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oitentaeoitosim

17
Abr15

Ouvi ou li (X)

Jorge

(Quem te viu e quem tevê!)

i - Disseram que o senhor secretário-geral foi recebido pelo número dois da senhora que manda na Alemanha e na União Europeia toda. Naquele cenário muita gente viu a consagração de uma desfeita. Aquilo não se faz, nem à prima à qual mais se lhe arrima.

Entretanto a senhora que dá cartas como, onde e como quer, veio garantir que, da próxima visita, mandará o seu número um a receber o senhor secretário-geral…

ii - O senhor comentador criticou a mudança de estratégia daquela equipa de futebol, na última jornada do campeonato. Foi tão infeliz a opção que levaram que contar, a jogatana descambou numa goleada à moda antiga, bem feito!

O senhor comentador a muita gente terá dado a entender que a mudança tática foi premeditada. Eles abriram as pernas propositadamente, só para desfavorecer o clube concorrente mais próximo.

As palavras valem o que valem, para mim passam a vir de carrinho os senhores dirigentes, jogadores e treinadores e tutti quanti dispostos a garantir que as suas equipas entram em campo para ganhar…

Há mesmo gente capaz de tudo!...

iii - O telejornal lá da casa tinha dado a notícia logo na abertura. Tinha havido uma explosão, de origem desconhecida, provavelmente uma botija de gás teria deflagrado e daí resultaram ferimentos graves em várias pessoas.

(Estas coisas só são reveladas, quando acontecem em casas de gente anónima.)

No hospital, um médico esclarece que todos os sinistrados, envolvidos no infausto acontecimento, se encontram em estado grave.

A repórter, que sabia bem ao que vinha, adianta o microfone e pergunta:

- Portanto, essas pessoas encontram-se em perigo de vida?

Réplica do médico:

- É isso que significa estar em «estado grave»…

(Mazinha!... Mauzinho!...)

 iv - Andam descontentes depositantes de um ex-banco que, por obra e graça do espírito santo, gerou 2 bancos, o bom e o mau; o primeiro chama-se novo e o segundo não se chama nada, pela simples razão que ainda não abriu portas. Ultimamente têm andado à grita pelas ruas, coisa que alguns deles nunca imaginaram que acontecesse, nem em sonhos, mas a rua já deu muitas vitórias a quem nela enfrenta os que sitiaram o poder (não somos por uma oclocracia, longe vá o mau-agoiro, ó Abreu dá cá o meu!)

A jornalista de serviço aquela manife pergunta por perguntar:

- Até onde pensam levar a luta?

A resposta tem o seu quê de banal: vamos esticar a corda toda.

Um dos manifestantes destoa:

- Cuidado que eu sou um ex-combatente, cuidado que posso fazer e acontecer; se não me agarram, sou capaz de armar quengada!

Desde então o homem tem sido solicitado por mercadores de armas, agarrados, antigos rebeldes da praça e afins. Não sabe para onde se voltar!

 

 

17
Abr15

Contos de fados (X)

Jorge

Zé Antôino fumava cigarros de tabaco com filtro, a um ritmo impressionante, chegava a despachar diariamente 2 maços, um pacote de 5 em 5 dias. Cigarrava por gosto, gostava de saborear o fumo nas profundas da alma. O corpo pedia, a cabeça pedia e ele cedia à tentação. Apreciava a vertigem do primeiro paivante do dia, dava-lhe a volta, prazer até, o rais-parta do fumo, não fora isso e talvez cedesse aos nervos, à má catadura, ao mau temperamento. Se podia excomungar o estresse assim, com aqueles movimentados compassados do braço, a levar à labiadura o cigarro em fase minguante, mas sem boquilhas, bem dispensava as passeatas, as pírulas, as compaixões…

Zé Antôino achava anelante a cena do cigarrito a consumir-se à frente dos olhos, também fumava por mor disso. Depois, gostava de atirar beatas ao chão, evitando os cinzeiros estrategicamente dispostos em todas as esquinas, aquilo dava fulgor à sua faceta anticlerical, o seu desafio à ordem estabelecida.

Zé Antôino não conseguia encaixar o anátema diatribe do sistema que repelia os fumadores ao estilo dos leprosos de épocas medievais, coitados parecem doidinhos, sempre prontos a engolir e a deitar fora baforadas... Ao invés, as empresas que se prestam a pôr cá fora os maços e os pacotes essas são toleradas. Dão largo contributo ao peditório dos impostos, é isso! Os carros também matam e besuntam o ar, mas nem por isso são proibidos, antes pelo contrário, os cidadãos automobilizados têm a cidade a seus pés, um país, 2 sistemas, ora abóboras!...

Zé Antôino teme pelo dia em que os fumadores sejam atirados às masmorras ou às catacumbas, oxalá fosse no dia do Juízo Final, assim poupava-se esforços. Para já aturam palavras-de-ordem macabras nos maços, é para bem deles… Enquanto não forem tratados como terroristas!... As doenças matam, os transportes matam, as armas matam, mas ninguém as erradica, estão voltados para ali os cruzados! E isto acontece nos países do 1º e 2º mundos, que nos outros mundos, o 3º e o 4º nomeadamente, o tabagismo não faz mal algum, não risca…

Zé Antôino fumava do que viesse à rede, deixou-se de esquisitices, há muito, tudo o que fosse cigarro capaz de ser queimado à frente dos olhos servia. Era assim a modos do género de quem, perguntado sobre a marca de vinho preferido, sempre respondia que gostava muito. Mas tinha catarro, pieira e roncava como deus manda.

Zé Antôino mantém-se fiel ao cigarrinho, nada de cigarros de palha, de charutos, de cigarrilhas, de cachimbos ou narguilés. Punha-se a deitar fumo pelos olhos, quando lhe falavam em cigarros de enrolar, ficava lívido, tinha nascido com uma fobia a mortalhas. Tivesse ele nascido mais para trás e talvez mascasse tabaco, como os cobóis insolentes, ou talvez optasse pelo rapé.

Zé Antôino sabe que tem os pulmões inquinados, a circulação destrambelhada, já foi avisado por médicos e médicas que se tem amor à vida que se deixe de cenas e figuras tristes, que ponha a cigarreira e os isqueiros de parte. Que sim, um dia…

Ultimamente não tem sido visto a deitar fumo pela boca, a não ser nos dias frios. Desempregado, com poucos copeques nos bolsos, deixou-se arrastar para debaixo de uma ponte.

Diz-se que morreu de privação.

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