Sábado, 16 de Março de 2013

- Senhor Cortes, o seu governo parece uma associação de carneadores, tal a sanha de cortar, cortar em quem está mais à mão!

- Isto não é um desgoverno, como a sua casa, a gente vai governar para reduzir o défice estrutural, custe o que custar. Como dizia o sábio do século II dC, deves, logo pagas. Os sacrifícios contemplam com equidade a maioria, que os empreendedores merecem flores, vejam ou não um boi à sua frente. Além disso, parece que o coronavírus anda outra vez ao ataque e os bofes deles podem ressentir-se, o diabo seja cego, surdo e mudo. Há para aí muita lenha para queimar, nos próximos três 15 anos.

- Senhor Cortes, é inconcebível que tenha posto o país de cócoras, a soldo dos países ricos!

- Alto e para o baile, ó Francelina, os ricos fizeram o jeito de nos darem e emprestarem dinheiro. A malta caiu no engodo, julgou que o eldorado estava à mão de semear, pôs-se a palitar os dentes, a andar de charola e agora está o caldo entornado. Lembra-se daquele vagabundo do meu antecessor, lá das Beiras, deixou-nos a quase todos sem eira nem beira. E eu que me aguente à bronca!

- E as manifestações, deu-se conta ou fechou os olhos para não ouvir?!

- Só eu sei por que fiquei em casa, já aprendi a «Massamá, vila pequena» e queria ir praticar para a rua com o Alex, só que a guarda pretoriana acagaçou-se. Com o desgosto atirei-me aos percebes, às santolas e ao camarão tigre que todos os dias cai à borla lá no meu palácio, mas dei-me conta do cagaçal e do aranzel, um direito legítimo, mas não exorbitem!

- Afinal o alívio do alargamento das maturidades dos empréstimos é chão que já deu uvas!

- Esse alívio é bom, por causa dos picos. Sabe que, quando chegam os picos do crescimento, os donos dos castões mamam à discrição e ficam que nem cevados. Conhece a piteira? Então devia conhecer, a piteira tem picos e só com azeite eles despegam dos dedos, mas azucrinam um justo até dizer basta.

- Mas, por que cargas d’água nos caiu o Santo Ofício internacional em cima?

- Pelos nossos lindos olhos, tá a ver a cena? E também pelos nossos lindos cabelos, já tínhamos fama de machos latinos, agora há loiras a dar com um pau, o que até é bom para o turismo.

- Andou o senhor a roubar os pobres, para dar aos ricos, seu cavaleiro da triste figura. Ladrão a ladroar para ladrão não tem perdão, nem do chavelhudo das profundas. O senhor, na infância, da qual saiu há pouco, deve ter ficado traumatizado com o destino do xerife de Nottingham!

- Senhora presidente, nunca ouvi falar de tal alcaboz, nunca o vi mais gordo. Rogo-lhe a finura de mandar fechar a matraca a esta desbocada que passa a vida a atanazar-me os cornos da abundância.

- Não há uma acusação objetivada, portanto, aguente os cavalos.

- Não me apanhas, nhanhanhanha!

 

 

 



publicado por Jorge às 11:10
Sábado, 16 de Março de 2013

Ah! Se a vossa liberdade

Zelosamente guardais,

Como sois usurpadores

Da liberdade dos mais?

Bocage

 

 

- O esforço de consolidação orçamental vai bem.

- Acha?

- O saldo estrutural nem por isso, mas o que conta é o saldo nominal.

- Acha?

- Os estabilizadores automáticos, esses são uma preocupação, sempre.

- Acha?

- Sendo que, vamos ter de fazer um orçamento retificativo.

- Como?

- Sendo que, não posso revelar o PIB nominal adotado.

- Como?

- Sendo que, a CGD terá de proceder ao rerouting, sem «CoCos».

- Como?

- Sendo que, a alavancagem da economia terá de ser repensada, com uma dose de super-keynesianismo experimentado por amigo meu, alto e louro, de Estocolmo.

- Como?

- A taxa de desemprego vai subir, fica todo o mundo elegante, como se vê no slide.

- Já cá faltava mais essa, seu desalmado!

- A sustentabilidade do crescimento terá de ser conquistada com mais sacrifícios, senão desimpeçam-me a loja, como se vê no slide.

 - Já cá faltava mais essa, seu oficial caguinchas!

- A dívida pública só vai chegar a 60%, em 2040, vi eu na bola de cristal e agora vocês observam no slide.

- Já cá faltava mais essa! Pelo andar da carroça, isso só vai acontecer em 3000. Até lá, o que é que se come, virgem santíssima?

- Nomes sagrados não devem ser invocados em vão, mas, em alturas de aperto, vá-que-não-vá, que nos valha, caso possa. Serei acicate para os bons e usarei o chicote com os maus. Mais tarde fala o senhor secretário da ata.

- Chiça, com quem casei eu a minha filha, valha-me S. Cipriano!

 



publicado por Jorge às 11:05
Sábado, 16 de Março de 2013

- O senhor Relvas ficou banzado com a demora da trinca. «Em exames, durante 18 dias?! Nunca passei por tal!»

- O senhor Relvas quer correr a bem ou a mal com funcionários da RTP. Então, agora como fazer avançar a «tv rural»?

- O senhor Passos esquiva-se a prestar contas ao patrão que é o povo, o tal que mais ordena. A recusa faz parte das «políticas de gabinete». Aí está uma nova versão da política secretista do tempo da velha senhora? Aversão não é…

- O senhor Passos foi comparado a um coiote cadente. O bicho é carnívoro e costuma atacar pela calada da noite; quanto a quedas, o cavalheiro parece que se aguenta nas sondagens…

- O senhor Passos, farto de tanta moenga, saiu-se com esta: «Não sejamos míopes!» Os míopes sem culpas no cartório preparam-se para o processar, pois asseguram enxergar, pelo menos, um palmo à frente do nariz...

- A senhora Ângela das bolas de Berlim será ventríloqua? Ouçam bem o senhor Passos e logo percebem a dúvida…

- A crise dos valores já foi internacional, agora é assacada à Europa, amanhã será patenteada nas Desertas e Selvagens?

- Um cavalheiro, muito senhor do seu nariz assevera que «o desespero é por vezes caminho fértil para populismos». Um especialista, o rapaz que é dum partido popular.

- Um grupo de cidadãos entende que as greves no metro da capital estão apenas a prejudicar os utentes e não os administradores das empresas. Por essas e por outras é que deveria haver uma cláusula no contrato dos gestores, o recurso compulsivo do metro nas suas deslocações.

- A Argentina já tinha um deus, agora tem um papa, saiu, há pouco, de uma crise financeira e vai de vento-em-popa. Só lhe falta resolver a questão das Falklands, perdão, das Malvinas, para estar na paz dos deuses.

 



publicado por Jorge às 10:52
Quinta-feira, 14 de Março de 2013

A sra. Conceição prima por não fazer concessões ao mau gosto, interage bem com as pessoas que entrevista, apresenta-se bem, não alinha no popularucho e parece estar sempre grata a quem conversa com ela. Saiu-lhe a fava, quando, no finzinho do «Boa Tarde» teve de haver-se com 4 moçoilas, destemidas fãs do sr. Justin, um trovador consumado, a mais fulgurante estrela no panteão de ídolos de teenagers, em muitas partilhas do mundo, o último produto acabado do showbiz do outro lado do Atlântico. As sãs moçoilas - formosas e seguras -   elogiam a confiança que os cotas depositam nelas, acham que as palavras cantadas pelo ídolo traduzem as vivências, as preocupações e reivindicações da gente nova como elas (com estas os rappers não se safam!), que seriam capazes de sacrificar a cobertura pilosa para agradar ao monstro sagrado, que já o tinham visto atuar noutros sítios do mundo e uma delas enfrentou heroicamente os maus humores do tempo para conseguir um lugar na primeira fila do espetáculo. Quanto mais perto do adorado (terão elas namorado?), como diz o outro, sempre se fica mais aconchegadinho. O seu enternecimento não é traduzido em ais, lágrimas e palmas da plateia, que os gostos dos circunstantes talvez sejam mais delicodoces. A sra. Conceição também não estava lá para aparar golpes, nem pelos ajustes («há quem goste do género»). Talvez não tivesse tido na devida conta o impacto do evento na economia local, não é de todos os dias o estipêndio de 1 milhão não é contributo menosprezável, um balúrdio. Terá sido por causa deste evento que a troica ainda está por aí?

(12/3/2012)



publicado por Jorge às 12:23
Quinta-feira, 14 de Março de 2013

- O meu avô disse-me que, no tempo da velha senhora, havia mais respeito.

- Quem fala assim não é gago.

- Que toda a gente era boa, temente a deus, e por ele protegida.

- Havia quem não embarcasse no beija-mão, é a questão da regra com bastantes exceções.

- Que às famílias bastava o pão, o vinho, o caldo verde a fumegar e muito amor, para serem felizes.

- Guardado estava sempre o bocado para quem o havia de trinchar.

- Que a pátria era extensa e todos, sem exceção, eram tratados com desvelo e com sentido de proximidade.

- Orgulhosamente sós, longe do mau-olhado trazido pelos ventos de leste.

- O meu avô diz que, hoje por hoje, já não há respeito.

- Olha que não, muita gente continua a casar pela igreja, a batizar os seus filhos na igreja e a enterrar os mortos com cerimónias religiosas.

- As aparências iludem, os olhos não brilham.

- As famílias compram pão, vinho e caldo verde fumegante, com muito amor e frequentam mais o talhante, por bifes.

- Em tempo de carestia, quem deve a Pedro e paga a Gaspar, volta a pagar.

- A independência da pátria está para lavar e durar, pagar a desratização dos bancos e da contabilidade pública é o que está a dar, mas gostamos de aqui estar.

- Algumas pessoas demonstram tanto respeito por seus superiores que não sobra nada para si próprios, diz o meu avô.

(Ao fundo ouve-se «quem esqueceu não chora», em formato balada)



publicado por Jorge às 12:21
Quinta-feira, 14 de Março de 2013

    Asdrúbal vai à deita com as galinhas. Levanta-se cedo, não por espertina, antes por arreigamento à ancestral sabedoria que deitar-se com as galinhas e acordar com os galos garante saúde e crescimento. Salta do tálamo climatizado e logo se encafua na casinha aclimatada, para as convenientes abluções e ablações higiénicas. Páter-famílias modelar e modelado, dá-se ao respeito: é o primeiro a levantar-se, a tomar o pequeno-almoço - preparado pelo assalariado do lar - e a pôr o pé fora de casa. Não fosse a agrestia ambiental, com humidades e temperaturas desconformes, e talvez já tivesse aberto mão do ar climatizado, em todas as dependências da casa. Isto para melhor, não vai, por certo. Sai do lar, pela certa, quando se torna claro que o ascensor, também ele climatizado, se vai imobilizar no patamar. O percurso até à cave passa num fósforo; faz as honras da casa o motorista privativo, na sua libré portentosa, que se apressa a abrir a porta da viatura preta.

   O percurso até ao departamento que chefia - a contento das altas esferas - faz-se num ai. Aí despacha de manhã, à tarde e à noite, se for caso disso, acompanhado da aprazível sonoridade da aparelhagem que torna o ar mais amigo do conforto do corpinho. Almoça em restaurante de ar tratado até ao arrepio, com muito charme, boa comezaina, acompanhada de muitos arrotos e outras tantas libações. Já lhe foi diagnosticada propensão obsessiva pelas coisas cómodas e acomodatícias da vida, sendo a dependência ventilativa um dos sintomas, coisa de civilização.

   Vê-se metido numa camisa de várias varas, sucessivos apagões tornam doentio o espaço que costuma frequentar, não consegue mexer uma palha, ensopado em suores alternadamente quentes e frios. À sua volta tudo e (quase) todos buliam, no costumeiro ramerrão. «Esta gentinha vive assim? Então não é feita da mesma massa da minha, pode lá ser?! Vejam lá as miragens ca gente tem!»

     Corre a depositar ex-votos no regaço do mar vermelho que é onde as águas se separam.



publicado por Jorge às 12:19
Segunda-feira, 11 de Março de 2013

. Em HK há «gaiolas», não de pássaros, passarões, passarocos e passarinheiros, mas de humanos. São cubículos exíguos, em que seres como a gente fazem exercícios mirabolantes no amanho do dia-a-dia, com privacidade reduzida a zero, com uma capacidade de sofrimento brutal, não vão os parentes cair-lhe na lama. Doutras vezes são mesmo instalações a lembrar galinheiros, com condições puramente indignas. Ali sobrevivem, só os deuses sabem como, pessoas na busca de um sonho feliz, de uma provável fortuna. Enfrentam as condições sentidas por muitos cidadãos, em muitas partes do mundo, vítimas de esburgo. Os abaixo-assinados não se aplicam a estes casos? A seleção natural não permite?

. O ministro terá dito que vai contratar uma empresa para recuperação das dívidas impingidas (por diktat das altas instâncias) à nação. Nos próximos tempos, chegará a estas plagas uma catrefada de praticantes de wrestling, para a montagem da coleta. Antes, alvitrada foi a contratação de uma empresa de rambos e ninjas, por negociação direta. A coisa deu com os burrinhos na água (foi pago um depósito de garantia avultado), quando se soube que a dita companhia tinha um site na net «Pagas a bem ou a mal». Temeu-se o aumento progressivo de consultas de estomatologia, luxo a que muitos concidadãos não se dão, nem poderão dar, nos próximos decénios.

. O senhor comentador é um fungador inato, quiçá por conta do rapé (ele dispensa o rapapé). Opina sobre tudo e todos, não dispensa as verdades absolutas, transpira bonomia, passa por avô baboso e mantém um «tu cá tu lá» com o narcisismo e com o conforto das coisas terrenas e etéreas que dá gosto ver. Licenciado nas coisas da vida, diz que o negócio das reformas e pensões está mal, o sistema não é sustentável, precisa de ir à faca. Os valores da esperança média de vida à nascença, da natalidade e da mortalidade agravam mais o cenário. Traz à colação uma tiazinha do género poupadinha e que, um dia, vai deixar os sobrinhos felizes. Segue-se um festival de gráficos a dar com um pau e améns marciais (uma outra senhora, ausente das lamentações do par, apresentou contas desviantes, segundo as quais o trabalho paga o estado social e que alguém faz mão baixa dos fundos). O duo dá de barato que os recebedores de reformas vivem num rincão obrigado a pagar as más contas de bancos depenados (terão apostado em dívida pública, in illo tempore?) Isto sim é sustentabilidade para peras! Como reagiria o dueto, caso estivesse para breve a comercialização do elixir da eterna juventude? (Já agora, escusavam de ter ficado esparvoados, à beira de um hara-kiri, quando lhes foi lembrado que o Japão tem um sistema inabalável de pensões, «mas isso é outra coisa»).

. O mandador negoceia com harpagões, com nota artística, todos os tostões sacados aos incautos, abandonados à sua sorte, só com pele e osso. Em terra de generosos vendedores da banha-da-cobra e de sonhos desfeitos, o povo creu que a União fazia a força. E fez, à fina força, impôs-se a autarcia de contumazes perdedores que souberam dar a volta ao texto e ao contexto. Um dia surgiram, na santa terrinha, apóstolos, portadores de nova mensagem: a democracia é de todos, o bem-estar só medra em países de eleição. Mandarins e galopins repetem o estribilho à saciedade. Pais, cada vez mais enleados em cadilhos, funcionários zelosos e pensionistas conformados alinham (contrariado, mas vou e não precisam de empurrar!) Nos domicílios, a abarrotar de pessoas, esquece-se a abastança, aposta-se na poupança, há longas filas junto a ipps, a centros de emprego e às portas das empresas com contrato com os centros de emprego. No coreto da terra, mesmo junto ao pelourinho, reúnem-se as carpideiras, para escutar a marcha fúnebre, fazendo por ignorar que, há por ali escondido um enorme barril de pólvora.

 . O manda-chuva da loura Albion quer discutir, a meados deste ano, algures numa das suas possessões, a refundação da economia mundial. Com ele, estarão recolhidos outros 7 duendes sobre os quais repousa a tarefa ingente do controlo, entre outros, dos fluxos do guito, da partilha do globo, que isto não dá para todos. Já fez saber que não embarca nessa ideia de que muitas cabeças pensam melhor que uma só; na hora de tomar decisões, se cada cabeça avançar com sua sentença, nunca mais o pai morre, nem a gente almoça (a ação reside nos antípodas da pluralidade ideológica). Sugere que companheiros ou companheiras dos 8 retirantes fiquem no amanho e no remanso do lar, para evitar delíquios comprometedores (o esfervelho atenta). Assim, só será permitido que os anacoretas se aconselhem com as travesseiras.

. Anda muita boa alma contente com a decisão tomada na Suiça sobre limitações aos ordenados dos patrões. Das 2, uma: ou terá sido redescoberta a pólvora, ou «a gente diverte-se muito, na minha aldeia»

. Contributo para uma teoria da conspiração: o ano anterior até que nem foi mau, o atual é o que se vê, o próximo é que vai ser.





publicado por Jorge às 21:19
Sábado, 09 de Março de 2013

- Zé, vai à janela e diz-me que vês.

- Um mar de gente, chefe.

- Quantos?

- A praça está cheia, para cima de 500 mil, por certo.

- Que fazem eles?

- Gritam, apupam e chamam nomes feios ao chefe.

- Ninguém entende a minha missão.

- Muito espinhosa, por sinal, chefe!

- Assim é, levar a grei a bom-porto, custa pra burro! Fui escolhido para o resgate e tenciono cumprir, não vou deixar cair amigos e parentes na lama.

- A multidão acha que devem ser renegociados os prazos de pagamento da dívida.

- Liga-me aí à Ângela.

- Meine liebe, posso contar com mais tempo para me ver livre do calote, uns 50 anos?

- És mesmo anjolas, daqui só levas 8 anos, quiducho, e é um pau!

- Danke! Vês, Zé, a falar é que a gente se entende.

- O povo diz que não tem estaleca para enfrentar a dívida acumulada, mailos juros.

- Liga-me aí ao Cherne.

- Camarada, vê lá se convences o BCE a aliviar a carga, juros mais maneirinhos, que sei eu?!

- Camarada, estou de pés e mãos atados, talvez conseguisse tirar uma décima-milionésima.

- Antes isso que nada, fico-lhe a dever uma.

- O povo também não quer a refundação do Estado, chefe.

- Chama aí o Escurinho, Zé.

- Amigo, dá para transferir para as calendas gregas, ou para o tempo do rei quinze a refundação?

- Tarde piaste, a corda está toda esticada e já não é tempo nem para folgas, nem folganças.

- Ó sorte marreca, lá dizia o meu avô, antes a perestroica que a troica!

- O povo quer que o chefe se demita.

- Liga-me ao Zeca Afonso, perdão, ao Egas Moniz, o aio do Afonso, Zé.

- Que tipo de baraço usou Vexa à volta do pescoço, sisal ou nylon?

(Silêncio sepulcral, só interrompido por acordes de uma balada, em fundo)



publicado por Jorge às 12:34
Sábado, 09 de Março de 2013

. A regra de ouro dos orçamentos do Estado, imposta pela União, institui algumas regras que parecem réplica do código das falências das empresas: quando falhar o graveto, primeiro paga-se aos credores, depois, caso sobrem taeis e anéis, os salários e pensões. A crer na maioria dos votos a favor, trata-se de fomentar a solidariedade com as gerações de futuros portugueses (uma questão a rever essa questão da infalibilidade da naturalidade), situação inimaginável, aqui e agora. Cuidados e caldos de galinha não fazem mal a ninguém…

. Se for na rua e gritar «agarra, que é ladrão!», terá à sua volta muitas cabeças e muitos olhares compenetrados e compadecidos. Se, por puro acaso, a interjeição for ouvida por um polícia de giro, pode acontecer que o ladrão de estrada seja dominado, derribado e encafuado, se houver razões incriminatórias. Milhares de pessoas estão fartas de gritar que há por aí muito mariola a gamar as buchas e os cobres da malta; avançam-se provas, põem-lhes a cabeça a prémio, mas ninguém mexe um dedo para os porem a precato, de casa e pucarinho, na choldra (na cadeia e no hospital, vês quem te quer bem e quem te quer mal), a ver o sol aos quadradinhos. Os regulamentos são diferentes para quem tem maioria de votos e para quem, votando, não tem voto na matéria. Um país, 2 sistemas!...

 

. Um apresentador de notícias assiste a uma peça, em direto, em que são entrevistos e entrevistados velhotes a debitar figuras tristes, numa veneranda instituição, orientados por dedicados monitores e durante festividades carnavalescas. Tá visto, há gente com a diversão à flor da pele, mas não mora cá. Ser-se mãozinhas, desenrascado em pequenas operações e reparações provoca dissimulação, fuga à exposição pública. Malta expansiva, nestas condições, só de fabrico, ou com os púcaros. «Fantástico!» - comenta, enlevado, o pivot das notícias que é danado para a brincadeira.

. Um pequeno número de autarquias esmifra-se para dar livros, refeições, remédios e até pagamento de faturas a gente comprovadamente aflita e que se habilita. Bem hajam esses bravos que se condoem com a humilhação do próximo. Opróbrio que nunca atingiu os Catilinas, almas danadas do poder centralizado indígena, capazes de fazer omeletes sem ovos, para o que basta fazer estalar os dedos (sem os entalarem). E ficam à espera que os patrícios batam cabeça e 3 dedos, em agradecimento. Agiriam assim os «kapos»? Saúde-se os autarcas que não desmerecem de Sousa Mendes.

. Um comentador insinua que as medidas do resgate do país não passam pelos governantes daqui; quem mais ordena está sedeado lá fora. Atente-se em ilações. Primeira: os governantes de entre portas agem por imposição de figurões - passam a vida de faca e queijo na mão – que residem no Capitólio que não na rocha Tarpeia que fica aqui. Segunda: resulta de démarches de big bosses exógenos a cumulação de miminhos prodigalizada aos proprietários internos de grossos cabedais, enquanto a plebe se vê acorrentada ao absurdo da tarefa imposta a Sísifo. Terceira: de ententes e entidades exteriores depende a dieta, o emprego, as dívidas, as crenças do país. Quarta: os epígonos internos dos mandões externos não merecem enxovalhos, pelo que brandir punhos, verter choros, exibir maleitas, contar lamentações e trautear cantorias só em Berlim, Paris, Londres, ou mesmo em Beijing e Washington ficariam a matar. Moral da estória: sem chauvinismos, discuta-se o sexo dos anjos, mas comece-se o debate pela bondade dos ataques de lucidez.



publicado por Jorge às 12:32
Sábado, 09 de Março de 2013

 

2 excertos de «O milagre segundo Salomé»  - uma pérola literária -, de José Rodrigues Miguéis

 

A - «A capacidade tributária está esgotada, as forças vivas amolam-me, vivemos da mão à boca, de duodécimos, mata-se a gente para conseguir dinheiro a seis e mais por cento, e nem assim…»

(Desabafo do presidente do Ministério  - 1º ministro – para Zambujeira, in « O milagre Segundo Salomé 2»)

 

B - «Portugal (escrevia ele nos seus Apontamentos) é um «doente da História», perpetuamente obcecado pelos perigos, reais e imaginários, que lhe ameaçam a integridade; nós, os Portugueses, sentimos, pensamos, falamos e agimos como vítimas da História; como se uma força oculta e contrária nos houvesse roubado o Futuro Prometido, esse múltiplo himeneu de glória, poder, virtude e prosperidade: frustrados, descontentes, consideramo-nos credores da humanidade inteira e, não vendo claro nos nossos erros e virtudes, procuramos sempre alguma coisa ou alguém a que atribuir o fracasso de esforços seculares – afinal só relativo, pois muito fizemos nós na medida das nossas forças ou fraquezas! Esta «psicose da frustração» (à parte os pormenores) leva a duas atitudes fundamentais: a dos que, contra ventos e marés, teimam em retornar ao Paraíso Perdido, e à ideia dele se agarram como náufragos desesperados à tábua de salvação, amargamente condenando tudo e todos que tenham contribuído para o desastre (…) Estes passadistas não cresceram ou amadureceram historicamente, e são incapazes de ouvir e entender o mundo, exceto para lhe pedir emprestada uma doutrina, gozar-lhe os frutos, a modernidade e as distrações. A outra atitude mais racional e positiva, embora por vezes passional também, é a dos que, sem largar o bordão da História, supõem que a dada altura do passado cometemos um erro ou uma série de erros que nos transviaram, e que nos bastará identificá-los e corrigi-los para reentrar no caminho da felicidade.»

(Reflexões de um militar bem-intencionado, major Tristão Barroso, in« O milagre Segundo Salomé 2»)

 

 



publicado por Jorge às 12:27
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