Domingo, 15 de Novembro de 2015

   Ela crescera com tudo no seu lugar, perfeitinha, graças a deus e convertera-se em mulher deslumbrante, um autêntico chamariz, um regalo para a vista, em resumo.

  (Consta por aí que, por mais de uma vez, tinha bloqueado o trânsito, para grande irritabilidade de cidadãos impolutos, apressados e inimputáveis que assistiam incrédulos a tal cena.)

   Era também prendada de outra forma, tinha bom feitio, o que – pela junção do útil ao agradável - fazia dela uma sedutora nata, que a poucos passava desapercebida. Trazia essa sina consigo, as atenções incidiam invariavelmente nela e convivia bem com essa situação, pelo conforto que a consolava.

  Tratava bem da sua aparência externa, maquilhava-se sem espavento, frequentava ginásios e institutos de beleza, a tratar do físico e até já tinha pensado em recorrer a uma plástica, não se importava expurgar 2 ou 3 pormenores do rico corpinho que não lhe ficavam a matar. Vestia do bom e do melhor, com classe, de acordo com os últimos padrões da moda, mas também com ousadia – usava saias curtas ou até shorts, na maior parte do tempo – o que arrancava requebros aos admiradores.

    Qualquer que fosse o ângulo de observação, fazia por contentar todos os olhares atrevidos que lhe iam no encalce. Já vira gabirus plantados à sua frente, quase a babar-se. E ela a fazer variar o ângulo, a desfazer a troca de pernas, o arfar do peito, o menear das ancas, dava-lhe gozo, que querem?!

   Teve que suportar incompreensões, que era acintosamente atiradiça, que procurava bom partido a todo o custo desse por onde desse, que até seria capaz de desfazer lares já instituídos... Bem lá no fundo gostava de arrasar, mas não o fazia por mal, antes achava que, se o belo nela se espelhava, tinha de o espalhar, tão simples quanto isto!

   Se o ego dela exigia adulação, ela dava-lho, mas sem cedências. Consta que lhe trazia algum incómodo que os mirones pecassem por pensamentos ou por palavras (quem se julga ela, a rainha do Sabá?), mas não dava chance aos pecados por atos.

   Casou cedo e com alguém que vivia sem sobressaltos financeiros, indivíduo muito ocupado que, no meio de fartos afazeres, lhe dedicava atenção máxima, pedindo em troca dedicação exclusiva ao lar e à família que foi crescendo.

(As famílias, na sua qualidade de empresas, funcionam melhor assim.)

  Não cedeu totalmente, quanto à exclusividade, não tinha temperamento para ficar o dia todo agarrada a tachos, panelas e barrelas, era ponto de honra. Arranjou quem lhe fizesse a lida da casa bem e pagava bem o favor e pôs toda a sua sabedoria em derrubar a oposição do companheiro.

  Tinha curso, charme, simpatia e empatia em doses q.b., tudo bons argumentos para ensinar; logo tratou de concorrer a um posto numa escola não muito distante da sua moradia e foi bem-sucedida.

   Na escola, a saga continuou: dava nas vistas, fosse pelos dois palminhos de cara, fosse pela apresentação, fosse pela devoção. Não desistiu da sua forma de ser e estar, fazia disso ponto de honra. Portanto não desistiu da forma de trajar, por exemplo.

   Os alunos gostavam das suas aulas, nenhum deles se atrevia a faltar, é que ela ensinava bem, os alunos conseguiam na sua disciplina boas notas nos testes, no final do ano, ou nos exames. Mais, uns lavavam a vistas, outras aprendiam a aperaltar-se.

   Um belo dia um grupo de encarregados de educação decide avançar com um abaixo-assinado, porque no entendimento dele aquela setora não dignifica a profissão (ou pouco fazia para a dignificar, na senda da tutela)

   A comunidade educativa aderiu em massa. O documento sugeria à setora o caminho da rua, sem retorno. Se emendasse a mão, optando por vestes mais condizentes com a função desempenhada (o regime das fatiotas permitidas em escolas oficiais estava em processo de consulta junto dos parceiros sociais, antes da homologação superior, há muitos anos) ainda podia salvar o posto de trabalho.

   A gestão da escola, a mando da tutela optou por branda medida: para evitar procedimentos disciplinares gravosos, deveria a setora usar bata axadrezada de chita, abotoada até aos tornozelos, no resto do ano escolar, depois logo se via.

   Ficou irreconhecível a setora, uma flor desbotada; as aulas viraram seca, as notas dos alunos deram valente trambolhão, mas ela aguentou firme.

   Pôde, enfim, a vida da escola voltar à normalidade formal e frugal, à paz podre que é peculiar a todas.

   (A normalidade é tão-somente uma questão estatística.)

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publicado por Jorge às 21:26
Domingo, 15 de Novembro de 2015

- O consumo excessivo de enchidos e enlatados de carne provoca cancros.

- Má-novidade essa, enchidos e enlatados estão ao alcance das bolsas mais debotadas!

- Fiambres, toucinhos e afins provocam cancros.

- Má-novidade essa, fiambres, toucinhos e afins estão ao alcance das bolsas mais debotadas!

- O processamento de tais alimentos leva à incorporação de compostos químicos suspeitos.

- Assim não vale!

- O seu processamento leva à incorporação de perturbadores endócrinos, suspeita-se também.

- Assim não vale!

- Esses produtos são autênticas bombas-relógios.

- Quem diria!

- Estes alimentos serão uma ameaça para a saúde da malta, como o tabaco e os vapores dos escapes dos carros a diesel.

- Quem diria!

 - O consumo excessivo de carnes vermelhas pode provocar cancros.

- Tem bom remédio, come-se menos!

- As carnes processadas e as encarnadas têm de ser cozinhadas com moderação.

- Tem bom remédio, poupa-se no gás!

- As carnes vermelhas são um perigo para a saúde da malta, como os gases dos escapes dos carros a gasolina.

- Essa é boa, bem visto!

- Até que não são más notícias, em tempos calamitosos, em que muitos pagam os patos de poucos.

-Essa é boa, bem visto!

- Os produtores de carnes processadas e encarnadas estarão feitos ao bife.

- Sempre é melhor que andarem a engolir sapos vivos!

- Eles poderiam estabelecer-se no ramo das carnes brancas.

- Sempre é melhor que nada!

- O movimento vegan e os vegetarianos marcam pontos.

- Assim parece!

- O movimento vegan e os vegetarianos estão com melhores credenciais no mercado.

- Assim parece!

- Os produtores de carnes processadas e vermelhas precisam de lobistas mais eficazes.

- Precisam de mais reforços no próximo defeso!

 (Este tête-à-tête soube a pouco, tendo ocorrido na fila da carne encarnada de um hipermercado, surpreendentemente curta, aquando das compras do mês. Os 2 interlocutores sabiam que, em breve, se esgotaria o latim todo nos média sobre aqueles assuntos. Aquilo não passava de uma nuvem passageira que depressa se esvai. Garantidamente que no mês seguinte, estariam a dar à língua por mais tempo ainda, se o acaso os voltasse a juntar naquela fila. A não ser que os mercados apostassem decididamente mais nas carnes brancas e não processadas, o que não é previsível... Em tempo de facas longas e vacas magras, qualquer apelo à moderação tem acolhimento junto do povinho. Tinham sido muitos anos a virar frangos, para ambos...)

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Estes 4  grupos de alimentos integram produtos  que me engordam, ou  que fazem mal à saúde,  ou que me podem matar e outros que terei de comer, seja como for



publicado por Jorge às 21:20
Sábado, 14 de Novembro de 2015

Muito boa gente foi a uma assembleia de voto apor em outubro de 2015 uma cruzinha num quadradinho da sua preferência num boletim de voto com compenetração como convém espero ter votado no partido que vai ser declarado vencedor ele é o melhor para gerir o país coisa e tal porém sabe-se que cerca de 43% do pessoal também tudo boa gente se quedou por casa voluntaria ou involuntariamente a acompanhar a contagem dos votos a roer as unhas e a torcer pelo partido ou coligação do coração fontes seguras indicam que só uma minoria terá feito mais de uma cruzinha num só boletim e um número ainda inferior de votantes presenciais terão escrevinhado palavras acintosas ou mesmo palavrões mas isso não conta já se sabe que nestas situações há para todos os gostos como na farmácia.

A maioria da gente de paz deu mais votos a uma coligação de dois partidos que nos quatro pretéritos anos se tinha esmerado a vigilar pelo cumprimento dos votos de pobreza impostos à maioria do pessoal em nome dos altos interesses das bolsas e dos bancos de cuja satisfação sabe-se depende a felicidade dos povos isto é teoria nova mas vale o que vale ora o povo da santa terrinha que é gente de palavra pôs cara alegre pagou calou e pouco bufou durante 4 anos e pelos vistos até não se importava de continuar a pagar estes pelo menos a gente já conhece de ginjeira podem vir piores para melhor está bem para pior já basta assim.

Parecia fora do seu alcance mas a verdade é que a união vencedora «limpou» doze círculos eleitorais em vinte o que é obra e com um pé às costas um prodígio tanto mais de realçar quanto mais que no princípio do mando anterior ninguém lhe dava mais que um mas ficou quatro anos a reformar não-se-sabe-bem-o-quê-nem-para-quê mas com perseverança e tenacidade que supera a destreza as senhoras e os senhores da coligação não deram abébias à malta e foram pagos alguns calotes poucos a tendência é que se estiquem até ao fim dos tempos é a sina cá da santa terrinha e o que tem de ser tem muita força.

O Atanásio que é um inimigo figadal da coligação vencedora não foi de modas que os dirigentes dela andaram a fazer de mortos durante a campanha eleitoral que recolheu votos de cachaçudos e talassas tudo malta que não dispensa revistas cor-de-rosa telenovelas programas de tevê de-prémios-beijinhos-e-cantores-pimba e crendices para já não falar dos analfabetos seguidistas que a veneram sem saberem porquê ora o pessoal já se habituou a dar um desconto ao Atanásio sempre que o clube dele perde infalivelmente é por causa das artimanhas dos árbitros da chuva do treinado das manigâncias dos adversários e vira que trambolha.

Os dirigentes dos 2 partidos da coligação vencedora puseram cara de Páscoa depois do balanço dos votos escrutinados no dia das eleições para logo no dia seguinte ficarem de boca aberta e amarga como se tivessem ressonado a noite toda ou parte dela tinham desconseguido menos de 50% dos votos e assim sendo não iam a lado nenhum sozinhos teriam de pedir batatinhas à concorrência para continuarem atravancados nas alcândoras do poder.

Outra multidão mais pequenina de gente de paz votou no partido que ficou no primeiro lugar dos últimos ajudando-o a «limpar» oito círculos eleitorais o segundo classificado das eleições fez profissão de fé na Europa a 28 no tratado orçamental e no euro mas acha que o povo da santa terrinha não aguenta mais o garrote do jejum e abstinência que o crescimento económico terá de casar com maior consumo interno já chega de bolsos vazios de barrigas vazias de pessoal sem dar aos dentes que ainda restam é preciso dar mais umas coroas aos produtores de riquezas e não proteger em exclusivo os obreiros da riqueza que querem tão só exportar e esportular em seu favor os recursos da santa terrinha.

O Aristides que é um inimigo figadal do partido do segundo lugar não se coibiu de dizer que os gajos tiveram sorte em não ter levado maior coça estavam mesmo a pedi-las vejam lá que o chefe deles abateu a sangue frio o seu antecessor fez uma campanha de promoção da treta sem pés na cabeça ele sabe que não há safa à austeridade mas tem a lata em desfazer na obra de quem tem feito tanto bem ao país só os mangas-de-alpacas e retirados da vida ativa se deixaram ir no embalo mas essa malta vai ter de amochar os mercados e as bolsas não dormem ora o pessoal que conhece o Aristides sabe que ele culpa o dito partido pela baixa pensão que recebe e pelo fecho do centro de saúde da área que não faz tenção de perdoar nem nesta vida nem na outra aquelas safadezas.

Puseram cara cerrada e cilício os principais líderes do partido-que-ficou-em-segundo-lugar pouco tinham para festejar valha-nos isso ao menos a coligação da frente não conseguiu maioria absoluta cambada de aselhas assim há uma hipótese de sermos governo vamos lá a se alguém quer casar com a carochinha pelo-sim-pelo-não a maioria dos notáveis do partido cobriu-se de cinza puseram luto e alguns poucos valha a verdade quiseram correr com o chefe deles.

Menos gente de paz votou no partido do terceiro lugar e que foi a grande surpresa da noite poucos se atreveram a pressagiar um desenlace eleitoral tão risonho a sua líder ficou com a fama e o proveito de vitórias sucessivas em debates pré-eleitorais e calou fundo nos proletas a sua promessa de reposição de rendimentos a todos os lesados pela governação anterior uns desalmados e desapiedados que só visto basta olhar à volta espalharam a fome e a miséria sem rebuço sem arrependimento portanto não se safam só quem se arrepende se consegue salvar.

A Ernestina que é uma inimiga figadal dos partidários do movimento cívico que ocupou o último lugar do pódio diz alto e bom som que lhes saiu a sorte grande sem saberem ler nem escrever e que numa vida só sai uma vez o euromilhões a uma pessoa e quem disser o contrário mente portanto esta malta teve muitos votos  uma vez sem exemplo são uns fala-baratos que se julgam capazes de trapacear tudo e todos com três cantigas de intervenção de fervor internacionalista deixem-nos poisar que os fazendários e os bancos lhes fazem a folha tomara eles saberem governar a casa deles quanto mais um país vejam lá o que aconteceu aos amigalhaços helénicos deles ora quem conhece bem a Ernestina sabe que ela  é de birras e embirra contra um destino que nunca lhe deu nada seja nas rifas na raspadinha na lotaria no jogo do bicho no placard nas slot machines ou no euromilhões e tem raiva a quem saiu.

O partido-que-ficou-em-terceiro-lugar festejou com reserva afinal não tinham ganho o poleiro mas sobravam razões de júbilo e já se apostava em novas façanhas e novas conquistas a breve trecho assim aprouvesse aos fados e mesmo a deus.

A coligação que ficou em quarto lugar também foi uma surpresa da noite nenhuma sondagem se atreveu a colocá-lo tão baixo na tabela prometera estrancinhar a austeridade ilegalizá-la ou mesmo deportá-la para parte incerta prometeu reverter as privatizações dos mauzões que tinham governado a seu bel talante a santa terrinha nos últimos 4 anos portanto as nacionalizações voltariam à ordem do dia bem como os amanhãs que cantam porém a contagem dos votos deixou os seus dirigentes de cara à banda.

A Leona que é uma inimiga figadal do partido que caiu no quarto lugar disse a quem a quis ouvir que essa malta tem sempre o mesmo discurso estão perdidos no tempo  fora de prazo ninguém lhes liga caramba mudar é próprio da espécie humana só meia dúzia de totós e velhos cromos é que votam neles está na cara que querem inverter o que de bom fez o nosso primeiro cambada de invejosos são pobres e querem que todos os sejam felizmente que a maioria sabe que só o pilim traz a felicidade ora quem conhece a Leona sabe que ela não gosta de perder nem a feijões na bolsa e não poucos a acham capaz de fazer batota à bisca lambida quando se decide ir a jogo nas associações institucionais da caridadezinha legalizada.

Os chefes do partido-que-ficou-em-quarto-lugar disseram o costume que tiveram mais votos maior percentagem e mais deputados mas que não estavam contentes com o lugar ocupado na tabela classificativa que ficariam de atalaia porque novas e renovadas batalhas os esperavam e que no fim o povo derrotaria a cupidez e ficaram a rezar para que todos os empresários aprendessem a ser bonzinhos.

Depois das eleições os chefes da coligação vencedora propuseram que o maioral da santa terrinha mandasse outros 4 anos para eles bastari um par para dançar mas os comandantes das formações que ficaram em segundo terceiro e quarto lugares vieram a terreiro a parar o baile ao que parece na versão mais moderna os bailaricos se dão a 3 ou mesmo a 4 entretanto a bailação está suspensa até que o mandador ou o dj dê ordem de soltura stupete gentes as voltas que a vida dá na santa terrinha.

85042_600.jpgVote, não se esqueça!

 



publicado por Jorge às 10:25
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