Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

1 - O homem vingou-se. Enterrou a espada até aos copos nas carnes flácidas da vizinha, recomendou aos espíritos penados a alminha da homicidiada e fugiu para o brejo mais longínquo. Aí despejou o saco: chamou pelo Gregório, arranhou as faces, arrepelou os cabelos todos, rasgou as vestes e confessou-se culpado, ante o vento que passeava basto tranquilo. Quando foi encontrado pelo regedor, apresentava a roupa polvilhada de leucócitos e hemácias, as trunfas empapadas em sangue dessecado, os borzeguins encharcados de sangue esmarrido, as mãos e as unhas esborratadas de sangue ressequido.

   Exangue, incapaz de dizer coisa com coisa, prostrou-se perante o regedor. Recompôs-se um niquinho e cedeu à tentação de tudo cantar, há quem diga que com a prestimosa ajuda de um par de tabefes (para a sossega). Confessou ter mandado para os anjinhos a donzelona que o destino levara a habitar a casa adjacente à sua (que deus a tenha!).

   Sem se deter um só momento, asseverou que o feito nada teve de passional. Ele e a sujeita com quem vizinhava tinham-se limitado a justar por conta de umas árvores de folhagem decídua, por ela plantadas na extrema das 2 propriedades. À conta das folhas secas que não obedecem a fronteiras, mas sim aos baldões do vento, passou-se das raias (que deus a tenha!).

   Por acaso, havia lá por casa uma arma oferecida por um primo que era amigo dum enteado de um praça da Guarda. Não tinha licença, mas sabia usá-la, é como limpar o rabiosque a um infante. Mas preferiu a arma branca para cumprir o vecinocídio, por mera questão simbólica, a calhastriz jactava-se de nunca se ter servido de homem (que deus a tenha!).

   «Alto e pára o baile!» - trovejou o comissário, cansado de dar à unha, de gastar cargas de canetas e de ouvir o tropel de palavras e de confissões que brotavam em catadupa das comissuras labiais do gemebundo feminicida. O homem assinou a confissão, depois de lida nos termos legais. Então desacordou e entregou-se nos braços de um delíquio profundo. Voltou à vida, atingido de supetão pelo cheiro fétido das fezes acumuladas na lata que fazia de latrina da masmorra, à volta da qual se tinha reunido uma turbamulta que lhe jurava pela pele (que deus lhe perdoe!).

    Um dia antes do fecho oficioso da prisão preventiva, contada em dias úteis, o homem apresentou-se em primeira audiência com ar de poucos amigos. Aos costumes disse nada e nas sessões seguintes mais nada disse, nem um vagido soltou. Foi então que se soube que um gato lhe havia comido a língua. Em conformidade, foi mandado em paz (que deus lhe perdoe!).

2 – Os rapazes bateram forte e feio nos zelotes de instalações que se lhes antepuseram, quando saiam do redondel. Eles sabiam da poda, pontapeavam por pão e vocação, bolas para um alvo de mais de 7 de largura, por 2 e muitos picos de altura. Naquela jornada desportiva a coisa dera para o torto.

   Tinham-se passado dos carretos, tinha-se por certo! A ambição cerra o coração, queriam os títulos todos para eles e eles a fugirem-lhes, sem respeito. Com despeito seriam tratados pela agremiação que lhes pagava o soldo, se insistissem em perder limpidamente mais qualquer jogatana, mesmo a feijões. Esperava-os o degredo dos grilos derrotados a leste.

    Tinham-se passado dos carretos, tinha-se por certo! As câmaras gravaram a tosa de criar bicho, em directo. Meio mundo assistiu aquela soirée nos lares de todas as idades, nas tascas de todos os níveis sociais, nos hospitais públicos ou privados, nas ruas, avenidas ou auto-estradas e nas casas de todos os escalões monetários.

    Tinham-se passado dos carretos, tinha-se por certo! Os julgadores de serviço entenderam não haver volta a dar: deixaram-nos a pão e água, durante fartos dias, semanas e meses. À conta disso, houve sessões públicas de desagravo: amigos, familiares e entidades detentoras de direitos de compra e venda disseram cobras e lagartos dos encarniçados julgadores de primeira instância, dos seus protegidos e protectores. Temeu-se mesmo uma algazarra geral, a partir das radas boreais.

    À conta disso, no dia do juízo final entraram cabisbaixos, mas saíram de cabeça erguida. Foram devolvidos os pontos perdidos à entidade empregadora e o tempo não teve outro remédio senão voltar atrás. Em aditamento para as actas, 3 éfetas declararam ter reunido provas de que os zelotes de instalações jamais tinham assumido uma existência material.



publicado por Jorge às 17:53
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