Domingo, 26 de Junho de 2011

   Ocorria uma desgraça no Suriname? Ele e a sua organização esportulavam uma pipa de massa, tentando animar e a remediar. Dependia duma entidade que lhe permitia não ficar de mãos atadas em situações de aperto. Sentia-se vocacionado para a prática do bem e atirava-se a ela.

   Ocorria uma catástrofe nas ilhas Salomão? Aqui me vou a dar uma mãozinha, com a minha malta, é garantido. Teria de viajar para os antípodas, mas pouco importava, havia vidas em perigo e exigia-se pertinácia e brevidade na acção. Sentia-se vocacionado para a prática do bem e atirava-se a ela.

    De todas as vezes que falava, na hora da partida para nova missão humanitária, aparentava sorriso lesto, vidrinhos brilhantes e olhos comovidos. Nos intervalos que desfrutava entre 2 viagens humanitárias, ninguém lhe punha a vista em cima. Sentia-se vocacionado para a prática do bem e atirava-se a ela.

    Um dia encasquetou a ideia de que a borrasca tinha batido à porta dos compatriotas e ele podia socorrê-los. De ar pachola, anunciou que se candidatava a xerife, cargo que lhe ficaria a matar. Sentia-se vocacionado para a prática do bem e atirava-se a ela.

   No dia D, recolheu boa bolada de votos, mas não foi primeiro, o que não lhe nublou um pouco o sorriso. Confessou que ficava reconhecido a quem por ele se tinha decidido. Impante de orgulho, apesar de tudo, garantiu que um dia voltaria à carga. Sentia-se vocacionado para a prática do bem e atirava-se a ela.

   A próxima experiência caiu dos céus aos trambolhões. Tinham sido convocadas eleições gerais, porque o maioral estava queimado. Convenceram-no a terçar armas por uma boa causa, em troca da chefia da duma. Aceitou sem pestanejar, enquanto o diabo esfregava um olho. Sentia-se vocacionado para a prática do bem e atirava-se a ela.

   Participou em arruadas, em comícios, em acções de porta-em-porta e sessões de esclarecimento caseiras. As sondagens convenceram-no que a vitória do partido que tomou para si estava no papo, o que veio a suceder. Sentia-se vocacionado para a prática do bem e atirava-se a ela.

  Os mandatários da sociedade civil fizeram, em urna, a votação para a chefatura vaga. Para sua mágoa, não conseguiu os votos necessários, nem à primeira, nem à segunda tentativa. Quando abandonou o edifício da contagem dos votos, olhou para trás e viu que uma criança e uma galinha disputavam um bocadinho de pão. Intrigado, seguiu em frente e só mais tarde soube que tudo não passara de uma miragem.

 



publicado por Jorge às 11:11
Domingo, 26 de Junho de 2011

 Inspirações

         1 - A locutora de têvê leu uma peça na qual se afirma que, por cada feriado, dia de fim-de-semana ou de tolerância de ponto, a nação perdia largos milhões de dracmas. Fez-se luz nos neurónios cerebrais de Betina: agora já entendia essa bizarria da mais-valia.

         2 - A utente disse que não achava justo que, tivesse esportulado uma mão-cheia de dracmas para comprar um título de transporte e que as transportadoras não a levassem ao locais do costume, em dia de greve. A seu lado, o porta-voz da transportadora depôs seraficamente e atribuiu as culpas aos colaboradores e seus representantes. Fez-se luz nos meus neurónios cerebrais de Quitéria: essa bizarria do marketing não era pilhéria.

         3 - Os colaboradores daquela empresa de expressos insistiam, em tempo de crise, à revelia da ética e dos bons costumes, na paralisação das suas coadjuvações. Aconteceu uma, duas, dez vezes. Um dia a tutela governamental cedeu estrepitosamente e os gerentes da empresa foram autorizados a aumentar o soldo dos colaboradores. Fez-se luz nos neurónios cerebrais de Vicência: agora já entendia que persistência nem sempre se confunde com penitência.

         4 – O povo unido jurou que nunca mais seria vencido. Mas, esse povo agiu com displicência: substituiu as moscas da cozinha e deixou a casa tal e qual. Até que um dia o povo unido se declarou vencido e convencido que a um passo atrás nem sempre corresponde dois em frente. Ou que a casa não se remodela só porque o lixo foi para debaixo do tapete. Fez-se luz nos neurónios cerebrais de Antão: ninguém abre mão do seu belo quinhão.

 

 Rigor

    a) - O repórter perguntou a um senhor bem-posto o que desejava que fizesse o novo condestável que se dispõe a gerir a crise:

    - Que aprenda Português!

   Acto imediato, deu 2 exemplos taxativos da falta de rigor gramatical atribuídos ao novo homem forte da governação.

    b) - O repórter perguntou a um senhor dirigente partidário que nunca esteve em qualquer executivo o que pensa do novo governo que se dispõe a gerir a crise:

     - Preocupa-me a falta de experiência!

   Acto imediato apontou um a um os infractores que eram a maioria.

    c) - O repórter perguntou ao jovem contestatário -  que, incansável, proclamava aos 4 ventos que a democracia ia nua -  qual era a alternativa.

     - Queremos o Banco Mundial, em vez do FMI, a OCDE em lugar do BCE e a ASEAN em substituição da UE.

 

Consta que:

i)  - as centrais sindicais vão passar a contratar os grandes cantores românticos para as grandes manifestações na grande avenida;

ii) - os grandes craques contratados pelos grandes clubes exigem grandes contratos indexados às grandes taxas pagas pelos empréstimos da grande dívida soberana;

iii) - alguns grandes nomes da política profissional ficaram alarmados com as grandes reformas impostas pelo grande irmão que continua grandemente alarmado e não aceitaram grandes cargos;

iv) - ao grande conquistador da bola, do Minho a Timor, foi presenteado com um grande contrato e aceitou ir treinar um grande clube, depois de renovado os votos de grande amor que tinha pelo grande clube chefiado por um grande magano;

 

Penitência

   O grande chefe das causas fracturantes ajoelhou-se no genuflexório, bateu com a mão no peito e confessou o seu pecado: fez mal em ter recusado a trindade. Mas, estava repeso. Aceitou, em conformidade e humildade a penitência imposta contra semelhante apostasia:  durante uma legislatura, teria de descontar para o rendimento mínimo dos tribunos seus apaniguados que o serviram na duma e perderam o emprego.

 

Na hora certa

    I - Um movimento de malta de gente catita ultima os estatutos do movimento que querem divulgar neste verão. O programa começa assim: «Propomo-nos lutar pelo fim aos chumbos no ensino; chumbos só nas canas de pesca!»

    II - Duas mulheres (aparentemente ligadas à profissão mais antiga do mundo) tinham morrido carbonizadas num sótão. Foi quando se ouviu o comentário daquela mulher misógina:

  - Voltou-se o feitiço contra o feiticeiro. De tanto pôr os homens em brasa, acabaram chamuscadas.

 

Tasquinhadas in:

     - Somos mesmo um país de labregos! Em vez de desfiles marciais, ou de moda, ou mesmo de descamisados na avenida principal, fez-se uma exposição pimba, um piquenique pimba, durante o qual se ouve música pimba, alguns dias depois de desfile de marchas pimba!

    - Somos um país de igualitaristas! A justiça não funciona para todos, é justo! As leis são, de facto, feitas para servir o peixe graúdo. O espírito da lei, os decretos-lei, os regulamentos protegem quem deve ser protegido e mais nada! A arraia miúda, - quanto muito -  só tem direito a bónus. Por exemplo, aos implicados no caso Colombo, saiu a sorte grande!

 

Ideias fixas

     - A democracia é um regime político imposto a todos, em nome da liberdade de reduzido número dos detentores do poder.

    - A monarquia é o regime mais decantado, por ser pouco usado.

    - Para a política profissional vão todos aqueles que dão poucos erros nos ditados.

    - Só as falsas réplicas apresentam dona Justiça de olhos completamente vendados; no original um deles está destapado.

    - As grandes reformas são como as campanhas de vacinação: aliviam, mas não curam.

 

Aquela máquina

            O homem reinou absolutamente em nome dos mal-afortunados. Para sua má fortuna, num belo dia do messidor, foi corrido à pedrada pela turbamulta que lhe invadiu os paços e não deixou pedra sobre pedra.  Só conseguiu levar a farpela que tinha entranhada na pele e era de marca registada, patenteada e socialmente valorizada. Antes de alcançar a entrada secreta que dava para o túnel secreto que terminava no deserto secreto (onde, nos seus tempos áureos, se recolhia, para colher ideias), voltou-se para os seus sequazes e, no volume máximo das cordas vocais, gritou-lhes: «Adoro-vos!». Soube-se mais tarde que foi tragado por areias movediças.

           O homem quis ser figura grada das capelinhas do mando. Sempre acreditou que, quando se sonha, a obra nasce. Ele soltou fantasmas, liberou dragões, vendeu bruxas e casas assombradas, para manter-se à tona de água e conseguiu pôr-se à frente de todos. No dia e hora da verdade, o galo cantou. Então soube que tinha atraiçoado muitos fiéis. Apanharam-no descalço, de calças na mão, a caminhar pela verdura. Deram-lhe com os pés, ataram-lhe uma mó de moinho à volta do pescoço e atiraram-no ao charco. Ainda continua a lutar pelo seu destino fatal, prodigalizado pelos vates supremos: o de vil e apagada figura.

  

Coisas de  pascácios  

    Naquele país, as provas só faziam fé, quando o capitango as autenticava. Um dia, foi-lhe presente um falsificador, acompanhado de uma mala de porão, prenhe de notas de 500, laboriosamente forjadas na tipografia de grande renome. O falsário saiu multado numa nota de 20 por se ter provado que a mala era de imitação. Pagou com uma nota de 500.

    Naquele país o copianço era evitado por sistema no ensino inferior e impedido por aparência no superior. Um dia soube-se que os auditores de justiça  tinham cabulado num teste de cruzes. Os candidatos, copistas ou não, todos foram corridos a 10, o que deixou meio mundo de cara à banda. Até que o sentido de justiça se impôs e o teste vai ser repetido e conterá apenas perguntas de desenvolvimento. Teme-se pela sanidade dos correctores.

      



publicado por Jorge às 10:32
Domingo, 26 de Junho de 2011

 

  O mister conseguiu coisas dantes nem sonhadas para o clube. Com meia dúzia de compatriotas de raiz, uma mão-cheia de outros compatriotas de registo e alguns estrangeiros fez uma equipa guerrilheira de fartas proezas, embora a sala de troféus estivesses apenas repleta de teias de aranha.

   Os mídia não se cansaram de apregoar os seus feitos e, por uma questão de feitio, tentaram demonstrar que mais vale uma equipa de tostões do que de milhões, quando se exsuda empenho. Também pode chegar metade de engenho e outro tanto de empenho. Só capacidade e displicência não chega. Para além de uma boa organização, de preferência de modelo siciliano.

   O cobiçado mister disse que sim a um convite para treinar uma agremiação adversária, de historial mais comprido, mas de feitos parcos em tempos de vacas magras, mas fez correr sobre o assunto um silêncio de vestal. Os homens da informação faziam-lhe perguntas sobre a sua continuidade à frente dos destinos do clube que trouxe para a ribalta e ele moita carrasco!

    Um dia, tinha ele mudado de aros, descoseu-se. Na sequência confessou que mudaria de ares, sem especificar as características dos mesmos. Logo a malta da comunicação social se entregou às artes da adivinhação, munidos de cartas de tarot, búzios, conchas e outras parafernálias que fazem o género.Mas, as gentes de Olhão apontaram à capital do reino.

   No último dia daquela semana, era forçoso que mandasse avançar as suas tropas, no seu terreno, contra as do futuro clube, na disputa de posições pouco decorosas, no universo das classificações acima de metade da tabela. O mister foi visto a arrepelar as melenas, a cofiar os bigodes juvenis, a coçar os pêlos do peito que se atreveram a crescer após a última aplicação de desfolhante piloso e chegou mesmo a roer unhas e os sabugos dos dedos de pés e mãos. Deu algumas voltas ao bestunto, após o que entrou em meditação profunda.

    Decorridos 2 minutos da disputa,  o atilado mister atirou-se de cabeça perdida ao árbitro, quando este acabava de transformar um pontapé de saída em corner, do qual resultou o único golo da contenda, favorável aos forasteiros. Depois da expulsão, promoveu um piquenique nas bancadas com as claques dos 2 emblemas, para festejar a partida de porto seguro e a chegada a mar alteroso.

     Tudo isto se passou, numa época em que deus e o diabo conviviam à saciedade.

 

 



publicado por Jorge às 10:21
Domingo, 26 de Junho de 2011

      - Reavaliação das políticas sociais tendentes a pôr cobro aos bairros degradados;

      - Imposição do plano «Comer bem é mais barato» a todos os lares;

      - Criação de um gabinete interministerial que trabalhe com afinco na campanha «Como viver do ar»;

     - Lançamento da campanha «Uma sardinha dá para sustentar uma família»;

      - Encomendar estudos científicos que demonstrem ser ruinoso para a saúde comer mais que uma vez por dia;

      - Realização duma conferência internacional «Bula apenas no trabalho», cujo principal orador seria o guru Prahlad Jani que não se alimenta, há mais de 7 décadas; 

      - Promoção da alimentação crudívora;

      - Incremento à produção de hortícolas nas varandas e marquises;

     - Encerramento de matadouros, aviários e outros estabelecimentos de abate de animais comestíveis;

     - Extensão das prestações das casas por pagar a até ao fim da crise; 

      - Promoção campanhas de sensibilização sobre as vantagens da imigração para aos países de partida;

      - Promoção da caça aos gambuzinos;

      - Constituição de brigadas que, à falta do tgv, possam marrar com o comboio de Chelas;

      - Substituição dos recibos verdes por amarelos;     

      - Transformação dos centros comerciais a centros de peregrinação ou monumentos nacionais;

      - Lançamento de uma campanha de sensibilização no sentido de induzir nas profissões liberais à declaração dos rendimentos de facto conseguidos;

     - Lançamento de uma campanha de sensibilização no sentido de induzir os gancheiros a passar facturas dos serviços prestados;    

     - Regulamentação dos subalugueres, com vista a ganhos de operacionalidade;

      - Regulamentação do regime de gorjetas nas casas comerciais e sua proibição nos serviços governamentais;

     - Promover a entrega de ouro usado nas repartições oficiais, para alívio da dívida soberana;

     - Encorajar o regresso ao velho chaço, às calças remendadas, às meias solas nos sapatos, aos candeeiros de petróleo e à comidinha feita a lenha, com oferta de um cd que contenha, entre outras melopeias, o fado «Ó tempo, volta para trás!»;

     - Lançar campanha pela redução das práticas sociáveis de grande consumo calórico;

     - Certificar a prática diária de actos de caridade;

      - Triplicar a dose de eventos desportivos, concursos de filarmónicas, festivais de folclore e de piqueniques nas baixas das cidades e nos altos das serras;

      - Organização de concursos sobre a obra do Camões, para reanimar a auto-estima,

     - Lançar campanhas de alindamento de caminhos vicinais, monumentos naturais e nacionais destinadas a arrumadores de automóveis, beneficiários do rendimento mínimo e reformados de favor.

     - Aconselhar a adopção do triplo emprego;

     - Dirigir as famílias privadas de habitação para as aldeias-fantasmas;

     - Ampliar os poderes da Autoridade Nacional da Protecção Civil no combate à inflação;

     - Erradicação de feriados e férias e multas às entidades que se atrevam a pagar subsídios;

     - Abolir todos os direitos laborais, com excepção da obrigatoriedade cívica de trabalhar;

     - Promover o pagamento coercivo das dívidas ao fisco;

     - Vedar as férias a quem não tenha comprovadamente rendimentos elevados;

     - Reduzir a pegada ecológica aos níveis do século da nacionalidade;

     - Prometer o céu ou a reforma, em alternativa;

     - Combater na estranja a falsificação de produtos nacionais;

     - Pôr o jet set a publicitar gratuitamente marcas portuguesas a criar;

     - Tornar obrigatório nas escolas o ensino de combate à corrupção explícita e velada;

     - Embelezar os espaços habitados e promover cursos de saber rir perante a desgraça da gente.

 

 



publicado por Jorge às 10:04
Domingo, 05 de Junho de 2011

 

a - Falou assim o maioral para a carpideira de serviço:

           - Ouça lá, sua rameira sarapintada de fresco, não se arme aos cucos, eu bem a ouvi injuriar-me, sua mula da cooperativa. Há bens que vêm por mal, infelizmente a cesariana já tinha sido inventada, quando a sua genetriz a deixou dar o primeiro berro. Vá mas é trabalhar, seu culatrão, sua barrelona, sua brochadeira! E peça ao cornífero que a atura que lhe ensine as boas normas de civilidade! Tenha maneiras!

 

b – Juventino apontado ao Monte Aventino – diziam em letras garrafais 3 hebdomadários desportivos da praça, em época de defeso.

         Nesse dia, Juventino foi enxovalhado na praça pública, no restaurante cuspiram-lhe na sopa, encheram-lhe a entrada da casa com grafites obscenos e os directores do clube encomendaram um enxerto de porrada para a 2ª feira seguinte.

         No domingo, Juventino fez das tripas coração e conseguiu jogar contra o Monte Aventino e fez um hat-trick e um poker. No flash-interview disse que nunca lhe passara pela cabeça a mudança de ares.

          Na 2ª feira seguinte, os directores dos hebdomadários desportivos foram enxovalhados à porta de casa, viraram-lhes os carros de pernas para o ar e ninguém lhes deu de comer, beber ou prazer.

          Os 3 directores de jornais, mais tarde, fizeram constar, em comunicado redigido por um constitucionalista de alto coturno e abaixo-assinado por eles, que a língua portuguesa é traiçoeira. Eles apenas quiseram dar conta do regresso do renomado atacante às lides.

 

c - A senhora disse que as mulheres não deveriam transar com homens, enquanto os homens não se amanhassem no governo do rincão. Meu dito, meu feito!

            Nos dias seguintes constatou-se que:

            as mulheres públicas viram os seus pecúlios subir em flecha;

            os preços dos cintos de castidade subiram em flecha;

            a taxa de lésbicas aumentou em flecha;

            a taxa de gays aumentou em flecha.

   Foi assim que as mulheres descobriram a sua apetência para o mando.

 

d - Milagre I :

             Um país com cerca de 10 700 000 pessoas,  15% de pessoas de idade inferior a 15 anos, como pode ter 9 500 000 eleitores, dando de barato que alguns imigrantes estejam registados na estranja?

 

e -  Milagre II

           A senhora que morreu e foi encontrada mumificada na sua casa será em breve beatificada e depois canonizada. É milagre sobreviver incorrupta num país de faz-de-conta.

 

f - Milagre III

           No sacelo esperava-se um milagre. Queimava-se pivetes, incenso e ceras à divindade que se havia apaixonado pelo rincão. Nada de extraordinário ocorreu, porque os bancos celestiais estavam fechados a essa hora.

 

g -  O chefe disse:

           - Nós aplicámos uma taxa mais alta ainda sobre os maiores rendimentos dos mangas-de-alpaca.

           A opositora discordou, que deveriam antes ser taxadas as maiores fortunas. Só assim se fazia justiça social. Que mais uma vez estava a iludir o povoléu ignaro.

           O chefe voltou à carga:

           - Então taxas mais altas para os mais altos salários não traz uma equitativa redistribuição da riqueza? Qualquer um percebe, com excepção da senhora. Não estará a precisar de explicador, daqueles que passam factura e tudo?

          A oposicionista declinou a sugestão, pelo sim, pelo não.

 

h - Conversa de amigos:

         - Neste país só um tipo de empresas não vai à falência, por falta de clientela – observou o primeiro

         - Qual? – pergunta o segundo.

         - As agências funerárias – completa o terceiro.

 

i – Os fiadores determinaram que:

          Primeiro – Consentiam no empréstimo, se as contas estivessem certas.

          Segundo – Consentiam no empréstimo, se as maquias fossem parar aos bancos.

          Terceiro -  Consentiam no empréstimo, se os partidos do mando assinassem de cruz.

   Todos ficaram contentinhos da silva com aquela salomónica solução de truz.

 

j -Entremez I:

    Acto I - O barco mete água.

    Acto II - O barco está abaixo da linha de água.

    Acto III – O barco afunda-se.

   O obscuro comandante, ataviado e cheio de arrebiques, esbraceja do sítio da popa donde controla ventos e tempestades. Ordenas aos convidados que não abandonem o salão de festas e que siga o baile.

   Só não foi o fim da picada, porque tinham sido seguidos por um animado grupo de  mergulhadores sapadores que havia fundeado ali ao lado, na previsão de lautos despojos.

 

l - Um vai bem, outro mal…

             Um atleta foi contratado pelo clube contra o qual o seu actual clube haveria de defrontar-se, no domingo seguinte. O clube contratante foi criticado em uníssono, pelos ultramontanos  zeladores da infalibilidade da ética, da moral, dos bons costumes e da etiqueta nas relações sociais. Não estivesse o facto fora do alcance do medievo codicilo penal e outro galo cantaria!

             Um treinador disse que tinha sido contratado pelo clube contra o qual o seu actual clube haveria de dirimir, no sábado seguinte, um lugar de honra no campeonato da modalidade. O mister recebeu os maiores encómios dos ultramontanos abencerragens da boa moral, da boa ética, dos bons costumes e da boa etiqueta. O novel clube do noveleiro ganhou e ninguém se zangou.

          

m - O moralista criou o adágio popular «O dinheiro não tem cor», no dia em que o oftalmologista lhe prognosticou daltonismo.

      De caminho para a vivenda de luxo, persignou-se, quando um camaleão lhe saiu a terreiro.

 

n  – Prenderam o troglodita anunciado que vitimou milhares de inocentes. No segundo imediato e sem que lhe tivesse sido aplicada a presunção de inocência, todo o mundo disse que o odiava, aí incluídos  todos os vendedores de armas, todos os militares e os fazedores de guerras segundo os cânones. Ninguém disse o contrário.

     No segundo imediatamente a seguir, foram-lhe apresentadas 10 propostas para entrevistas, 10 propostas de livros, 10 propostas de documentários e 10 propostas de filmes.

 

o - Quatro personagens

 Veio o primeiro e disse: «O Rectângulo é só nosso!». Desferiu 2 sopapos na mãezinha, afastou-se da pátria antiga e plantou a tenda à beira-mar. Por mais arremetidas que viessem dos inimigos, cobrou a patente e por aqui se finou e deitou rebentos.

Veio o segundo e disse: «O mundo é só nosso!». Agarrou numa bússola e nas caravelas de velas latinas desfraldadas, deu novos mundos ao mundo e ficou a mandar em metade deles, porque os vizinhos – com mais de 30 cm de altura média - alambazaram-se com a outra metade.

Veio o terceiro e disse: «Angola é só nossa!». Mandou mancebos, adultos e veteranos para os pontos mais sensíveis da nação, triturou resistentes, fez tábua rasa dos bons costumes e ainda fez orelhas moucas aos ventos da história. Um dia, mão amiga fê-lo compreender a verdadeira dimensão de um bom lanço de escadas.

Veio o quarto e disse: «A crise é só nossa!». Promulgou a lei dos brandos costumes e convocou amigos, amigalhaços e amigalhotes, para o cerimonial de distribuição de tachos na praça pública. Quando as coisas deram para o torto, puseram-se a gritar que o rei dos outros ia nu, rasgaram as vestes dos outros e confessaram-se inocentes. Levou sumiço. Consta que vive na mansão do Homem-do-Saco. Os seus corifeus passaram à clandestinidade, em terras onde corre o leite e o mel.

 

           

 



publicado por Jorge às 11:11
Domingo, 05 de Junho de 2011

   À hora da sesta de uma sexta-feira modorrenta, o sátiro Fauno povoou os sonhos da mãe da nascitura Maragarete. Era portador de palavras de bom augúrio: a filhota havia de propiciar muitas alegrias, ao largo de noites e dias. Capaz de desbravar embaraços estruturais e conjunturais com momices, chocarrices, paródias, risos e sorrisos, seria a alegria do lar e arredores. Os fados apontavam-na como porta-estandarte da alegria e da felicidade plenas, pois vinha a caminho o elixir da eterna juventude, uma primícia das deidades ofertada pelas boas prestações da humanidade. Pôs-se ao fresco, quando topou que a receptora se contorcia, disposta a encurtar a soneca.

   Quando nasceu deram-lhe a tradicional palmada de boas vindas no rabiosque. Margarete riu a plenos pulmões. Persignaram-se em surdina os assistentes sorumbáticos, de credo na boca. À beirinha da cama estava o genitor que assistiu à saída de Margarete do ventre materno, depois de muito persistir na intenção contrária, até ao limite da sua argumentação escolástica. Achava um despropósito ter de comungar a nudez das partes pudibundas da consorte com outros; nunca alinhara em ménages a 3, a 4 ou mais, como vinha descrito nos cânones, que o seu limite era as práticas politicamente correctas. Alinhou na praxe, assim que lhe comprovaram por a+b que, caso se esquivasse ao ritual a puérpera, arcaria para todo o sempre com comportamentos, atitudes e competências desviantes. Valha a verdade que ficou surpreso com a quebra protocolar, embora deixasse escapar um sorriso amarelo de orelha a orelha. Pôs-se ao fresco, quando lhe pediram que desse colo à filha, pois ainda não tinha treino suficiente e precisava de um cigarro urgente.

    Quando a levaram à escola pela primeira vez, brotaram por todo o lado os chorrilhos de risos, sorrisos e ademanes impregnados de boas vindas. Margarete riu a bandeiras despregadas, assim que pisou o ginásio do colégio cheio que nem um ovo de gritos lancinantes, uivos a condizer e olhares esbugalhados. Os colegas de admissão, os pais desconsolados e os instrutores ressabiados olhavam-na de viés e través. Entrevistado à má fila sobre as hipóteses que agora se colocam à existência de vidas para além da magnetosfera, um dos formadores presentes à data e agora no desemprego, respondeu que sim, que tinha estado na presença de um alienígena, na citada ocorrência. Contava já com 45 primaveras e 10 filhos e nunca conseguiu esquecer o episódio. Nenhum terráqueo se atreveria a tanto, pelo que só outro habitante de outra parte da Via Láctea se abalançaria a tal desplante. Sugeriu que procurassem a criatura e a exibissem numa galeria, de preferência, na baixa da cidade, uma forma de contribuir para a dinamização daquele espaço. Pôs-se ao fresco, quando se apercebeu que as suas palavras teriam eco e que a vingança da extra-terrestre poderia ser terrível, como sói acontecer.

    Quando a levaram ao primeiro dia de trabalho, Margarete chorou baba e ranho, não se lhe descortinou riso sardónico, sorriso amarelo ou ameaço de gargalhada, nos rictos da fácies. Levaram-na em braços ao seu posto na engrenagem, demonstraram que as máquinas não mordiam, muito menos o patrão e as chefias. De olhos esbugalhados, percebeu que lhe diziam que a higiene e a segurança eram máximas, a organização prodigiosa e até havia bocas-de-incêndio e caixinha de primeiros socorros nos sítios certos. O chefe mais próximo prometeu logo à primeira melhoria substancial do soldo; o segundo chefe mais próximo biprometeu que não haveria assédio da parte dele; o terceiro triprometeu horário flexível. Nada impressionada,  desandou dali inopinadamente, de boa cara, diga-se. Em alta grita, reuniram-se à porta do promitente local de trabalho altos representantes da sociedade, do mundo do emprego e do trabalho. Davam testemunho que o trabalho dignifica, que se nasce para ter família, para sustentar a família, para melhorar a vidinha. E exibiam tarjas, cartazes de encantar e palavras de ordem a rimar.

     Deu corda aos chanatos e  às vilas de Diogo. Pôs-se ao fresco, por receio que a arrestassem. Teve todo o tempo do mundo para rir-se a bandeiras despregadas. O eco converteu-se nos seu riso sardónico e o sátiro Fauno já não entra nos sonhos.  



publicado por Jorge às 09:24
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