Sábado, 26 de Janeiro de 2013

 . (O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia, Jean Barrault).

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   Uma senhora de Bemposta, posta-se todos os dias de plantão à janela, mal o sol se levanta. Todos os dias olha a rua e a vizinhança com renovado interesse. «A fulana do 2º direito recebeu muitas visitas. O marido é embarcadiço. Das 3, uma: ou ela tem muitos homens na família, ou tem saudades, ou anda com a crise entalada, amiga Arlete!» Há obras no 3º andar do 33. «Parece que os inquilinos não têm licença de ninguém. Quase que é preciso pedir licença para passar ali por baixo, os fulanos que lá trabalham são uns espanta-patrulhas, uns estroinas. Mas, nada-se em dinheiro lá por casa! Ontem aquela gente trouxe uma catrefada de compras do hipermercado, amigo Antão!» No dia anterior tinha sido espetadora de uma queda aparatosa. «Uma rapariga da minha geração deu grande trambolhão, ali onde está a passar a quele fulano com cara de furão. A Câmara não deu com o buraco, ela sim, cachapuz, balde ao poço, aqui vou eu! Duas almas compadecidas levantaram a mulher, queixosa da boca. Ao melhor terá partido dentes, se é que os tinha, amigo Sebastião!» O que a confunde deveras são os novos vizinhos do rés-do-chão fronteiro. «Diz-se que eram podres de ricos, que perderam muito na bolsa e nos casinos. O matusalém anda à pesca, em Cacilhas, o do meio conseguiu um lugar na estiva, o benjamim explora um café não licenciado e a mulher é que anda na boa-vai-ela, amiga Celestina!».

   Dá-se conta que está a ser vigiada, em grande estilo, por uma vizinha de que não se lembra de ver mais gorda. «Canta, que logo bebes! A vespilhar a minha vida, a minha casa, é preciso atrevimento! Não perdes pela demora!»

   Os agentes da polícia reagem céleres à denúncia recebida. Batem à porta da senhora de Bemposta e demovem-na a que os acompanhe à esquadra. Sem tugir nem mugir, toma assento na viatura que os leva à sede da congregação, onde acaba autuada, por intromissão na vida privada.

   Os amigos são taxativos: ela confunde às vezes as coisas, toma alhos por bugalhos, ter-se-á enganado nas coordenadas.

  Dez dias transcorridos, voga junto à fronteira, sem norte. Nem se dá conta que lhe trocam as voltas, quando a resgatam de volta a casa.

 

Rei do roque



publicado por Jorge às 11:32
Sábado, 26 de Janeiro de 2013

.Este mundo é uma bola; só quem nele manda é que não se amola. (provérbio, adaptado)

 

   Mané, rapaz de boa boca, de boa mesa, nado e criado com boas vistas e boas farpelas, sempre sonhou sempre com boa carreira, pois é guiado por boa estrela. A mãe natura fora-lhe magnânima: adónis clássico, escorreito de carnes, endereços apelativos, rijo que nem um pero, dispunha também de ductilidade intelectual ao alcance de poucos. Mas, não era bom de bola! Apesar da blandícia carrilada para aquela bola de futebol - um presente de aniversário – exibida em vitrina central do seu quarto de estar, tinha grande desgosto por não dar uma para a caixa em futebóis. Tentava um toque em jeito e saía-lho em força; tentava um pontapé de moinho e saia-lhe a bola ao picadeiro mais próximo; tentava um drible e ficava feito num 8. Não sendo laré, mortificava-o que o apodassem de pezudo, circunstância que não casava bem com a projeção ambicionada naquela terra de amásios da bola, pelo que precisava de dar volta ao contexto.

  Pôs-se a debicar em cadernetas de cromos, em vídeos, em filmes, em jornais, em livros e em enciclopédias. De grão a grão, adquire competências rápidas em todos os domínios dos futebóis e do futebolês. Moral da estória: faça sol ou chuva, no nabal ou na eira, a vitória, mesmo que difícil, tem de ser intentada todo o custo, com os melhores praticantes ou coisa parecida, com uma organização capaz e com as pessoas certas nos lugares certos.

(O rocambolismo da farsa do apanha-bolas que, numa noite de nevoeiro, meteu a redondinha dentro da baliza, através de providencial buraco da rede, dando a vitória ao patrão, ferreteou-o).

   Quando O Cateto, a folha informativa dos grandes cismas liceanos, organizou um concurso acerca de táticas de sucesso, enviou, na desportiva, uma súmula das ideias que bebera nas consultas livrescas, somadas aos ensinamentos das conversas de café e dos desabafos em lautos convívios. Sem grande surpresa, abichou o prémio, pois tinha palheta e pinta de escriba. Novo postulado: independentemente da pré-disposição à vitória a todo o custo de todos os atletas da casa, importa semear ventos no campo adversário e mandar para canto as tempestades.

    O jornal – saía quando saía – prestou-se à sua publicitação na net, para uma consagração viral.

    Conquistado a pulso o voto na matéria teórica, achou-se capaz de passar à prática – qual rã a crescer para a vaca que pastava no prado sossegado –, onde apostou singelo contra dobrado que vingaria. Debita regulamentos respeitadores da axiomática reinante, indigita colaboradores, cria uma equipa, Pernegudo FC, e avança para tomada de todas as bastilhas do bairro, com a sua bola. Escolhe invariavelmente os putos mais dotados (uns puseram-se a jeito, acabadinhos de deixar a academia de uma coletividade de firmado historial). O equipamento, as movimentações entre linhas, a cobrança de livres têm a sua marca. Raramente vê fugir os 3 pontos em disputa, também por desdita dos adversários, cumulados bastas vezes com expulsões e castigos máximos. Caso embezerrasse, o caldo entornava-se, com ameaças de volta às origens.

   Numa véspera de pelotada, cede à tentação e embarca em festança bravia, até-às-tantas. Uma das santolas que filou estava marada e pô-lo de calças na mão. Todo comprimidinho, agarrado às partes e entregue à bicharada, exigiu a sua inclusão na equipa inicial, morra quem se nega! Os adversários abrem alas aos chutões, charutadas, biqueiradas, passes tresmalhados, entradas a pés juntos do Mané (eflúvios mal enjorcados, mal sonantes e de mau jaez terão facilitado a manobra). O placard registou um resultado histórico.

   Na jogatina seguinte, os adversários entram de máscara aperrada ao nariz. Solicitado a cumprir os regulamentos - saídos do bestunto do guru -  o álvidro expulsa 2 contumazes elementos da equipa da outra banda. Instado a bater uma penalidade máxima, converte-a à terceira tentativa, por suposto encolher de ombros e bater de pálpebras do keeper, nas tentativas anteriores. À terceira foi de vez, jazeu de de borco, depois de ser atingido pela botifarra do mordomo, à má fila. Isto valeu a suspensão de prélios durante 2 semanas, até que a família numerosa do guarda-meta se deixasse convencer que tinha serenado. Os fartos fundos conseguidos numa vaquinha vão direitinhos para os bolsos da fisioterapeuta, do odontologista e do feirante que forneceu uma dúzia de fatiotas, fatos de treino e equipamentos de marca à germanada.

    No regresso da compita, o clube do Mané tem pela frente uma equipa capitaneada por hábil esquerdino e senhorio de n bolas topo de gama, primícias do trabalho infantil do Bangladexe. Num dos primeiros lances, o habilidoso leva que contar: um toque intenso de ombro projeta-o para terra de ninguém que ficava fora do recinto, tendo por ali andado à procura das cangalhas um par de horas bem contado. Mané diz que não meteu prego, nem estopa e logo a maioria dos mirones jurou e trejurou que nada viu (eu seja ceguinho, se vi alguma coisa….)

   Um dia decidiu organizar um campeonato do bairro, com troféus autênticos, angariados nas charutarias e estamparias das redondezas. Sem grande esforço, as vitórias foram-se acumulando no bornal do Pernegudo FC. No jogo da final, enfrenta-se a uma equipa reforçada de 3 xenodontes superdotados. Nem chegou a haver luta, tal a codícia dos emboabas, peritos em nós cegos, toques de calcanhar, chutos de trivela, pontapés de moinho e bicicleta e outros ilusionismos.

    Foi então que caiu em si e se deu conta que não tinha muito préstimo para aquilo. Mas, dizem-lhe que poderia zelar pelas operações a montante e a jusante. De conivência com os novos donos, pôs-se a alugar bolas de todas as variantes do balípodo, a gerir carreiras e fundos, a organizar almoços em Canal Caveira, conferências na Gulbenkian, festivais no pavilhão Atlântico, não esquecendo o gamanço, o palmanço de carteiras, a recetação de apostas, a governação de claques, o lançamento de petardos e assalto à mão armada, pelos recintos do bairro. Da fama não se livra, ele é tão só um pau mandado da trinca de alienígenas que, no remanso de condomínios fechados, saca com precisão de relógio atómico uma comissão choruda.

   Não há pai para Mané!

 



publicado por Jorge às 11:22
Sábado, 26 de Janeiro de 2013

 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

        (Guerra Junqueiro)

 

    Há o regresso às aulas, temido pra burro, pela generalidade dos intervenientes no processo, quando se propagandeia o seu oposto, um momento de festa. Para os putos e novatos sim, para os tarimbados nem por isso. Para o comércio é um maná e tudo o que é bom para o comércio também o é para o povo.     

   Há o regresso ao futuro, uma fita que, no original, alerta para a responsabilidade que temos na escolha dos pais. Ninguém assina por baixo uma versão responsável sobre a proveniência da alma, sobre o momento em que ela adere ao corpo, sobre a escolha da família em que se nasce. A vida - sabemo-lo bem - surge aquando da fecundação, está tudo bem explicadinho. A escolha da senhora Maria e o senhor João para pais de infantes permanece no segredo dos deuses e arcanos. Ser menino responsável ou menina na linha ajuda a ter sorte no leilão da parentela.

   Há o regresso ao passado que, não terá assim tanta piada, mas dá para conhecer como é que os de antanho sobreviviam sem dinheiro, sem têvê, sem net, sem computador, sem telemóvel, sem aviões, sem cartões de crédito, com modas estapafúrdias e costumes nada brandos. Quando o recuo se dá até aos tempos dos dinossáurios, a coisa perde algum encanto…

    Há o regresso ao regime alimentar paleo (uma deriva do regime crudívoro, é crível). Os seres humanos no Paleolítico não tinham diabetes, colesterol alto, doenças cardiovasculares, obesidade, cancros, doenças neuro-degenerativas e enfermidades que tais, ditas de civilização. Abusavam da fruta e chegavam-lhe forte nos tubérculos, frutos secos, raízes e legumes; carnes magras, peixe e marisco também marchavam, quando estavam à mão de semear. Caprichosamente vivia-se menos, à altura…

    Há memória daquela cena galharda dos militares da guerra colonial que, por alturas do Natal, enterrados em saudosismo das cebolas do Egito, mas cedentes à propaganda da conjuntura que os empurrava ao sacrifício, de baioneta encostada às costelas, ajuramentavam que tudo ia bem «no reino da Dinamarca». Disso davam testemunho a pais, mães, filhos, filhas e restante família. O estribilho nunca mais será esquecido: «adeus, adeus até ao meu regresso»! Se aquilo não era reconfortante!

   Há, no presente, o regresso aos mercados secundários da massa (a hierarquia dos mercados é um busílis), um feito de governantes que embicaram para o reviralho dos bolsos dos ostracizados pobres governados, sem dó nem piedade. Ainda ribombam os foguetes, os petardos, o fogo-de- artifício, cobrem-se os passeios de confetes e serpentinas, ecoam vuvuzelas, apitos, mailas buzinas. Saiu algum na raspadinha, no euromilhões, na lotaria, no joker, nas apostas dos jogos de futebol, na quiniela das corridas de cavalos, na luta de cães ou grilos? Não, mas saber que os mercados nos amam é um bálsamo para os sacrifícios arrancados sob coação aos bichos-caretas alistados e comprometidos na redução da despesa e no aumento da receita. Traduzindo em miúdos, a partir de agora os mercados (caso a corte suprema não levante ondas) dão uma caixinha devidamente certificada ao pobre esmoler. Diz-se que há pedintes capazes de tudo, até de amealharem cruzados suficientes para mandar fazer aeródromos, vias rápidas, portos de águas profundas e estudos para prospeção de minérios, ouro negro e novos mercados.

  Com a evolução na continuidade e saudade do pelintrismo, perfila-se o regresso às origens. A regeneração, numa palavra (uma despesa pública a ultrapassar 120% do PIB promete, finanças de lixo também, pressões sobre a corte suprema idem-idem, aspas-aspas)! Afinal, a independência financeira não é um mito, da mesma forma que já se apanha moscas com vinagre ou rabos de bacalhau. A regressão - marinha que seja – está em marcha.

 

 

 



publicado por Jorge às 11:19
Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

   Trata-se de um país maneirinho, de fronteiras traçadas a escopro e martelo, mas estranho. Foi capaz de façanhas ímpares, em temporadas breves e de antanho, porque se atreveu a seguir uma boa estrela. No tempo restante, incapaz de grandes gestas, atém-se conformado aos ditames dos astros e dos fados, pelo que raramente se dá pela sua presença nos palcos com mais holofotes. Terra de heróis e santos, tem vivido submisso à canga e às birras dos mandantes da ocasião, com relapsa submissão, de que a renitência de um punhado de valentes à vez, constitui exceção.

   Desportivamente falando, poucas vezes conseguiu ultrapassar a rocha Tarpeia, coligindo prestações condizentes com a pequenez de dimensões e de propósitos. Conta no seu bornal com vitórias saborosas em modalidades de exposição. Nos períodos de maiores melodramas, augurou-se que, só nos matraquilhos, haveria cometimentos futuros dos seus filhos. Quem assim julgou nunca meditou nos rasgos dos nativos, na sueca…  

   A ambição é sempre a última a morrer, mesmo que, em questão de realizações sejam mais as vozes que as nozes. Veja-se um caso de política: o principal comissário da união a que o rincão pertence foi nado e criado na terra, mas poucas vantagens os concidadãos terão colhido, quiçá por serem infundadas (daí que lhe liguem pouco). Ao invés, no domínio das capturas do cherne, um sector bastante desprezado pelos donos dos mercados, nos últimos tempos, a nomeação trouxe baixa nos preços…

  Nas competições desportivas, as vitórias são credoras de respeitabilidade, se cumpridas por indígenas a operar dentro de portas. Os habitantes ufanam-se da epopeia de um dos melhores futebolistas e de um dos melhores orientadores de futebolistas do globo, mas os ditos cujos labutam na estranja e dos dividendos deles poucas vantagens comparativas colhem os seus admiradores do interior, eles que andam aflitinhos, tantos os furos do cinto recentemente vencidos…

   Crê-se, porém, em mudanças significativas que deverão mudar a face do país: uma seleção de praticantes juniores acaba de ganhar a competição máxima de matraquilhos da aldeia global. Outro(a)s praticantes, doutros escalões etários, quedaram-se em lugares honrosos. De resto, um excelente indício que a coisa promete. Tanto assim que o povo miúdo pensa estar a cavalgar uma boa onda, de moral em alta.

 



publicado por Jorge às 12:16
Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

Ao autarca foi proposto um comentário ao ranking das escolas. Sim, senhora, acho bem, é uma boa maneira de aferir o grau de sucesso, a organização e a capacidade dos docentes, discentes e restantes funcionários. Alguém chamou a sua atenção para o facto de que tinham sido escamoteadas variáveis como o nível económico, estrato social e proveniência dos alunos, o que poderia produzir outros resultados. «Desculpas de mau-pagador!»

Ao autarca foi proposto um comentário ao ranking dos hospitais. Sim, senhora, acho bem, é uma boa maneira de aquilatar do grau da competência dos administradores, das perfomances dos médicos e enfermeiros e restantes funcionários, além do grau de satisfação dos doentes. Alguém chamou a atenção para o facto de terem sido medidos de preferência a efetividade dos cuidados prestados, a eficiência das organizações de saúde e mal o seu desempenho financeiro, o que poderia produzir outros resultados. «Desculpas de mau-pagador!»

Ao autarca foi proposto um comentário ao ranking das universidades. Sim, senhora, acho bem, é uma boa maneira de apuramento da qualidade da reitoria, dos lentes e restantes funcionários, da produção científica e da capacidade de captar alunos e profissionais estrangeiros. Alguém chamou a atenção para o facto de não terem sido propriamente medidos o grau de preparação efetivo dos alunos e a acuidade da sua integração no mundo do trabalho, o que poderia produzir outros resultados. «Desculpas de mau-pagador!»

Ao autarca foi proposto um comentário ao ranking dos municípios. «Rais parta esse estudo mailos autores de meia-tigela que o pariu! Não há respeito pela longevidade da minha autarquia, só se preocupam com a autarcia deles. Escamotearam acintosamente o número de camas de hotel e hospital, a extensão das áreas verdes, o volume dos bens transacionáveis, o apoio a necessitados. Esqueceram-se de outros indicadores, como a qualidade dos caminhos por fazer, a limpeza dos arvoredos, o efetivo de botequineiros, a gratuitidade do acesso aos monumentos vindouros, só para dar alguns exemplos! Se nos fosse feita justiça, deveríamos estar num dos 10 primeiros e não nos últimos da tabela. Cambada de lambe-botas, de engraxadores sem caixa, de especialistas de coisa nenhuma, polichinelos de espinhela caída, flibusteiros! Se os autores da gracinha não se retratarem, eu componho-lhes o retrato, sou muito homem para lhes dar cabo do canastro, das canelas e dos canhenhos deles!»

Ao autarca verberante foi proposta um direta, nessa noite, de forma a pôr a escrita em dia, não fosse o mundo acabar e ele ter de prestar contas atabalhoadas, lá em cima.

 

 



publicado por Jorge às 11:59
Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

Pessoas bem-intencionadas deitam mão a uma caneta e escrevem. Um manifesto contra a pobreza, escondida, declarada ou assim-assim. Dizem de sua justiça: o atual salário mínimo, descontos feitos, não dá para mandar cantar um cego e fica abaixo do limiar da pobreza (€ 434). Mais penitentes, a juntar aos já existentes, não obrigado! «Aumentar o salário mínimo é uma questão de respeito, uma exigência do combate à pobreza para salvaguardar as pessoas que se veem privadas de exercer a sua plena cidadania e dignidade». Ou seja, com mais €10, por exemplo, fazia-se a festa e evitava-se mais uma estatística vergonhosa; esse aumento dava para reforçar o consumo; logo, a preservação dos direitos humanos estava garantida.

Só que a linguagem dos números vale o que vale: a entidade superintendente assevera que, contas feitas, o limiar afinal tinha sido desvalorizado, situando-se atualmente em €421.

Terão sossegado as consciências pudicas. Não haverá  aumento do consumo, nem tão pouco as estatísticas deixarão de ser chocantes. Quanto aos direitos humanos, talvez mantenham a postura do costume, cabeça enfiada na areia, algures no deserto das Ideias, sito no país do Não-Te-Rales-Que-O-Problema-Não-É-Teu.  



publicado por Jorge às 11:48
Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

(A cena decorre à porta de um banco, numa área sossegada da cidade.)

- Olá, não me reconhece?

- Não, sinceramente que não!

- Não me diga que não se recorda do João?

- João quê?

- Ora, ora, já estive mais gordo. Adoeci e emagreci. Mas, sou o mesmo João.

- Seja, que faz o João, agora?

- Sou motorista de pesados e desloco-me muito ao estrangeiro. Ganho grossa maquia!

- Olhe, eu estou reformado, com fraca prestação mensal. Sou o José; Telhudo de sobrenome.

- Não chegámos a ser colegas de turma, mas víamo-nos muito nos corredores, na cantina. Que surpresa! Isto merece ser comemorado. Almoçamos num dia destes. Posso saber para que número ligo, a combinar?

(João presuntivamente toma nota do número de telefone; de regresso à conversa, oferece uma máquina de barbear ao José.)

- Tenho aqui uma recordação deste reencontro. Uma máquina destas faz sempre jeito…

- Obrigado, mas não precisa de ser tão generoso.

- Atualmente vivo, em Cascais, tenho uma barrigada de putos e nada me falta, deo gratias. Olhe, inclusive relógios da qualidade destes.

(João exibe 2 relógios topo de gama, alegadamente genuínos, de marca suiça reputada.)

- São muito caros aqui em Portugal, para cima dos 1000 euros. Costumo cedê-los aos meus amigos, desde que me ajudem a pagar as custas da alfândega.

- São bonitos, lá isso são! Só por curiosidade, a quanto montam essas custas?

- 200 euros.

- Não disponho dessa quantia.

- Contento-me com 150.

- Continua a ser impraticável.

- Fica por 75, por especial deferência para contigo.

- Continua a chover no molhado, não é possível.

- Última oportunidade, 50 e não se fala mais no assunto.

- Tenho aqui 15.

- Mas, podes recorrer ao multibanco. Aposto singelo contra dobrado, em como dispões ali de muitos ducados.

- Isso é verdade, só que não venho preparado, deixei os explosivos em casa.

(2 segundos, foi quanto demorou a retirada estratégica do João, agarrado sofregamente à máquina de barbear e ao estojo dos cronómetros. José dirige-se à maquineta multibanco a pagar os gastos do mês anterior, antes que se esgotasse o prazo e a liquidez.)

 

  



publicado por Jorge às 17:13
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