Domingo, 23 de Setembro de 2012

A – O ar sopra ventante por meses e esvai-se num suão molengão, nos restantes 6.

     A grei cisma pelo tempo soalheiro, com pozinhos de ventania, de poucas nuvens, para exercitar o abanico.    

    O vasto litoral e as plagas a perder de vista favorecem os bronzes nativos e exóticos, por meses e fornecem manjares, nos restantes 6.

     A grege dá-se a sonhos ínclitos de plataformas de prospeção, cidades flutuantes e pesca do alto, à falta de vocação para egrégias veneras e máximos.

    A biomassa acumula-se a céu aberto, durante meses e desfaz-se em incêndios alterosos, nos restantes 6.

     A grei atira-se com jactância e lambança aos braseiros de capitosas petiscadas, ao som de tocatas pimbas e briol do bom, perdoe-se-lhes as pífias performances desportivas.

     Faz escola a máxima «quem não trabuca, não manduca», por vastos meses, para logo se predicar que a um povo eleito não faltará o maná vindo dos protetores assumidos, nos restantes 6.

    A grege corta na ração e na gesta, nos gestos, nos gostos e gostosuras, pesem as atitudes atléticas de pouco rigor, na horizontal, na vertical e até na diagonal.

     Pois, esse país acaba de patentear a modalidade, não olímpica, embora artística do homem-estátua.

B – Os pares ajeitam a 1ª comissão de inquérito, por desconfiança; os ímpares desaprovam e ostracizam os resultados, por inerência. À boca pequena, consta que o relatório teria sido redigido pelos normativos acordados em 1990, geradores de imparidades insanáveis.

    Um ano mais tarde, os pares criam uma 2ª comissão de inquérito, por insatisfação; os ímpares mostram-se intratáveis, rasgam o relatório e as vestes em público, por coerência. Nos mentideiros comenta-se que o relatório teria sido redigido pelos normativos acordados em 1971, geradores de imparidades irremediáveis.

    Ao terceiro ano, os pares não se dão por vencidos e, em consciência, instituem uma 3ª comissão de inquérito que publica um livro negro, para definitiva elucidação; os ímpares, verdes possuídos de rebentina, ripostam com a edição de um livro branco, por mero tacticismo. As tiragens superam a procura e consta que o relatório teria sido redigido pelos normativos acordados em 1911, geradores de imparidades inenarráveis.

    Ao quarto ano, os pares dizem que avançam com a 4ª comissão de inquérito, mas retrocedem por disposição de conselheiros versados em escrutínios, por fidelidade a valores sempiternos de escola e de escol; os ímpares assumem a dianteira, fartos de subalternidades decíduas e convictos de que, depois de um par, há sempre um ímpar que salta para a ribalta. O relatório digitalizado foi consumido nas artimanhas de um vírus inextricável.

   São esperados novas refregas, na assembleia de freguesia de Recorreição.

C – É véspera de largada para o continente que deveria ter-se chamado de Colômbia, não fora um borra-botas pindérico ter-se lembrado de lançar uma opa sobre o nome do qual cunhou a patente. Delambidas, 4 luminárias da coorte de Colombo matam o tempo, jogando à bisca lambida. O fogo consome cotos de pinheiros-alvares na lareira central, para onde são lançados cadenciadamente vergônteas de alecrim aos molhos que o fazem crepitar e supostamente assarapantam espíritos e olhados belicosos e azarentos.

  Assumido o empate, os oponentes circunstanciais embarcam em conversa pegada, fiada por vezes, enquanto despejam frustrações nas garrafas de absinto que se esvaziam.

- Dizem que há buracos abissais nos grandes pélagos do orbe terráqueo tragam as naves e as tripulações, sem dizer água vai! – atira, como quem não quer a coisa o douto número um.

-  Que ideia, não há buracos assim, só nas contas públicas de certos protetorados!  -  assevera o segundo douto.

- Há, há os lusíadas viram-nos e deram-lhes cabo de meia dúzia de jangadas de madeira e outras tantas de pedra! – revela o terceiro sabão.

-  Essa gente é tomada de muita superstição e água benta, mas que las hay las hay – arremete o sabão número quatro.

  Colombo, incomodado pela algaraviada, mas sobretudo pelo mau agoiro da vozearia e com a mostarda prestes a instilar-se no nariz, vê fugir-lhe das mãos um quadrante aterrou certeiro na peruca de um deles que teve um imediato quebranto.

- Calem-se, velhas catatuas, que ainda me espantam a marinhagem. Nas tintas para as superstições e se houver buracos desses a gente desvia-se, com a manobra a preceito, coisa que não perpassou nos bestuntos do maralhal do jardim à beira mar plantado. Palavra de descobridor nato e de nata! Tomem lá e amochem! Para vincar o seu magistério, saca de um ovo e planta-o sobre a mesa. Colombo o pôs e brancos ficam os homens do leme coevos e sucedâneos que o alijaram raia fora.

D – Propositadamente não se paga publicidade prévia. Os colaboradores dão a conhecer a familiares e amigos que Beltrano vai avançar com uma jogada de mestre, uma cartada de risco. Pela madrugada do dia seguinte, os colaboradores de Beltrano são convidados a pespegar, nas vitrinas dos seus incontáveis superes, glamorosas pancartas anunciadoras de tentadoras reduções de 75%, caso as compras subissem a mil dracmas.  

    A afluência transborda e assiste-se a um pouco de tudo: rasteiras, derrubes, tabefes, agarramentos, sacões, apalpões e outros desmandos. E fazem-se muitas, muitas vendas e muitos levam que contar. Contas por faturas expostas, roupas rasgadas, dentes partidos e sapatos desalinhados acumulam-se nas caixas de correios dos togados assistentes de Beltrano. Há mesmo recriminações por assédio sexual involuntário. A todos Beltrano acena com uma solução rápida, mas, pelo sim pelo não, manda adquirir a versão topo de gama do aspirador de papéis incómodos, pouco amigos do ambiente.

 

   



publicado por Jorge às 11:10
Domingo, 23 de Setembro de 2012

A - Um senhor cavaleiro da távola retangular, alto conselheiro do baronato, diz que os salários deveriam baixar. Os protestos, cochilados entre dentes, ou no segredo das alcovas, não tardam a ver a luz do dia. Desarrazoados, diz dos clamores o brasonado, em nota de imprensa redigida por uma ex-miss do reino, atualmente sua secretária particular: o ordenado de conselheiro dele não seria exceção. Na mesma nota deixa claro que a sanha persecutória se deve a um surto de epicondilite aguda, pelo que a fisioterapia social seria aconselhável. Dois dias depois descobre-se o contubérnio: o adviser recebe avenças sem espinhas de outras 52 empresas, públicas, privadas e mistas. Uma segunda nota de imprensa fala em prestígio social e da justa recompensa dada aos méritos de quem os possui. No mesmo dia, é visto a entrar discretamente, travestido de sem-abrigo, no consultório de bruxo afamado, perito em mau-olhado. Dali sai disparado a caminho do aeródromo.

B – O barão de Uvas Passadas, chefe cimeiro doa aguazis, exige dos ajudantes o consumo de férias em solo pátrio. Um por um, cada qual se dirige a um país diferente. «Deixem lá estar que já lhes conto», faz notar a quem lhe dá apreço. No dia da rentrée governativa, o barão vocifera com os colaboradores, dá pontapés na gramática, despede murraços aos móveis e parte 2 estatuetas e 2 jarras antigas, acabadinhas de sair da linha de produção de fábrica consagrada, sita em terras de larins. A paz volta, assim que um dos ajudantes confessa ter um recuerdo para o chefe, em nome da equipa. Todos se recostam nas cadeiras, compõem um ar de expectante beatitude e resguardam-se por trás de um sorriso maroto. «A minha pátria é o mundo», assim versa o título do livro oferecido.

C - O primeiro barão é criticado pelo uso de expressões ressumando a bedum. «Aos portadores de altos cargos está vedado o uso de linguagem brejeira; de terra-tenente ou especialista, certo» - argumentam expertos, afeitos a fretes.  Sem perda de fôlego, ajuntam: «O povo quer os seus chefes a falar bem, podendo valer-se de muletas, ademanes e habilidades estilísticas. As mentes simples agradecem que as mantenham a precato de explicações cabalísticas e elitistas». Agora, o primeiro barão é visto frequentemente a sobraçar e a recitar para as paredes a Constituição, para ele uma obra literária de primeira água e até então sua desconhecida.

D – Posto em repouso, na sua vivenda de trabalho, o ajudante do baronato vê e revê a sua última façanha. Num rasgo de génio, conseguira um diploma do pré-primário, outro do primário e estoutro da via profissional do secundário, em 2 anos, 2 meses e 2 dias. Decide recusar um canudo do ensino superior, pois demasiada ambição noviça pode redundar em atitude nociva. Neste entrementes batem-lhe à porta: um cavalheiro de indústria do cangaço, há muito estabelecido na praça propõe-lhe sem direito a leitura de entrelinhas a consecução de um diploma topo da gama da Sorbonne. O auxiliar de baronete, atacado de hilaridade, é admitido no hospital particular, onde se mantém na unidade de cuidados intensivos. O prognóstico é ambíguo e reservado.

E - «É demais, são sempre os mesmos a alinhar!». Quem assim fala não é gago, mas sim um jurisconsulto apiedado por quem sofre, embora ele não. O suserano havia mandado recolher de uma só penada as coimas todas, a brancagem, o dízimo, o foramontão, o montádigo, o real d’água, a ecotaxa… Em tempo de guerra, todas as armas são prestáveis. Os foreiros, os arrendatários, os colonos e os servos da gleba debilitados dizem aos mensageiros que aguentem os cavalos, é muita areia para as carroças deles. Que vão buscar qualquer coisinha aos intermediários, aos trânsfugas dos impostos, aos fidalgos, aos letrados e homens de leis, aos físicos, aos vendedores da banha de cobra, ou mesmo aos candongueiros e contrabandistas de amor e saudade. «Impossível» - retrucam. «Essa gente tem por patrono um tal de frei Tomás (faz o que eu digo e não o que faço). Nada feito, portanto, deitaram mãos à obra e desataram a trabalhar todos os dias, de todos os meses, de sol a sol.

F – A instrução pública é mantida por profissionais versados, veneradores das hierarquias, produtores de bons currículos e de bons projetos em prol das comunidades. A instrução pública é servida por objetivos mensuráveis, instalações intervencionadas, pais empenhados e alunos confiantes no futuro imperfeito. Dela se apossa, numa bela manhã de nevoeiro, mestre Foça, personagem da linhagem de Lineu e Bandarra. Os pais dirimem forças com os docentes, os discentes tomam o freio nos dentes, os funcionários veem os comboios passar, às autarquias dá-se uma palavra a dizer e poucos meios para pagar  e os interesses económicos dão um contributo e agradecem confundidos. Afinal a escola não está ali para os servir? Os profes têm de fazer trinta por uma linha, o pino, pilates, canoagem em águas bravas, cliff diving, ações de formação a pago e folclorismos mil. Quem sabe faz, quem não sabe ensina e esta malta precisa de saber, ensinados à distância, ou em regime presencial.  Há quem ache que a instrução, os seus valores e os seus profissionais só voltarão a riscar, quando o sapateiro modelar esteja de volta à sovela, ao tirapé e ao pinador.

G - «Eu quero ir à da minha mãe!». A exigência ressoa por todo o prédio, presa em angústia, lamúria e recriminação. As pancadas secas seguintes comprovam que a dona da voz desejava ver-se livre do amplexo das paredes que a confinava. O apelo repete-se, pelo que o vizinho mais próximo toma-o por ameaça latente e perigo iminente para a infeliz. Avisadas as autoridades, seguem-se meses de investigações helicídeas. Depois a tese: o incidente não passara de mal-entendido, posto que a possível vítima era atriz e o cara-metade ator, gostando ambos de ensaiar pela madrugada adentro. Mais se comprova que a mãe da personagem falecera, há um bom par de anos, embora lhe tenha deixado o usufruto de uma vivenda. Ao vizinho metediço foi imposto o uso facultativo de tampões auditivos que se tornará coercivo em caso de recidiva.

H – A senhora comentadora diz que o xarife está cingido a uma camisa de 11 varas. Prospeções ulteriores, ocorridas em simultâneo com a busca de petróleo no Beato, revelam coisa diferente. O homem apenas está metido em camisa de 7 varas. Desataram os folguedos, por se ter poupado em gorduras.

   

 



publicado por Jorge às 11:02
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