Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

- Fui despedida.

- Disso me dou conta, a meio da manhã por aqui!

- Os patrões mandaram esvaziar a fábrica no fim-de-semana.

- Disso me dei conta eu, quando ontem por lá passei.

- Nenhuma das operárias se deu conta da cena, pois estava tudo no laréu.

- Disso me dei conta, que as ruas estiveram esvaziadas de conteúdo.

- 65 pessoas vão receber o subsídio de desemprego, se sobrou alguém que saiba ler e escrever lá na administração, a confirmar que trabalhámos para eles.

- Tás a gozar, eles não sabiam ler, nem escrever?!

- Eles eram 5 patrões, o que tinha a quota mais pequena sabia.

- Tás a gozar, queres ver que deslocalizaram a usina e piraram-se sem dizer ai?!

- Não, foram para uma terra a meia dúzia de quilómetros daqui, cujos habitantes se ofereceram para trabalhar por tuta e meia.

- Tás a gozar, eu ouvi dizer que se tinham implantado na Conchinchina!

- A mim o que mais me chateia nem é os ordenados em atraso.

- Homessa!

- Nem é os subsídios perdidos, nem todos os problemas vindouros na gestão da casa e da família.

- Homessa!

- O que mais me fere é não terem tido a hombridade de agradecer os anos gastos em lhes dar de mamar.

- Homessa!



publicado por Jorge às 20:41
Quarta-feira, 29 de Maio de 2013
 

Todos os homens podem cair num erro, mas só os idiotas perseveram nele
Cícero

 

- Queremos que a vida seja a consagração do amor.

- Qual deles?

- O platónico, pode ser?

- Concedido!

- Queremos o fim imediato de todas as guerras, na Terra e nas estrelas.

- A da Síria, para começar?

- A fria, pode ser?

- Concedido!

- Queremos que a vida traga pão a toda a gente.

- Integral ou normal?

- Amassado com suor do rosto, pode ser?

- Concedido!

- Queremos todos ser irmãos e dar as mãos.

- Quando?

- Dia-sim, dia-não, pode ser?

- Concedido!

- Queremos a liberdade para todos.

- Qual delas?

- A liberdade de petição, pode ser?

- Concedido!

- Queremos que o povo perceba que os sacrifícios valem a pena.

- A de talião?

- A capital, pode ser?

- Concedido!

- Queremos dinheiro para ordenados e pensões, sempre.

- Sem juros, sem inflação, sem regresso aos mercados?

- Sem isso tudo, pode ser?

- Concedido!

- Queremos ver-nos livres das dívidas.

- Dos swap, dos bancos, das empresas públicas, da Madeira ou da global?

- De todas, pode ser?

- Para acesso ao país das maravilhas, queira ter a gentileza de fazer tinir o tintinábulo da casa inteligente, onde pode encontrar a luminária apropriada, aqui ao lado!

 



publicado por Jorge às 20:33
Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

- Sai uma de salmão, para a mesa do senhor guarda,Titó!

O visado pega, com as mãos nuas – de verdade recobertas de um crosta de untos, condimentos e excrescências - em 3 postas de salmão de aquacultura e atira-as à grelha acalorada pelo negro carvão (que arde às escâncaras), enegrecida do uso, das culturas de batérias e outros microrganismos. Em 2 tempos o peixe fica entregue ao seu destino, e, meio cru, meio retinto, é enfiado numa bandeja, com um punhado de batatas acastanhadas, 2 rodelas de tomate e 2 folhas de alface delidas e delambidas.

Nisto, passa um autocarro da carreira que atira para cima dos comensais e dos pratos 2 encorpadas baforadas de gases de tubo de escape. Como se nada fosse, toda a minha gente, impávida e serena, tosse, retorce-se, mas segue em frente com o enfartamento.

- Sai uma de costeletas de vitela, para a mesa do chefe Augusto, Titó!

O visado, cofia a bigodaça, passa as mãos por um avental que não vê água, há muitas luas, vai à montra, retira 3 costeletas enfezadas e atira-as à mesma grelha, sem falsos pudores, à vista de toda a gente, sem que proceda a qualquer depuração. O carvão ainda a arder expele cheiros pela rua abaixo e que entram nas casas dos vizinhos (paira no ar a promessa de «luvas» para os mais renitentes). Em 3 tempos, as costeletas são revoluteadas, atiradas a uma travessa metálica, guarnecidas com batatas a murro e 5 farripas de cenoura, mais 2 cebolinhas de escabeche e são depositadas na mesa número 10, no preciso momento em que um camião atira vapores negros para cima dos comensais que ocupam, em contravenção, o passeio público (ó chefe, a carne sabe a peixe!)

- Sai uma de sardinhas, para o sr. engenheiro, Titó

O visado coça a cabeçorra, atira uma beata ao assador e vai-se às sardinhas, acabadinhas de descongelar e salgar, estão mesmo apetitosas e são depositadas na mesma grelha, sem mais propósitos que não seja a rápida incineração daqueles bichinhos retirados ao mar às 3 pancadas e em data longínqua. O gerente de operações deposita os peixinhos aparentados do arenque na grelha única, sacode freneticamente o borralho e em escassos minutos o manjar está pronto a ser dizimado, acompanhado de batatas cozidas, tomates, alface e pepino, mailo pão na mesa do canto. Neste entrementes, passam 2 motas de alta cilindrada, com escape livre e enchem o ar de barulho e partículas daquelas que o meu povo gosta. À uma, os clientes atiram ares de ódio e palavrões aos motoqueiros que já estavam noutra parte (ó chefe, estas sardinhas sabem a carne!)

Esta locanda de restauração fica muito em conta, peso e medida no País Tetragonal, pátria de muitos brandos costumes e para inglês ver.

 



publicado por Jorge às 11:55
Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

(Porque os outros vão à sombra dos abrigos                E tu vais de mãos dadas com os perigos )a

Tinham sido apanhados os 2 amigos à má fila - crias implumes – por uma matula de cães de fila (dos que ferram e não largam a presa), a mando de grotas muito ciosos de propriedades e quitandas protegidas. Tinham-se tomado ambos das dores dos coevos, vizinhos, familiares, concidadãos e de todos os cosmopolitas. Tinham-se posto a jeito, de peito à corrente, nas tintas para remoinhos, correntes de retorno, borrascas, tornados ou quejandos. Tinham dado o peito às balas e os torcionários não se fizeram rogados. Entanguidos, questionados e seviciados, não transigem com os ideais de justiça, de liberdade e de democracia para todos, tendo em vista que a exploração do homem pelo homem é inadmissível. Gente esquisita esta: oferecer o outro lado da face, em acometida consentida, vai-que-não-vai; agora oferecer os 2 lados da face por procuração, como o faziam estes 2 indefessos anjos da paz, já custa mais a engolir!

 

(Porque os outros têm medo mas tu não) a

As cadeias albergam amigos de bens ou vidas alheias, em parte ou no seu todo. O refugo da sociedade encontra algum refrigério na choça, assim mandam os manuais e estamos conversados. Os calabouços também recebem mecos creófagos, dispostos a comer o coração, figadeira e fressuras dos imigos à primeira oportunidade, desacerto ditado por ambição desmedida e crónica de mando. Encarcerar sonhos é mais difícil, mas é a via restante, em longas noites de jugo fascista. A talhe de foice se adita que, em tempos de cerejas, de pouco valem a solitude imposta, o degredo vexante dos aljubes de má fama, a busca das arcas encouradas, porque as flores estão sempre dispostas a nascer, nem que tenha por único arrimo o solo pedregoso. Os esbirros adestrados no uso e amolação dos machados de cortar pensamentos e propósitos pela raiz, mais tarde ou mais cedo acabam vítimas de layoff.

 

(Porque os outros se mascaram mas tu não )a

Cá fora os charlatões espalham a cizânia, que tinham impedido uma invasão de bichos-papões, homens-do-saco e associados, dispostos a dar «injeções atrás das orelhas» dos seniores incautos, a degustar «criancinhas ao pequeno- almoço», que roubam tudo e não deixam nada, que são ateus, graças a deus. Pregava-se que ascendiam a Drácula, ou ao dragão que S. Jorge arrumou em 2 tempos, que rescendiam ao porco sujo e que eram inimigos da pátria «de Minho a Timor», de deus e da aparecida e igualmente das famílias «com pão e vinho sobre a mesa. Só a justiça de Fafe, de Rio Maior, ou da Inquisição os traria de volta ao seu perfeito juízo. De caminho, distribuíam papas e bolos.

 

 (Para comprar o que não tem perdão                   Porque os outros usam a virtude)a

A blandícia solta-se do verbo que, no princípio, acalenta e nunca arrefenta. Voz que recusa a ignomínia, porque usada ou entesourada ao serviço das liberdades amplas, no passado e no presente. Meu deus, estas 2 almas jovens censuradas levaram que contar, conheceram enxovalhos aos molhos e da sua boca nem uma queixa! Nenhum deles reivindica loas, medalhas, prebendas, estatuarias (ou são ou fazem-se!) Quiseram dar-lhes uma pensão, mas contentaram-se com um «registo criminal» limpo, porque basta o que basta e porque sim. Se a animadversão não mora ali, o orgulho pelo pundonor cívico pede meças. Uma nação perde em credibilidade, quando não se desbarreta perante estes e outros personagens determinantes que a pouparam a mais e maiores tormentos de tântalo.

 

(Porque os outros se compram e se vendem                 E  os seus gestos dão sempre dividendo)a

In illo tempore, o enxovalho de estar na pildra ou ir a juízo, com ou sem culpa formada cobria de desdouro o visado e os próximos. Fazer o jogo do inimigo, atamancado na estranja, mas que forrava as portas de conspiradores era o cúmulo da abjeção. Vade retro!

Conspiradores de trazer por casa, emissários de lesa-pátria estavam mesmo a pedi-las,  séjana com eles! que fossem para lá pentear macacos, pintar, fazer lavores, aprender filigrana, obrar e trabalhar para os bispos, preparar fugas, mas que desamparassem a nossa loja, que não contaminassem os ares e propósitos puros, à puridade. Se recebiam tratamentos de polé, bem os mereciam; se os esperava os remos da balsa de Caronte, ali para as bandas de Hades, era bem feito!

Casmurros duma figa: aqueles embezerraram, não quebraram, para espanto de muitos. Convidados a trocar a geena pela conversão disseram não, que quem se rende recebe mais do que vale. Orgulho e água benta!... Fizessem como a maioria, não tugir, nem mugir, assim se vai longe (com um latido frio nas tripas, que importa?) Os indiferentes ainda cá estão e alvitram: a revolução de que eram os apoderados esboroou-se e eles já nem têm o muro de Berlim para consolo, só umas pedrinhas de coleção. De muito lhes valeu!

 

O tempora o mores!

(Porque os outros se calam mas tu não)a

Há quem cante até que a voz lhe doa; para raros, as melopeias saem mais acordadas com a voz muito dorida. Há quem cante de galo, de clérigo, para marcar um ponto. Há quem cante para sentir, ou para explicar. E há quem encante com a voz embargada: eu vi um grupo de pessoas, de choro contido, preso das palavras de ex-prisioneiros políticos de voz presa. Há quem diga que foi a rememoração do gangarreão (corpo inchado, orelhas em fogo, pés em brasa, olhos ressequidos do sono surripiado) que os pôs naquele estado. Que não – opinam outros -, antes teriam lobrigado os rostos impostores, as refeições e cheiros abjetos, as conversas escutadas, a safadeza de gestos e decisões longas horas de resistência à delação. E eles inconcussos! Julguei que já não havia declarações de amor assim…


(Porque os outros são os túmulos caiados                                              Onde germina calada a podridão) a

Pode estar por perto nova cruzada. A ditadura, agora dita financeira, mas sempre ditada pela economia, para desdita do povo a quem se prometeu mundos e fundos, após luminosa alvorada, volta a saquear a parcela de felicidade a que concorre toda e qualquer pessoa, porque se vive em tempos (mais uma vez!) de forte incivilidade. A exploração sob a capa do sacrifício, o diletantismo que inferniza os dias, a justiça com destinatário certo, lembra a murraça da velha senhora. E estamos para aqui só para encher o ar de soquetes?

 

( Porque os outros calculam mas tu não                    Porque os outros são hábeis mas tu não)a

Atenção que este duo não se rende! Ambos os dois sonham com o reviralho, aos descamisados  a vida está a correr mal e eles não refutam a sua causa. Têm-se por jovens e tementes ao povo e continuam a dar tudo pela revolução, até as camisas. Um dia destes ainda voltam às barricadas, que de burricadas estão fartos. Isto vai, meus amigos, isto vai!

 

Estão a perceber?

 

 Versos de Sophia de Mello Breyner



publicado por Jorge às 11:46
Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

- Bom dia (e vai-te catar), Zé!

- Boooooooom dia, ganda chefe Touro Sentado!

- Bons olhos te vejam e deixa-te de pilhérias, tu que és uma gracinha!...

- A fé não tem olhos, nem papos furados, grande líder!

- Deixa de mandar papos e vamos ao que te traz, Zé!

- Preciso de uma carta de recomendação, grande educador das massas!

- Sapateiro remendão que se alça além da sandália e que toca rabecão tem direito a mil anos de perdão e a mil recomendações.

- Não me fale assim que me desmancho, ganda chef.

- Os desmanchos que fizeste são casos de sucesso.

- Obséquio seu, meu amo!

- Aos meus amigos falo-lhes no teu sucesso como desmancha- prazeres.

- Devem ser muito divertidos os seus amigos, grande timoneiro!

- Um dia destes adotam-te, meu rapaz.

- Para tanto preciso da tal carta de recomendação e mais coisíssima nenhuma, ó mestre!

- Podes supervisionar a produção de carne picada nas minhas 27 quintas.

- Apiedai-vos, por quem soides, faziam-me em picadinho, meu amo e senhor!

- Terias carta-branca para despedir, para impor dietas de pão e água e indumentárias de serapilheira, por exemplo.

- E cortes, muitos cortes na despesa pública e nas casacas, quem aprende nunca esquece, big brother?!

- Pensando melhor, vou-te recomendar para a supervisão dos picadeiros nos ilhéus e ilhotas da união.

- E que tal a supervisão das importações de carros de luxo, com direito a comissão, na minha santa terrinha? Posso acumular, vossa alteza republicana!

(Ali perto ouvem-se os primeiros acordes da Garagem da vizinha, mais além os do Camaro Amarelo)

 



publicado por Jorge às 11:43
Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

 

Espetro

   O maioral da Grécia, aquando de um desatino público, condimentado com tiros para o ar, disse que a democracia não se abate. Só os cavalos, não?

 

Institucionalização

   Micaela, mocetona institucionalizada, saiu de casa, numa ida às berças, sem dizer água-vai. Num snack-bar vê a mãe toda aflitinha, ao choro na tevê, a dizer que não sabe dela, que talvez a tenham raptado. Zarpa a toda a velocidade, a tempo de ser ouvida em direto, no fecho da notícia.

 

Desdentição

   Os avós eram desdentados, já não lhes sobrava osso maxilar para gerir o matraquear da dentadura. Ao filho e nora sobrava osso maxilar, mas dentes não, por conta de consumos indevidos, mas que escapam à filigrana da vigilância social. Os putos, trigémeos, tinham acabado de nascer, sem dentes, pois claro. A comunicação intergeracional estava facilitada naquela casa de muitos ralhos.

 

Alvíssaras

   Um renomado escritor deixou testemunho: «Só quem vive de rendas e regalias se permite o luxo de flanar gratuitamente através dos livros, das ideias, dos museus e das paisagens, impunemente especulando e dissertando sobre tudo e todos. A maioria dos nacionais sabichões, com ou sem grau, são donos de herdades ou quintas e foros, de quinhões, pensões, empregos ou mamadeiras outras, inclusive o bom-casamento». Estaria a caraterizar ou a cauterizar. Quem?

Morrer na sombra

Dá-se um acidente rodoviário, 3 carros envolvidos, 2/3 feridos ligeiros e 1 vítima mortal. Os media dão conta da ocorrência: no infausto acontecimento está envolvido um jogador de futebol de primeira água, aos comandos de um Porsche, numa autoestrada muito concorrida. Está vivo o artista e que se mantenha por muitos. Sobre o passamento da vítima mortal, a objetividade informativa limita-se a contar que teria entre 40 e 50 anos e que uma paragem cardiorrespiratória o mandara para os anjinhos. Sem mais pesar, ou condolências. Mete dó notícias de um mundo sem dó.

A verdade de hoje

Ex-dirigente desportivo, de tão fleumático, não parecia ter nascido na urbe. Um dia disse, no seguinte desdisse-se. Interpelado por plumitivo atento, saiu-se com esta: «O que é verdade hoje, amanhã é mentira, neste mundo do futebol p.d». Para gáudio de muitos sequazes a mensagem foi repetida à exaustão. Soube-se, de data fresca, que a perspicaz criatura está internada nos intensivos. Depois da retenção de depósitos no Chipre e da aproximação das pensões públicas e privadas para pior, foi acometido de hilaridade aguda, à sanha da qual ninguém jura que possa escapulir-se. Teme-se por breve defunção.

 

42%

. O valor mais recente do desemprego jovem disparou para os 42%.

. Um cidadão médio (que será?) vê a Fazenda abarbatar-se com 42% dos seus rendimentos.

. Calcula-se que 42% dos casos de violência doméstica sejam observados por crianças.

. Estatísticas preocupantes apontam para uma taxa de hipertensos na ordem dos 42%.

    Ainda não se descobriu qualquer fórmula que permita estabelecer uma relação causal entre os 4 indicadores.

 



publicado por Jorge às 13:38
Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

- O SCP parece-se cada vez mais com o país.

- Pudera, país na ressaca da perda de subsídios a fundo perdido arrasta tudo e todos para a rua da Amargura.

- Mera ilação linear e silogística.

- Isso é palavreado das novas ciências do futebol?

- O SLB é clube da terra, está mal, mas está para as curvas!

- Deve milhões a Meio Mundo!

- Deve, mas vai pagar, com língua de palmo, sei de fonte segura.

- Essa fonte segura não será por acaso aquele escritório bem vigiado, que sofreu um assalto e sobre cujas investigações toda a gente se fecha em copas?

- O SLB tem solvência, dá garantias pela dívida.

- O SCP está empenhado até às orelhas.

- Ao SLB foi exibida a cenoura, com a moca escondida.

- Ao SCP foi exibida a moca, com a cenoura escondida.

- O SLB já fez a travessia do deserto e chegou a porto seguro.

- O SCP já fez a travessia de porto seguro até ao deserto.

- O país é um deserto?

- A parte meridional, consta.



publicado por Jorge às 16:47
Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

- A culpa é dele! – grita Toninho, rubro até à ponta dos cabelos.

- Não se arme em díscolo e tenha maneiras, filhote! Que te fez o Pedro? Fala baixo, temos visitas em casa! – acode solícito e perplexo, o pai.

- Não me deixa brincar e logo na minha casa. Que descaramento! Tomou conta da consola e dos jogos, achas bem?

- Baixe a bolinha, o Pedro diz que te emprestou um jogo só por uns dias.

- Só um jogo é dele, mas a consola é minha. Se ele persistir na toleima, vou-lhe aos fagotes, aos rijetes e aos joanetes, que lhe fica de escarmento!

- Chiu! Modere essa linguagem pouco vernácula, de carroceiro mesmo. Não use de represálias, não lhe fica bem. Tome lá a chave do meu escritório e vá brincar no computador da mãe, vá!

- Não quero, a Refundação Astral não está instalada no computador da mãe!

- Mau, mau, Maria! No fim do convívio, devolvo o cedê ao legítimo dono e acabam-se as birrinhas e as cantigas.

- Melhor seria se obtivesses um alargamento da maturidade do empréstimo do cedê, ou armo um escabeche à frente dos convidados.

- Vejam lá que o menino Toninho armado em mil-homens e chantagista! Deixe que os convivas voltem a casa, que lhe aplico uns açoites no sítio onde as costas mudam de nome!

- Faz o que te der na veneta, mas amacia-o. Pior que estender o bacalhau, é dar-lhe trela; não passa de um zé-teimoso, o tinhoso!

- Tá aqui, tá a quinar!

- Ele nem sabe jogar, eu ganho-lhe sempre aos pontos.

- Garganta!

- Ele ainda lá tem em casa a Memorial Letal que não me devolveu. A quem não cumpre, paga-se por igual.

- Não diga tal, Toninho, a vingança é uma pedra que se volta contra quem a atira.

- O que se passa é que vocês gramam o lapuz e não se importavam que cá o rapaz emulasse o bronco, é o que é!

- Falso, a mãe vai renegociar a nova meta, que ela é mais desembaraçada.

- Do que eu gostava mesmo era de abafar o cedê!

- Não envergonhe as nossas caras, pelas alminhas! Saia já a correr à tabacaria do centro comercial, lá cortam nos réditos, se disser que vai da minha parte.

- Pensando bem, diz ao Pedroca que tenho 5 piões para a troca.

- Toninho, meu filho, já estou cheio, até aqui! Espero que seja a sua decisão final!

- Pensando bem, assim ficava mais pobre e não quero ir por aí.

- O meu filho nunca será pobre, mesmo que queira. O destino marca a hora, pela vida fora, que havemos de fazer?!

- Pensando bem, ele que se governe com o cedê dele, que vou fazer download no computador da mãe de uma versão mais recente da Refundação Astral. E blindo o acesso!

 



publicado por Jorge às 16:42
Terça-feira, 07 de Maio de 2013

- Vai à janela, Zé, e diz-me se há banzé.

- O poviléu ruma aos seus empregos, de postura grave, margrave.

- Zé, o povoléu afoba-se na batalha da refundação, assim o exige a seleção, a natural.

- Muitas pessoas seguem meditabundas, margrave.

- Em tempos de catar todos os patacos, não vale cantar o giroflé, Zé.

- Algumas pessoas parecem trabalhar para aquecer, margrave.

- Nota-se assim da mão para o pé, Zé?

- Esfregam as mãos, como os donos das casas de penhores, margrave.

- Os sacrifícios são para todos, Zé.

- Diz-se que o povo já não pode com mais austeridade, que há uma linha a separar austeridade da imoralidade, margrave

- Quem propaga a animosidade contra os sacrifícios admiravelmente suportados devem ser exemplarmente lapidados, ou corridos a pontapé, Zé.

- Muitas pessoas levam marmitas e outros parecem falar com os botões, a par de encontrões e repelões, margrave.

- Estou a pensar em declarar santas todas as semanas, por conta do jejum e abstinência, Zé.

- Em tempo de tresmalho, que se dê cobertura aos donos de postos de trabalho, não é verdade, margrave?

- Banha-da-cobra, paninhos quentes, paleio barato e bazófia são farinha do mesmo saco. Fazer rapapé baixo, nem sempre compensa, Zé.

- Dinheiro atrai dinheiro, romper com esta cadeia acarreta perdição sempiterna, certo, margrave?

- O êxtase do regresso aos mercados, Zé, equivale ao da felicidade célia.

- Por aí, por aí!... És homem de grande talante, ó meu farsante!

- Nas largadas, os novilhos marram, os incautos lidadores dos bichos são colhidos e os donos observam. É a lei da conservação da energia.

- Cada vez te aprecio mais, meu rico assessor.

- Em terra de cegos, quem tem um olho poderá ascender a rei, com ou sem coroa, verdade, margrave?

- Se era para ter piada, falhaste o alvo. Vê lá se te caiu a dentição de leite, seu queles assanhado!

- Dos fracos não reza a história.

- Zé, nas guerras, dar a vida é uma questão de garra, glória e fé.

- Já não se servem almoços grátis, margrave?

- Tenho uma proposta para a extinção da hora do almoço.

(O diálogo decorre, enquanto ao fundo, se ouve «Calçada de Carriche», versão Mário Piçarra)

 

 

 

 

 



publicado por Jorge às 16:35
Terça-feira, 07 de Maio de 2013

No livro «É proibido apontar», Rodrigues Miguéis escreveu, em meados do século anterior (um pouco antes, um pouco depois, talvez):

 

«Há uma diferença fundamental (…), entre o Herói e o Mártir: O Herói seria aquele que, inspirado numa corrente de consciência histórica (de factos, sentimentos, ideais), se ergue para conduzir os homens a um destino; crê no triunfo final, próximo ou distante, do impulso que incorpora ou representa, e orienta-se para ele com a agulha magnética para o polo, por todos os caminhos, por mais ínvios que pareçam, lutando e aceitando com bonomia as derrotas Interlocutórias. Ao contrário, o Mártir tem como fulcro e essência do seu pensamento e atividade a auto imolação: é um prévio desistente, não caminha para a vitória, mas para o calvário, não tem a convicção risonha e ladina de quem joga uma partida, mas apenas a certeza do seu sofrimento; pressupõe não o triunfo da causa, mas o auto sacrifício, que é muitas vezes a negação daquele; fica-se a meio caminho do objetivo supremo e comum. Enquanto o Herói se esgueira e poupa as forças, e esquiva o flanco em mira da vitória, o Mártir expõe-se, oferece o peito facilmente às lanças do inimigo, fazendo assim o jogo deste»

 

Nos tempos que correm, sei de mártires e heróis assumidos.

 

 



publicado por Jorge às 11:51
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