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oitentaeoitosim

12
Mar14

Cenas do País Tetragonal (XVII)

Jorge

A Onião dá garantias a longo trecho e por mor disso chama a si uma talhada de soberania, o seu a seu dono. A Onião reservou para si, na capital do país, competências exclusivas (dispõe de outras, mais ou menos partilhadas). Vender a alma ao diabo por sucesso e dinheirama é chão que dá uvas. Sem arrependimento.

Entremos a ver o que cá se lavra!…

A Trinca dá garantias a médio trecho e por mor disso chama a si outra posta da soberania, donos dão e servos choram. A Trinca pôs-se em bicos de pés e disse que tinha garantido o pagamento de ordenados e pensões. Que o país precisava de uma barrela de-alto-a-baixo e que morresse quem se arrenegasse. Com a vida não se brinca.

Bora, antes que se faça tarde!...

O Governo em Funções dá garantias a curto trecho e por mor disso chama a si o resto da bolada, dando de barato que ave de bico não faz ninguém rico. O Governo em Funções, por carta de conforto, fez saber ao que vem: descobrir onde ratar, arrampanar até mais não e obedecer para saber mandar, qua a cão fraco acodem as moscas. Acaba por constituir-se em comissão liquidatária, comissão de festas e comissão de praxes. Guardado estava o bocado.

Esta casa é vossa, por quem sois!…

(Com alma até Almeida, a grei alomba, desmedidamente, até ver, nada a fazer.)

 

10
Mar14

Trocas e baldrocas

Jorge

- Quando a troca direta deixou de dar pica, passou-se à permuta intermediada.

- Apropriação e tecnologias, oferta e procura, bancas e bolsas, lucros brutos e líquidos, crescentes e decrescentes, auditorias e agências criam a superestrutura e as conjunturas, as linhas de montagem e os nichos de mercados, com seus quês e porquês, apontando a produção e a exploração a píncaros dantes nunca ousados. 

    

- Alto e malo, as conjunturas ganham erupções cutâneas e borbulhas, pólipos e bubões.

- Uma epidemia, é o que é e instala-se o perigo de contaminação eminente do crescimento sustentável e a globalização, já a sofrerem de afrontamentos e resfriados.

- É o desfrute dos titeriteiros, com a valsa da burguesia tocada bem a compasso, à boca de cena.

- Os profetas e especialistas, em bicos de pés, chegam em romaria ou em trindades, a perseguir a cura da tinha e da sarna, a cortar gorduras e eliminar achaques, a pôr água na fervura e a fazer a água a correr para o moinho certo.

- Fiados na máxima que doença bem tratada, poucas vezes é demorada e que não se deve morrer da cura.

 

- Uma sangria fiscal é aplicada por sanguessugas aos anjinhos que, à conta da paz social, se atreveram a ambicionar as graças dos anjos custódios do situacionismo deleitante (uma dose diária de bife e outra ocasional de lavagante, por exemplo).

- Anuncia-se depois a morte do Estado-providência e dos direitos adquiridos dos descartáveis subalternos, que as excrescências da Depressão já não têm razão de ser, in illo tempore vá-que-não-vá…

- Se isso não resultar, atassalha-se os pés-de-meia dos otários que não guardam o dinheiro no colchão ou num cofre enterrado no quintal. Camiões úberes de liquidez e a frigidez dos cortes dos CEO reconfortam os pés-frescos.

- No meio de mortos e feridos escapa a ideia que o gládio continua sobre as cabeças dos taratas, para gáudio dos pataratas.

 

- A saúde não se sente, a doença sim!

- Por roubar o roubado fica um ou outro país ajustado.

- Falta o pão fresco a quem o produz, mas sempre se arranja pão misericordioso, velho.

- Quem não sabe ser tendeiro fecha a loja, quem tem unhas toca guitarra e põe-se a cantar o fado do esgraçadinho.

- A inveja faz falar e cuspir para o lado ou para o ar é uma boa prática para quem vive à tripa forra.

 

- Não me dava que…

- Em Davos? O concílio que prolonga a discussão do sexo dos anjos?

- Há muitos catracegos macanjos e muitos bonifrates com camoecas a todo o tempo, por lá e por cá.

- Os membros grados das finanças gostam de conjurar sobre a melhor maneira de tornar o povo feliz, sem lhe passar cartão e mesmo a contragosto.

- Vocês tratam tão mal os vossos ocupas!

 

- Pelo andar da carroça, apresta-se o fim do dinheiro e das trocas indiretas?

- Volta, troca direta, estás perdoada!

- Ainda dá pica?

10
Mar14

Compostura

Jorge

   A descoberta apodera-se de todas as parangonas: dezenas de milhões de planetas da galáxia vizinha da via láctea contêm H2O, o precioso líquido fiador da vida no universo do big bang. A descoberta pôs de cara à banda muitos dos supremacistas terráqueos, confundidos pelas assunções do design inteligente. Na lista dos investigadores surge um nome: Sertório I.

   Organiza-se um peditório para um foguetório de homenagem ao herói, uma vez que o torrão pascal, perdão, torrão natal está a braços com crise aguda de brotoeja. Também se arranja uma parada militar à maneira do império, durante a qual e o laureado se compromete a escutar de cabo a rabo uma heróide lavrada por vate assaz louvaminhado.

   A coisa esteve compostinha!

   Todas as aberturas de telejornais são peremptórias: afinal há vitrinos que conseguem mover-se a velocidades superiores à da luz. A descoberta dissemina-se a uma intensidade estonteante e baralha antigos fados, mas também permite novos cálculos sobre juros vindouros. Mais tarde desceu alguma descrença sobre esta teoria, mas, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Uma vez publicada a lista dos escabichadores, lá estão os nomes: Sertório II e Sertório III.

   Há peditório para novo foguetório de homenagem aos heróis, uma vez que o torrão pascal,  perdão, torrão natal convalesce de uma crise aguda de sarampelo. Também se arranja uma parada de injustiçados anónimos e de ocupas e os premiados são contemplados com a versão mais recente da ode marítima, dedilhada por um companhia de artistas despidos de convenções, mas dependentes de subvenções.

   A coisa esteve compostinha!

 

  Todos os jornais digitais, blogues e redes sociais publicitam e comentam a notícia com segundos de diferença e em tom maior: um grupo de cientistas descobre uma forma prática de reverter o plástico ao petróleo original. A descoberta baralha os partidários da teoria inorgânica do ouro negro, mas também permite devaneios à volta de lucros futuros de estadão. Compulsada a lista dos papelistas, encerra os nomes que se seguem: Sertório IV, Sertório V e Sertório VI.

  Impõe-se outro peditório para outro foguetório, porque o torrão pascal, perdão, torrão natal vive uma recaída de acne aguda. Também se disponibiliza uma parada de autarcas com guia de despejo, outra de militares defenestrados e outra de patos bravos indigentes. Os galardoados aturam uma dúzia de discursos, alguns pícaros, outros pícaros, estoutro picaresco que continham obrigatoriamente elucubrações  homéricas.

   A coisa esteve compostinha!

 

    Todo o mundo anuncia que as crises de brotoeja, sarampelo e acne são obra do homem do saco. O achado é recente e transtorna os espíritos recatados e os iluminados. As contas sobre lucros passíveis prolongam-se para as calendas gregas e troianas. Da lista dos descobridores não consta nenhum nome do torrão pascal, perdão torrão natal. Em boa hora, porque os foguetes estão extintos, o dinheiro segue o mesmo descaminho e o tom laudatório é valhacouto dos áugures. Permitidas estão apenas marchas de agiotas compungidos, de provocadores de chuva, de ciliciados e auto flagelados.

    As descobertas podem esperar por melhores dias.

    A coisa está compostinha!

 

 

 

10
Mar14

Espíritos

Jorge

1 - Se alguém com voto na matéria (ou tom de voz mais convincente) acha que és um espírito de contradição, ora dizes sim, ora dizes não, quando te pronuncias sobre o mesmo significante, coisa, pessoa, fator ou causa, ficas a saber que te tratou com luvas de pelica. Ao invés, poderia ter-te alcunhado de vira-casacas, 2 caras, sacripanta, bifauce, parlapatão, trambiqueiro, lagalhé e coisas no género. E aí a cena podia aquecer e acabar tudo no cabo de esquadra. Se tiveste oportunidade de replicar que só não muda de opinião o gado asinino, deste o tempo por bem empregue.

2 - No teste de Latim usaste cábulas, (a sexagenária profe topou o teu topete, mas, como te conhecia de ginjeira, sabia que quem pouco estuda, pouco trambica). Mesmo assim, aplicou-te chapa zero, por te teres servido do espírito santo de orelhas, como disse ela por entre risos convulsos e lacrimejantes de confrades reunidos em assembleia magna. Soube que estiveste para interpor recurso, mas retiraste a mão a tempo, caso contrário terias de te haver com as avalanches argumentativas furibundas do conselho da turma, do conselho geral, do conselho pedagógico e da gerência do reformatório.

3 – Deste uma esmola a um pobrezinho no dia 22 de dezembro, alindaste uma árvore no dia 23 de dezembro, osculaste toda a vizinhança, mesmo a atiradiça do segundo frente, no dia 24 de dezembro, foste à missa do galo, deste brinquedos a todos os familiares e pobrezinhos com que deparaste, no 25 de dezembro. Foi quando te deixaste imbuir pelo espírito natalício.

4 - Foste gritar para as ruas o nome do teu candidato, arregimentaste uns amigalhaços capazes de preencher o pavilhão desportivo do bairro, a troco de comes e muitos bebes, distribuíste preservativos, corta-unhas e dedais, deste o bacalhau a amigos, inimigos e conhecidos e, por fim, o teu candidato levou que contar. Não interessa, estiveste possuído pelo espírito de campanha e marcaste pontos na tabela da cidadania.

5 - Compraste um fato de zorro ao teu filho e de barbie à tua filha, afivelaste uma máscara de bobo da corte e a tua mulher de lady Chatterley, foram abanar o capacete para o clube mais próximo, durante 3 dias e 3 noites. O teu patrão ameaçou cortar a tua colaboração, dada a semana de baixa que meteste à conta de dores nos joanetes. Suportaste de bom grado as afrontas e as pragas que te atirou ao rosto, mas já cá cantava o gozo. Foi assim que curtiste o espírito carnavalesco.

6 - Acreditas que a Terra é a casa de todos os seres vivos, que deveriam viver em equilíbrio, em harmonia e que ao homem apenas resta o desapego e o desenvolvimento sustentável. Estás possuído do espírito de Gaia ou da Terra. Se todos pensarem como tu, talvez o mundo tenha salvação, quem sabe, há milagres devidamente fundamentados.

7 - Poupaste todos os copeques para comprar bandeira, cachecol, fato de treino, boné, foste ver os jogos à praça do orgulho popular, onde, perante as câmaras de todas as têvês afiançaste que ela já era a maior e arrenegaste críticos e detratores de trazer por casa, como se fossem apátridas. Mais tarde, disseste que a equipa caiu de pé, lixou os calcantes, mas ficou-se a honra. Embora a honra já não faça apelo a refregas, a duelos, a batatada de meia-noite, a bordoada de criar bicho, ficou-te bem essa tradução do espírito da seleção.

8 - Decidiste participar no exército dos contras da Síria, assim do pé para a mão, sem consultares família, o periquito, patrão, ou teu treinador pessoal? Estás dotado de espírito animal, está bem de ver. Que regresses bem.

 

PS: Não procures saber se são bons ou maus, se errantes, se aplacados todos estes espíritos. Pelo sim, pelo não, procura um exorcista.

 

 

10
Mar14

Oráculo

Jorge

   À hora da sesta de uma sexta modorrenta, o sátiro Fauno povoou os sonhos da mãe da nascitura Maragarete: vinha augurar-lhe que a filhota seria nascente de muitas alegrias, ao largo das noites e dos dias dias, capaz de desterrar embaraços estruturais ou conjunturais com momices, chocarrices, paródias, risos, sorrisos e correlativos. Os fados queriam-na como porta-estandarte da alegria e da felicidade, ad eternum, enquanto não chegava o elixir da eterna juventude, uma primícia das deidades, que tinha já  metido mãos à obra e pés ao caminho. Pôs-se ao fresco e a muitas milhas, quando topou que a receptora – que não era flor que se cheirasse - se contorcia, disposta a encurtar a soneca. Foi em busca dum cigarro salvador e nunca mais ninguém lhe pôs as lentes em cima.

   Quando nasceu deram-lhe a tradicional palmada de boas vindas no rabiosque. Margarete riu a plenos pulmões. Persignaram-se em surdina os assistentes sorumbáticos, de credo na boca e mão no rosário. À beirinha da cama estava o genitor suspeitador que assistiu à saída de Margarete do ventre materno, depois de muito persistir na intenção contrária, até ao limite da sua argumentação escolástica. Achava um despropósito ter de comungar a nudez das partes pudibundas da consorte com outros; nunca alinhara em ménages a 3, a 4 ou mais, como vinha descrito nos cânones, que o seu limite era as práticas politicamente correctas. Alinhou na praxe, assim que lhe comprovaram por a+b que, caso se esquivasse ao ritual a puérpera, arcaria para todo o sempre com comportamentos, atitudes e competências desviantes. Aquela quebra protocolar da filha não augurava nada de bom. Pôs-se ao fresco e a milhas, quando lhe pediram que lhe desse colo. Foi em busca dum cigarro salvador e nunca mais ninguém lhe pôs as lentes em cima.

    Quando a levaram à escola pela primeira vez, brotaram por todo o lado os chorrilhos de risos, sorrisos e ademanes impregnados de boas vindas. Margarete riu a bandeiras despregadas, assim que pisou o ginásio do colégio cheio que nem um ovo de gritos lancinantes, uivos a condizer e olhares esbugalhados. Os colegas de admissão, os pais desconsolados e os instrutores ressabiados olhavam-na de viés e través. Mais tarde, um dos presentes,quando inquirido, por uma têvê regional, na rua da amásia, (em má hora já se vê!) sobre formas de vida para além da magnetosfera, respondeu que sim, que tinha estado na presença de um alienígena, na citada ocorrência. Contava já com 45 primaveras e 10 filhos e guardou na memória o episódio, não fosse a Alzheimer tramá-lo. Nenhum terráqueo se atreveria a tanto, pelo que só outro habitante de outra parte da Via Láctea se abalançaria a tal desplante. Sugeriu que procurassem a criatura e a exibissem numa galeria, de preferência, na baixa da cidade, uma forma de contribuir para a dinamização daquele espaço. Pôs-se ao fresco e a milhas, quando se apercebeu que era procurado pela legítima. Foi em busca dum cigarro salvador e nunca mais ninguém lhe pôs as lentes em cima.

     Quando a levaram ao primeiro dia de trabalho, Margarete chorou baba e ranho, não se lhe descortinou riso sardónico, sorriso amarelo ou ameaço de gargalhada. Sim, levaram-na em braços e de bruços ao seu posto na engrenagem, demonstraram que as máquinas não mordiam, muito menos o patrão e as chefias. De olhos esbugalhados, percebeu que lhe diziam que a higiene e a segurança eram máximas, a organização prodigiosa e até havia bocas-de-incêndio e caixinhas de primeiros socorros nos sítios certos. O chefe mais próximo prometeu logo à primeira melhoria substancial do soldo; o segundo chefe mais próximo reprometeu-lhe que não haveria assédio da parte dele; o terceiro triprometeu-lhe horário flexível. Em alta grita, reuniram-se à porta do promitente local de trabalho altos representantes da sociedade, do mundo do emprego e do trabalho. Davam testemunho que o trabalho dignifica, que se nasce para ter família, para sustentar a família e que fica mal não sustentar a família e proporcionar-lhe todos os miminhos indispensáveis. E exibiam tarjas, cartazes e palavras de ordem a condizer com o parlapié dos ofícios, dos ritos e dos rictos. Estudou o mapa que guardava numa mochila para emergências e fixou o rasto para as vilas de Diogo. Calçou os chanatos que trazia no mesmo xairel de emergências e deu-lhes corda. Pôs-se ao fresco e a milhas, quando se apercebeu que aquilo era o seu destino futuro e que este marca a hora. Foi em busca dum cigarro salvador e nunca mais ninguém lhe pôs as lentes em cima.

    Consta que o eco imita a gargalhada de desprezo de Margarete.

10
Mar14

Sair melhor que a encomenda

Jorge

A Tibúrcio eram indiferentes as moscas, pelo que mal algum lhes fazia e ninguém o temia, ou levava a mal (um paz d’alma, assim é que é).

Num belo dia passa-se dos carretos e adeus minhas encomendas. Mais tarde haviam de fervilhar desencontradas versões sobre este acaso; a mais especiosa, posta em discurso terso, consubstancia a correlação dos antecedentes e subsequentes com a baixeza dos valores das temperaturas estivais, por comparação com as normais da época.

Ei-lo numa curva de uma autoestrada de fartos pórticos, à coca e logo manda estacar a primeira viatura que se põe a jeito. «Mãos ao ar» - faz acompanhar uma diatribe com 2 tiros também para o ar. Priscilo, homem de maquias e capitais grossos, um páter-famílias à boa maneira do burgo e amante de folguedos abraseados e nada experimentado nestes assados, afrouxa e amouxa.

A família nuclear do refém, pouca afeita a estes assados, é avisada por pombo-correio (acaba assado, à guisa de vindicta), paga e faz-que-não-bufa, mantendo os agentes da autoridade (espionagem e contraespionagem incluídos) longe do cenário de operações.

Priscilo, insonte, é atirado a covil improvisado e insonorizado, onde permanece muito tempo insone, alimentado de sobras, raspas e migalhas. O autor da proeza ata-o, de pés e mãos, com cordame e nós de marinheiro; por isso- avalia o detido - cavar dali-para-fora seria um bico-de-obra, questão arrumada. Em dias de céu carregado de nuvens, tem direito a tabefes de criar bicho, a privações de necessidades primárias e a pau no lombo. Má-sorte a dele ter embicado para aquele itinerário, para encurtar distâncias e razões com um cliente de velha data da empresa de um compadre para quem tem vindo a trabalhar denodadamente, que nem um escravo. «Eu, porquê?»

O constrangimento vai em semanas, quando se esgota o pecúlio a Tibúrcio. Este, numa operação overnight prepara segundo round forçado. Contactada a família de Priscilo, por pomba-correia (acaba em guisado e nem as penas escapam, marcha tudo), ela recorre ao contado remanescente, a joias depositadas em cofres de bancos, aos porquinhos, a divisas postas a resguardo em colchões, a depósitos bancários dos reformados consanguíneos e ainda a ajudas da junta de freguesia, do município, da bolsa alimentar e de ONG e IPSS, no arredondamento do montante exigido. Tibúrcio bem que tinha avisado: ou vem o graveto, ou eu despacho-o, racho-o!

Não é necessário, sim as autoridades ficam ao largo (só à autoridade tributária se apercebe que ali há gato, que Priscilo nunca dantes se havia atrasado na entrega da declaração de rendimentos, o que até dá jeito).

Priscilo, já mais conformado, vê reduzir-se a liberdade de movimentos e a ração; amplia-se a malhação, a reclusão e a delusão. Julga ver uma centelha ao fundo do túnel que tinha começado a escavar, mas tratou-se de miragem.

Num belo dia, o sequestrador liberta o sequestrado, feito num 8, na mesma curva da mesma autoestrada, de pórticos a dar com um pau. Uma comissão de voluntários, dinamizada por gente de coração ao pé da boca, tinha-se batido, com sucesso, pela libertação de Priscilo. Soube-se mais tarde que a dita comissão havia contado com o empenho de Tibúrcio que, mesmo exausto, anda por aí.

 

 

10
Mar14

Isto não dá para todos (IV)

Jorge

. Em julho e agosto, expande-se a lista dos carros de altas marcas. Emigrantes dispõem-se a demonstrar que não foram lá para fora ver passar a banda passar (aqui comiam da banda podre). A caminho dos conglomerados de férias do sul são aos molhos as viaturas de bruta cilindrada que calcorreiam as vias bem tratadas, apesar de tudo (não consta que as matrículas se repitam estrada acima, estrada abaixo). Línguas maledicentes insinuam que, em áreas de habitação desprestigiada também se veem «bombas» de bargantes e galopins laçados em altos voos e pícaras mamatas, a quem não costumam doer as mãos. Séries estatísticas (que as há para todos os sexos e idades, como na farmácia) entretanto reveladas sugerem: as grandes máquinas do asfalto vendem-se que nem pãezinhos quentes. Enriquecimento lícito ou ilícito, exibicionismo ou sentido prático (o melhor dura mais), provocação aos libidinosos voyeurs cá da praça ou vontade de contrariar a desfortuna? A versão do pobrete, mas alegrete, na realidade, colhe poucos votos, embora a sociedade vote predileção especial por quem tenta tapar o sol com uma peneira (dar parte de fraco não granjeia atenções). E se não fosse uma mise-en-scène de quem não tem onde cair morto, mas sim erro da base de dados?

 Ter bom popó (ainda) é glorioso.

 

. Bigode farfalhudo, andar desembestado, 2 baldes numa das mãos, canas de pesca desmontadas na outra, o senhor dirige-se à paragem da camioneta cujo destino final fica a 2 passos contados do local preferido para lançar o anzol ao engano de cardumes desprevenidos. Chega a caminheta. Era o único candidato à entrada, dá a ideia que o motorista já o conhece de ginjeira (pelo nome duvida-se), faz questão de franquear-lhe o espaço disponível, exíguo, por sinal, estando a lotação quase máxima. Daí que, só a muito custo o veterano pescador-por- desporto instalasse teres e haveres no chão, do lado esquerdo, «faça favor, deixe-me pôr isto aqui no chão, chegue-se um pouco mais para lá, obrigado e desculpe o incómodo». Contrafeitos, os outros passageiros facilitam, ensaiando autêntico salsifré. Não se fizeram tardar as rezinguices, os resmungos, a cena ia virando peixeirada. «Eu cheguei primeiro, não há direito de incomodar tanta gente, já bem bastava que trouxessem cães e bicicletas, este traz canas, só faltam os foguetes!» Cabisbaixo, o bigodudo senior faz soar a campainha de paragem e abandona a camioneta, na paragem seguinte, longe ainda do local em que se habituara a dar banho à minhoca. Foi pior a emenda que o soneto, o fim da picada.

 

. Veio o senhor da associação da restauração (quê?) ao parlatório e disse que, se as taxas do imposto que subiram recentemente baixassem de supetão, os gerentes dos restaurantes, casas se pasto, snack-bares, bistrôs, sef-services, cafés, tascas manhosas e finas e correlatos não teriam margem para infletir os preços ora praticados. Presume-se que por razões fortes inimputáveis a empresários: o aumento das rendas das casas, o aumento dos preços dos farináceos, das hortaliças, do pão, dos combustíveis, das rações, do peixe, da mensalidade dos colégios, ou porque para trás mija a burra, ou porque não se pode abrir mão de direitos conquistados. À boa maneira da terra, mais explicações ficarão para dia-de-São-Nunca, ao anoitecer (comer e calar é o que está a dar), quanto mais falas, mais te enterras! Teve ainda tempo de olhar por cima da burra os jornalistas que miravam o palácio.

 

 

. O soto-ministro disse que, «em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão». Compôs sorriso matreiro, enigmático, matador mesmo. Muita gente ficou de cara à banda, pois não se lhe reconhecia a queda para ditos desditosos. Era respeitado pelo seu perfil de mordomo requintado - daqueles que abdicam do riso indiciador de pouco siso - afinal saiu na rifa um choninhas da corporação punga, de pouca prestança, que se dá ao disfrute no usurpo e no estupro de pobres de espírito. Cuide-se, da próxima vez! À uma, porque nem só de pão vive o Homem, também se petisca massas, frutas, hortaliças, legumes, sobremesas e cafés, só para dar alguns exemplos. Às duas, quem abocanha que nem pisco está fora do aprisco. Os indivíduos que se alambazam que nem abades ou sofrem de adefagia - esses sim – podem não fugir à ralhação ou ao ralhete, mas são uma minoria, dentro da maioria. Às três, porque não é forçoso que a falta do pão-de-todos-os-dias leve forçosamente a contendas: fulano que não gosta de pão integral, beltrano que não atina com a fruta-pão e sicrano que é um pão-duro não dão para tal peditório. Às quatro, os grotas, do high-life, por dessuetude e estatuto, não embarcam no balão; para a alta-roda, a falta de marisco e de caviar penalizam mais. Às cinco, a falta de dinheiro para compra de marisco ou caviar é um indicador social de estabilidade; descanse, senatorial e encanecida figura, que por aí o gato não vai às filhoses (o consumo de pão não risca). Às seis, há alternativas às zangas de comadres: sempre se pode recorrer ao apedrejamento, ao canelão, a um torneio de bisca-lambida, a um duelo, à roleta russa mesmo.

Cuide bem, Vexa, dos dentes (não lhe vá cair algum com as graçolas), não vão até os tementes mais fervorosos - transidos pelo cipó e fartos de sobras – pôr-se a escoucinhar.

(Já agora que ninguém nos ouve, mais fere a má palavra – e o sorriso trambiqueiro - que espada afiada).

 

. O país está quase a sair da recessão, bastam mais 3 meses de ganhos da nação, similares aos do 2º trimestre do ano e livramo-nos da peçonha da besta, das algemas dos credores, da síndrome da possessão (possessos estávamos a ficar com o palavreado dos paus-mandados). Melhor seria que se mantivesse, no 4º trimestre, um crescimento da economia de 1,1%, isso seria ouro sobre azul. Ninguém vai dormir sossegadamente até dezembro. Os grooms (o «teddy ministrador» esse subiu ao sétimo céu!) deliciaram-nos com a boa nova - um geladinho em pleno período veranil cai sempre bem -, o olhar a sorrir, a altura a aumentar, a empáfia a brotar de todos os poros, a esperança a gorgolhar, amparada na fé e na caridade. A história não para. Caso tenha sobrevivido até à data a sensação que a história congelou nas façanhas dos grandes feitos ultramarinos é porque não se sabia desta façanha. Temeu-se pela rica saudinha dos anunciadores da boa-nova, não lhes fosse acontecer o mesmo que à rã da fábula, a do estoiro. Aqui também a imaginação popular se pôs a operar: o fim do crescimento da dívida pública ou do crescimento sem fim da dívida pública, o adeus ao pagamento de juros truculentos ou à truculência dos juros em pagamento sem fim à vista, o ponto final da reforma do estado ou do estado das reformas que estarão a ser feitas ou por fazer já não passavam apenas de vãs promessas … Custou, mas foi! A economia e as finanças ficarão num brinquinho, quem sabe (a felicidade é impagável e vem a caminho)?!

Ficou na gaveta o anúncio do fim da linha para a austeridade, para os sacrifícios impostos, para os recursos ao TC e outras minudências assacadas ao pessoal. Fica para a próxima! Não se pode ter tudo de uma só vez, é preciso dar tempo ao tempo!

 

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