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oitentaeoitosim

16
Mai14

E siga a dança!

Jorge

Volta o beija-mão sindicado.

Em negociações apadrinhadas pelo cetro

Com timings impostos.

 

Os fuões possidentes mailos sequazes agarram-se ao pau da cenoura.

A que sempre se julgaram com direito.

O pão de todos, de todos os dias, pertence-lhes por etéreo fado.

 

Ai querem aumento do ordenado mínimo, mais uns tostões?!

E o que nos dão em troca?

Decidam-se até ao próximo ano…

 

Voltámos sem peias à mó de cima.

Ou cedem nas condições de laboração

Ou ficam de mãos vazias…

 

As leis da selva e a ciência da escassez demarcam os campos.

Queima-se miríades de velas e panchões junto aos altares do bezerro de ouro.

Se o trabalho é mercadoria, que compita pela saúde, pela habitação, pela saúde…

 

O que se resolvia com mais um punhado de tostões a juntar à mesa(da) escassa?

Um qualquer aumento castiço

Arrasta em 2 tempos as 3 moedas...

 

A abertura solícita à esmola que se pondera rende votos à outra parte.

Que vem cerzindo sem dó nem piedade

A canga do medo.

 

Atenção, senhores e senhoras que caranguejais:

Quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos.

Quem seu amigo quer conservar, com ele não há de negociar.

(O negócio de honra é na faca.)

 

 

10
Mai14

O remendão

Jorge

O homem tomou para si árdua missão: endireitar o país, as contas da nação, o défice do estado. Uma tarefa para um ciclope, que era na conta em que se tinha, depois do cavalo do poder ter parado à sua porta.

Os próprios nacionais tinham sido saqueados por capatazes, feitos piratas cruentos. Prestável, diz, uma vez apeado o defenestrador precedente, que pretende pôr cobro à bandalheira.
Fez um mês de retiro, durante o qual se aconselhou com os santinhos das suas devoções. Findo o mesmo, tinha um plano gizado. Na loja do mestre André comprou um nível para estabelecer referências nacionais.
Comigo vai ou racha, isto tem de se compor, custe o que custar, ou vai tudo raso!
(Os seus apaniguados e entes mais próximos acharam-no irreconhecível, nunca o sonharam possuidor de tanta verve e pertinácia, como se verá.)
O plano era simples: as receitas teriam de aumentar e as despesas levariam cortes cerces, ou enxertos (de porrada).

Nisto, pôs-se a pregar os mandamentos do capital, as bem-aventuranças da apropriação, as virtudes cardeais e teologais das mais-valias. Abjurou os pecados veniais e capitais paridos pelo do consumismo destrambelhado a que se tinha entregue com volúpia a mole o povo, a mau conselho (da banca).

Para que a salvação fosse um facto, seria preciso cortar, a torto-e-a-direito, que entre mortos e feridos, alguém haveria de escapulir.

O projeto de salvação começou a ser aplicado aos gentios que andam pelos baixios da pirâmide social, agrupação mais numerosa e mais fácil de moldar (e passar a perna), que sabe que o mando, a cultura e a razão vêm sempre de cima.

Até ver a arraia-miúda seria submetida a provas de estresse financeiro.

(Escaparam os verdadeiros montadores do cenário e que era suposto terem ido de cana, mas saiu-lhes a sorte grande, vejam só!)

O homem aos cortes chamou reformas estruturais e, com a ajuda prestimosa de vários apóstolos e apóstolas fiéis, dedicou-se à patriótica tarefa de secar ou emagrecer as carteiras e as vidas ao povo.

Foi um ver-se-te-avias, durante um ministério de 3 anos.

Que o mundo ponha os olhos em nós, ninguém nos leva a palma!

O homem operou maravilhas: transmutou vinho em água destilada, curou leprosos improváveis, deu vista a quem já a tinha, provocou aleijões a pessoal escorreito e atirou pérolas a leitões que iam a caminho da Bairrada.

Na mesma linha, ainda tentou andar sobre as águas, mas só conseguiu surfar ondas produzidas em catamarãs.

Honra lhe seja feita, regista alguns percalços: mandou colher uvas na primavera, secou pântanos no inverno, mandou para o terreno meios de combate a incêndios no outono e das cheias no verão.

Conseguiu a multiplicação de impostos, taxas, emolumentos, tenças, derramas e cantinas sociais, ipps, misericórdias e todos os natais foram maisvibrantes.

Pelas regras do protocolo e do contrato social, o respeitinho é muito bonito e ficou resolvido dar uma segunda oportunidade aos faltosos, pelo que não foi chamado o remanescente da pirâmide social.

O homem juntou o suficiente para pagar os juros das dívidas mais antigas à banca do mundo e montar uma almofada financeira recheada que deve seguir o mesmo caminho. Os contemplados ficaram contentes e decidiram que o país, a nação e o estado estavam em bom caminho.

O homem lavou as mãos e depois gritou «Missão cumprida!!!»

Os amigos apressaram-se a dar-lhe os parabéns e um a um pediram que os deixassem reclinar a cabeça na tal almofada.

Ora, ora, por quem soides!...

O homem teve a hombridade de pedir aos pares e homens-bons do reino que rezassem para que não houvesse uma revalorização da divisa, que os mercados mantivessem juros baixos nos empréstimos, que a recessão recuasse, que as importações continuassem a vencer as exportações, que as agências de rating deixassem de nos confundir com um aterro sanitário, que a banca nacional não ficasse de novo rota, que os parceiros tivessem juizinho, que voltasse o investimento, para suprir o desemprego.

Eles disseram que sim, amém!

O homem disse que o próximo desafio estava lançado, fazer do país um paraíso fiscal, se os comensais garganeiros a tanto consentirem.

Conhecedora do milagrório, uma fatia da população pôs-se a comer e a beber cerveja e shotes, fazendo o favor de ouvir o Zenilton da terra.  

Uma outra parcela de população comemorou o feito na praça central do país, à volta do marquês que não quer voltar outra vez.

Uma minoria tentou esconjurar fantasmas, indo às festas da tevê, capazes de fazer corar de vergonha os moribundos e defuntos.

A maioria ficou em casa, ou na rua a curtir mágoas, agarrada à esperança no regresso das vacas gordas (postadas a regime) que tinham tombado dos céus, sem se fazerem anunciar.

(O homem agora tenta fugir ao destino indicado no último horóscopo por si compulsado que é de ser pendurado numa cruz de cabeça para baixo.)

Ecce homo!

 

 

 

05
Mai14

Solilóquio de primavera

Jorge

- É resultado garantido, tome lá a purga, é só mais uns dias, abra lá a boca e feche-a, assim mesmo, cuidado!

(Passam vários pares bem contados de dias e a obstipação não cedia, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.)

- É resultado garantido, temos de insistir, tome lá mais uma colherinha de purgante, garanto-lhe cura e sinecura, vá lá, abra a boquinha, assim mesmo!

(Passam muitos pares de dias bem contados e o impedimento permanecia, de pedra e cal.)

- É resultado garantido, é mesmo a última dose deste purgativo retificativo, é só mais esta dose, vá lá, aqui vai laxativo, amanhã estará melhor, é taxativo!

(No dia destes, mirradinho, fulano é tido por vítima de coma cárus. Acabadinho de ser ajustado à máquina, eis senão quando ocorre a implosão. A fetidez e a dissipação obrigam ao adiamento da aquisição do féretro. As exéquias são aprazadas para as calendas gregas, sine die, portanto. Dificilmente será espedido de pés para a frente, antes ressuscite.)

Como admitido, resultado garantido!

 

 

 

04
Mai14

Cenas do País Tetragonal (XXI)

Jorge

Constou ser intenção da abegã fazer um abatimento (ena, ena, onde isto já vai!) ao número máximo de cães e gatos, os bichinhos mais vulgarizados nos habitáculos humanos. As razões da senhora não foram lobrigadas por representantes das associações cívicas dedicadas à causa dos animais de estimação.

(Não se toca no número de tartarugas, cágados e peixes, para só falar nos mais inofensivos e desejados, que dos indesejados, formigas, carochas, moscas, moscardos e osgas - só para dar alguns exemplos -, não reza a estória.)

Por isso, uma senhora que nutre muita estima por bichinhos domésticos desejados jura que o erro dos governantes e das governantas vem de longe, eles não sabem dialogar (os genitores convenceram-nos que mais belos e inteligentes no mundo não há…)

Um comentador televisionado, não encartado, asseverou que os cuidados propiciados aos animais de estimação constituem uma liturgia propiciadora face aos desmandos da pecuária e da culinária. Adiantou que o comandante da jangada de pedra e sua tripulação não dão uma para a caixa, estão a pedir uma mocada que os transforme em génios (comó puto dos 13 instrumentos). Diziam-se os mandantes fartos dos epítetos da rua, das arruaças e das grandoladas, mas , na volta, vai-se a ver e só lhes saía palavras e atos pífios ou malévolos. Deu-lhes para aquilo, pensar em legislar sobre a bicharada, como lhes podia ter dado para a feitura de normativos de produção da chuva artificial…

Quem lhes queria bem que os pusesse a fazer cesuras e sangrias patenteadas que a mais não alcançou o ensino-aprendizagem frequentado.

Os amigos dos animais de estimação em moradia tiraram-se das suas tamanquinhas e vieram para as ruas atrelados à bicharia, a armar um escarcéu. Que ficava mal a revivalistas da lei da selva tentar limitar os animais domésticos. Que já estava na hora de irem dar banho ao cão.

Os cães, nem por acaso, tomam a dianteira do desfile precatório, com molossos, vira-latas, e podengos à cabeça, em alegre confraternização, a aganar, a rosnar, a cainhar, a esganiçar e a ladrar, um regalo para a audição, como se imagina e prometiam mais do mesmo todas as manhãs de sábado (que raio de ideia, logo que dá jeito ao descanso!)

A resposta não tardou, ia o primeiro desfile a meio, quando os promotores e subscritores duma petição plebiscitada são informados, por delegação interministerial de alto coturno, que a legislação não seria retroativa. Se num apartamento convivem 10 bichos, 10 bichos ficam para o resto da vida deles; por morte só 4 poderão ser substituídos.

(Na ocasião, o projeto cai mal aos pensionistas donos de bicharada, cujos rendimentos futuros estavam ameaçados por cortes retroativos.)

O maioral reúne de emergência os colaboradores, por 12 horas que ficaram baratas. Comem que nem piscos - limitam-se ao passadio, sandes e água da torneira - e fazem contas à moda do Porto. A conselho de um conhecido comunicador, vão a intervalos regulares fazer um xixizinho. Por maioria simples decidem mandar a proposta de lei às malvas e é criada uma comissão que reúna entendidos na matéria provindos de partidos, associações de moradores, associações de condóminos e autarquias para que se chegue rapidamente à formulação de um estudo prévio ao guião para a Reforma da Coabitação entre Bichos Racionais e Irracionais entre 4 Paredes. Mais, a matéria em apreço passou a ser tutelada pelas Relações Internas:  um número crescente de donos de bichinhos de estimação não está a cumprir com as suas obrigações, tendo-se registado por aí muitos rasgões em calças e calções sobretudo e abocanhamentos à discrição e bodega por todos os cantos, o que tem posto muita gente num virote.

(Não somos dinamarqueses, mas o povo ficou contente, acredite se puder!)

 

 

 

04
Mai14

Diálogos de outono 4

Jorge

- A vida é justa.

- Esta vida é injusta.

- A vida é justa para todos.

- Esta vida é injusta para muitos.

- A vida é justa para quem faz produzir.

- Esta vida é injusta para quem produz.

- Justo é que cada qual receba consoante as suas capacidades.

- Injusto é que cada qual não receba consoante as suas necessidades.

- A justiça da vida deriva da concorrência.

- A justiça desta vida não deriva da competência.

- A justiça alija todas as guerras.

- As guerras são injustas na sua maioria, para uma maioria.

- A Justiça é cega, surda e muda para todos.

- Esta justiça é cega, surda e muda para uns quantos que se põem a jeito.

- A justiça é coxa, mas chega sempre ao seu destino.

- Esta justiça tem 7 mangas e cada manga 7 manhas.

- A justiça tem toda a razão de ser.

- Uma justiça sem razão é a própria sem-razão.

04
Mai14

Diálogos de outono 3

Jorge

- O teu partido já não risca.

- Homessa, muita gente vota na gente.

- Assim é, contra factos, não há argumentos!

- Conseguimos eleger bastantes autarcas.

- É verdade, contra factos não há argumentos!

- Temos muitos vereadores a dar luta e o litro.

- Assim parece, contra factos não há argumentos!

- Estamos sempre ao lado das pessoas mais carenciadas.

- Ninguém nega, contra factos não há argumentos!

- Assim sendo, não te fugiu a boca para a verdade…

- Não indigitam um ministro, há muito.

- Assim é, contra factos não há argumentos!

- Não conseguem formar alianças para a governação.

- É verdade, contra factos não há argumentos!

- A rua já não manda (o poder não pode cair na rua).

- Assim parece, contra factos não há argumentos!

- O lobo mau avança cada vez mais impante.

- Ninguém nega, contra factos não há argumentos!

- É como te digo, o teu partido já não risca.

- Pronto, fazemos faísca, contra factos não há argumentos!

 

01
Mai14

DIU e DEO

Jorge

Semelhanças:

Ambos se relacionam com acume.

Ambos tentam evitar sarilhos de fraldas.

Ambos detêm garantia por período similar.

Ambos são fixados e têm acompanhamento de estranhos.

Ambos podem contribuir para maiores derramamentos de sangue.

Diferenças:

O primeiro dá descanso aos clímaces.

O segundo dá descanso aos rapaces.

O primeiro é muito eficaz na contenção de proles.

O segundo é muito eficaz na incontinência das maquias havidas em ricos róis.

O primeiro corrige excessos demográficos.

O segundo corrige excessos de economias demográficas.

O primeiro não defende de DST, doenças sexualmente transmissíveis.

O segundo não defende de PMS, privações materiais severas.

O primeiro pode ser rejeitado pelo útero.

O segundo pode ser rejeitado pelo povo.

(Deo gratias)

 

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