Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

1 – Zé Nababo, aponta, dedo em riste, o cartograma; aclara a voz e socorre-se de epítetos horripilantes para desancar no país que está ali mesmo ao alcance da extrema do seu dedo médio. «Está falido, não se fala mais no assunto, resta refundá-lo». Compõe, por esta ordem, o melhor sorriso, o porte altaneiro e o nó da gravata. Os colaboradores não fazem a coisa por menos, quais carpideiras profissionais, desfiam o rosário das misérias indígenas: cambada de parasitas, caterva de estéreis, horda de improdutivos. O discurso de tão eficaz faz soerguer e chorar as pedras da calçada.

   De forma que só ele e outros que tal seriam capazes de levar avante a cruzada de elevar o país, entalado entre a cruz e a caldeirinha. Sugere a travessia do deserto aos paisanos. Encomenda-se a S. Expedito, a quem dedica homenagem de grande estadão. Arrecadados os óbolos do ofertório, Zé Nababo põe o ar compungido, dá garantias da reconquista do orgulho e glória perdidos e dá as vilas de Diogo. Toda a gente julga que segue em demanda do santo graal. Puro delíquio dos sentidos; deixa-se tentar pela serpente do paraíso fiscal mais à mão de semear.

   A plebe ignara sabe que a alternativa passa pelo génio da lanterna cuja aparição se dará sem dúvida, nos próximos dias, ou nos anos-luz mais chegados.  Se 7 são  os céus, como os véus, há sempre lugar para mais um…

 

2 – Zé Pimpão não costuma fazer ondas; passa desapercebido, frequenta o ginásio em pontas de pés, faz uma dieta rigorosa e realiza muita massa. Empresário de sucesso nos 4 cantos do mundo, tem cofres, barricas e colchões atulhados de divisas conseguidas nos mercados de bens, derivados e CO2. Um belo dia, aparece citado nos jornais. Alguém o tinha surpreendido a falar com os botões, garantindo que o rei vai nu. Para ele, os manajeiros da produção não passam de biltres incompetentes, de minorcas de trazer por casa, de ídolos com pés de barro. Que não! - sustentam os mandaretes da coisa pública que há muito se excediam no rapapé aos feitores. Eles recorrem a truques encantatórios, para se eximirem às suas obrigações - insiste Zé Pimpão. Que não, só eles são capazes da redenção – retrucam os eleitos do mando. Um escoliasta comenta que não vale extremar posições, que no meio reside a virtude, muito malbaratada, por sinal, nos tempos que correm – remata ele. Consta que desta altercação pública retirou sustentação uma força política embrionária.

    O soba é que não se contém. Numa partida de chinquilho, aprazada para a materialização de verbas destinadas ao acudimento dos desprotegidos da sorte e da crise, volta-se para o empresário de sucesso e diz-lhe sem rebuço que vá caçar gambozinos, que lhe desampare a loja.

    Sem rebuço, fez-lhe o gosto Zé Pimpão. Partidário que o dinheiro não tem cor ou pátria, estabeleceu-se na Neerlândia. De quando em vez, volta com 2 malas de cartão, para uma partida de bisca lambida, ou para se esparramar nos areais aborígenes. O soba tem sido visto a dar corda às orelhas à vez, a ver se delas jorra pinga de sangue. Sem sucesso, até à data…

 

3 – Zé Acácio, teve um percalço. Legífero de coração e treino, adestrado, desde a primeira infância, na leitura do futuro na palma das mãos, nos pauzinhos, nas conchas e astros, não encontrou melhor maneira de abanar a árvore das patacas, do que fazer-se ao piso a um lugarzinho na câmara corporativa, atividade que concluiu com sucesso. Em noite de ramboiada, prende-se-lhe o indicador no gatilho da canhota, a qual dispara a torto e a direito. A protetora dos animais regista o abate de 2 avestruzes, 3 ursos e 3 paquidermes. Cassam-lhe a licença de caça, limitada apenas ao abate de leporídeos. A multa derivada pôs-lhe os olhos em bico, mas pagou sem tugir ou mugir.

   Uma reunião comicieira de desagravo é conclamada. Amigos do peito, curiosos de ocasião e penetras não perfazem meio moio, mas berram que se fartam o apoio. Para os anais ficaram slogans elucidativos: «Não pagamos!», «Os patos bravos que paguem a coima!» e «Catirinas ao poder; os progénitos já lá estão!». Apenas se calam, quando já a voz lhes dói a bom doer.  

   No dia seguinte, Zé Acácio é convidado a substituir Sísifo, tarefa de que se incumbe com elevado espírito cívico.

  

 



publicado por Jorge às 10:16
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