Sexta-feira, 31 de Janeiro de 2014

São tempos de irritação estes os vividos intramuros. Fora de portas, armamo-nos em fortes, temos vergonha de exibir fraquezas, carestias e faltas (de bens essenciais, vg).

 Por isso não protestamos, comemos o pão-que-o-diabo amassou, chegamos a tirá-lo da nossa boca e da dos que nos rodeiam, porém não se pode dar parte de fraco, queremos dar mostras que os ventos sopram de feição ainda, é preciso dar tempo ao tempo, para que as coisas se recomponham e irritamo-nos, sempre que nos levantamos e tudo continua como dantes, quartel-general em Abrantes, vão ver…

Não desesperar, bulir é preciso, domar os cavalos. Ai este dragão da irritabilidade!...

É já amanhã, não é tarde nem é cedo, amanhã vou inscrever-me em pilates e ioga num ginásio na capital (dá cá um jeitão uns vouchers com descontos especiais que fanei a pessoa amiga, oferta de um jornal da capital).

Faço por me acalmar, mas nem sempre sou bem-sucedido.

Esta modinha de dizer que um clube vende e compra atletas de futebol, como se tratasse de património imaterial, um terreno, uma casa, uma travessa particular, uma praia privativa, põe-me os nervos tensos e os cabelos em pé.

Os média entrevistam um dirigente que fala, na pré-época, das compras e vendas (de jogadores, pois), depois recolhem opiniões dos agentes-fifa ou lá que raio é e temos a mesma conversa (só não confirmam os valores implícitos no negócio por casa das moscas); donos dos fundos que gerem «os direitos dos atletas» não caem na esparrela, esses não falam nunca, lagarto, lagarto, lagarto!

«Eu acho que o meu clube não me vai vender» - ouvi esta a um jogador, acabadinho de falar no «grupo de trabalho» e nos «objetivos» do clube.

(Agora me lembro que ainda há pouco os colaboradores eram trabalhadores, que a sociedade civil era o povo; nesse mesmo tempo em que as profissões não recebiam títulos airosos e pomposos, em que recalibrar não significava roubar, com licença dos conselheiros acácios). 

Vá lá, senhores colaboradores dos média, digam que os jogadores foram transferidos, não custa nada, porra! E deixam de usar termos escaganifobéticos, usem os que sempre foram usadas, os tradicionalista, porque não? Vocês são danados para a brincadeira!!!

O mundo do futebol já funciona num mundo paralelo, não o queiram converter num mercado negr(eir)o.



publicado por Jorge às 12:29
Segunda-feira, 27 de Janeiro de 2014

I - A vingança não se serve fria

 «Um incêndio deflagrou esta quarta-feira (dia 11/12/2013) no concelho de Arouca, distrito de Aveiro, com três frentes ativas e mobilizava 30 bombeiros e oito veículos.

Segundo a página na internet da Autoridade Nacional de Proteção Civil, o fogo teve início em floresta às 12h30, na localidade de São Pedro Velho.

Não há ainda explicações para as causas do incêndio em pleno Dezembro.»1

 

   Para quem já se esqueceu, no fim-de-semana precedente, o clube da terra tinha ido incendiar o estádio da Luz. Agora venham dizer que não creem em bruxas, elas servem a vingança… quente!

 

II - O homem do nevoeiro

«A responsabilidade pela situação das pensões não pode ser assacada exclusivamente a este Governo nem ao anterior. Este problema vem muito lá de trás, quando se deram às pessoas coisas que sabíamos que a longo prazo não eram sustentáveis e que um dia havíamos de chegar aqui.»2

 

  Um emprego, uma pensão, um bom contrato, uma boa fatia de fundos sempre se conseguiu com empenhos, cunhas e padrinhos. Estar empenhado até ao pescoço chateia, mas por uma boa causa, uma causa cultural já deveria merecer maior apreço…

 

III - Eles sabem-na toda!

«A Ordem dos Médicos (OM) quer passar a cobrar custas e taxas às pessoas que apresentem queixas contra os clínicos na instituição, de forma a evitar que as participações sem fundamento se multipliquem e a tornar mais rápidas as decisões. O valor destes pagamentos (que surgem na proposta da revisão de estatutos da OM) ainda vai ser definido por regulamento próprio, mas pode ascender a 102 euros.» 1

Querem um exemplo? Apareceu na Ordem uma queixinha de uma senhora pelo facto de uma médica a tratar por «tu», quando a não conhecia de parte alguma. Isto é disparate! Se ainda fosse por acumulação de empregos, ausência do hospital público para dar consultas no privado, a fuga a impostos, ou atentados à nossa rica saúde ainda se transigia. Assim, não há pachorra…

IV – Monofobia incerta ou não-sei-quê

«João Manuel Lourenço. Assim mesmo, sem receio de revelar o nome completo. Há quatro anos trabalhava na construção civil. Não esconde o orgulho que tem no seu currículo, que inclui a Ponte Vasco da Gama. Esteve também nas obras do viaduto de Santa Apolónia. “Trabalhei neste viaduto”, diz e aponta para cima. “Quem diria que seria a minha casa?.» 1

Uma associação muito misericordiosa achou por bem mandar meninas e meninos bem aviado(a)s para as ruas contar as pessoas sem-abrigo, façanha zumbaiada em tempos de Natividade. Estará prevista para breve a operação inversa, em que os contadores serão os contados e vice-versa.

V - Dança de S. Vito, com muinheira

«Mesmo para quem visite a Coreia do Norte com mais liberdade, existe sempre um constrangimento de movimentos, para além de uma exagerada recriação que é feita para os estrangeiros. Para quem está fora daquele culto de personalidade, é difícil aceitar o que nos é dito sobre os líderes e a grande quantidade de qualidades fora do humano que lhes são atribuídas.»3

Tenha ido buscar o nome a dança de imitação, a doença tramada ou a dinastias célebres, a península da Coreia é danada pela metade: no sul governam-se com a prata da casa, no norte arrastam a asa a super-homens de trazer por casa. Conheço um país que está à espera de um libertador saído do nevoeiro…

Morder o pó

«De acordo com um estudo levado a cabo pela Comissão Económica para a América Latina e Caribe (CEPAL) da ONU, nos últimos oito anos, o Brasil reduziu para metade a proporção de brasileiros considerados pobres ou extremamente pobres. Em 2005, mais de um terço da população (36,4 por cento) vivia abaixo do limiar da pobreza. Atualmente, o número recuou para os 18,6 por cento.»1

Ao invés, noutras partes do globo, por exemplo, naquela região donde partiram os chamados colonizadores do Brasil, verifica-se a tendência contrária. Brasil, disfruta, enquanto os abutres aí não voltam a aterrar por essa bandas, ou enxota-os sempre que tentem a aterrizagem…

É entrar, senhorias...

«O trabalho não declarado deverá representar 20,8 mil milhões de euros em 2013, provindo os restantes 10,4 mil milhões que não são declarados nem ao fisco nem à segurança social sobretudo de seis sectores: reparação de carros e motas, retalho out-of-store, refeitórios e serviços de catering, táxis, autocarros e transporte comercial, retalho não especializado e alojamento económico.» 1

Coisa pouca, espanta é que haja tantos a declarar(-se) …

1  Extrato da imprensa escrita.

2  Afirmações de Rui Rio aos média.

3  Afirmações do escritor José Luís Peixoto aos média.

 



publicado por Jorge às 08:56
Domingo, 26 de Janeiro de 2014

- Zé, vai à janela e diz-me que perscrutas?

- Há muito pessoal pressuroso nas ruas.

- Qual será a causa eficiente, Zé?

- Celebram a retoma.

- Hossana nas alturas e graças a mim, Zé.

- Os juízes também deram um empurrãozinho, chefe, nem tanto ao mar, nem tanto à terra…

- Mau, mau, Maria! Isso é malta que não interessa nem ao menino Jesus… A estratégia foi congeminada ao milímetro cá por casa, Zé.

- Sei disso, o chefe saiu-me um general à altura de Aníbal, o Cartaginês!

- Assim está melhor, Zé. Quiseram-me suserano dos suseranos, mas rei é uma coisa que obedece, eu nasci com a estrelinha do mando.

- O chefe tira luíses, pintos e cruzados à descarada à malta em funções públicas, gabo-lhe o atrevimento!

- Se me contrariam, devolvo as maquias -  bem ratadas, por sinal - no tempo certo, não sem que antes arme um berreiro para espantar a passarada. Depois é só deixar a água mover os rodízios do meu moinho, Zé…

- Assim é! Em relação aos colaboradores privados, os empresários fazem pela vida, que eles não investiram pelos belos olhos do povo, chefe!

- E eles a julgarem que me sentia acometido de cólicas, dores de rins, dores de cotovelo, cefaleias, esfincteralgia, orquialgia, telalgia, correlativos e sucedâneos, quando se falava dos togados do olimpo...

- As sobras dos subsídios foram suficientes para que comprassem  nesta quadra, numa altura em que os preços são mais altos, noblesse oblige… Brilhante, chefe!

- A propósito de estratégias, o nosso general Aníbal vai assinar de cruz o orçamento, Zé!

- Tudo nos conformes, chefe! E andaram os nossos protetores a duvidar que o chefe fosse capaz de sacar os emolumentos suficientes para pagar os juros, que  para arrumar a dívida não está o chefe para aí voltado…

- Nunca tive vocação para Martim Moniz, meu leal assessor!

- Os seus predecessores e atuais opositores levam também muito que contar, Zé!

- Digamos que terão de temperar o seu poder de encaixe que já é grande, Zé! Com que então eu nunca tinha dirigido nem uma mercearia!...

- Não de somenos importância tem sido a estratégia de dividir para reinar, brilhante, chefe!

- Sigo os meus instintos e os conselhos de quem sabe. Os ventos já não correm de leste, meu caro Zé! Portanto, estamos à vontade para pôr e dispor e ainda nos sobra tempo…

- A manter-se em forma, as próximas eleições estão no papo, chefe.

- Acompanho-te, faço por prometer o Carmo e a Trindade, que a troica já está no papo, mas deixo a porta escancarada. Se os compatriotas se dignarem a estrebuchar louvo-lhe os sacrifícios e eles ficam babados de tão honrados, pois sabem que o bem supremo se alcança por esta via, Zé.

- Já agora, e se me é permitida a sugestão, chefe, lança-se mão dos préstimos de gurus, curandeiros reverendaços, ministrantes, e taratólogos leiais. Cozinha-se um novo tanglomanglo, com uns arremedos de exorcismos à mistura e já está!

- Mais, Zé, ponho os nossos avençados a espalhar e explicar a boa nova que são necessários ainda mais sacrifícios para a salvação dos negócios. Quem tira um bom sacrifício a muitos e bons dos nossos compatriotas, tira-lhes tudo!

- Que visão, chefe! Já agora dava-me jeito ir fazer umas comprinhas de última hora….

- Mas todos os dias desta semana andaste em compras!... Vai lá que bem as mereces e leva aqui o meu cartão especial de descontos.

- Beijo-lhe as mãos, chefe!

(Zé partiu à brida toda, mas teve ainda uma visão parcial do chefe que, postado diante do seu espelho favorito, interrogava: «Espelho meu, quem me faz sombra?» Acometido de fornicoques, atirou-se à cachaça que não é água, enquanto trauteava estrofes napolitanas do «sole mio», que bela coisa um dia de sol, um ar sereno depois da tempestade…)

 

 

 



publicado por Jorge às 13:51
Sábado, 25 de Janeiro de 2014

Jeremias sonhou defender os trabalhadores, estimulava-o a vindícia. Começa por aceitar como verdade inelutável que sem empregadores, não há empregados. Fez campanha pela criação maciça de postos de trabalho, deu conferências a estimular o empreendedorismo de antes-assim-que-nada, e até defendeu, com unhas e dentes, a inscrição na lei máxima da nação que todos os cidadãos têm direito inalienável a serem ricos proprietários, desde que fossem bonzinhos para quem colabora com eles.

Num dia em que descobriu que tinha o pé chato, foi a tempo de emendar a mão, numa tarde-noite em que era convidado especial do grémio dos grémios, deixou cair essa «condição da bondade». Na ocasião, perorou de gosto e, quando acabou, teve uma revelação, quando dirigia os seus passos para o metro de superfície. Uma santa alma que habita o outro mundo instava-o a que ele próprio integrasse os quadros do proprietariado local, assim se safava e salvava.

Jeremias, não se fez rogado, deu uma guinada à vida, à pala de apoios conseguidos instalou-se como fornecedor prioritário de material às escolas básicas, secundárias e superiores da nação. Com meia-dúzia de funcionários de parcos salários e horários alargados, impôs-se no ramo e prosperou. Via-se no bom caminho.

Num destes dias, o médico pessoal e exclusivo, diagnosticou-lhe alergia ao suor, pelo que se submeteu a um tratamento eficaz em localizações ecologicamente úberes. Desde então ficou cliente das fofuras do ar condicionado e das spas.

Tem sido acometido por enxaquecas frequentes, e sobrevêm-lhe enxaquecas, pois embebe-se em água-de-colónia, sempre que tem de enfrentar as emanações sudoríferas do proletariado. Também é acometido de brotoeja, sempre que tem de negociar com «sacripantas sindicateiros» (sic).

Tanto desconforto físico e moral foi amenizado pela sua profunda entrega à causa da recuperação da economia: os seus lucros têm aumentado em progressão geométrica.

Por estas e por outras tem sido vivamente aconselhado a marimbar-se nos pés descalços.

Hoje-por-hoje, Jeremias é mais estimulado pela vindicação.

 



publicado por Jorge às 12:20
Sábado, 25 de Janeiro de 2014

Um senhor dengoso mete-se na cama de uma donzelona perliquitete que o chama de gatão e acha charmoso. Nos prolegómenos, há lugar a uma ceia de lambança, com muito manjar-branco, muitas libações e muito gabanço. Fazem amor e tudo o mais que lhes dá na real gana, o que os mantêm entretidos em vale de lençóis, a noite completa.

Ao dealbar, o senhor estremunhado estranha o ambiente e os cheiros que matizam o ar. Logo lhe ocorrem todas as miudezas da surtida noturna por terminar, tendo por certo e sabido que a sua companheira de longa data não haveria de achar piada ao arranjinho que tresanda do gualdipério. Depois de breve exame de consciência matinal, uma prática hígida para quem se quer manter à tona de água, após as manobras de higiene pessoal e de uma refeição reparadora, saiu porta fora leve que nem um passarinho, sem dizer ai, o que deixou pesarosa a nova candidata a dona do seu coração. Nada que não se possa compor com uma mensagem ardente para o contacto secreto, daqui a nada…

O senhor instala-se no seu birô, olha como-quem-não-quer-a-coisa para o montão de hebdomadários, para descobrir que a sua efígie e a da venturosa companheira ocasional de tálamo estavam escarrapachadas em todas as primeiras páginas. Não se aventura na leitura, antes alvitra as reações impressas, que não passa de um sem-vergonha, que não pode ver um rabo de saia, delambido, fraldiqueiro, femeeiro, traidor, um chorrilho de anátemas. Para a companheira sobrarão muitos mais epítetos, estilo bandarra, bruaca, cação, croia, zabaneira, ejaculadora contumaz, enamorada de josezinhos e outros comentários soezes, estilo, que dava trela e cibo ao padeiro, ao jardineiro, ao motorista e ao coveiro, promotora de gualdipério e vira-que-trambulha, dando de barato o ferro de muitas mulheres que ajudaria a ampliar o som e o tom.

Chama a despacho os seus colaboradores mais próximos e tudo desliza sobre carris, sem qualquer frémito ou estrépito, num ambiente de elevação, facto muito estranhado por alguns e entranhado por todos. A alegria no trabalho é ambição universal e agora acontecia ali, a todo o instante.

Num intervalo para café, uma mão furtiva dispôs, como-quem-não-quer-a-coisa, em primeiro plano a primeira página de um jornal e ele dá-se por achado: «Parabéns, presidente, conseguiste!» - reza a cacha.

De facto, lembra-se agora, tinha conseguido o primeiro orgasmo decente, ele que é tido por padecente inveterado de disfunção erétil.

Haveria de livrar-se da hipocondria também, um dia destes e outro galo cantará…   



publicado por Jorge às 12:16
Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

Senhores deputados e senhoras deputadas da maioria compunham um modo compungido sempre que se lhes oferecia a oportunidade de dissertar a propósito dos sacrifícios impingidos, há um ror de tempo. Tinham uma fezada que as doses reforçadas de óleo de fígado-de-bacalhau, impingidas a contragosto (claro), seriam contrabalançadas pelas melhorias do país doentinho. Juravam e trejuravam que tinham ponderado alternativas até à exaustão, mas o que tem de ser tem muita força: não encontraram outra porta que tornasse acessível a fuga à crise induzida. Por vontade expressa dos protetores (de santos nada têm), uns estoura-vergas da globalização mal aparelhada ainda, isto vai ou racha. E os senhores deputados e as senhoras deputadas que nunca tiveram oportunidade de apreender a sagacidade da raposa perante o corvo de queijo no bico (as novas oportunidades são coisa recente) fizeram passar a mensagem às vítimas escolhidas a dedo, toca a enfardar.

Aliás, a mescambilha não só foi montada por esses protetores reinadios (felizmente vão pôr-se a milhas, quando o relógio da torre da Pândega exibir o último suspiro), mas também por antecedentes reinantes - safados e malvados - que fugiram com o rabo à seringa. Hoje por hoje, não há forma de fazer escapar à rapina os pobres de espírito e de carteira, antes emagrecer na honra, que engordar na infâmia. Cumpridores honestos fazem orelhas moucas ao desatino e é isso que o destino reserva a quem tem apenas uma linha de rendimentos garantida.

(Os eleitos da salvação da pátria quedaram-se de cara amarrada, um bocado murchos, é verdade, até lhes deu para ver navios, ranger (os poucos) dentes, lamber feridas, beber lágrimas vertidas, mas isso já lhes passa.)

Agora, não dá para perceber, a razão pelo qual, as excelências se quedaram de cara à banda, quando os togados do Tribunal Constitucional, obrigados a lavrar uma palavra de rei que-não-volta atrás, deram cabo do arranjinho arquitetado para retirar mais umas postas às pensões, no entretanto. Quando se pensava que o alívio da carga dos inculpados deixasse as senhoras deputadas e os senhores deputados do arco-da-governação, ou coisa-que-o-valha, com cara de Páscoa, nada disso, antes puseram cara de caso, de funeral mesmo. Continuam a dizer que não há volta a dar, os pais-de-velhacos…

 Da próxima vez que falarem de sacrifícios, senhores deputados e senhoras deputadas, digam, sem peias, que querem salvar a pele dos privilegiados (e a vossa, de caminho), ponham o ar zombeteiro da indiferença perante a dor (que nem sabem anestesiar), ar esse que vos vai a matar. Ou não digam nada, o que tem de ser tem muita força (ou coisa que o valha). E poupem-nos ao despudor dessa cena da equanimidade, fica-vos mal alinhar numa cruzada onde muita boa gente vai deixar a pele, gente que deveria merecer um mínimo de respeito que vosselências exilaram.



publicado por Jorge às 11:03
Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

 

O senhor Cortes

- Está ali um senhor a dizer que lhe vão aplicar 4 cortes.

- Tenha respeito, meu caro senhor, isto é uma casa séria, não estamos num cabeleireiro, numa modista, num bloco operatório, ou num banco, por mais respeito que nos possam merecer os cortadores. A seriedade é uma coisa séria!

- Quem sou eu para pôr em cheque as suas palavras, agora lembrei-me, é disso que aquele senhor se queixa, de 4 cortes no cheque que ele costuma receber todos os meses.

- Disparate, foram dadas ordens aos bancos, no sentido de evitarem, na medida da sua vontade, transações de cheques com cortes, como ainda há 4 anos ficou decidido na federação. Está enganado mais uma vez, meu caro senhor!

- Vejo que não me expliquei bem, aquele senhor ali continua a afirmar alto e em bom som que a quantia que lhe costuma ser abonada levou 4 cortes, só neste ano...

- A ver se nos entendemos: a quantia subtraída a esse senhor será igual à de tantos outros que recebem igual quantia ou por aí… Não foram precisas 4 operações de subtração, uma bastou. Aliás é este o nosso programa de governo e seremos inflexíveis. Aproveito a oportunidade para revelar que contratámos o Eduardo-Mãos-de-Tesoura, não vá o diabo tecê-las e termos de cortar nas fronteiras soberanas e por aí fora, não temos tido mãos a medir.

- Não acha cortes a mais?

- Nem por isso, posso revelar que estava prometido um quinto corte que virá mais tarde, mas virá, nós não brincamos em serviço.

- Cortam tanto e sempre nos mesmos por ser mais fácil?

- Agora estamos a cortar nestes e merecem-no, quem não arrisca não petisca. Lá para as calendas gregas, contamos sacar aos nossos enteados, amigos e familiares e camaradas de partido, por esta ordem. Como perceberá isto envolve muita emotividade, como tenho lágrima fácil, fiquemos por aqui que já estou a ficar com pele-de-galinha.

- Cortam para dar garantias que o estado social sobreviverá aos senhores?

- Bem disso não tenho bem a certeza, estamos a sanear, como é boa prática política deste país. Sabe, o estado tem bons fundos e maus fundilhos. Estes estão muito gastos, pelo que a sustentabilidade do próprio estado está em questão. Com a ajuda dos nossos santos protetores queremos preservar o nosso estado. Não há bons fundilhos sem cortes.

- De acordo, mas onde nos leva esta praxis de sangrias?

- Ainda bem que fala de sangrias, sabe que passaram a ser marca de região demarcada? Só no Mediterrânio, a partir de agora se produz a autêntica. Fazer e beber sangria é garantir postos de trabalho e a boa vidinha a muitos dos nossos compatriotas. Como vê, a história nos julgará, somos patriotas e deixamos obra feita.

- Não receiam o julgamento dos vossos patrícios, tão pouco o da História, portanto?

- Quanto a isso, um dia destes talvez recuperemos a Inquisição, os 3 éfes, a MP, a Legião, etc…

(Que linda falua que lá vem, lá vem!…)

 



publicado por Jorge às 10:41
Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

Corta- (,)chefe

Há 3 anos, houve cortes pontuais.

Há 2 anos, houve cortes pontuais.

Para este ano estão previstos cortes pontuais.

São um ponto estes cortes, mimosos, o pessoal afeiçoa-se a eles: depois já não se consegue viver sem eles, ou a vida torna-se modorra. Por isso se transmutam em estruturais.

(Livra!)

Cortar às postas

Reformados com vida contributiva completa levam que contar.

Funcionários públicos de horário completo levam que contar.

Reformados com vida contributiva incompleta levam que contar.

Funcionários públicos de horário incompleto levam que contar.

Reformados e funcionários públicos já não sabem como contar o passado, ou o futuro.

(Safa!)

Corta!

O povo diz que o trabalho dignifica e é fonte de todas as alegrias.

Acrescenta que do trabalho e da experiência brotou a ciência.

Verdades que parecem indelevelmente verosímeis.

O povo diz que o trabalho é a fonte de todas as riquezas.

Acrescenta que quem trabalha na juventude, descansa na velhice.

Verdades que parecem hodiernamente inverosímeis, a exigir reformulação.

(Ora toma!)

Cortanheiros

Naquele dia, os tratantes foram aos mercados para serem recebidos mercados de braços abertos.

Nesse dia, em que os mercados receberam os tratantes de braços abertos, os pensionistas exibiram-lhes punhos fechados.

Nesse mesmo dia, em que os mercados receberam os tratantes de braços abertos e vice-versa e os pensionistas lhes exibiram punhos fechados, o chefete do bando anunciou que queria ficar a mandar até a lancha encostar, para fazer mais do mesmo.

(Arreda!)

Uma cortada

Houve uma manife de polícias, controlada por polícias. Estes últimos deixaram os primeiros seguirem escadas da casa da democracia acima.

Depois, foi sugerido que os polícias que deixaram outros polícias subirem as escadas da casa da democracia fossem processados.

Na mesma ocasião, ficou sugerido que os polícias que subiram as escadas da casa da democracia e não foram impedidos por outros polícias que para ali estavam par o efeito fossem processados.

Houve nova manife de polícias, controlada por polícias. Os primeiros e os segundos exigiram a erradicação dos processos, exigência que subiu à casa da democracia.

A reivindicação foi atendida, porém os polícias que se manifestaram da primeira vez e os que consentiram na manife foram obrigados  a descer as escadas da casa da democracia, pela ordem inicial e na mais perfeita ordem.

(Cá se fazem, cá se pagam!)

Cortar na casaca

- Vosselência mente!

- Pardeus, eu pedi assim e o chefe deu-me assado.

- Vosselência mente, o meu assado é igual ao seu assim!

- Perdão, chefe, eu embirro com pessoas que me metam em assados.

- Vosselência mente, veja aqui à transparência, o seu assim coincide perfeitamente com o meu assado!

- Francamente, chefinho da minha alma, tire-me as mãos de cima.

(Há cada uma!)

 



publicado por Jorge às 10:34
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