Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

i – 1 peso, 2 medidas -As companhias aéreas eximem-se aos pagamentos derivados do princípio do poluidor pagador. Os aviões fazem ou não parte do lote dos maiores poluidores?

ii – Contraste de vida - Mulher desejada é angulosa e cheiinha. Algumas até se dizem galdérias. Então, por que razão as modelos, autênticas efígies venerandas, fogem a este padrão? Preconceito religioso ou estranha cedência à medicina estética?

iii – Mais contraste de vida - Homem ou mulher que se deseja treina assim-assim, socializa bem e veste do melhor. Então, por que razão não se importa de viver em apartamentos apoucados, em bairros horrendos e em povoados ruins?

iv – Notícia impensada - A locutora leu a notícia sem pestanejar: «No incêndio morreu uma pessoa e uma mulher ficou ferida.

v  –  Realismo prático - Um multimilionário dos EUA critica o facto dos ricos não serem mais taxados. Toda a gente ficou varada. Mais tarde confessou ter receio que um dia, ao acordar, o seu rico dinheirinho não valha um chavo.

vi – Mais realismo prático - Para além do liberalismo, consta que  a grande vencedora da batalha da Líbia será a Total, empresa petrolífera de França. Negócios e política não andam mesmo separados?

vii – Prova do mesmo veneno - Conhecem aquela do treinador que, tendo recebido largas benesses de maus juízos dos árbitros em lances de índole duvidosa, sem que ele próprio ou o patrão por ele tenham dito água vai, se vitimiza, quando o juiz lhe terá escamoteado uma penalidade que podia ter sido convertida em golo?

viii – A dor incomensurável - Rapaz crescidinho morre dentro do próprio carro, hermeticamente fechado por seu irmão, companheiro de noite de folguedos. O dito rapaz não estava em condições de subir ao apartamento e o irmão sim.

ix – Brincamos ou quê? – O ministro primeiro disse que os ministros seguintes não teriam férias, em Agosto O ministro primeiro disse que os representantes da sociedade civil não teriam férias, em Agosto. Falava ele das férias de Natal, claro.

x – Revivalismo ou futurismo? – No Nepal, a uma governo de unidade marxista-leninista sucedeu um outro de cariz maoista. Back to the future ou vice-versa?

 



publicado por Jorge às 10:44
Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

   Diamantino é um entradote habilidoso, que, só por acaso, não é natural de Olhão. Onde quer que esteja, desenrasca qualquer emergência. Gaba-se de nunca ter recorrido a técnico de manutenção, de reparação ou coisa que o valha! Por conta disso acumula muitos encómios, prémios e até condecorações. Apenas embirra com o epíteto de mãozinhas com que o mimam, de quando em vez. Contra susceptibilidades, não há argumentos, pois.

   Reformado e mal pago, põe-se a fazer contas ao nível de vida adregado, tira a prova dos nove e uma evidência salta à vista: tinha de fazer pela vida. Precisava de um complemento circunstancial para a sua pensão.

   Possui uma caterva de alfaias dos mais variados tons e feitios e não é por aí que o gato vai às fihós. A questão da sede operacional, também fica solucionada em 2 tempos: assenta arraiais numa garagem contígua à sua residência, não sem que antes se tenha assegurado da conivência silenciosa duma maioria dos condóminos.

  Porque os tempos não se compadecem com generalidades, decide especializar-se na reparação de fogões de todas as gamas e marcas. «Diamantino põe tudo que nem um brinquinho!» - eis a palavra de ordem que publicita em caixas do correio, pára-brisas, candeeiros e cafés.

    Diamantino visita apartamentos e faz orçamentos; recibos e facturas só os rubrica, no dia de S. Nunca, de madrugada. Depois, é vê-lo, cheio de desvelo, embrenhado nas suas reparações, de sol a sol, a examinar as mazelas e a experimentar as reparações num espaço onde mil papéis, caixas, e caixotes convivem em espaço confinado.

   Diamantino não prescinde da militância em causas sociais do mais variado quilate. Ainda recentemente foi visto numa manifestação que visava os trânsfugas aos impostos. «A cadeia para quem se alheia!» - era uma das muitas palavras de ordem gritadas, até que a voz doesse. Berrou este e outros pregões, na convicção de que a fuga ao pagamento dos dízimos é sobretudo lendária nos grandes que fogem para praças, paraísos e nimbos fiscais; dos pequeninos não reza a história. No dia em que os grandes decidam não esquivar-se com o rabo à seringa, ele imita-los-á, caso contrário…. «Viesse um governo com tomates e acabava-se a economia paralela!» - comenta para o parceiro do lado.

   Para sua infelicidade o parceiro do lado, não se fica por palavras e passa à acção: apresenta queixa na autarquia de maior proximidade sobre a actividade clandestina de Diamantino. Este, por portas travessas, toma conhecimento da denúncia do vizinho. Diamantino trava-se de razões com o denunciante, a quem serve 2 sopapos na hora da despedida. «E há mais donde vieram estes!» - assevera, perante o gáudio dos presentes que não mexem um dedo para impedir aquele justiçamento popular.

    Um vedor apresenta-se, muitas quinzenas volvidas, no estaminé do Diamantino. Nada que uma bica com cheirinho, um pastel de nata à maneira e uma nota bem passada e bem levada abaixo da mesa não tenham resolvido! Confrontado com os factos, o delator da situação anterior é, de novo chamado à pedra e mimoseado com 2 arrochadas; fica com 2 dentes a menos, um braço ao peito e um olho descaído, para gáudio dos bons cívicos que, por uma questão de feitio, aplaudem o feito.

   Um agente da lei visita Diamantino que é apanhado com a boca na botija. «Não, está enganado, tudo o que aqui vê me pertence, porque sou coleccionador». O agente olhou desconfiado para as 2 dezenas de electrodomésticos, ele que só tinha uma casinha, mas admite que outros possam herdar muitas outras. À falta de provas consistentes (essa coisa de tirar o número de série do fabricante implicava levar aquela brutalidade de fogões para o precinto), não se fala mais no assunto! O queixinhas é de novo chamado à pedra e submetido a tratos de polé e pontapé, findo o qual é atendido no centro de saúde. Ficou de baixa durante 1 mês, o que põe a nu uma das fraquezas deste tipo do empreendedorismo diamantino. Do acto não há testemunhas, pelo que as investigações prosseguem até às calendas gregas.

   Não entra no bestunto do Diamantino essa coisa de haver uma tróica que manda bitaites e caga sentenças ao país. «Se fosse comigo!»... Comprem-lhe a receita, senhores potentados. É como ele diz: «Catrapaz, paz paz!  E não se fala mais no assunto!». Aquilo era trigo limpo, farinha Amparo…

  Lidava com estas e outras ideias, quando lhe cheira a esturro. Lobriga a vizinhada aos pinchos, com ar de poucos amigos e pronta para pedir contas a alguém. E vinham na sua direcção… Antes que o pessoal lhe caísse em cima, dá às de vila-diogo. Salta para a carripana, exangue, e põe-se ao fresco. 

   Mais à frente pára para respirar e assesta os binóculos. Faz-se luz, do prédio donde zarpara saíam uns fumos e uns fogachos um bocado para o esquisito. Afinada a lira, rapa da partitura e põe-se a cantar a plenos pulmões o fado do desgraçadinho.

 

  

 

 



publicado por Jorge às 10:33
Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

Com água no bico

1 - Reza a fábula bem antiga que 2 panelas – uma de barro, outra de inox – entregues à inclemência de volumoso raudal, se viram lado a lado, na luta pela sobrevivência. Chuvas diluvianas tinham brotado em fartas bátegas, pelo que se viram à deriva, sem tampas, sem engastes e sem suportes. Foi então que a panela inoxidável estendeu a mão à de barro, sugerindo que fizessem figas ao destino e terçassem forças. Só assim teriam hipóteses de fintar o triste fado que lhes pressagiavam gurus e especialistas na matéria. «Desampara-me a loja, vá, põe-te a milhas!» - gritou-lhe do alto do seu enfado a de barro, quando ambas lutavam denodadamente por arribar a porto seguro. Habituada a tratamento digno de seus pergaminhos, daí pouco afeita às cambalhotas que a vida proporciona aos outros, a de inox, não se conteve e ripostou com toda a veemência: «Ó sua delambida enfarruscada, seu pote de graxa rançosa, assim te eximes ao meu honesto suporte da tua salvação?! Bem sabes que tenho muitas mais hipóteses de escapar a este nó górdio!». A de barro enxotou-a para longe: «Vai antes chatear o vate! Se me dás uma topada, mesmo a contragosto que lá vou eu para o galheiro! É preciso ter topete! Vai arranjar tacho para outro lado!». Não houve mais notícias do desaguisado, mas, nas entrelinhas, pode inferir-se que cada um dos tachos sobreviveu sem mais arrelias, na prossecução dos seus currículos normais.

2 – Reza a fábula bem mais recente que um argirocrata foi içado de bombordo para dentro de uma chalupa cuja tripulação plebeia multiplicava esforços para se manter à tona de água. O colectivo prodigalizava remendos para os diversos furos do casco, enquanto a água se insinuava através de número incontável de rombos, no meio do pantanal. O céu plúmbeo ameaçava cair sobre todas as cabeças, sem remissão. A borrasca rugia forte e feia, como se esforçasse por revolver as entranhas do planeta terráqueo. «Proponho-me remar para o mesmo lado que todos vocês.» - prometeu o hasteado, pouco afeito aqueles assados. Arregaçou as mangas e pôs as mãos bem tratadas à obra. Os tripulantes olharam-no de soslaio, desconfiados de tanta exposição. «Se buscas salvação, toca a trabalhar e não te penses em baldar» - disparou à queima-roupa Robin, o comandante-em-chefe. Aflito, o fidalgo redarguiu:  «De acordo, mas não é preciso empurrar, que eu tenho olhos na cara e sei que não estou numa festa de arromba do jet set». Tobin, o contramestre replicou: «Aqui tens que dar o litro e entrar com uma nota grande para o petróleo». O predestinado trabalhou que nem mouro, pagou o petróleo e deixou grossa maquia - arrecadada em paraísos, purgatórios e limbos fiscais -, a ser gasta na aquisição de um navio catita. Para memória futura, consta que isto aconteceu uma vez sem exemplo, a contragosto dos paus-mandados que rezavam, à distância, ao Senhor dos Aflitos, de cabeça descoberta, por não terem conseguido demover um dos seus amados líderes de ceder a semelhante capricho. Não houve mais desenvolvimentos deste epifenómeno.

 



publicado por Jorge às 18:40
Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

1 - Há muito bom apresentador da têvê com problemas de circulação sanguínea. Não é que lhes deu para apresentar as notícias de pé?! Ou a crise já chegou ao ponto de cortar na aquisição de mobiliário de estúdio?

2 - Em tempo de crise, o pessoal quer é diversão. Nunca foi visto tanto outdoor a anunciar tanta festança. Confirma-se:  tristezas não pagam dívidas.

3 - Uma repórter cobria um protesto:

     Repórter  -  Vai aderir ao protesto?

     Mirone  – Não!  Estou de férias…

4 – Por que razão no mês de Agosto se tomam as piores medidas para a sociedade civil? É como diz o outro: Na guerra, o inimigo ataca em duas ocasiões, quando ele está preparado e quando você não está.

5 – O ministro e os sindicatos da educação desdita andam às voltas com a avaliação dos docentes do ensino básico e secundário. Por via disto, em anos anteriores as escolas tinham-se convertido em autênticas feiras das vaidades.

6  - Toda a minha gente opina sobre a avaliação dos docentes do ensino básico e secundário.  A isenção dos professores com maior número de anos de serviço causa engulhos do tamanho de pedregulhos. No fundo, no fundo de professor e de louco todos temos um pouco.

7 – Tem sido muito criticada a possível isenção avaliativa de docentes do ensino básico e secundário mais calejados. «Está mal!» -  diz-se a torto e a direito. Os polícias, os médicos e a maioria dos funcionários públicos mais velhinhos não são tratados com tanta generosidade. Quem assim fala grosso, fá-lo também com conhecimento de causa?  

8 – Andam os campos cheios da aerogeradores. Fosse D. Quixote um personagem real e realista e andaria encantado.

9 – A questão dos feriados não recua nem avança, ainda está no reino das cogitações, ou será aquilatada nas calendas gregas. Descansar pela fé é ainda uma das poucas manifestações de religiosidade da sociedade civil.

10 – Vai por esse mundo de Cristo uma chinfrineira que se estão perdendo direitos adquiridos e que vem aí um pacto social mais liberal. Que se passa, por acaso luculos e casacudos foram alijados das suas 7 quintas?

11 – A questão da contenção de despesas do Estado não ata nem desata. A solução deverá passar pela privatização.

12 – “Vivemos no país que está em 6º lugar na classificação dos países de maiores desníveis de rendimentos” – disse agastado o Agostinho que se acomodou uma vida toda à estagnação da base da pirâmide social. “Mas, acho que tudo tem sido tentado para a classificação melhore” – retruca o Tolentino que conhecia de ginjeira os esforçados militantes da causa.

13 – Nos desacatos britânicos, a comunidade mais atingida foi a que melhor se estava a safar nos negócios. Por essas e por outras é que os tumultos andam arredios de paragens  mais meridionais.



publicado por Jorge às 19:52
Domingo, 14 de Agosto de 2011

  Por fim deus criou Adão. Dado que já mais nada houvesse para criar nos seus domínios, pô-lo a viver à mão de semear. Gostou do que viu, pelo que delegou nele alguns poderes e entregou-lhe as chaves do jardim do Éden, situado algures na triangulação das terras de Prestes João, Shangri-la e a Lapónia. Adão adaptou-se em menos tempo do que leva a arder um fósforo. 

   No jardim celestial cresciam exemplares de todos os nomes de Lineu, por conta dum rio de águas límpidas que cantava as melodias de sempre. Adão palmilhava o jardim de ponta a ponta e de todas as primícias desfrutava. Não havia ali ninguém que se lhe fizesse sombra, por isso se sentia nas suas 5 quintas; ferrava o galho, quando queria e lhe apetecia; comia até à saciedade dos frutos e dos petiscos que aprendeu a cozinhar, às vezes que nem pisco, doutras que nem abade, mas andava sempre dentro da linha. Noutras horas de lazer praticava os desportos todos, estudava as ciências todas e entregava-se a múltiplas actividades culturais.

  - Tivesse a idade dele e era assim que me divertiria – suspirou o ente supremo, enquanto afagava as barbas e afastava dos seus olhos 2 nuvens furtivas.

  Da observação atenta de flores e bicharada resultou que tenha topado um casalinho em vias de facto. Causou-lhe engulhos a encenação: era a luxúria que o importunava, soube-o quando investigou o caso a fundo. A deus a coisa não quadrou bem. Obra de Satanás, está na cara!

   Adão era visto taciturno, de olhos encovados e com cara de caso. O criador aí percebeu não haver volta a dar-lhe; Adão era a sua obra-prima e queria-o viçoso e galhofeiro, para assim o apresentar no próximo conselho superior do Olimpo. Vai daí, estações do ano passariam a via única, só a primavera das flores. Mais, nos seus domínios todos os dias seriam natais.

   Os resultados foram palpáveis, mas o tédio voltou a instilar-se no ramerrame do quotidiano do primeiro homínida, nos tempos seguintes. Adão persistia em observar com potentes instrumentos a bicharada a procriar e autoflagelava-se. Aí o criador, na sua ilimitada sabedoria viu e não gostou. Não havia escapatória para a revolução.

   Deus apanhou Adão a dormir a sono solto e tirou-lhe uma costela do lado esquerdo que é o do coração. Lançou-lhe uns pozinhos de perlimpimpim, umas rezas e por fim materializou-se a seus olhos a mulher, Eva de sua graça. Acordou o dorminhoco que se babou involuntariamente com o que via.

   Foram ambos chamados à presença do omnipotente, uma excepção outorgada em ocasiões muito especiais. Deixou bem claro que as coisas deveriam seguir os trâmites normais no paraíso. Poderiam namoriscar, dar beijinhos pudicos, trocar carícias e piropos e até dar, dentadinhas nos lóbulos auriculares. Que o baile se fique por aí. Que se abstivessem de lhe passar a perna, pois era omnipresente. Que isso da privacidade fora chão que dera uvas e ele estaria cada vez mais de ouvido alerta.

  Na mesma oportunidade e para espanto do duo anunciou que estava a fazer crescer no Éden uma variedade de macieira gigantesca, de cariz orgânico e que, breve trecho, haveria de produzir cabazes infindos de maçãs de ouro. Com esta variedade, calculava ser possível guindar-se ao posto mais alto da criação do Outro Mundo, no próximo concílio das deidades. Que se mantivessem ao largo.

  Adão e Eva persignaram-se e disseram que sim com as cabeças. No primeiro lusco-fusco  que compartilharam, não se fizeram rogados, pois já eram crescidinhos. Foram direitinhos ao centro do paraíso, fizeram um piquenique libertário, no fim do qual foram servidas empadas de maçã orgânica, sem sabor aurígero, ao que se pôde apurar.

  Deu-lhes então para se renderem a uma afobação canhestra, própria de iniciáticos. O acanhamento foi quebrado pelo atrevimento de uma serpente retorcida que lhes pintou o quadro em poucas linhas. Incitou o casalinho a passar a vias de facto. E assim se fez, brincaram aos solteiros e casados e inventaram nessa noite todas as posições mais tarde reproduzidas por indução no Kama Sutra. Nesse mesmo dia Eva ficou de esperanças.

   Para cúmulo, nessa exacta noite, o criador pusera-se a olhar para dentro e cedeu a Morfeu. Depois de séculos de alerta e de imensa criatividade, passou pelas brasas. Há quem veja aí interferências residuais do maligno!

  Mal tinha acabado o festim dos pais primevos, caiu um corisco mesmo ao lado do tálamo em que Eva sacrificara as suas primícias ao prazer, sinal de borrasca, ora se era! Na sua omnisciência, mal sacudira o torpor, soube que os pombinhos tinham borrado a pintura. Fora!  Apontou com garbo e nota artística a porta de entrada única do paraíso. Adão ainda tentou sacudir a água do capote, porém seguiu o rumo indicado, antes que a mostarda chegasse ao nariz o omnipotente. No entanto, a observação de Adão não caiu em saco roto: o pacote das culpas recaiu direitinho nos ombros de Eva que, conformada, os encolheu. «É a vida!» - deixou cair o lamento, por entre 2 grossas lágrimas.

   Antes que dessem corda aos sapatos, o criador fê-los assinar um documento em papel timbrado em que se comprometiam a pagar a justa indemnização por perdas e danos, uma quantia inestimável, do quilate do orbe celeste. Como nem tivessem dinheiro para mandar cantar um cego, ficou estabelecido que eles e seus descendentes pagariam as favas, em prestações suaves, durante os séculos seguintes. Assim o determinava, o omnipotente.

  Puseram-se à procura do primeiro emprego; quando o conseguiram, passaram a comer o pão amassado com o suor do rosto, muito melhor que melgar o Camões, diga-se de passagem. Para abater a dívida foram autorizados a transaccionar bulas, títulos apenas supervisionados por ele e por uma comissão de anjos-da-guarda, criada adóque. Postou à porta do Éden uma coorte de querubins e serafins, com ordem expressa para que fizessem uso das espadas de fogo, caso eles tentassem o regresso ao bem bom no Éden.

   É essa dívida do primeiro pai e da primeira mãe que os humílimos descendentes de Viriato e Sertório também estão condenados a pagar, por igual e com língua de palmo.



publicado por Jorge às 17:22
Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011

A falta de argumentos descamba em diatribe, ponto final, parágrafo, travessão. Quando seca a argumentação, sobrevêm insultos e molestamentos, em alta grita, com teórico efeito demolidor. Muitos biribíris se puseram a troar, por falhas silogísticas.

   Uma renomada odalisca fazia questão de vincar: «o que se leva desta vida é o que se come, o que se bebe e ai-ai!». Estas palavras não eram ditas, quando já muita gente ginasticava as meninges, na busca sagaz das causas próximas e afastadas pelas quais as piores injúrias descambam no presuntivo mau desempenho sexual dos mortais. A teoria explicativa mais incensada filia-se na praxis do hedonismo místico. O sexo duro e puro arrebanha delíquios, paroxismos e espasmos, todavia projecta-se na órbita perigosa do pecado. Só o lapsus carnis envolto em devoção confirma a reprodução. Destarte, a fruição dos mais virtuosos chiliques, desmaios e arroubos estão reservados a oblatos excelsos, pelo que o amor platónico compensa. Os enxovalhos endereçados aos humanos fazem parte do plano descomunal da expiação dos pecados.

   José, plebeu de nome e currículo, era um reinadio cidadão do mundo. Sempre se reconheceu a reagir com o coração e pouco com a cabeça, daí que consumisse roupas de marca e música de pechisbeque que lhe dissipavam os cabedais necessários à dieta alimentar. Diga-se, a talhe de foice, que usava e abusava de linguagem menos cuidada que não indecorosa: mulher era uma gaja e homem gajo, pior só criatura chifruda ou rebento de ervoeira. Mas não gostava que o metessem ao barulho.

   José tinha João por seu amigo de longa data e estimação. Empenhados na disputa da finalíssima de um campeonato interno de bisca lambida, realizado com pompa e circunstância nas instalações dos sapadores, com direito a transmissão radiofónica, travaram-se de razões e o caldo entornou. José jurou que João começou por o catalogar de trambiqueiro; na mesma linha, teve de arrostar com um chorrilho de asneiras que desembocou numa ladainha de cabrão para cima. Aí as coisas deram para o torto. Tinha sido boa a amizade, enquanto durou, mas no imediato se esfarrapou! Na última oportunidade, José atraiu o amigo da onça a um canto escuso da sala de operações e aconselhou-o a ter tento na língua, não fossem os outros acreditar. A coisa ficou por ali, mas, pelo sim, pelo não, evitou cruzar-se ou chegar à fala com o badameco nos dias sequentes. Nunca mais percorreu qualquer itinerário que incluísse Peniche. De volta à moradia, tentou tirar nabos da púcara da cônjuge, mas levou tampa. Ficou, até mais ver, de pulga atrás da orelha.

  Na quinzena seguinte, Marcos, um conhecido de José, detentor dos mesmos centímetros de ossatura, também não se fez rogado: após acalorada discussão clubística, no boteco da travessa da Vida Airada, não se conteve e, em bom vernáculo, denunciou José como empedernido enganado, apesar de aparentar ligeiro traços fisionómicos de ascendência viking. Aí as coisas deram para o torto: José pôs-se em bicos de pés, o dedo em riste e em tom preclaro arremeteu lesto: «Conhece-me de algum lado? Cornífera é a sua prima em que você se arrima e casou-se 5 vezes!». A troca de mimos não se finou por ali e teve direito a prolongamento e a penalidades. Quando esfriaram os ímpetos, cada um foi à sua vida, não sem que antes José tenha despejado uma bojuda bagaceira nos gorgomis, para a viagem. Mal chegado a casa, fez aturadas pesquisas nos armários da consorte, não tendo chegado a uma opinião balizada. Ficou, até mais ver, de pulga atrás da orelha.

    Meses volvidos, Mateus, um seu desconhecido de todo, de estatura meã, borrou a pintura, quando, após casuística política no botequim central da terra vizinha, se atreveu a chamar-lhe de minotauro excelentíssimo, sem ofensa, claro. Aí, os acontecimentos precipitaram-se. José, detentor de mais de 10 centímetros em largura e altura, ameaçou que lhe dava cabo do bocalvo e do canastro. «Conhece-me de algum lado? Cornúpeto é você, mas já lhe dou a faena!». Atirou um piparote, mas o pequenote rodou sobre os calcantes e zarpou. José arremessou-lhe uma cadeira que se estatelou contra a sua sombra. No aconchego do lar, pôs a consorte a par da insinuação. Entre juras e ais, a cena ficou olvidada. No dia seguinte, aconselhou-se com o psicólogo da família. Ficou, até mais ver, de pulga atrás da orelha.

    Anos volvidos, Pedro, um tipo longilíneo que conhecia de vista e que o olhava com sobranceria, pois o suplantava em 2 palmos de altura, na sequência de um desaguisado sobre o timing do último aumento de taxas, cometeu a impertinência de o visar com 3 sonantes palavrões de caixão à cova que lhe beliscavam a virilidade. Aí os acontecimentos precipitaram-se. José, não se conteve e gritou para quem o quis ouvir, alto e em bom som: «Agarrem, que me vou a ele e desfaço-o!». Nisto, saltou para o tampo da mesa mais sustentável e mais à mão de semear que se escangalhou, não depois de ameaçar o audaz com queixas na polícia e no ministério público. Nessa altura, os presentes agarraram-no, pediram por todos os santinhos que se acalmasse, e aconselharam-no a dar uma volta ao bilhar grande, o que fez sem detença. Voltado a penates a casa, tentou tirar a coisa a limpo. Não levou que contar, pois a companheira dormia o sono dos justos. No dia seguinte aconselhou-se com o pároco. Ficou, até mais ver, de pulga atrás da orelha.

    Um lustro volvido, Paulo, um marau de gostos retorcidos e que constava do seu índex de José, na sequela de uma discussão sobre metafísica, despachou-o com um sonoro arroto e com dois palavrões que o deixaram tão petrificado quanto a mulher de Ló, pois lhe velicavam a masculinidade. Aí os acontecimentos precipitaram-se. José agarrou-lhe os colarinhos, jurando pelas alminhas todas que o estrafegava. Sacou da atiradeira e aqui vai disto. Disparou porta fora, quando lhe cessou a propensão para o disparo. Andou um bocado aos papéis, mas não resistiu à tentação de voltar ao remanso do lar. À cautela, não passou da dispensa e não pregou olho durante a jornada, sempre atento a vultos e sussurros. Pela manhãzinha abalou e só se deteve à porta do advogado que o aconselhou a alegar justa causa ou defesa da honra, caso o filassem. Entretanto bem faria em devolver à procedência a mulher com quem vivia mancomunado.

    No dia seguinte, mudou para a província mais longínqua, onde subiu a vida por seu próprio pulso. Montou estaminé à mulher dos seus sonhos com quem se costumava encontrar em lugares esconsos, nas semanas, meses, anos e lustros anteriores. Viveu à grande e à francesa, pelo que nunca mais foi vítima de assédio de amigos, conhecidos ou inimigos, tão pouco de pulgas. Até mais ver, nunca mais pecou.



publicado por Jorge às 18:53
Domingo, 07 de Agosto de 2011

 

 A quem serve o carapuço?

 

A fome faz sair o lobo do mato:

  a - aos donos da bolsa;

  b - aos donos da banca;

  c - aos donos das agências de notação;

  d - aos proteccionistas do lobo ibérico.

 

Não medram as galinhas onde a raposa mora:

   a – aos donos da bolsa;

   b – aos donos da banca;

   c – aos donos das agências de notação;

   d – aos vegetarianos.

 

A ganhar se perde e a perder se ganha:

  a - aos donos da bolsa;

  b - aos donos da banca;

  c - aos donos das agências de notação;

  d - aos donos da bola.

 

A culpa morreu solteira:  

   a - aos donos da bolsa;

   b - aos donos da banca;

   c - aos donos das agências de notação;

   d - aos carrascos de profissão.

 

A ocasião faz o ladrão:

  a - aos donos da bolsa;

  b - aos donos da banca;

  c - aos donos das agências de notação;

  d - aos cleptómanos.

 

Ao homem ousado a fortuna dá a mão:

  a - aos donos da bolsa;

  b -  aos donos da banca;

  c - aos donos das agências de notação;

  d - aos jogadores de casino, euromilhões, totoloto e totobola.

 

A valentia com os fracos só cobardia revela:

  a -  aos políticos profissionais;

  b -  aos agentes de execução;

  c  - aos guardas prisionais;

  d - aos praticantes de wrestling.

 

A desgraça não marca encontro:

  a - aos trabalhadores da função pública;

  b - aos profissionais da guerra;

  c - aos condutores;

  d -  aos guardas de discotecas.

 

A união faz a força:

  a - aos colaboradores dos empresários;

  b - aos operadores de mercado que congeminam na sombra;

  c - aos empresários do mercado paralelo;

  d - aos praticantes de braço de ferro.

 

Ao rico não faltes, ao pobre não prometas:

  a - aos gestores de fortunas;

  b - aos agentes religiosos;

  c - aos agentes culturais;

  d – aos promotores de IPPS.

 

Ao rico mil amigos se deparam, ao pobre seus irmãos o desamparam:

  a - aos agentes judiciais;

  b - aos agentes da lei;

  c – aos empresários;

  d - aos promotores de ONG.

 

Amigo verdadeiro vale mais do que dinheiro:

  a  - aos boys e girls da política profissional;

  b -  aos funcionários venais;

  c -  aos adeptos de lobbying;

  d -  aos adeptos do voluntariado.

 

 

Se acumulou mais a) e b), dê-se por satisfeito. Caso contrário, repita o teste.

 

 

 

 



publicado por Jorge às 11:28
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