Terça-feira, 29 de Junho de 2010

   O perito elaborou 3 questões que muito interessavam à ética e à moral das tropas do jardim plantado à beira-mar. Havia que separar as águas da coisa pública que estavam a ficar muito turvas. Em tempos de crises, não se escolhem armas, mas haja quem as tente limpar. Se bem o pensou, melhor o fez.

   Veio a primeira pergunta: o seleccionador faz publicidade paga, antes da justa. E pode? Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Os sábios do folgado feudo fizeram um reparo: uma questão objectiva não pode ser impertinente. Tecnicamente a questão estava bem elaborada, mas subjazia ali um juízo de valor. Havia que erradicá-lo. A pergunta ficou redigida nestes termos finais: é legítimo ao seleccionador fazer publicidade? Os telefones crepitaram, as caixas de correio da net entupiram, as redes sociais quase colapsaram, porém a sondagem à opinião pública efectivou-se, no prazo previsto de 12 horas. A maioria respondeu que sim, apesar de acrescentar, em post scriptum, que a maquia envolvida na campanha melhor seria empregue na redenção de toda a banca, do banco da III Pessoa, em particular, e de um banco de jardim, a indicar. Assim foi feito.

    À primeira segue-se a segunda pergunta: os jogadores da selecção fazem publicidade paga, antes e durante o torneio. E podem? Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Os sábios do feudo folgazão fizeram um reparo: uma questão objectiva pode ser impertinente? Tecnicamente a questão estava bem elaborada, mas subjazia ali um juízo de valor. Havia que suprimi-lo. A pergunta ficou redigida nestes termos finais: é legítimo a um seleccionado fazer publicidade? Os telemóveis zuniram, os ipods e ipads confundiram-se, as consolas empancaram, no entanto a sondagem pública avançou, no prazo previsto de 12 horas. A maioria respondeu que sim, apesar de acrescentar, em nota de rodapé, que a maquia envolvida na campanha melhor seria canalizada para a reabilitação dos bancos alimentares, de esperma e de órgãos. Assim foi feito.

    À segunda segue-se a terceira: os ex-jogadores da selecção fazem publicidade antes, durante e depois da liça. E podem? Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Os sábios do feudo folclórico fizeram um reparo: uma questão objectiva pode ser impertinente? Tecnicamente a questão estava bem elaborada, mas subjazia ali um juízo de valor. Havia que desarraigá-lo. A pergunta ficou redigida nestes termos finais: é legítimo a um ex-seleccionado fazer publicidade, à conta dos golos da selecção? Foram feitas abordagens rápidas nas ruas, nos cafés, nas habitações, que não nos locais de trabalho, bastante vazios por aqueles dias, mas o inquérito lá se cumpriu, no prazo previsto de 12 horas. A maioria respondeu que sim, apesar de acrescentar, em anexo, que a maquia envolvida melhor seria destinada à redenção dos bancos de suplentes, dos hospitais e de dados. Assim foi feito.

    Ficou escrito na constituição do feudo folgado, folgazão e folclórico que nunca mais se produza documento por quem quer que seja, sem uma mensagem publicitária.  



publicado por Jorge às 10:26
Quinta-feira, 24 de Junho de 2010

    Juntou-se uma multidão amedrontada paredes meias com as portas do sacelo. Os promotores venderam uma catréfia de bandeiras, bandeirolas, bandoletes, efígies, tríquetros, cêdês e vulgatas com autógrafos e apógrafos. Considerando que os potentados celestiais não se apoucam com questões de lana caprina, imprecavam os circunstantes a evasão às crises estruturais, conjunturais, mensais, semanais. Esgotaram-se incensos, rituais de agradecimento, profissões de fé, novenas, renovação de votos, desfiles de bandos precatórios, sessões de autoflagelação pública e até casamentos indiferenciados. O sumo arúspice revelou, em vernáculo dialecto local e tom laudatório, a última versão sobre as verdades absolutas e as relativas à predicação, à missionação, à pederastia e às fugas para a frente. Estava-se nisto, quando os céus se abriram e deles brotou forte bátega, que se metamorfoseou, por esta ordem, em enxurrada, em inundação, em catástrofe e em questão nacional. Seguiu-se o deus dará dos aflitos, pois muitos dos presentes pressentiam o juízo final. Nunca mais foram vistos nas redondezas.

    Juntou-se uma multidão ululante paredes meias com os muramentos do paço do burgomestre. Os promotores venderam uma catrefa de cartazes, panfletos, bandeirolas, palavras de ordem, livros de memórias, garrafinhas de água, bonés alusivos, t-shirts com dizeres do estilo «Eu estive na manif» e «I love charivari». Exigiam ao mandador e sicários que desarvorassem da coutada e, se possível fosse, do orbe terráqueo. Lidas as listagens das prevaricações, foram anexadas ao cardápio de reivindicações. Nelas se dizia, a título mirífico de exemplo, que o dinheiro para alfinetes, sacado pelos sitiados aos sitiadores, era afinal usado para subsidiar lautos festins. Um decantado tribuno incitou à tomada do fortim. Os escadotes já beijavam as ameias, os mais sôfregos já pensavam em tirar a barriga de misérias, quando se deram conta que os sitiados se tinham eximido ao veredicto de desagrado da plebe. Foi quando choveram impropérios contra os arautos da rebeldaria. Salvou-os de boa um postilhão oficial que os demoveu a uma audiência em parte incerta, para entrega de uma moção, ali redigida a trouxe-mouxe. Nunca mais foram vistos nas redondezas.

    Juntou-se uma multidão cantante paredes meias com as vedações do palácio do cantochão. Os ajuntadores venderam uma caterva de autocolantes, pirilampos mágicos, luzinhas de néon, skates personalizados, discos de vinil e tridimensionais, canóculos, bejecas e britóleo aos jorros e aos molhos, além de entradas para as indispensáveis sentinas e mictórios. Uma dúzia de cantautores embalou corações, outros puseram-nos aos sobressaltos e aos pinchos. A festa pifou, à conta de um apagão, ao início da madrugada, quando já se dá os «bons dias». Meia dúzia de remelosos mecos, arrancados, pelo súbito breu, armam tal chinfrim à arte de cavalgar todos os drunfos, em menos de um fósforo, avançam para os escritórios da organização, entram pela porta do cavalo e partem a loiça toda. Depois, aconteceu o habitual tresmalho de contentes e descontentes. Nunca mais foram vistos nas redondezas.

    Juntou-se uma multidão palpitante paredes meias com os muros e vedações do campo da bola. Os ajuntadores venderam uma catrefada de canetas, isqueiros, bugigangas, psichés, cachecóis, camisolas, calções, meias, luvas, roupa íntima, preservativos de bexiga de porco, cachecóis com dizeres estilo «Sou anti, porque sim» ou «O meu clube é o maior devedor» e esféricos autografados. Uns bisbórrias acrescentaram ao menu soquetes, botas de biqueira de aço, veryligths e tacos de basebol. Fizeram-no por saudosismo e por aversão à modorra dos ventos sociais. No relvado as equipas evoluíam ao som das cornetas, ao encanto da »hola» e aos percursos da bola. Bastou que um mirone clamasse «E quem não salta é coxo!». Da diatribe assumida passou-se à acção, a confusão campeou, o fogo ateou, pelo que os zeladores do templo andavam num virote. No levantar das tendas do acampamento constatou-se que, em vez do jogo que faltava, muitos prosélitos foram ver o sol aos quadradinhos. Outros tantos malharam com os ossos na clínica mais próxima. Os que escaparam ilesos juraram que nunca mais, que preferiam caras-metades e prole. Deram aos calcantes. Nunca mais foram vistos nas redondezas.

    Por que o mundo é redondo, as 4 multidões encontraram-se à esquina. Foi quando os invasores extra-galácticos constataram que o tempo era soalheiro e que o terrunho estava ermo. A ocupação legitimou-se, enquanto Satanás esfregava um olho tiçonado.



publicado por Jorge às 10:36
Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

- Pai, não quero voltar à escola – diz a filha.

- Não pode ser, amor. Tens que te preparar para a vida, tens que saber fazer dinheiro.

- A escola é uma seca, está a cair de velha!

- Não mistures alhos com bugalhos! Na próxima reunião da associação de utentes, parceiros e gestores da escola, levanto a problemática emergente das tuas palavras junto dos pares, parceiros e gestores. Vou propor ao conciliábulo a renovação dos actuais alicerces, a modernização dos equipamentos e petrechos, a remoção do amianto e a instalação de ar condicionado. Far-se-á uma derrama, um peditório e uma venda de rifas, para que a escola sirva os sues objectivos. Vês, há sempre solução para tudo!

- Os professores são uma seca, os contínuos são uma seca – treplica a filha.

- Não mistures alhos com bugalhos! Na próxima reunião da associação de utentes da escola, levanto a problemática emergente das tuas palavras junto dos pares, parceiros e gestores. Vou propor ao conciliábulo a realização de acções de formação e informação, de visitas de estudo aos molhos, de trabalhos de projecto e projecção, retiros, de sessões de ioga, de mind games ou brain storming ou aumentos de ordenados, tudo o que for necessário para elevar o moral a ética e os costumes do pessoal. Far-se-á uma derrama, um peditório e venda de rifas, para pagamento dos honorários dos melhores formadores dos melhores institutos de aquém e além-mar. Vês, há sempre solução para tudo!

- As matérias são uma seca, os manuais são uma seca! – reivindica a filha, já ligeiramente afónica e atónita.

- Não mistures alhos com bugalhos! Na próxima reunião da associação de utentes, parceiros e gestores da escola conto levantar a problemática emergente das tuas palavras junto dos pares, parceiros e gestores. Vou propor ao conciliábulo que a escola use a autonomia para reelaborar programas, que todas as fotocópias sejam feitas a cores, que todas as aulas sejam dadas com recurso a computadores e quadros interactivos. Irei propor uma derrama, um peditório e venda de rifas, para que se transforme em realidade o sonho de qualquer humano, o de aprender aquilo que dá aprazimento. Vês, há sempre solução para tudo!

- Os colegas são uma seca, as carteiras são uma seca! – gritou a filha em desespero de causa.

- Não mistures alhos com bugalhos! Na próxima reunião da associação de utentes da escola, conto levantar a problemática emergente das tuas palavras junto dos pares, parceiros e gestores. Vou propor ao conciliábulo a implementação das estratégias de combate ao bullying, como polícias disfarçados, câmaras de vigilância, brigadas de intervenção, aumento das áreas verdes e de lazer. Irei propor uma derrama, um peditório e venda de rifas, para que o ambiente seja mais sadio e a escola disponha de materiais para fazer as suas próprias carteiras. Vês, há sempre solução para tudo!

O pai assim falou, assim o fez. Hoje a filha frequenta o ensino doméstico.



publicado por Jorge às 10:23
Terça-feira, 15 de Junho de 2010

- O meu país está mergulhado na bancarrota! – desfia o perito um.

- O meu país está mergulhado na bancarrota, há muito! – desafia o perito dois.

- O meu país esteve sempre quase sempre mergulhado na bancarrota! – desfibra o perito três.

 - O meu país esteve sempre mergulhado na bancarrota! – desabafa o perito quatro.

 Os 4 congeminavam estratégias de salvamento, num dos recessos mais convidativos do clube privativo que os acolhe, ao som de música de toque classicista que embala tímpanos e sentimentos. A melíflua melopeia é recorrentemente interrompida pela melodia dos cubos de gelo que acompanham os goles de uísque que enternecem gulosamente a sapiência.

 - O meu país está em falência, há pouco – volta à carga o perito um.

- O meu país em falência há muito está! – assevera o perito dois.

- O meu país está em falência, desde a independência – insiste o perito três.

- O meu país em falência antes da independência está - ininua o perito quatro.

A pendência teve prolongamento, ao jantar requintado, durante o qual foram servidos pratos requentados dos 4 países na berlinda. O fórum mundial debatia em exclusivo o resgate a pagar aos fazedores do mal e da caramunha, escudados na eficácia do anonimato. O infausto acontecimento decorre no mais faustoso motel da área metropolitana número um. Os média estão ali em força na porta de serviço, os protestadores encartados na porta dos cavalos.

- O meu país está na mó de baixo, (embora estivesse, durante muitos anos, habituado à mó de cima), por conta do serviço da dívida, da produtividade rasteira, das rasteiras das bolsas visíveis e dos trusts invisíveis – espenica o perito um.

- O meu país está na mó de baixo, (embora se tenha habituado, durante meses, à mó de cima), por conta do retracção da procura interna, da fúria da oferta externa, das bolsas visíveis e dos trusts invisíveis – expende o perito dois.

- O meu país está na mó de baixo, (embora, por uma escassa semana, tenha estado na mó de cima), por conta da economia paralela, da fuga às contribuições da segurança social, das bolsas visíveis e dos trusts invisíveis – espenuja o perito três.

- O meu país está na mó de baixo (embora, por uma escassa hora tenha estado na mó de cima), por conta dos impostos por pagar, das bolsas visíveis e dos trusts invisíveis e das ironias do destino – exprime o perito quatro.

Puseram-se a fazer das suas: fitness, pilates, lobbying e marketing. Por fim dedicaram-se a estratégias de alcova para desopilarem. O dia seguinte estava reservado às conclusões, às recomendações e aos apelos às potestades.

- Para o meu país recomenda-se uma restrição nos privilégios: acabe-se com os feriados e com as férias; assim, ninguém seria autorizado a pagar ou receber subsídio de férias - diz o perito um.

- Para o meu país recomenda-se uma restrição nos privilégios: acabe-se com o Natal e festividades adjacentes; assim, ninguém seria autorizado a pagar ou receber 13º mês – rediz o perito dois.

- Para o meu país recomenda-se uma restrição nos privilégios: acabe-se com o Estado: assim, ninguém seria autorizado a integrar o funcionalismo público – induz o perito três.

- Para o meu país recomenda-se uma restrição nos privilégios: acabe-se com os ordenados: ninguém seria autorizado a ser remunerado por trabalho prestado – proclama o perito quatro.

A preceito e por fado, no dia seguinte, foram todos feitos ministros da fazenda pública dos respectivos potentados. Pediram asilo político de imediato.



publicado por Jorge às 10:01
Domingo, 06 de Junho de 2010
Escreve a bom escrever o bom do coelho numa tarde soalheira, recostado a uma tília frondosa que prolonga uma sombra cobiçável. Eis senão quando ladino raposo, dominador de vastas fazendas, se aproxima em pontas de pés, acabadinho de sair da sessão de balé. Pelo canto do olho, o roedor apercebe-se da manobra de ciranda e do destino que o canídeo lhe quer traçar. Aguenta firme a investida o presumível pitéu. Diz o carnívoro, usando uma estratégia viperina: - Olá, coelhinho aplicado! Que fazes? Em tom preclaro, vem a réplica do herbívoro: - Escrevo a minha tese de pós-graduação. - Pode saber-se que tese é essa? – reponta o do regime carnívoro - «Os coelhos são predadores de raposos e espécies correlativas» - esclarece o do regime vegetariano. Rebola-se de tanto riso o canídeo, ao ponto do seu pêlo vermelho mudar para castanho e vice-versa. Jactante, aconselha: - Não vás ao médico não! Ao conselho o leporídeo responde com um convite. - Vem à minha toca e aí encontrarás as provas irrefutáveis que tenciono apresentar. Impante, o raposo segue as pisadas do coelho, até ao tugúrio. Palavras ainda não eram ditas, solta-se o assombro e segue-se, por esta ordem, o desossamento, o último requebro, a degustação de carnes requentadas e as eructações sucedâneas a uma opípara refeição. Da lura não sai mais ninguém, a não ser o coelho, embevecido, de orelhas espevitadas, pronto a retomar a tarefa interrompida. Põe-se de novo a escrever, desta feita, à sombra de uma bananeira de jardim, na tarde que se põe ventosa. A pituitária alerta-o para o andar gingão de uma loba, possuidora de imensas fazendas e possessa de grande curiosidade sobre cunicultura e suas aplicações culinárias. Vinha mesmo a calhar o petisco, ali armado em intelectual. Em jeito de meter conversa, arrota em tom marialva a leporina criatura: - Olá, coelhinho aplicado! Que fazes? Vai daí, em tom de falsete estudado, responde o semeador de caganitas: - Escrevo a minha tese de pós-graduação. - Pode saber-se que tese é essa? – responde o do regime carnívoro. - «Os coelhos são predadores de lobas e espécies correlativas» - esclarece o do regime vegetariano. Saracoteia-se de puro gozo a canídea, ao ponto de sua pele negra mudar para cinzenta e vice-versa. Ciente do seu poder encantatório, arremete em tom persuasivo: - Erros de médico a terra os cobre! Ao que o leporídeo respondeu com um convite. - Vem à minha toca e aí encontrarás as provas que tenciono exibir. Enfarpelada na sua prosápia, a loba segue o coelho até à lora, iam já as cataratas salivais em processo de erupção. Palavras ainda não eram ditas solta-se o assombro e segue-se, por esta ordem, o desossamento, o último requebro, a degustação de carnes requentadas e as eructações sucedâneas a uma opípara refeição. Da lura não sai mais ninguém, a não ser o coelho embevecido nas suas orelhas espevitadas, pronto a retomar a tarefa interrompida. Ao lusco-fusco, uma sombra esgueira-se a muito custo da toca. Pelas pilosidades da venta e pelo garbo magnífico, dir-se-ia bicho caudado; pela imponência descobre-se o estilo leonino de grande orientador de teses hagiográficas. Em gesto magnífico, palita os dentes, enquanto atira ao aterro as ossadas e as peles sanguinolentas dos predadores pouco precavidos, enquanto balbucia um sentido «paz às suas almas»! Tivesse moral esta estória e ela não diria: 1 - quem não quer ser lobo não lhe vista a pele; 2 – raposa de luvas não chega às uvas; 3 – se seguisse os conselhos da raposa, o leão seria astuto.


publicado por Jorge às 10:18
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