Terça-feira, 27 de Julho de 2010

   A primeira personagem propôs a semana-inglesa, cansado da exploração hebdomadária imposta sem rebuço, nem tibiezas, pelos ases de trunfo.

   A segunda personagem reivindicou a implementação da semana-inglesa, sem acrimónia, fiada na parcimónia dos intervalos de lazer e prazer, ao longo da hebdómada.

   A terceira personagem tenteou a semana-inglesa, na sua coutada, depois de perceber que tecnologias novas geram rendas mais capitosas, com menor dispêndio de energias.

   A quarta personagem mandou pôr em letra de forma os preceitos da semana-inglesa, mediu-lhe os proveitos e aplicou-a sem preconceitos.

   A quinta personagem disse que era bonzinho, dado que as mais-valias suplantavam as menos-valias, em regime de democracia.

   A seguir surgiram as variantes de estilo «muda o disco e toca o mesmo».

   A primeira apodaram-na de semana americana, com folgança durante todo o santo dia de sábado, dando de barato e ao desbarato o dia oficial de parança. A expressão não se popularizou, mas a sua prática vingou, pois vinha depositado nos cistrões a certificação de garantia. É assim que acontece com as denominações de origem protegida.

   A segunda alcunharam-na de semana espanhola, a da alternância entre 48 horas com outras 40 de labor hebdomadário. O inventor desabafou com alguém da sua entourage que, depois de carapaus, mexilhões, bacalhau, molho, frango, padrinho, eliminação e crise à espanhola, vinha mesmo a calhar uma semanada nos mesmos moldes.

   A terceira esteve para ser nomeada de semana dinamarquesa ou mesmo xinamarquesa. Ela era sobretudo um convite à negociação das tarefas e das horas de labor, ao longo do ano. O artífice quedou-se por flexisegurança, epíteto que proporcionou reacções contrastantes: os especialistas e intérpretes chamaram-no de anódino, inodoro e insípido; cheio de verve e músculo acharam-no os contratantes.

    A quarta quase foi alomeada de semana chinesa. Ausente das pautas, dos alfarrábios e calhamaços das ciências da laboração, o termo trazia no bojo a ideia de homenagem ao trabalho. Dez horas de adrenalina quotidiana, no mínimo, trazem promessas de felicidade, de prosperidade fortuna e dores de cotovelo aos outros («se tens inveja do meu viver, trabalha, malandro»!).

     A quinta há-de receber a seu tempo a alcunha de semana indígena. Assim será feita justiça à pertinácia de quem inventou novos mundos, lágrimas salgadas, adamastores, velhos do restelo e a globalização. A cena proporcionou-se quando o derradeiro tetrarca afastou, com a prestimosa ajuda da sua grande barriguinha, as tenebrosas névoas madrugadoras que instilavam a insipiência, a indigência e a modorra nas almas dos súbditos. Harto de injustas qualificações internacionais, alguém o ouviu gritar, quando tomava reconfortante banho de imersão «alto e pára o baile»!

     Foi esse o ponto de partida para a transfiguração. Montou o velho espírito messiânico que impregnava o húmus dos céspedes e atirou-se às fauces do Minotauro anticíclico, sem tardança e com menor rebuço. Completada a frequência de um retiro espiritual, tinha-se mudado de armas e bagagens para o lado da barricada dos profetas que previam o fim do mundo antes de 2013, caso o pecado venial não fosse expurgado da crosta, do manto e do núcleo terráqueos. As teses, antíteses e sínteses em voga imputavam o pecado venial ao alastramento do vírus da dívida. Não havia vacinas para tal quebranto, a salvação adviria da esterilização dos bondes, dos cuidados intensivos da produção maciça e do entubamento das massas. A exorcização do igualitarismo na divisão dos emolumentos completava o edifício teórico.

     De uma penada impôs: 10 horas obrigatórias de trabalho de domingo a sábado, pagamento horário igualitário, fim dos feriados, regressão salarial anual, férias pagas à empresa pelo trabalhador, fixação de residência nos locais de trabalho, pagamento de tenças e bulas próximo do limite superior e fim dos sindicatos, das sindicâncias, das previdências e das providências.

     Numa primeira fase a economia vicejou, as lágrimas ao canto do olho soçobraram e ninguém se deixou abater por desfalecimento. Todavia, a banha da cobra não vingou como esperado nos mercados, pois os níqueis dos outros grudavam-se aos colchões e fronhas e as bolsas fecharam-se nos cordões. A falência destilou a sua peçonha, não sem que antes Prestes João se tenha decidido à aquirição dos estoques presentes e futuros.



publicado por Jorge às 23:41
Sexta-feira, 09 de Julho de 2010

1 - «Vai para a tua terra» - repetiram uns aos outros os vizinhos daquele bairro clandestino, recentemente legalizado. Em nome da boa vizinhança, todos fizeram questão de levar à letra o pregão. Ao fim de uma semana, tinha nascido mais um bairro-fantasma…

2 - «Sorriso perfeito, família feliz» - dizia o cartaz. Ela, assim que leu o pregão, pensou em publicidade a uma das muitas crenças que pululam em tempos de crise. Cinco minutos depois, deu-se conta que tinha aberto mais uma clínica de cuidados dentários nas redondezas. O dono tinha-a batizado assim…

3 – «Somos todos ricos» - acentuava aquele émulo esforçado de Agostinho da Silva. «Quem não tem os seus filhos, o seu médico, o seu carro, a sua casa, a sua rua, o seu patrão, o seu bairro, o seu professor, etc?».

4 – Argumentação de um comentador, num programa de grande audiência televisiva, da tarde: «Há 4 estações, 4 fases da lua e 4 modas principais. Ora digam lá que a moda não é guiada pelos astros?»

5 – Exemplo de criação de riqueza em Portugal:

      . 0,33l de água natural, marca X, custa, na mercearia, 10 cêntimos;

      . 0,33l de água natural, marca X, custa, na cafetaria, 70 cêntimos;

      . 0,33l de água natural, marca X, custa, no restaurante, 1 euro;

      . 0,33l de água natural, marca X, custa, em restaurante com chef, 5 euros.

6 – Altos pensamentos:

      . Sardinha é mais barata, porque chega à mesa de todos.

      . Cherne é mais caro, porque é pescado por cotas.

      . Se chamas «Enfarta Brutos» à tua casa de repasto, não contrates um chef.

      . Sardinhas, alho porro, manjericos e alho porro não vão às festas de reis.

      . Com excepção de Buda, por que razão são os deuses sempre magros?

7 – A quadratura do círculo: O ministro diz que a qualificação resolve a questão das desigualdades sociais. Ora, o desemprego é cada vez maior entre os populares mais habilitados. Logo, as desigualdades são incorrigíveis.

8 – Um movimento islamita fundamentalista da Eritreia diz que os homens devem deixar crescer a barba, por restrição divina. Os sikhs não cortam cabelo algum do corpo, por restrição divina. Os credos de inspiração cristã facilitam a depilação de homens e mulheres. Ainda dizem que deus não foi concebido à imagem e semelhança dos homens…

9 – A propósito da economia portuguesa, um comentador conta a estória que se segue: Era uma vez um burro a dar para o famélico que encabulou e só dava passadas para os lados e para trás. Fazê-lo andar para a frente estava a revelar-se o cabo dos trabalhos. No entretanto, a mercadoria jazia nos armazéns sem despacho. Escarranchado na sela ou aferrado à garupa do asinino bicho, o dono suava as estopinhas para o demover da caturrice. Até que se fez luz: se não é do malho é do malhadeiro! À frente da cabeçorra do jumento, plantou uma reboluda e bojuda cenoura, atada a uma ripa por um fio de nylon. O burro esgadanha-se, fere os cascos, extenua-se, parte-se todo, mas desembesta, em busca do pitéu. Só que a magana da rebolona persiste em fugir-lhe à dentuça alvar. No fim do primeiro trajecto, o dono atira-lhe um punhado de cenouras tísicas. Nos dias seguintes, usou a mesma estratégia. Passadas largas luas a mercadoria foi entregue e o asno continuava mais mirrado que nunca.

10 – Disse um renomado pensador: A economia portuguesa actual foi acometida do síndroma de Tântalo: quando se julga que vai aportar a fonte refrescante ou saciar a fome de crescimento, aparece uma mão que leva os objectivos para mais longe.

11 - Dúvida metódica:

                         O presidente falou do insustentável peso da economia? Ou:

                         O presidente falou da insustentável economia do peso? Ou:

                         O presidente falou do peso da economia insustentável? Ou:

                         O presidente falou da economia do peso insustentável? Ou?...

12 –Dois peritos afinam palpites:

      - 66% de portugueses contam passar as próximas férias em casa.

      - Porquê?

      - Por que estão de pés bens assentes na sua santa terrinha…

13 – Zé e Tó conversam, ao pequeno-almoço:

        - O Queiroz pôs a selecção a jogar um futebol maravilhoso - começa Tó.

        - Desde quando? – critica Zé.

        - Desde que se tornou seleccionador – volve Tó.

        - Mas tu dizias o contrário, há 2 meses atrás – concede Zé.

        - Sim, mas nessa altura ainda não tinha ganho por 7-0… - retruca Tó

14 – Zé e Tó conversam, ao almoço:

        - Queiroz não é nacionalista - opina Zé.

        - Porquê? – questiona Tó.

        - Não mandou pôr bandeiras nas janelas – replica Zé.

        - Então o seleccionador anterior era nacionalista – diz Tó.

        - Sim! – confirma Zé. - Mas era e é brasileiro – afirma Tó.

        - És um porco chauvinista! – remata Zé.



publicado por Jorge às 10:57
mais sobre mim
Julho 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
28
29
30
31


pesquisar neste blog
 
subscrever feeds
blogs SAPO