Terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Ontem morreu o senhor Serafim que era jardineiro por conta própria, há muito, aqui na freguesia. Soltou o último suspiro, tranquilo, nos alvores de novo dia. «Esqueceu-se de respirar, no fim de um sonho» - garante, comovido, o senhor Ifigénio, que conhecia o senhor Serafim de ginjeira, como poucos, pelo que o sabia são que nem pero. «Teve uma morta santa» - garantiu, sem resquício de inveja.

O sono (ou o sonho?) é inimigo da morte.

Foi a senhora Felismina quem deu pela coisa. Todas as terças-feiras, ia a casa do senhor Serafim, um misógino e misantropo de longa data, a lavar umas roupas, a passajá-las e a compor a casinha modesta. O senhor Serafim era da geração dos homens que não se ajeitavam a tais arranjos. A senhora Felismina testemunhou que o senhor Serafim nunca se deu a avanços, nem ditos soezes, nem a sugestões ronhosas. O dono da vida de todos já havia chamado o senhor Serafim, antes que a senhora Felismina fizesse uso da cópia da chave lá da casa, para descobri-lo já todo inteiriçado. «Era um homem sério, deus o tenha!» - garantiu, sem ponta de malícia, mas ligeiramente despeitada.

Na morte e na boda verás quem te honra.

O senhor Tarcísio pôs-se a chorar que nem Madalena aos pés da cruz, ao saber do infausto acontecimento. Ambos tinham combinado uma cartada, para aquele dia, na casa de Francisco Mirolho e o senhor Serafim costumava ser seu parceiro, pois lhe topava os sinais e as maroscas com as cartas. Par como aquele não havia nas imediações. O senhor Tarcísio afiançou ser o senhor Serafim uma santa alma, melhor que ele já não se fabricava. «Em breve nos encontraremos, aí em cima, parceiro e a sueca não terá fim!» - garantiu, sabedor que sairia altaneiro de todas as desforras de quem se atreveu batê-los cá em baixo.

Toda a vida não é senão a estrada da morte.

A senhora Marta, uma vizinha de longa data do falecido, não se cansa de repetir que ele tinha mãos maravilhosas e lidava como ninguém de jardins (aos orçamentos gulosos não se referiu, a ocasião não aconselhava). Que era generoso, amigo do seu amigo, que passava fatura com NIF, uma coisa extraordinária e que a muitos causa engulhos, urticária, psoríase ou candidíase, a ele não! «Que a terra lhe seja leve!» - garantiu, tomada de singultos estrénuos.

A vida é um sonho de que a morte nos desperta.

Já o senhor Francisco – acima citado – entende que acha que o senhor Serafim era uma boa alma, amigo do seu amigo, inconcusso e indefenso no cumprimento dos seus deveres de cidadão e de cristão. Que votava sempre e pagava os impostos todos a horas (a desoras só uma vez, porque o computador do primo de um primo dele se foi abaixo, por largos dias). «Não se leva nada desta vida!» - garantiu, antes de ocultar umas lágrimas que, teimosas, pediam licença para cair dos seus olhos.

A morte é a coroa de todos em terra.

A senhora Marta, cônjuge de um seu concorrente de negócios, disse num fio de voz e depois numa voz sumida que o de cujus era um adversário à altura do seu marido, incapaz de recorrer a jogas sujas para atrair a clientela alheia (não era a altura certa para lembrar que o marido e o senhor Serafim tinham chegado a vias de facto, à conta de mexericos inenarráveis). «Olhe, sabe que mais, somos todos pó e temos voltar a ele!» - garantiu, tomada de manifestações ptármicas.

O senhor Eufrázio recordou os versos soltos, as quadras alusivas que lhe escapavam libérrimas dos lábios, em momentos de comoção, canção, ou por bebedice, fosse por ocasião das festividades do orago local, fosse na ocasião da atribuição de uma comenda a um figurão local, ou fosse por dá-aquela-palha… Confirmou que o senhor Serafim era amigo dos púcaros (mas quem não gosta de uma boa pingoleta?!), bastante dado a confabulações na taberna do Jacinto. De uma das vezes, teve de o acompanhar ao centro de saúde, por conta de uma trevadinha súbita. Mas, que era capaz de dar a camisa! «Que descanse em paz entre os justos!» - garantiu, do fundo do coração.

A lei deve ser como a morte: não excetuar ninguém.

 

Assim falaram conhecidos e amigos a um fedelho que fazia de repórter de um pasquim local, cheio de publicidade e que sai na primeira quinta-feira de cada mês.

O corpo frio do senhor Serafim esteve em velório e baixou a campa rasa, após missa de corpo presente. As despesas dos serviços fúnebres correram a expensas de 2 primos, a custo aparentados, seus herdeiros afiançados e que foram céleres a viajar de longes terras, mal souberam do seu infausto passamento. 

 

A gente morre como vive.

O resto do país não se deu conta da sua partida do senhor Serafim.

Há mais ingratos que sapatos.

 A vida é…



publicado por Jorge às 18:56
Sábado, 23 de Agosto de 2014

Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara.

Oscar Wilde

 

Vida é praxe e a morte o seu ríctus final.

A vida é feita de pequenos nadas, de grandes coisas e outras assim-assim. E pode existir momentos dessa vida terrena gizados numa universidade, com muitos ritos à mistura, numa encenação vivencial que ora se estranha, ora se entranha.

 

A copa (da árvore) é o teto de quem não tem razão.

Aquele foi um dia da reunião de copa sigilosa de uma academia que está a bem no mercado. Da ordem de trabalhos, de matriz sigilosa, nada transpira, por disposições de regulamento apócrifo. Noite dentro, alvorada longínqua, de livre alvedrio, ou em cumprimento de algum edicto não revelado, pelo próprio pé, um a um, os partícipes desfilam.

 

Diz quem sabe que todas as ruas vão dar ao mar (junto ao Meco, no caso).

Senta-se aquele grupo de amigos e/ou conhecidos no areal, eles e elas juntinhos nas proximidades da zona de rebentação de ondas randómicas, ali tão perto. De costas voltadas ao destino - que marca a hora, que havemos de fazer? -, soube-se pouco depois…

 

Quem vai até ao mar, aprende a rezar.

Conheço quem jure e trejure que, em cada 7 ondas, uma é mais tramada. De Neptuno diz-se que tem dias: quando lhe dá na bolha, fere com mais ferros. Feito ladrão de estrada, o fingidiço atacou ali, à falsa fé, depois escafedeu-se. E tomou para si 6 vidas, na flor da idade.

 

A vida pode ser tudo - boa, má, chata dos pés -, mas todos nos agarramos a ela, feitos náufragos. Alguém sempre faz falta a alguém, por mais rotineiro, remisso ou desenxabido que seja o passar dos dias. É comummente aceite que, em tempo de guerra, morrer possa ser glorioso; em tempos de bonança, e fora das estradas, a perda de uma vida dói mais que a própria vida.

 

Nem sempre o mar está de lapas…

Ficou a dor, a dor que ensina a parir, que não a partir. Seis vidas ceifadas, em dia em que se meditou em sobre praxes efémeras, toleradas, vesânicas até. Aparentemente sem razão ou causa direta conhecida. Ouve-se dizer (com muita razão) que a indiferença é para os corações o que o inverno é para a terra.

 

A dor maior de todas é a dor de existir (?)…

Para aquele acidente não se consegue provas residuais ou cabais de crime de exposição. Tão pouco de abandono, nem homicídio doloso ou negligente, tão pouco houve coação. As cortinas de silêncio, os pactos de silêncio não dispersam neblinas, nem o nevoeiro que se adensa sobre as reticências, o mutismo apático de sobreviventes, só os adensam.

 

Há segredos que baixam à cova com os seus donos. 

Lidar a bem com a morte é dom de poucos. Alguns desses se juguem donos do seu próprio destino, quanto mais não seja, em certos momentos (convicção ancorada nas profecias de refinado dramatista).

Em certos momentos, quais? 

 

 Quanto maior for a tua capacidade de amar, tanto maior a tua dor.



publicado por Jorge às 09:57
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