Sábado, 15 de Agosto de 2015

Aquele casal mailo seu rebento são amigos de animais de companhia.

Para os três, todos os bichos irracionais são animais de estimação, mesmo os que acabam no pratel, uma chacina bárbara a que se deveria pôr termo. «Todos os animais precisam uns dos outros» - ouve-se regularmente a um ou outro. Desde que tinham memória presente, sobreviviam graças a um regime alimentar vegetariano bem ponderado.

Aquele casal mailo seu rebento adotaram um cão minorca, pouco peludo, mas esforçado. Come do bom e do fino e ladrava, quando se trata de assustar. A precato e armado em raçudo, quando não reconhece alguém, ou quando topa um bichano ou outro qualquer ser de nível trófico inferior, a rondar a porta de casa, faz os possíveis por alertar os legítimos donos e vizinhos (omnis canis in porta sua magnus est latrator).

O cãozinho acastanhado daquele casal e do seu rebento tem ordens explícitas para não arriar o calhau dentro de casa, tão pouco distribui o xixizinho pelos 4 cantos das assoalhadas. Cumpre rigoroso para aliviar a natureza: todos os dias, manhaninha e alpardinha não dispensa um passeio higiénico, sem trela, no jardim, numa travessa, numa praia, nas proximidades de uma árvore, arbusto ou erva, tanto lhe faz, a Natureza nunca o deixará de atrair.

O cãozito acastanhado do casal mailo seu rebento obedece caninamente (como é timbre dos da sua raça) e é muito brincalhão. As visitas, uma vez apresentadas pelos donos legítimos, cede aos mimos que lhe prodigalizam, faz uns números aprendidos com os três, para grande enlevo dos presentes.  

Ao canito acastanhado daquele casal e do seu rebento estão reservados outros desvelos: casota à maneira, comida de cão comprada em loja da especialidade, coleira anti pulgas, banho semanal, vacinas em dia, aconchego contra o frio e tinha direito a aquecer os pés ao casal, em tempo de frieiras.

Acontece que, todos os dias, exceto ao fim-de-semana, o casal e o seu rebento saem ao trabalho.E é um deus que nos acuda: o cão late, ganiza, rosna e uiva, um dó de alma! De sol-a-sol, a crise repete-se, todos os dias de semana e às vezes durante o fim-der-semana, guardado para contactos sociais pelos três legítimos senhores (sendo um deles uma senhora).

Um dia, um desconhecido ter-se-á amerceado do bicho de companhia, daquela vida de cão. Vai daí, atira-se à porta de entrada, com as ganas todas, pespega meia dúzia (o relatório oficial da ocorrência aponta para uma dúzia) de pontapé e desfere uns quantos golpes com instrumento adequado, encontrado ali à mão de semear. Resultado: aporta principal cede e, na queda, de raspão, atingiu o au-au de estimação de horas vagas.

Para azar dos pecados dele, o casal e o seu rebento, acabavam de dar à costa, sem aviso prévio, está claro, naquele preciso momento e foi um ver-se-te-avias de taponas, biqueiradas, socos, cabeçadas, cuspidelas, os três molharam a sopa no infeliz, o qual um pálida aspeto de Cristo na cruz. No exercício de represálias daquele trio (a força de um trio supera a de um duo, para já não falar dos singulares), a patroa não deixa os créditos por mãos alheias; curiosamente é dela o golpe de misericórdia: um movimento muito bem executado e bem dirigido às partes baixas deixa o arribadiço prostrado, até à entrada triunfal das autoridades policiais todas.

Last but not the least, o homenzinho metediço vê-se a braços com um par de processos na justiça, um deles por violação de propriedade alheia e outro por sevícias agravadas a animal de companhia. Ainda intenta abrir um processo por maus tratos, mas desiste assim que os circunstantes, para cima de uma dúzia, se riem na cara dele e fazem-lhe ver, a bem, que é um despropósito. Ele não resiste aos argumentos entendidos.

Fica então o intruso preso em casa, com polícia de atalaia à porta, pois já havia recusado o uso, à primeira, de uma pulseira eletrónica e, à segunda, de uma tornozeleira do mesmo jaez, por ser alergia comprovada. Eis que se levanta uma missão (quase) impossível para os agentes de autoridade que andam numa fona, é que o indivíduo anda por aí, sem teto fixo.

O au-au, à conta de trauma do episódio, perde o pio e, embora rosne de mansinho, passa a abocanhar e a morder tudo o que apanha pela frente, de tal sorte que o casal mailo seu rebento – continuam a fazer sempre igual, todos os dias - já se voltam contra ele. Inclusive sofreu a ameaça explícita de o porem a andar porta fora, a sua conversão em teatino, caso não supere esta fase de mau relacionamento. A manter-se a conjuntura atual, na melhor das hipóteses, tencionam os proprietários legítimos trocá-lo por um perdigueiro, que a caça tem futuro.



publicado por Jorge às 13:24
Sábado, 15 de Agosto de 2015

 

O padrinho ofereceu uma ilha ao afilhado.

Desde que o casamento se impôs aos costumes, um padrinho digno desse nome arca com uma fatia ou a totalidade das despesas da boda, ou da lua-de-mel, ou de uma carripana, ou de uma casa por exemplo. Até pode ser outra oferenda qualquer, mas frisante, tendo em conta o grupo social em que se integra.

Naturalmente que do caderno de encargos do padrinho consta a primacial função de zelar pelo cumprimento das disposições divinas relativas ao património, por parte de um dos nubentes. As oferendas são um costume pagão, tolerado, apesar de tudo, face às disposições reais ainda radicadas no quotidiano dos mortais comuns.

Nunca se tinha visto coisa assim, nas lusitanas plagas!

(Se esta prática entra em moda, das duas uma: ou vão escassear padrinhos ou ilhas.)

O padrinho até poderia ter optado por doar um aeroporto, um porto, um caminho-de-ferro, uma companhia de gás e outra de eletricidade, uma petrolífera, uma autoestrada, há de tudo ao desbarato no país onde está cravada a ilha oferecida de presente. Mas, não era a mesma coisa, ofertar e/ou receber uma ilha dá mais pica, causa mais frenesim social.

(Nesse país com ilhas à venda, vende-se ao desbarato património coletivo, a ver se os juros da dívida pública estabilizam, que é o melhor que se consegue de bom, com a austeridade contratada.)

O padrinho daquele casamento de inclinação decidiu ser generoso para com o afilhado, pagou do seu bolso, o afilhado contemporizou e os governantes do país onde está a ilha feita rica prenda não se opuseram, portanto tudo legal, nada a opor. Ainda sobram por ali património material e imaterial, florestas, oceanos, pedaços da atmosfera, aquaculturas, pedaços de firmamento e vidas, muitas vidas.

(Nada foge ao estigma de vir a ser apreçado. Estará previsto que a lei internacional possa acolher a realização de leilões, quando estiver em causa divergências, entre países, pela posse de ilhas, ilhéus e ilhotas.)

Estava a ser dada a notícia e fiquei de respiração suspensa, quase sem pinga de sangue. Querem ver que o homem comprou a ilha onde ele nasceu e deu ao afilhado?! Ainda fiquei com os cabelos em pé, mas não era caso para tanto. Mas nunca se sabe, os tempos vão loucos. Não era, a pérola do Atlântico, ela continua orgulhosamente pública, safa!

(Uma ilha é um local privilegiado para descobertas. Só quem nasceu numa ilha aprecia o que vale ter uma ilha só para si.)

Ao padrinho ficou-lhe o jeito para excentricidades, assim que ousaram dedicar-lhe um museu, estando vivo. Podia ter-lhe dado para pior. E se ele se lembrasse de ajuntar o mar que está à volta?! Talvez fique para a próxima...

(Há museus vivos, como o da fogaça. Estará ainda previsto pelas normas internacionais que os museus sejam dedicados aos vivos que não aos desaparecidos.)

O afilhado lá terá de dedicar-se ao governo da ilha. Desconhece-se o senhor será coroado rei, suserano, imperador, soba, presidente da república (de bananeiras não será). Logo se saberá pelas parangonas. Provavelmente não será adjudicada bandeira própria, hino próprio, forças armadas próprias, dívida pública própria, basta o que basta. Quanto a população bastará a coorte de familiares e amigos. Tarefa ciclópica para tempos vindouros de reforma, que no presente não tem mãos a medir

(Tinha a sua piada que se instilasse a ideia de Estados privativos. Por enquanto, as regulamentações internacionais não se mostram recetivas a acolher tal princípio.)

Que tenha presente, nenhum criador de contos de fadas alguma vez imaginou maravilha similar. Que tenha presente, um cantor atreveu-se a perorar à deusa dos seus sonhos que fizesse dele uma ilha, para ser poupado às vistas das rivais. Até nisto os tempos estão a mudar, agora oferece-se uma ilha – daquelas que continuam a ter água por todos os lados – às vistas de todos.

(Consta que o padrinho em breve fará rifar um arquipélago entre os seus apaniguados nacionais.)

PS: Oxalá que não tenha saído ao afilhado a ilha de Cós ou outra nas proximidades, que por ali andam muitas pessoas desassossegadas. Nenhum ser vivo é uma ilha...

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publicado por Jorge às 10:24
Quarta-feira, 05 de Agosto de 2015

A notícia um reporta a recuperação de um banco vindo da penúria, mas que foi capaz de impor por fim uma estratégia de sucesso (impensável, há meses atrás). Os resultados estão à vista: mais de quatro centenas de milhões a locupletar os cofres da instituição. Mais corretas estratégias de mercado terão dado fruto, mas pelo-sim-pelo-não o banco lá abateu umas sucursais e pessoal ao rol. Há quem tenha jeito para cortar nas gorduras.

Outro bom sinal para a navegação (felizmente que outros têm sido apregoados, já não era sem tempo)! As contas da nação têm andado aos baldões, os macaréus puseram-se bravios, o barco quase naufragou, mas aguentou-se no balanço, aliás uma situação recorrente cá por casa. Com lucros pingues, isto vai! Venham mais cinco, mais dez, mais centenas de empresas que deem a volta ao texto e a recuperação será coisa de dias (senhores do olimpo, vocês deixam, não deixam?).

O banco fez um balúrdio, indicador que a felicidade- ela que convive paredes-meias com a fortuna - não se cansou deste rincão.

Com humildade, deve aceitar-se o bem conforme vem.

(Era patente o contentamento pelo conseguimento na fácies dos administradores da instituição – os trabalhadores terão também farrado a preceito - e no tom de admiração na voz-off da senhora jornalista.)

A notícia dois fala de um antigo banqueiro que anda a percorrer um calvário (impensável, há anos atrás!): terá metido água, terá feito más apostas e mais trinta-por-uma-linha. Chamado à pedra e aplicada uma resolução, enfrenta de peito feito uma travessia do deserto, provavelmente até ao gólgota (quem sabe?).

Um mau sinal para a navegação! O senhor foi um renomado benfeitor da nação e por aí deveria ter-se quedado. O banqueiro caído em desgraça, ainda não perdeu a face, mas para lá caminha; os indicadores conhecidos caraterizam mais um lázaro pestilento que um benfeitor renomado, uma queda espantosa. Ele tenta, quand même, resistir a multas, a processos e a inquirições, mas está difícil manter-se à tona da água.

O banqueiro terá derrubado o seu próprio império, facto que levou muito mal-estar a muitos lares. Ele perdeu um balúrdio, mas mantém que o apanharam à má fila, ao virar da esquina e não com as mãos na massa. Percebe-se, até lhe ficava mal que tal não dissesse: em terra em que a culpa morre solteira, zele-se os pergaminhos!

A quota de felicidade- vive paredes-meias com a prosápia social – a que tem direito estará um pouco desvalorizada, é certo, mas dela não prescinde o antigo banqueiro, tomem nota os conjurados e todos os mercados!

 (Percebe-se altivez e contenção na fácies do senhor que já deu de mamar e mudou os cueiros a muita gente importante da praça e ainda alguma mortificação na voz-off do jornalista.)

A notícia três refere de despejos, muitos despejos de pessoas com lágrimas que rumaram a casa de amigos, de familiares ou mesmo à rua, por não lhe sobrar guito com que se paga as rendas ou as mensalidades (impensável há muitos anos atrás!) e compra as melancias. Gente que tem vindo denodadamente a contribuir para que outros amassem grandes plutos. Curiosamente, para os deserdados a execução das sentenças não demora mais que um fósforo.

Que seja possível ter saúde, amor e algum dinheiro q.b. para levar uma vida que não envergonhe, parece ser o seu ideal de vida (pode ser?) para muitos que sofreram a dita ignomínia.  Gerir bancos ou fortunas, levar uma vida de lorde, nunca esteve nos planos dos atingidos pela crueldade, uma marca cada vez mais gritante da conjuntura atual e da estrutura reinventada, garantidamente. Não são competitivos. Ora assim se põem a jeito que o mal lhe entre porta adentro (ou fora?)

Este é um mau exemplo: não ser capaz de juntar bom dinheiro, embora não seja pecado, atrapalha a vida individual e coletiva. Se o empreendedorismo fosse a meta de todos, outro galo cantaria na pátria... 

Este é simultaneamente um caso exemplar: perceba-se que uma sociedade só funciona bem, quando há poucos a ter muito e muitos pouco!

(Os compêndios não são taxativos quanto a isto, são ilustrativos. A competição é inimiga das maiorias, que se lhe há de fazer...)

Bancos com lucros pingues poderão ter beneficiar destes despejos; antigos banqueiros caídos em desgraça também poderão ter colhido benefício de despejos de pessoas que não estão em primeiro plano. As pessoas abandonadas à misericórdia ficam embasbacadas com os números das fortunas, mas é bom para a pátria...

Em tempo de raiva, fajeca e penitência (outra troica), a misericórdia lidera, a justiça espera.

Muita cabecinha pensadora acha que a felicidade também é possível, se dela se prescinde, com alguma habilidade à mistura, ora bem!

(Percebe-se alguma mortificação na voz-off da senhora jornalista e do senhor jornalista que fizeram a locução em tandem. Os visados não dão a cara, ou as imagens são turvadas, porque chocam, não se sabem bem a quem.)

PS: As 3 notícias jorraram, por esta ordem, de um rosto enquadrado por todos os tiques da objetividade que já teve outra apresentação.

 



publicado por Jorge às 22:30
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