Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

 

Se existe tanta crise é porque deve ser um bom negócio.  - Jô Soares

 

    Afadigam-se os especialistas na porfia de novas expressões, em dourar a pílula, em países de risco, à rasca, portanto sob intervenção externa, comprometidos com o bom comportamento do saldo estrutural, com se assim deixassem o gato com o rabo de fora mais confortável. Depois usam conceitos escaganifobéticos, estilo default, haircut, rollover, LTRO, eurobond, siglas pomposas (FEEF, MEE), para darem numa de entendidos aos entediados entalados. Por via de tanta erudição, muitos iliteratos continuam a não pescar nada destes assados (mais esdrúxulos que o mistério da trindade, que a teoria do big bang, ou do BPN – entretanto a ser investigado pelos célebres detetives Patilhas e Ventoinha e Buraquinho). Outros petiscam umas lascas e os que pescam a fundo naquelas grandezas atrapalham-se uns aos outros. É isso, perdem o fio à meada, vão de seca a meca e a gente nunca mais janta.  Cá vamos, cantando e rindo…

    O país está nas lonas, não tem indústria (os eleitos foram poupados às agonias da poluição), não tem moeda própria - não pode recorrer a esquemas tolerados pelo sistema de desvalorização da dívida -, andámos a gastar em subsídios em carros, belos apartamentos, muitos bifes e curtição, sem desconfiarmos que o diabo não dorme, mas faz dormir. Estamos metidos numa camisa de 7 e noutra de 11 varas, cerzidas pela união política e monetária, só nos resta seguir os bons conselhos, corporizados na trinca/troika. «Meus senhores, foi bom, enquanto durou, divertiram-se muito, mas agora acabou-se a brincadeira, devolvam a bicicleta!» Os credores do Estado apanharam a gente de calças na mão, querem o deles de volta, com juros de mora capitalizados e nada de espernear. Solução? É essa aí, os pobres, portanto, com menores responsabilidades sociais que alombem pela medida grande! O governo quer pagar até ao último tostão e a obra está a acontecer.

  O FMI (outra sigla familiar, credo!), por mais de uma vez «defendeu a ideia que não devem ser implementadas medidas de austeridade adicionais para corrigir desvios no défice orçamental que resultem de uma evolução mais desfavorável da economia». Percebido? É assim, basta de massacrar o Zé Povinho, dê-se-lhe alguma folga, uns cruzados para jogar no casino. De resto, olho vivo e látego à mostra, que a carestia de muitos é a abastança de poucos e ninguém está autorizado a mudar o leito e o caudal dos cursos de água, torrentes, correntes e marés. À beira da exaustão, da depressão, poupemo-lo ao opróbrio da humilhação. Para tanto chegam um punhado de rebuçados, uns tustos para jogar nas máquinas do casino. Depois, como última consolação fica essa: a independência, ninguém lhes leva a mal, ou lhes tira semelhante gozo…

    Repostas em sentido, às gentes lusas - chupadinhas até ao tutano, à beira da depressão por tão madrasta vida, sem poderem dar alegrias a quem as prometeu e humilhada até dizer basta -  pede-se que se capacitem que cada um é para o que nasceu (pobretanas, no caso), que viveram um logro fenomenal em trinta e tal anos, que só as esmolas os puseram a acreditar que seriam abastados para sempre. Chegou a hora da expiação: enquanto se aguarda pelo apocalipse, a seleção natural ditará as suas leis.

 



publicado por Jorge às 12:54
Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

    O Fisco anda de pé atrás com os emissores, recetores e omissores de faturas, em transações de bens e serviços. Toda a gente terá de se haver, nos próximos tempos, com esta questão fatual, existencialista. Para acabar com desmandos e cavar novos alicerces pátrios, pode valer tudo, mesmo tirar olhos, fazer implodir os famigerados direitos humanos, recorrer à denúncia, como nos tempos da Maria Cachucha e tripudiar a privacidade. Os fins justificam os meios (e vice-versa) e contra isso, batatas!

    Uma faixa da opinião pública entende que a medida vem travestida de operação cosmética, para credor ver (não parece que a trinca/troica fique condoída e não sacuda a água do capote, mais uma vez, quando outros valores pecuniários mais altos se alevantam). Para outros, é mais uma medida de largo alcance, que só dará frutos – a exemplo da boa anoneira - a médio prazo, mas as gerações futuras aqui estarão para agradecer. Dá deus o frio, consoante o cobertor!...

    Já, do ponto de vista da ecologia, parece-me ser uma medida imprópria (inconstitucional, talvez): veja-se as toneladas de eucalipto arregimentadas para o efeito, o que pode fazer perigar a principal espécie dos ecossistemas natais. Todavia, é atilado não limpar armas, ou poupar nas munições, em tempo de guerra.

   Diz-se que isto é receita mágica para desencorajar a economia paralela. Em meados de setembro de 2012, o senhor Carlos Pimenta, presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF) da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), disse que o valor desta forma de economia batizada de informal daria para erigir aqui um “monte” de notas de 100 euros (onde param elas?), com 8,5 quilómetros de altura, equivalente ao Monte Evereste. Mais, um estudo que apadrinhou diz claramente que «o que mais causa fuga ao fisco não é a falta de faturas, mas faturas a mais para se receber IVA que não se paga, para empresas fantasma, para manipular preços de transferência entre empresas do mesmo grupo e para offshores».

    Crê-se que o Fisco disporá já de parafernália informática que cubra igualitária e equanimemente todas estas situações. Ou há moralidade, ou comem todos!

    Bem hajam os quixotes empenhados na cruzada que têm o céu por limite!

 

   

   

 



publicado por Jorge às 12:10
Sábado, 09 de Fevereiro de 2013

Breves e variegadas I

1 – Será que o patrão sabia?

   Um jornalista grego foi detido por ter revelado os nomes de uma lista de cidadãos com contas bancárias na Suíça. Os suíços estão a perder qualidades… Venham cá apelidar de roscofes outros paraísos fiscais! Quanto à detenção, o que tem de ser tem muita força...

2 – A lógica do sistema

  Um casal no desemprego vive numa carrinha. Nisto, uma repórter aparece por ali e os 2 dizem que estão desempregados, que a filha ficou em casa de pessoas de confiança e que precisam de emprego. Porque raio fui em lembrar-me do futebolista que disse que não se importava que o seu clube o vendesse?!

3 – Poucas vendas

   A senhora jornalista foi mandada entrevistar empregadores e empregados de estações do Metro que já estão pelos olhos com as greves. Que perdem muito dinheiro, que não são pagas as horas de relax dos ferroviários grevistas. E não se podem exterminar? (as greves, pois…)

4 – Agora vão no carro de S. Francisco?

   Os mandantes preparavam-se para vender empresas públicas de transportes terrestres e ferroviários e correlativos. Foi quando se soube que a maioria delas está a levar uma chimbalau dos antigos: muitos clientes deslocam-se a butes ou ficam em casa. Entornou-se o caldo e os promitentes candidatos à compra mandam agora aguentar os cavalos.

5 – Candidatos a ir desta para melhor

    Um senhor de provecta idade, ministro no país do Sol nascente disse a quem o quis ouvir que os custos dos tratamentos que prolongam a vida a pessoas com doenças sem recuperação são desnecessários e penalizadores da economia do país (o sakê não é para aqui chamado). Quem conhece aquelas latitudes pode puxar pelo bestunto e chegar a uma interpretação verosímil da tirada. Agora, fiquei alarmado com o número de adeptos desta solução final cá na terrinha…

6 – Isto não é solução…

    As pessoas simples são convidadas a participar - com a sua opinião - em debates públicos. Vá-se a ver, mal são desligados os microfones, não sobra nada para os programas noticiosos. Ao invés, basta que um famoso debite um monossílabo, se constipe, ou seja molestado para ser notícia sucessiva em espaços informativos. Será isto ostracismo social? (A talhe de foice, inenarrável é o mínimo que se pode dizer de uma bravata dirimida entre um senhor de bigodes e uma senhora com um buquê de hortaliças, atiçada pelos apresentantes de um programa de grande audiência).

7 – Saudosismo

      Os juízes e advogados usam balandraus, saias, se quiserem; os mesários balandrau usam, os catedráticos e outros também. Os toureiros, os festeiros, o pessoal do folclorismo usam berloques e adereços esquisitos. Tá visto, há gente que resiste…

8 – Pedigree

      Um senhor de muitos cabedais disse que era cachorrice atacar (bem parecia que há falta de guarda-costas por aí) quem tem mais dinheiro e sucesso, mais valia falar dos que não os conseguem. Palavras não eram ditas, e logo se operou autêntica revolução nas redações dos média: é um ver-se-te-avias de jornalistas nos bairros degradados, debaixo das pontes, nos bairros populares e da pequena e média burguesia.



publicado por Jorge às 11:31
Sábado, 09 de Fevereiro de 2013

«Q’ria que o mundo soubesse/Que a dor que tortura a vida/É quase sempre sentida/Por quem menos a merece»

António Aleixo

 

O sr. Fernando não é homem de muitas falas em público, dá-lhe mais o quebranto para as ações, em privado, terçando armas na busca incessante das boas e tentando despachar as más para o quintal do vizinho, para debaixo do tapete. Deus tem-se aliado ao seu trabalho, é capital que não falha, nem dispensa. Mais, não se limita a apontar o céu, faz por merecê-lo, com a criação e manutenção de boas, pias obras.

O sr. Fernando diz que o povão pode alombar mais e a história está do seu lado. Os chanatos do povo quase sempre foram menores que o tamanho dos pés.  Custa assim tanto, nos tempos que correm, meter de quarentena uns quantos direitos, (são mais que muitos, porra!), se o bem comum se encaminha para o ralo?! Não faz sentido bloqueios de viaturas oficiais, arremessos de ovos, tomates podres, farinha, água (no carnaval vá, que não vá…), a austeridade é necessária à assunção do status quo e à ressurreição das finanças. Um bom cristão não foge necessariamente ao massacre do próximo; o céu, máxima compensação dos oprimidos, conquista-se no sofrimento.

O sr. Fernando diz que, os sem-abrigo alombam forte e feio e não desistem (os gajos são uma caterva de madraços, isso são!) Por que raio há de queixar-se quem tem ainda acesso a cama, pucarinho e alguns bifes (cambada de panhonhas!)? Ninguém gosta de ir malhar com os ossos a um vão de escada, a uma gruta, a uma barraca, a um arco de ponte à nossa espera, tá certo, mas a vida que nos vem do alto é para ser levada às últimas consequências. Ponham os olhos no sem-abrigo que voltou ao quentinho dos braços do pai milionário e do milionário sem-abrigo. Enternecedores! Deus tem mais para dar do que o diabo para tirar!

O sr. Fernando diz que não proferiu palavras ofensivas, pelo que não tem de submeter-se a penitência alguma, prestação pouco consentânea com os ensinamentos adquiridos com o leite materno (se um justo peca 7 vezes ao dia!) Olha-me estes camaleões a fingirem que o dinheiro não conta, as pessoas é que sim!... Ficam de cú na mão, se a carteira não lhes cheira a notas novas, até me viriam comer à mão! Andam para aqui armados aos cucos, vejam só a latosa! Eu lhes digo, quando me vierem pedir batatinhas! Querem virar o bico ao prego, a mim são devidas desculpas, eu que amassei grande fortuna, para honra e glória do meu povo, amem!

O sr. Fernando ficou agoniado por pressentir que estava a ser vítima de auto de fé, em pleno senado. Ele até tinha vindo ali para falar do seu sucesso, de lucros assombrosos. Pronto, saiu-me a fava, estes fedelhos e velhos bacocos a azucrinarem a minha paciência, a moerem o meu juízo! Quem se julgam eles?! Vão marrar com o comboio de Chelas! Eu digo o que me dá nas ganas e não é qualquer zé-dos-anzóis a tapar-me a boca. Vejam só os pedantes, armados em carapaus-de-corrida, como se tivessem estatuto fiduciário e moral que lhes permita mostrar cartões amarelos a quem deveriam fazer mesuras! Dá Deus nozes a quem não tem dentes…

 

(O sr. Fernando passou-se, cometeu um chorrilho de pecados mortais. Irá à barrela, a confissão com  frei Tuck, assunto arrumado. Parece que não obterá mesmo perdão por se ter metido com o ordenado de Jesus, sem se desbarretar. Presunção e água benta…)

 

 



publicado por Jorge às 11:24
Quarta-feira, 06 de Fevereiro de 2013

. A coisa arranca com a entrevista 1001 do senhor que cria e recria espetáculos estilo Broadway dentro de portas. Também lá estava a principal intérprete do show. Sorrisos para a esquerda, mesuras para a direita, graçolas ao centro. Conversa mole e muita chinfrineira, numa demonstração de empatia esfusiante com as câmeras. A mensagem subliminar: venham daí gastar uns copeques, temos entre mãos uma criação boa a valer, fala da nossa querida diva, que era um espanto (a publicidade em todo o seu viço e pujança!)

. Uns rapazes e raparigas dão conta de negócios na net, bolsas, malas, sacos, pochetes, polainas, jarros, jarras, molduras e artefactos para bichinhos de estimação, mais da espécie canídeos, estão ali em exposição, ao alcance de quem tiver ducados suficientes. O desemprego é pior que as 7 pragas do Egito, não pode se lhe pode dar tréguas, que a árvore das patacas já secou (não há dinheiro, qual destas palavras não se percebe, pessoal?).

. Surge um friso de homens, pelos vistos, um painel useiro e vezeiro em discutir questões de alto gabarito. Desta feita está em questão o que os homens mais apreciam nas mulheres e vice-versa. Uma mulher prefere olhar em primeiro lugar para a cara? Para os pés? Para os olhos? Dúvidas existencialistas com respostas convencionadas, que as normas da boa ética são para todos, mesmo que em tempos de baixa moral... Que singulariza um homem nas mulheres? A cara? As mãos? As virtudes? Quem não duvida, nada sabe!… Em tempos pós-modernos, cuidava-se que as mulheres olhassem mais para o bigode, para a barba, para o queixo dos homens e que os homens olhassem mais os joelhos, os tornozelos e orelhas das mulheres. Pelo menos à socapa, era assim que se agia. Era e é!

   Sobre este lancinante tema, fica o registo de 2 tiradas magnânimas: «nas mulheres, só procuro qualidades» - diz um deles, com ar de Dom Juan de trazer por casa. Sem tibiezas, fecha a chave de ouro: «Deus é um ser perfeito; se ele fez a mulher, esta é perfeita». Só podia ser contemplado com uma ovação dos grandes momentos. Assim se fez naquele estúdio.

. Alguém destrava a roda e la busca um afortunado, antes necessitado de fazer muitas chamadas, a ver se os numes sorriem. A maré viva leva tudo… A assistência, contratualmente enlevada, berra histérica um número de telefone. O possidónio apresentante compõe nova tirada de mestre, gozando o pratinho.

. Houve tempo para um debate aprofundado sobre a sabedoria entretecida nos TPC. É uma prática discriminatória: se um progenitor dá uma mãozinha, o TPC sai bem, caso contrário, ó puto, aguenta-te à bronca! O TPC é uma infração aos direitos da criança, estilo homem do saco, bicho-de-7-cabeças. As operações formais, só a partir dos 12 anos podem ser conseguidas com sucesso, até lá os indivíduos precisam de mediador. Às vezes, os jovens de 18 anos não sabem que fazer das suas vidas, quanto mais os de idade inferior. Estes e outros argumentos judiciosos saíram essencialmente das bocas de um psicólogo e de uma profe universitária (intuição e patuá superiores). As crianças ganham hábitos de trabalho («hábitos de trabalho só a meio da adolescência», disparam os opositores). Há interação entre pais e filhos, aquando da realização dos TPC («não há interação coisa nenhuma», idem). O partido do «sim» consegue à tangente formular estes 2 juízos, cheio de sorte (palpita-me que o MEC vai passar a proibir os TPC). Mesmo no finzinho troa, por cima das cabeças, a ameaça: «em tempos de crise, se os pais é que têm de ensinar a matéria aos filhos, acabe-se com a escola» (pública, naturalmente...) Ora toma, embrulha e manda para a terra!

 

(Enquanto este programa decorria, um canal da concorrência debita outro, parecido nos meios, na duração, na interatividade e nas intenções: comida, segredos de bem maquilhar, voluntariado e da vida de um senhor que se licenciou aos 81 anos e mais comida, umas cançonetas e mais do mesmo. Mas não havia prémios para quem telefonasse, já era glorioso poder disfrutar da companhia dos apresentadores… Noutro canal, de grande audiência também, um médico que vai casar pela 3ª vez conta a sua estória («Nosso Senhor disse que nos amássemos), uma senhora donairosa fala da 2ª pele das mulheres, o senhor Futre fala febrilmente da momentosa época de um dos seus clubes preferidos - todos ao que parece- depois falou-se de casos de faca e alguidar.                                                                                                                            

Que não haja dúvida: a telenovela induca, a têvê instrói. «Só me saem duques e senas tristes»…



publicado por Jorge às 12:26
Terça-feira, 05 de Fevereiro de 2013

O sr. Trancelim é escolhido para liderar um departamento estatizado, de nome grandiloquente (por si só revelador do relevo que desempenha nas vidas dos íncolas), em substituição de outro senhor a quem terão feito a cama. Ter alguém a comandar estas marcas dos tempos que correm, é condição sine qua,  no encalce de um lugar estratégico que mostre a luz ao fundo do furado.

Numa de fait divers, vem um conselheiro acaciano, senhor desenfastiado, por acaso um bocado escurinho e do contra, a arrotar postas de pescada que o senhor tem um argueiro no olho e uma nódoa num fato (que deixou de usar, por acaso). Faz parte do coiro de carpideiras e dos francelhos, sádicos azucrins da paciência de quem tenta pôr ordem no regabofe.

Vai daí o presidente do ministério e da república estiveram-se nas tintas, deus os conserve, e fizeram-no jurar pela Honra dele (que nome esquisito tem a cara metade!) que ia cumprir os objetivos porfiados, em boa hora. O rincão um dia, comer-lhe-á à mão!

O sr. Trancelim detém um curriculum vitae vastíssimo de gestor, de alto e para o baile, e pede meças ao mais pintado (não há aqui suspeições de práticas mais ou menos caridosas). Também traz os bolsos grávidos de cartas de recomendações de antigos patrões de retumbantes sucessos. Os detratores dizem que se olvidou de botar preto no branco a menção à sua passagem por um banco que deu o estoiro, nem tinha que falar. À primeira, porque não era o CEO principal. À segunda, porque ele tentou compor os estragos, no que foi bem sucedido, ajudando a passar a fava dos produtos tóxicos e dos bueiros da casa ao Zé Pagode, um concorrente pamonha, paz d’alma, fatela, mas de costas largas e que, sobre mercados, só sabe umas larachas (confia à bruta nos porta-vozes). À quarta, porque num CV – ensinam os peritos – deve evitar-se a referência a números de jonglerie, golpes de rins e largos méritos na arte do desarrincanço. À quinta, porque ser empreendedor, competidor e inovador nos mercados mundiais pode implicar comer e calar. À sexta, porque, ninguém foi catar os CV dos seus pares, é embirração, poças!

O sr. Trancelim não parece destoar do milieu que passa a frequentar de cara destapada. Na cerimónia da tomada de posse, ele estava todo compostinho, com uma fatiota à maneira destas grandes ocasiões (estava lá uma senhora de vestes pretas e de chanatos a fugir para o marrom, o que fica mal). Com tantos méritos põe o país num mimo, em 2 tempos.

O sr. Trancelim está avalizado, na China e nas Arábias, pelo que a pátria tem muita fé nos seus méritos, para a reconquista dos mercados fugidios e outra vez em levante. Só os invejosos (que nunca hão de sair da cepa torta) não acham que se enquadre neste (des)governo...

 



publicado por Jorge às 12:09
Sábado, 02 de Fevereiro de 2013

 

   (Faz-se filas nas cantinas, nas padarias, junto às caixas dos supermercados, junto aos guichês de aquisição de bilhetes para espetáculos, nos cafés apinhados, junto a instituições do Estado, etc... Dá-se golpes - desprestigiantes para as vítimas, laudatórias para os fautores - nas bichas. As máquinas de senhas vieram morigerar esta pulsão, mas as velhas fileiras permitem troca de ideias, facto cada vez menos comum por aqui e por ali).  

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    Uma alma circunspecta chegou-se a uma fila de autocarro e põe-se a cirandar por ali, feita basbaque, sem nela tomar lugar. O senhor não dirige qualquer saudação, não passa cartão a vivalma, limita-se a ficar por ali, impávido e sereno, como quem não quer a coisa.

- Olhe, amigo, o fim da fila é do lado contrário, tá a ver? – avisam-no cordatamente, não vá haver mosquitos por cordas.

    E ele que nem tuge, nem muge, a fazer ouvidos de mercador, atitude que merece murmúrios de desaprovação.

    Chega a camioneta e o senhor macambúzio esgueira-se e faz terceiro lugar.  

- Oiça lá, o senhor não respeita ninguém, não esperou pela sua vez, está a fazer-nos de parvos, a gozar com a nossa cara, é?! – tartamudeia uma  sénior que sofre muito com as varizes aperradas nas suas pernas.

- Cheguei cá, há quase uma hora e não vi vivalma aqui. Dei uma volta e comprei o jornal para matar o tempo. Está ali fora um senhor que não me deixa mentir.

- Estórias da carochinha, balelas! Lá prosma tem você (mau, já não é senhor!) – insurge-se outro ancião a contas com a gota.

- Quem diz a verdade não merece castigo – replica o fautor da confusão.

  Cavalo manco não trota, mas a animosidade não está aleijada.

- Pelo menos sentava-se nos bancos de trás, mas não alapou-se num assento junto à janela, próximo da porta, o melhor de todos. Está à espera que alguém se roce em você? - Atira-lhe uma donzelona senhora dos seus direitos.

- Venham desbancar-me, se forem capazes – desafia o réu, de má catadura, com os azeites em ponto de ebulição.

- -Olha, (já chegámos à Madeira?!), sabes que mais, vai mas é para a tua terra, seu cara de cú, vocês lá não têm nem autocarros, nem filas – escarrapacha-lhe na cara, sem resquício de caridade cristã uma tiazinha.

- Tem piada, sou preto, mas nasci aqui – finaliza o senhor a quem todos apontavam o dedo acusador.

    Agora, aguenta-te à bronca! Há caras que se põem de banda, outras de asno, outras ainda de caso, outras assim-assim. Há quem assobie para disfarçar o enleio e há quem meta os pés pelas mãos. As expetativas voltam-se para o motorista (farto daquela confusão, esteve para os pôr todos no olho da rua, mas mordeu a língua a tempo). Alguém sorria para dentro, muito a gosto (tomem que já almoçaram!)

   A tensão quebra-se com a chegada de um passageiro retardatário.

- Olha-me, o Zé Escuro! A gente ficou de se encontrar na paragem seguinte, não foi? Como de costume armaste-te aos cágados, vê-se! Desculpem lá qualquer coisinha, ele não está a bater bem da bola, por conta dos ventos sujos que sopram não se sabe donde.

   Sentam-se lado a lado e saem na 2ª paragem, a camioneta mais aliviada. À saída encontram outro amigo, trindade completa, 3 da vida airada. Saudações contidas, alguma pilhéria e logo zarpam para um vetusto prédio público. Era janeiro e chovia que deus dava e eles 3 de sapatinho branco.

   Outra fila (isto já parece os países do lado de lá da cortina de ferro, porra!),monitorizada por um segurança apessoado, calmeirão, com pinta de estar habituado a desmandos de discotecas. Todos avançam direitinhos que nem círios, o respeito é muito bonito, ninguém passa a perna a outrem.

   De senha na mão, os 3 amigos do coração, assentam arraiais numa tasca manhosa das redondezas, a fazer tempo, fartos de negaças do mesmo.

- Então, Zé, alinhaste, sem piar, como manda a sapatilha! Quem diria?! - puxam por ele.

- O desemprego tira-me do sério, que querem?! – desabafa, zonzo e folgazão.

- Põe-te a pau que os afros são apontados como indutores da má situação – sentenceia o primeiro amigo do peito.

- Sabes que mais?! Vocês são possessos do racismo e acabou-se a conversa, como os almoços grátis - volve Zé.

- Isto de respirar todos os dias ar poluído pode laquear a massa cinzenta dos opinativos – volve o 2º primeiro amigo do peito.

- Já as classes e as castas, não fazem escumar as boas consciências. O diminutivo duma palavra sim! Vão pôr-se num porco! – finaliza Zé.

- Mas, deixem fermentar as uvas - finaliza o 2º amigo do peito.

  Quando pensam que já deveria ter chegado a sua vez, voltam ao prédio gasto e ancilosado e dão com o nariz na porta.

   Separam-se taciturnos, com vontade de estrafegar a má sorte de terem de amargar as passas do algarve, por conta de SEXAS incógnitas, mas receosas de exibir os trombis. 

    Amanhã é outro dia e contam voltar ao ministério público, onde se propõem apresentar queixa contra pessoas incertas, que teimam em fazer-lhes a vida negra (tanto pontapé até ferve!) Será desta?



publicado por Jorge às 10:19
Sábado, 02 de Fevereiro de 2013

. Terão direito a estátua, em lugar público e a placa comemorativa (em campa rasa também) todos os cidadãos que pautem a sua vida pelo trabalho e pela aceitação involuntária de sacrifícios em prol de outrem, sobretudo em tempos de bulcão financeiro (os numes e os seus galopins continuarão a extrair dignidade no trabalho de quem alinha, portanto a consagração para quem a merece).

. Não serão só os salário-dependentes a pagar, em direitos e em ducados equânimes, as dívidas do erário público (já bem lhes basta ter de gramar o pagamento do estado social). Os cidadãos dispensados destas formalidades, por terem pé chato ou chatos nas axilas, pagarão com língua de palmo os sinais exteriores da sua riqueza aquém e além-mar (o valor será calculado por uma fórmula ainda por inventar, premente é mesmo salvar o estado social).

. Serão promovidos os cidadãos que se recusam a medir os concidadãos por tenças, tachos, títulos e penachos ostentados e que creem que o bom nome e a auto estima também são património dos estigmatizados pela falta de dracmas (de preferência as pessoas serão tratados pelo sobrenome ou pela terra de naturalidade).

. A caradidadezinha deixa de ser norma necessária e suficiente de suprimento das necessidades básicas do pessoal que se esfalfa a dar o litro, todos receberão segundo a listagem, declarada na junta da freguesia do local de residência, anterior à reforma de 2012/2013 (as IPPS terão de se financiar nos mercados).

. As projeções vão no sentido da consagração dos políticos que prometem coisas na oposição e agem em conformidade, uma vez chegados ao pódio (assim se dará a volta ao ludíbrio na política ou à política do ludíbrio, tanto faz).

. A maioria dos comerciantes não cederá à tentação de repercutir, com larga margem de manobra, nos preços aos cidadãos compradores de mercadorias que chamam de suas, sempre que os impostos subam um nico (mais inspetores no desemprego, que se le há-de fazer, o destino não se combate, cumpre-se com paciência).

. Constituirão a maioria do ramo os comerciantes que vendem por 30 – com lucros, zero despedimentos - uma mercadoria que lhes custou 5, mas que podia ser transacionada por 100, sem problemas (campanhas públicas adequadas darão frutos, primícias ou serôdios, tanto faz para o caso).

. Serão maioritários os magistrados que cortem a direito, sem olhar a quem (fim da linha para a velha prática dos empenhos, das cartas de recomendação, da gratidão parola, dos jeitinhos aos mordomos,)

 . Todos os funcionários públicos irão interiorizar a recusa de pagamentos por baixo das mãos, ou dos dedos e que todos os cidadãos devem ser atendidos com urbanidade (a rispidez será erradicada).

. Tudo indica que os agentes do imobiliário que constroem casas à maneira e as vendem por preços socialmente sustentáveis se vão superiorizar aos restantes (a hierarquia nos materiais de construção e nas galgas enfiadas serão reduzidas à expressão mais simples)

. Sem exceção, todos os autarcas vão abdicar do direito quer a lei lhes confere a distribuição de moradias de habitação social a amigalhaços de grossas rendas (mas pouco abonados, pelos vistos, ao tempo que isto chegou!)

. Não serão apontados a dedo os responsáveis que não tenham canudo (dos bons ou dos falsos), tão pouco serão chamados à pedra os burlões inofensivos, enquanto for comprovável que charlatães encartados e diplomados continuam a exercer (em número superior ao das mães).

. O ensino ministrado nas escolas vai privilegiar a aquisição de conhecimentos, o respeito pelo professorado e o afastamento dos ruídos de fundo (conselho geral, o espírito-santo-de-orelhas, o bullying, o «ajudanço», a falta de hábitos de trabalho são pormenores).

. Serão dadas todas as condições aos médicos estilo João Semana que acham que a solidariedade também faz parte do juramento de Hipócrates (por que será que a profissão é tão procurada, pelos lindos olhos de Esculápio?).

. Será cada vez menor o efetivo dos seres humanos que se tem em melhor conta que o resto da população mundial, na inteligência, na beleza e na sobrevivência (urge a reciclagem de muitos pais, muitos educadores e de muitos países).

. A maioria dos comentadores desportivos ousará afrontar as suas cores, sempre que as evidências entrem pelos olhos dentro (olhem que os comentadores doutras áreas não defendem a sua dama a qualquer preço, façam como eles!)

. A pluralidade dos apresentantes do audiovisual passará a respeitar o povo, dando voz à sabedoria popular. Comer por lorpa os simples, escarnicá-los, impingindo-lhes nos serões «artistas» da rima débil, lugares comuns bisonhos, safados e parolos, do amor às postas, umbigo e perna ao leu ficará fora dos seus propósitos (as dobragens, em terra de muita iliteracia e analfabetismo, podem ser um bálsamo para a fuga à alienação social, ao que tudo indica).

. Com o fim das ideologias, os prosélitos do livre cambismo assumirão frontalmente a boa-nova que, afinal, a sociedade não tende para a homogeneização, para o igualitarismo, que sempre houve ricos e pobres, que há legitimidade na apropriação de mais-valias dos outros (também não se pode comer bifes todos os dias).

. Finalmente os mandadores dirão às escâncaras que o Estado não existe para pôr a produzir, não existe para bem-fazer à maioria dos cidadãos, que o bem de poucos é a sorte da maioria dos cidadãos e que estes não se fiem nas harpias que persistem em vender banha da cobra do reviralho (a discriminação positiva é boa!)

 

   Talvez todas estas coisas sejam praticáveis em terras do Cruzeiro do Sul, talvez!... Lá o mundo vê-se ao contrário e sonha-se também, não?



publicado por Jorge às 10:15
Sábado, 02 de Fevereiro de 2013

Um senhor bem-posto, de muito graveto, de muitas voltas ao mundo, de muitas casas espalhadas pelo mundo, de muitos serviçais à disposição nas diversas casas suas espalhadas pelo mundo, de muitas conquistas atendidas por serviçais ao dispor nas suas muitas casas espalhadas pelo seu mundo, diz, alto e bom som que os tansos andavam a aguentar a retranca, mas o melhor seria que se aguentassem à bronca, tal o vendaval que tomaria de assalto as suas vidas. O pessoal que se escuda nos direitos adquiridos não grama a tirada do protegido dos deuses e jura que a coisa po acabar em duelo.

   O senhor numulário é tido por exímio organizador de tainadas de estadão, a torto e a direito, no seu palacete requintado, sito em local estratégico, algures no coração do jet-set da santa terrinha. Os muitos amigos, admiradores, simpatizantes, conhecidos e penetras persistem em peregrinações regulares às instalações do filantropo, (alambazam-se à borleta). Uma companhia de garções serve invariavelmente montes de chamuças, croquetes, pastéis de bacalhau, carnes frias, carnes quentes, mariscos, cabidelas, caracóis, caldo verde, brunches, rodízios, picanhas, francesinhas, lasanhas, pizas, caviar, peixes fritos, peixes na brasa, saladas, doces monásticos, cheesecakes, queijos e frutas da época. Os manjares querem-se bem demolhados, pelo que outro corpo de prestadios distribui martinis, champanhes, vinhos verdes, vinhos maduros, vodkas, medronhos, bagaceiras, águas-pé, licores, vinhos de arroz, saquês, cervejas, águas básicas, águas ácidas e neutras, conhaques, kavas, nespressos, bicas de diversas bitolas, garotos, irish coffee e shots. Leão nos negócios, mas frugal nas vitualhas, a personificação de Apolo come como pisco ou santão indiano, bebe pela medida pequena, mas arria-lhe bem nos digestivos e fica contentinho da silva por estar rodeado de tanta malta. Do que ele gosta mesmo é de bate-papos, sermões da montanha, preleções e que os discípulos, os epígonos, os conversos levem os seus ensinamentos a todo o lado, amor com amor se paga, ora pois!... 

    Alguém traz à baila o aumento ciclópico de tenças. «Com o mal dos outros bem posso eu» - comenta o anfitrião. Abrem-se sorrisos larvares, boçais e outros de boca fechada. Um fuão menciona o declínio dos salários. «País virtuoso é aquele em que a maioria dos humanos não pode ter vícios» - exclama o dono do lar. Estralejam risotas. Estoutro afiança que o país está de pantanas. «Vai a meio da estrada por causa dos carros» - contradita o estalajadeiro. Estrondeia forte saraivada de risos de pouco siso. Fulano diz que o governo não faz mais do que lhe compete, exigir a quem leva uma vida de fraca responsabilidade. «Bem-aventurados os mansos, que possuirão a terra» - tartamudeia o imperador dos bitaites. Uma figura acaciana assevera que o bicho-careta se deveria sentir orgulhoso dos descontos e que não se deveria deitar à rua, assim de barato tanto sofrimento. «Esses, ao menos, não têm de comprar bulas, mandar construir ermidas e suportar os vícios dos abades!» - redargui o rei das boutades. Irrompem risadas e zombarias que fazem ressoar as paredes do palacete. Sicrano diz que o manda-chuva nº 1 se prepara para despedir muitos milhares de amanuenses, nem que seja à trolha, ou à lei da bala. «Quem vai à guerra dá e leva» - afiança. Risos estrídulos, gargalhadas esfusiantes ecoam nos arrabaldes. Beltrano assegura que o manda-chuva nº 2, amigo de infância, adolescência e adúltero, se prepara para cassar os ordenados e que as misericórdias façam o resto com as grossas maquias que recebem, só vai poupar as altas-esferas. «Quem tudo quer, tudo perde; quiseram conquistar os cornos da lua e agora amoucham!». Ouve-se risos intermináveis, à toa; estava-se neste entremez, quando vem a casa abaixo.

   Ainda se espera pelo suave milagre que possa valer aquela pobre gente.

 



publicado por Jorge às 10:12
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