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oitentaeoitosim

08
Abr15

Ouvi ou li (IX)

Jorge

1 – Uma equipe de futebol da terra defronta outra e leva que contar, uma tareia à moda antiga. A equipe derrotada era da casa e jogou na condição de visitante; a equipe ganhadora era da estranja e jogou em casa, como visitada. O resultado foi um rotundo 5-0, para pena de muito boa gente.
Num jornal (ou terá sido num site?) um bravio patrioteiro escreve que foi um jogo muito disputado, que os derrotados não viraram a cara à luta e deram que fazer aos vencedores. Só fala dizer que os golos marcados tinham caído de roldão pelo céu abaixo.
Outros agentes do ramo, enternecidos, fazem eco do comentário enternecedor.
Fosse 1-0 o resultado final então sim teria sido um jogo desequilibrado!...

2 – Um ministro discorre sobre a boa obra feita pelo seu governo, o desemprego a mirrar a olhos vistos, postos de trabalho em multiplicação, as exportações imparáveis, o crescimento a impor-se. Uma jornalista, de rabo calejado, traz à colação um relatório de peritos de uma instituição que assentou arraiais cá na terra, a cagar sentenças e depois se baldou lá para fora, aonde continua a mandar. Diz o relambório, preto no branco, que muitos empresários indígenas pouco percebem do governo das suas empresas (das suas moradias também, talvez aí resida a pecha). Felino e aquilino, o ministro reage e espanta. Olhe, não se vá sem resposta, a gente está a vender empresas aos estrangeiros exatamente por causa disso, eles são peritos na matéria, não vêm cá para ver passar os cortejos ou as bandas e sempre ensinam qualquer coisinha.
(De cara à banda ficam nacionalistas, associações de empresários disto e daquilo, mais um número considerável de fundações e observatórios.)
Nesse mesmo dia, muito dinheiro de empresários de cá passa lá para fora.
Bem caçado!
3 – O inquiridor sugere a um banqueiro um pedido de desculpa às vítimas dos seus descuidos. Vá lá não custa nada, a mim já me aconteceu esbarrar na rua com uma pessoa, a culpa foi minha e logo apresentei o meu pedido de desculpa. Chama-se a isto falar ao coração (sem se dar conta do empedernido que tem pela frente). Não se ficou sem resposta o devassante: ficam-lhe bem esses sentimentos, meu caro senhor, mas não para mim que já tenho cabelos brancos a dar com um pau, sempre cultivei as boas regras de ética e fiz muito bem a muita boa gente; apure lá esses ouvidos, eu não tive culpa, eu seguia o meu rumo, chega-se um transeunte no sentido contrário que, por acaso é o patrão do banco central, esbarriga comigo e eu esbandalho-me. Quem era merecedor de um pedido de desculpas?
Juiz que um dia delinquiu, raramente perdoa…
4 – O atual chefe supremo da igreja católica, apostólica e romana é um praticante genuíno. Tem um olhar que não engana ninguém, carregado de convicção e lhaneza. Transporta no peito a resiliência e a pertinácia dos simples que são os mais sábios. Acontece que os simples são também ingénuos, dá-lhes para mudar o mundo, mas há valores que não há volta a dar-lhes, diz-se. O senhor pediu aos mafiosos de uma cidade que se deixassem converter. Não sei se algum mafioso seguiu o conselho, só que se ouve dizer que eles são crentes, que se encomendam a santos, são homens de uma palavra só, o que até pode ser um disfarce malévolo do rei das profundas. Nem todos os que batem no peito estão dispostos a abdicar de pecados grossos, grosseiros ou grosseirões, armados em arrependidos, para melhor se safarem de complicações futuras.
Ora, converter-se significa mudar de vida.
Deixar os bancos ao deus-dará não seria mais pecaminoso?
5 – Partiu desta para melhor um dos ícones do cinema caseiro que durou mais de um século, o que é obra. Por ter deixado obra, o senhor recebeu elogios de todos os quadrantes, com exceção dos que não o conheciam de parte alguma. Foi enternecedor apurar tal unanimidade, apenas alcançável em dias soalheiros em que toda a gente diz que o tempo está bom, com exceção dos que acham que não só para contrariar.
Quem é conhecido sujeita-se a isto, o que me faz um certa impressão, porque compartilhei parte da vida com uma pessoa que comparecia sistematicamente aos funerais dos seus conterrâneos, fossem graduados, fossem trolhas, togados, ou purpurados, ia tudo raso.
Foi por ocasião de tão triste episódio que se chegou à frente o chefe da governança e opinou, mais ou menos assim, que tinha a certeza que todos sentiam um aperto muito grande pela partida daquele senhor para o além.
Falar, aperto libro, dá nisto.
O senhor centenário que partia terá tido tempo para franzir o sobrolho…
Ao chefe da governação fugiu a boca para a verdade por si criada. Faltou o ato de contrição, o que teria tornado mais agradável a viagem do venerável que seguia para a eternidade e por tal aliviaria as penas dos que ficam entregues às manápulas da governança.
No aperto, no perigo e na tristeza descobre-se o amigo (o da onça, também)…

 

08
Abr15

Contos de fados (VIII)

Jorge

- Aquele é dos tais!
- Não estou a entender…
- Aquele deixa para amanhã o que pode seguir a despacho hoje.
- Nunca irá longe…
- Por acaso ele é muito viajado.
- Uma viagem longa começa por um passo, ora bem.
- Aquele é dos tais!
- Não estou a acompanhar-te.
- Não é capaz de dizer as coisas cara-a-cara.
- Nunca irá longe…
- Por acaso ele é um mochileiro renomado.
- Longas viagens, maiores mentiras.
- Aquele é dos tais!
- Essa passou-me ao lado.
- Era bom para ir buscar a morte, orienta as decisões de embigada. 
- Assim não vai longe.
- Por acaso já calcorreou meio mundo.
- Em dia de viagem não se sente cansaço.
- Aquele é dos tais!
- Mais uma vez, não estamos na mesma na onda.
- Só faz as coisas, quando apertado.
- Tem vistas curtas.
- Por acaso já andou por Seca e Meca.
- Ninguém viaja por viajar, mas para ter viajado.
- Aquele é dos tais!
- Mau, Maria, mais uma vez não topo patavina.
- Ele cuida-se muito, a ver se muito vive.
- Quem anda neste mundo muito tem de se precaver.
- Ele não é muito viajado.
- Sábio é quem conclama a morte à última da hora e faz o céu esperar.

 

08
Abr15

Dizem que és o maior!

Jorge

Um dia descobri que o senhor Herberto Helder (assim, sem acento?) tinha nascido na Madeira, mais precisamente no Funchal, a terra do funcho, espécie herbácea quase desaparecida do mapa e dos usos e costumes daquela cidade. Foi lá também que nasci…
Depois fiquei a saber que o senhor Herberto tinha deixado a ilha pelos 16 anos. Curioso, eu também abandonei a ilha, já com mais um par de aninhos em cima da giba…
Ouvi-o declamar 5 poemas de viva voz e quedei-me surpreso, com mais de oitenta anos de vida, o senhor Herberto Helder ainda mantinha o sotaque da ilha, não há que enganar! Eu perdi o sotaque, sem querer…
Soube que o senhor Herberto Helder era uma espécie de bicho-do-mato, não gostava de cagar-na-saquinha, como se diz por aquelas bandas. Entrevistas, reportagens ou simples fotos não davam com o seu feitio, eram tempo perdido. Acho que também eu…
Dantes fora um globe-ttroter, conhecera o mundo e disso se serviu, não há como cirandar para se pôr a penetrar o real. Outra coincidência, também me fartei de ser zangarilho…
Chegou a recusar prémio ou prémios – que atrevimento -, era assim, estava-lhe na massa do sangue! Nunca experimentei uma recusa dessas, mas deve ser saboroso…
Descobri que, apesar da atitude reservada de anacoreta, os livros dele se vendiam como pastéis de Belém, em Belém mesmo, num dia cheio de turistas, que é o pão nosso de cada dia. Aprendi que fez por merecer a fama e a glória que lhe dispensaram. A tanto não chega quem gosta de espernear em cama de penas, como uma pessoa que eu cá sei…
De indagação em indagação, descubro que o senhor Herberto Helder estava feito com alguma musa, coisa pouco ao alcance da esmagadora maioria dos mortais. Uns dizem que é grande vate, outros que é o vate entre os vates, seja do Rectângulo e arredores, seja da Europa e até do globo terráqueo. Fiquei babado! Só podia, eu que faço parte daquela maioria…
Pois é todos o tinham por mestre na arte poética de há muitos anos a esta parte, arte essa que, quanto a mim se perde de amores pelo amor platónico, carnal, total e por aí não vou. Pus-me a ler o senhor Herberto Helder, estilo frete, ao início, com mais gula desde então.
Pedi desculpa ao senhor António Aleixo, por me ter afeiçoado a outrem; que não havia problema, que me entendia (lia-o pela calada, descobri). Também ele tinha ficado pelo beicinho…
É certo e sabido que ninguém se faz poeta na sua terra. Que, na terra do senhor Herberto Helder, ninguém se alembre em erigir-lhe um museu, ou uma estátua mesmo! Caso contrário, desconfio que o teríamos de volta - quem sabe? - a espadeirar os vendilhões do templo. Quem sabe se não ficaria à coca, a ver se não repetiam a gracinha…
Vendo bem, até que não era mal pensado!...
(Também gostei de saber que o senhor Herberto Helder não conduzia carrinho pelas estradas fora. Vejam bem, eu também!... Agora proponho-me ler mais um poema, talvez vá escolher aquele sobre a bilha de gás vendida num país onde já não se fia, o que não o torna fiável…)

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