Sábado, 29 de Dezembro de 2012

  Pé ante pé, zarpa de um casita que a havia albergado – e a outras 10 almas – durante anos, razoavelmente bem passados. De conluio com o recato da lua, põe-se a milhas, em 2 tempos. A rapariga – gemebunda, apesar de tudo - galga terreno a olhos vistos, sem que qualquer restolhada a denunciasse, leva asas nos pés descalços, é o que é. Numa esquina mal enjorcada, porta de entrada para um beco de má respiração, é esperada pelo homem da sua vida, pronto a abraçá-la, sem que haja alguém a presenciar. Vão juntar as trouxas, onde jazem que meia-dúzia de haveres reunidos a trouxe-mouxe, filhos da pressa e da excitação. Tornam às juras de amor eterno, sem grandes planos para o futuro, a não ser aquela vontade avassaladora, totalitária de ficarem lado a lado, para o-que-der-e-vier.

   Desembarcam numa dependência de um casebre, mal servida das condições mínimas de sobrevivência, onde se acotovelam muitas pessoas que fazem pela vida, ocorrendo às tarefas mais primárias das comunidades das redondezas. Nos dias imediatos juntam-se à maldição de ter de amealhar para eles e para um rebento que vem a caminho. Não há semanas inglesas, pouca comida, não há matinés, nem soirés, nem folgas, nem assistência médica gratuita, trabalho só trabalho, de sol a sol. Para o caso daquele casal de pombinhos pouco conta a aridez da vida, pois que se têm um ao outro. Os dois ambicionam apenas que os deixem em paz, entregues aos seus delíquios, à contemplação um do outro, que respeitem o direito à diferença, que esqueçam que eles existem.

   Também pela calada da noite, chega uma caleche, semanas mais tarde. Ninguém liga pevide, é apenas mais uma. Só que esta pára muito de mansinho nas proximidades do local onde dorme o casal. Pé ante pé, sai uma senhora cuja indumentária destoa das pessoas ali presentes que automaticamente sustêm a respiração , só inspiram e expiram, depois dela. A seu lado 2 homens peitudos abrem alas até ao ninho dos pombinhos. Ali mesmo crivam a moça de mil pancadas e a deixam exânime. Limparam as mãos à parede e voltam atrás sobre as suas passadas, outro tanto fez a matrona. Que era mãe, a mãe da rapariga que tanto se havia esmifrado num casamento arranjado com alguém da sua laia. Não há chamadas para as emergências, nem para a polícia, nem julgamentos, nem reprovações dos congéneres (a sua coragem, pelo contrário, é glosada pela mazania). Sobram, ainda assim, muitas escarretas de desdém para a rapariga que acaba de entregar a alma ao criador. O rapaz, escorraçado, é mandado para terras pagãs, sitas no cu de Judas; caso volte, espera-o uma corrida singular, ao longo da linha férrea de via única, sempre em frente.

 



publicado por Jorge às 11:31
Sábado, 29 de Dezembro de 2012

   As revoluções industriais foram fatais, para muitas práticas sociais, tantos os golpes mortais vibrados. As cidades frutificam como cogumelos e não são mais que uma pinhata de moradias, cheias de camaratas, apinhadas em torno do fumo de fábricas, das minas de carvão, das gangas e da poluição. Mas aí reside o poder de organizar tudo, desde a produção, passando pelos signos e terminando nos elementos compósitos das paisagens. Nelas se acotovelam proletários em todo o mundo, desejosos de lançar para trás das costas servidões imundas, atentos aos fundos do eldorado. O tiro ter-lhes-á saído pela culatra, confrontados com novas serventias, tolhidos e adstritos do trabalho repetitivo, quase não sobrando tempo para se coçarem. As novas fortunas fazem as delícias de poucos e o infortúnio de muitos. Nada de novo, portanto, naqueles reinos.

    As benesses ajustam-se, em primeiro lugar aos modos e artes de quem as sabe cavalgar, pelo que os afortunados são sempre mais diligentes, deixando as sobras aos indigentes. Há crise? Procure-se mecanismos de substituição. Há mau ambiente, procure-se ares mais dados à pureza – essa é a atitude dos vencedores da vida e depois há os vencidos. As cidades estão bafientas? Esperem aí – mas não de braços cruzados -  que chegue o carro e os leve para ambiências mais apetecíveis, seus garanhões!

   Sob o império do ouro negro, as multidões são gazeadas de forma mais diáfana (o oculto tem muita força nas vidas terráqueas). Longe dos olhos, longe do coração, aos efeitos nefastos do petróleo e derivados recebem o benefício da dúvida, os tubos de escape redimem-se, não se eliminam. Cidadão automobilizado não prescinde da sua dose de sujeiras que atafulham bofes e adjacências. Sobre as suas responsabilidades nos flagelos reconhecidos pela saúde pública, moita-carrasco. Fosse a profilaxia tomada a sério e teríamos outro galo a cantar, que este está depenado e afónico.

   Enquanto não são dados à estampa estudos taxativos da safadeza de esperdícios voláteis, em tom lamechas a pedagogia de trazer por casa diz que faz mal, os gases são um horror, mas vêm por bem da mobilidade e da renovação de stokes, o que está ao alcance da (in) compreensão de qualquer petiz. Também se apreende, em tenra idade, que a invasão sistemática de passeios e suas abrangências pode ser tolerada. Proibida por lei, é um ato ou uma obra que não merece qualquer contrição, faz parte da liturgia social, mesmo que pouco ortodoxa e não se fala mais no assunto.

   O ar inspirado nas grandes moles citadinas tem o apelo de telenovelas, assim a modos de venenos adocicados e contra isso, batatas. As cidades, ambientes artificiais de per si, atraem quem aposta na mudança, na melhoria de vida. A cidade cresce também com amor e patriotismo. As doenças sobrevivem na artificialidade e sem fronteiras, como o ar, fundamental, na sua aparente ausência.

    (Num dia, numa cidade – cujo nome não vem ao caso – é posta à disposição dos habitantes uma maquineta que fornece ar puro. «O ar é isto?», ouve-se com espanto. Antes que as esplanadas, ao longo das principais vias, se desertifiquem, antes que os corredores abandonem as vias dadas a correrias, a engenhoca é depositada no aterro sanitário em funcionamento, à data).

   Uma plêiade de estudos comprovou que o tabaco consome muitas vidas. Cadê os outros?



publicado por Jorge às 11:28
Sábado, 29 de Dezembro de 2012

- Sr. presidente, então o presidente do clube da casa sempre lhe propôs, por telefone, o adiantamento da refrega para as calendas gregas?

- Olhe, sabe que mais, o meu clube teve lá um caçarreta a mandar, durante largos anos (mas foi despachado, a despeito de ter contratado pela primeira vez o maior treinador de todos os tempos, sem saber ler nem escrever)

- Sr. presidente gostou do resultado do prélio?

- Sim, fomos superiores em tudo e mostrámos como jogar contra um adversário que se reputa de invencível em casa. Vibrei no balneário donde se tem uma excelente perspetiva sobre o relvado e onde certas pessoas só lá descem ao intervalo. E vou dizer-lhe mais, se jogássemos com 2 guarda-metas, como o faz uma sociedade recreativa que eu cá sei, já estávamos a liderar por larga margem (esses gajos contam com outros reforços dentro de campo, sim, não parecendo que o são, são aquilo que parecem, mas cala-te, boca….)

- Sr. presidente, quer comentar os sueltos do outro presidente?

- Olhe, eu não replico, que eu vim para esta indústria, com o firme propósito de combater o sistema e elevar o tom das conversas e do jogo jogado (fala cabisbaixo, de olhos fixos na ponta dos sapatos; enquanto desce o elevador, diz que não se demite, morra quem se arrenega!).

- Sr. presidente, com que então o seu clube joga com 2 guarda-redes!...

- Olhe, a ser assim, tínhamos que alterar os regulamentos e eu não estou para aí voltado. Sabe que mais, com 2 guardiões levávamos zero golos, só um morcão de um idiota não entende tal (estou-me a borrifar para regulamentos, eu faço os regulamentos, leal guarda Abel…)

- Sr. treinador (às voltas com um par de bolinhas amestradas), comente lá aquela boutade do presidente inimigo que falou em 2 keepers…

- Olhe, ter sorte dá muito trabalho de sapa, de campo, lá dentro, cá fora. Mais, lembro-me de um jogo em que a bola batia nas costas e era penalidade, batia no sítio onde as costas mudam de nome e era castigo máximo, batia no baixo-ventre e era castigo de 7 metros a favorecer a equipa desse senhor (já não se recorda do resultado final, mas houve cabazada das antigas, amém).

- Sr. Reis, que acha dos comentários do comissário do seu clube?

- Deus lhe dê muitos anos de vida (e um tachinho para mim vinha a calhar…), como ele só deus pai, não há pai para ele… Só quero viver mais uns aninhos, para o ver santo de altar (já faltou menos, agora com esta crise, ganhar à bola, levanta o moral…)

- Sr. Reis, que acha dos comentários do mister do seu clube?

- Perfeitamente ajustados! Sabe, o grande dérbi está aí à porta e quem tem cu, tem miúfa (eu nunca tive medo, calha bem!)

- Sr. Pantera, na sua condição de ex-grande vedeta, como lê o resultado? Foi justo?

- Foi. Tá na cara que o adversário só ganhava, se jogássemos com os juniores (os benjamins à volta da fogueira compõem arrufos e sinais de mau estar).

- Sr. Pigarro, na sua condição de ex-árbitro, assevere lá, houve mesmo 2 penáltis provocados pelo mesmo jogador, em 2 jogos consecutivos?

- Um só, o primeiro não foi, o 2º não vi. Para evitar futuros desmandos, só assim: será penálti, sempre que seja manifesto, por atos, palavras, pensamentos e omissões, que um jogador afasta o coiro com uma parte de um dos membros superiores, nos riscos da área grande, ou para dentro deles. Mão na bola ou bola na mão, vai tudo a dar à mesma laracha: a bola desvia-se da trajetória adivinhada por quem quer fazer golo, tá a ver?! Em caso de dúvida, o árbitro poderá recorrer ao mentalista mais à mão. (um penalti, à vossa saúde!).



publicado por Jorge às 11:17
Sábado, 29 de Dezembro de 2012

Dava um tratado esta coisa das moedas de menor valor terem cara e coroa mais escuras, assim a modos de coisa mais prensada, ou temperada a temperaturas mais subidas. Quiçá a cunhagem diferenciada radique no valor de troca de todas as coisas, talvez. Que a diferença de mercadorias sobressai no requinte das inscrições, escolhidas na razão direta do valor facial, isso é verdade adquirida. A logicidade mercantil ressumbra nas peças monetárias, em todas as latitudes, mesmo que a globalização não seja um dado adquirido em todas as praças e bolsas fortes do globo? Caras e coroas alouradas ou esbranquiçadas são sempre mais valorosas e mais desejadas, por todo o lado?

 

Dava um tratado esta coisa da despromoção dos porta-moedas, em vigor nas 7 partidas do mundo. O papel-moeda e o papel-plástico impuseram-se, por isso os porta-níqueis foram atirados para as arrecadações, ou desapareceram de circulação; carteiras, bolsas e pochetes ocupam o lugar vago, sabendo-se do horror da sociedade ao vácuo. Olha-se de través para quem usa porta-níqueis, da mesma forma que, nos idos do século anterior, se mirava quem ousasse guardar trocos, num lenço de rosto ou de assoar (ou no colchão). Longe vão os tempos em que as algibeiras foram acrescentadas às calças, para se dedicarem à recolha de trocos. A inflação terá tramado os porta-moedas? É politicamente correto usar porta-moedas? («tens o bolso cheio, ou estás contente por me ver?»)

 

Dava um tratado esta coisa do desamparo votado a moedas pequeninas, mais escurinhas e de menor valor, as quais se quedam quietinhas no remanso do lar. «Olhe, não tem uma nota mais baixa? Olhe, não tem mais pequeno? Olhe, fica-me a dever 10 cêntimos, dá-me na próxima». Esta é uma práxis atenciosa que pode valer um novo cliente pode, mas não depõe em favor das boas práticas de aumento de produtividade. Não é em vão que se apaparica a autoestima: pagamentos com ceitis denotam proteção social, maila velha querela de deixar cair os parentes na lama e traduz por igual rendimentos de trazer por casa e abastardamentos na produtividade. As notas de 50, 100, 200, as quinhentinhas afamadas e mesmo as de 20, nos tempos decorrentes – conferem estatuto social, ou fazem gastar menos; as restantes denunciam debilidades que se querem a recato e a precato. Então, por que razão há falta de notas de 5 euros, por todo o lado? Não deveriam as maquinetas multibanco ser obrigadas a debitar notas barbudas, em tempo de todas as pragas do Egito?

 

 Dava um tratado esta coisa da valoração das coisas, do trabalho, das mercadorias. Uma arroba de níquel troca-se por uma nota gordanchuda, mas 15 kg de batatas não valem um caracol. Ei-los que discreteiam sobre a raridade do níquel, sobre as especificidades da lei da oferta, ou sobre as virtudes, virtualidades e virtuosismos dos mercados, os especialista da matéria: revolvem mundos e fundos, trocam por miúdos o economês e, gemebundo, cada um fica com a sua. Como se chama o deus menor inventor e inventariador do proprietariado que assegura benesses a meia-dúzia de indivíduos e instigador da relevação de tantas culpas a tantas dúzias de pessoas, cujo principal pecado é a geração de sobrevalias (e menos-valias)? Até quando se prolongará esta ideia que no mercadejar é que está a virtude?

Dava um tratado esta coisa do caráter epidémico do dinheiro. Foram criados normativos que proíbem o manuseamento próximo de moedas, notas e cartões e produtos não embalados, no ato da venda. É o caso do magarefe que agarra nos bifes e faz trocos a seguir, do vendedor de alfaces que deposita a quantia exata na gaveta, dos senhores que nos restaurantes manuseiam as sardinhas de qualquer jeito, com o argumento que vão a grelhar e o fogo destrói todas as excrescências, muitas das vezes com a aquiescência dos participantes nas operações de troca. Terão que explicar a estas pessoas que façam como os senhores da alta finança, não sujam as mãos, enquanto tripudiam preços, do peixe, da carne e das alfaces também. E depois diz-se que há micro-organismos perigosos atascados nas moedas e que passam. Seria, pois, uma medida profilática acabar mesmo de vez com as moedas, com o dinheiro? Ou o dinheiro tem tantas virtualidades, sendo uma delas a pureza de propósitos?

 



publicado por Jorge às 11:12
Terça-feira, 04 de Dezembro de 2012

I

- Portugal melhorou o seu desempenho nas alterações climáticas.

- É o 6º melhor dos 58 países responsáveis por mais de 90% da poluição mundial.

- De verdade é o 3º.

- Sim, tens razão, os 3 primeiros lugares não foram atribuídos.

- No ano passado Portugal era o 14º e os 3 primeiros lugares também não foram atribuídos.

- Uma evolução positiva, apesar da crise.

- Exatamente, por conta da crise, o consumo regrediu.

- Daí que tenham sido feitas menos malfeitorias ao ambiente (em oposição a outros domínios)…

II

- Os alunos do secundário já não vão pagar propinas.

- Já não vai haver copagamento?

- Não, ainda se pensou encarecer os impressos de matrícula.

- Qual a alternativa arquitetada?

- A solução talvez possa passa pela chapa 40.

- Como assim?

- A componente letiva dos profes passa a 40 horas semanais.

- E que mais?

- Turmas de 40 alunos, por exemplo.

- E que mais?

- O limite máximo de turmas poderia fixar-se em 40.

- E que mais?

- Que tal 40 mega-agrupamentos?

III

O senhor Carreira, ilustre cantor da nossa praça, ampliou a sua discografia com a Orquestra Sinfónica de Londres, gravou duetos com cantores românticos da estranja, aguarda a homenagem em França e lamentou que a maioria dos aedos portugueses não vá à bola com ele, não se imaginam a emparelhar com ele, o que já o deixou amarfanhado, atrido, de monco caído, agora já não. E disse mais:

. que os políticos deveriam ser responsabilizados pela crise;

. que o povo não tem de pagar os erros dos políticos;

. que o povo não pode pagar mais.

De uma penada matou 3 coelhos: demonstrou que não é gago, indiretamente reconheceu o enorme contributo de vasta parcela do povo no desafogo dos seus proventos e que não há direito! Ficam-lhe bem tais sentimentos!

 



publicado por Jorge às 12:30
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