou comovido, mas não resistiu muito sustentadamente à nova conjuntura. Passados 10 dias apanhava o autocarro para a vida eterna, para onde continua a viajar.Na lápide fez questão que ficasse engastada a declaração que passo a citar: Aqui jaz, aqui repousa que, além de doar, não fez outra coisa.


publicado por Jorge às 11:11
Segunda-feira, 24 de Maio de 2010
Veio o primeiro julgador e opinou ex catedra: - Saibam Vexas que branco é, galinha o põe! Caso encerrado, segue em julgado. O primeiro litigante não tugiu, nem mugiu, mas prometeu a desforra ao segundo, até ao último penny, como disse, arvorado em snob. Não foi condenado às galés, tão pouco foi deportado para as Selvagens ou malhou com o ossos no chilindró, assim perdendo a hipótese de ver o Sol aos quadradinhos, um evento cada vez mais negado aos terráqueos que se prezam. Mas, teve muito tempo para ler histórias aos quadradinhos, até ao segundo embate. O segundo litigante deu largas ao seu contentamento; não é de todos os dias que se vai à liça e se vence por KO técnico ao primeiro assalto. Posto a par das intenções do primeiro, decidiu fundar uma terceira microempresa, de forma a fazer face às despesas conjunturais, não fosse o diabo tecê-las. Mesmo assim, porque uma vitória deve trazer alegria, entrou na discoteca da sua predilecção, bebeu uns shots, esgalhou 3 piruetas dançantes com uma amiga de circunstância, ao sabor do estrilho montado por uma dj do meio da tabela, pagou uma rodada e meteu-se em vale de lençóis com a circunstante, a preparar-se para dirimir duros futuros combates. Veio o segundo julgador e opinou ex catedra: - Saibam Vexas que galinha preta põe ovo branco! Caso encerrado, segue em julgado. O primeiro litigante deu largas ao seu contentamento, de um salto se pôs em pé; não é de todos os dias que se sai a duelar a terreiro e se vence por KO técnico ao segundo assalto. Tinha lavado a honra, o adversário não tinha tido palheta para ele, tinha recolhido os despojos e preparou-se para trabalhar aos fins-de-semana num call center. As despesas da bravata judicial tinham-lhe comido a carne e os ossos. Mesmo assim, procurou nos fundilhos dos bolsos dos casacos, das calças e fatos e conseguiu arranjar uns trocos para se atirar a um rodízio repimpado e repenicado, facto que se deu no restaurante predilecto. Comeram, escorropicharam copos cheios de elixir dos deuses, inebriaram-se e foram de gatas para casa. O segundo litigante não tugiu, nem mugiu, mas prometeu a desforra ao primeiro, nem que tivesse de empenhar o carro, a mota, os electrodomésticos, o telemóvel, o laptop, o ipod, (o ipad não que ainda dormitava na embalagem virginal da Amazon). Esteve quase a cumprir serviço à comunidade, ou prestar voluntariado numa ONG, mas escapou por ter pé chato e 2 unhas encravadas, como as chinesas dos pés curtos. Não fosse capaz de melhor no próximo duelo, pagava-as todas. Veio o terceiro julgador e disse ex catedra: - Saibam Vexas que não há paz onde cante a galinha e cante o galo!Caso encerrado, segue em julgado. O primeiro e o segundo litigantes foram declarados vencedores ex-aequo do pleito. Foram levados em ombros pelos familiares, amigos e mirones. Depositaram-nos na discoteca predilecta do segundo litigante e mais tarde na casa de pasto favorita do primeiro litigante. Contas feitas, ficaram detidos na cadeia tipo guantanamo do feudo, tendo direito a bola de ferro atolada ao pernil. Tinha levado sumiço o graveto, à custa de tanta persistência. Foram vistos, muitas vezes, no pátio da instituição benemérita a esgadanharem-se os cabelos, a esbracejar a torto e a direito e a ulular ao vento que passa. Tinham voltado à liça e agora propunham-se tirar a limpo, sem interferência de terceiros, quem teria surgido primeiro, se o pinto, se o ovo, se Colombo. Havia tempo de sobra para confabulações existencialistas.


publicado por Jorge às 10:01
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