Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2016

    O Luís não é pessoa de muitas falas. Às vezes até abusa de monossílabos. Todavia, antontem falou pelos cotovelos:

. Os governantes antecessores puseram a maioria do povo a-pão-e-água;

. Os governantes antecessores mandaram para a emigração muito boa gente que não quis ficar a-pão-e-água;

. Os governantes antecessores tomaram um montão de medidas que caíram que nem ginjas em tais desideratos alheios, ao que consta;

. Os governantes antecessores recorreram a um montão de medidas, sem rebuço ou desconforto aparente e chamaram-lhe de sacrifícios feitos de bom grado pelo povão.

   O Luís ia a calar-se, mas não resistiu, como quem tira a barriga de misérias:

- Os governantes antecessores prometeram uma coisa e fizeram o seu contrário, durante 4 anos, numa manobra dialética pouco condizente com os seus pergaminhos. Em nova campanha eleitoral, comprometem-se com mais do mesmo do que tinham feito, durante os mesmos 4 anos. Receosos que dessem o dito pelo não dito mais uma vez - assim lhes tirando o pão da boca - os seus adversários armaram uma esparrela aos governantes antecessores e eles caíram que nem patos. Jogada bem-feita!

(O Luís promete só voltar a sentenciar assim, quando «isto levar uma volta». Amigos e conhecidos já o imaginam paramentado de cartuxo.)

(O estado a que isto teria chegado!)

Enfaixado.jpg

Estás com muito bom aspecto!   

 

    O Henrique também não gasta muito as palavras. Não obstante, ontem passou-se das marcas:

. O principal magistrado da nação recebeu, nos seus aposentos, um montão de gente avisada a ver se engatava uma decisão sobre a continuidade, a todo o transe, dos governantes antecessores;

. O principal magistrado da nação recebeu, nos seus aposentos, um montão de gente avisada a ver se descobria a solução ideal para manter afastados da governação os propostos sucessores dos governantes antecessores;

. O principal magistrado da nação sabia que faltava a maioria absoluta de votos aos governantes antecessores, mas achava que eles mereciam continuar a mandar e a desmandar, na sequência do triunfo na refrega eleitoral do vendemiário passado;

. O principal magistrado da nação sabia que a maioria absoluta estava nas mãos dos opositores, o que permitia aqueles uma governação sossegada, caso ser entendesse, na sequência da refrega eleitoral do vendemiário passado.

  O Henrique ia de regresso ao mutismo habitual, mas ainda foi a tempo de exclamar:

- O céu esteve lúgubre e plúmbeo por aqueles dias, dificultando a descida de uma qualquer dádiva caída do céu aos trambolhões. O principal magistrado da nação, ciente de que não há amor como o primeiro, nomeou um novo governo leal aos governantes antecessores. O novo governo caiu num ai e já se fala que a sua performance constará das páginas do «Guiness», na categoria de mandado mais breve e mais reinadio. Os adversários dos governantes antecessores não largaram a porta do primeiro magistrado da nação, sem que fossem entronizados. Jogada de mestre!

(O Henrique deixou claro que só volta a falar, quando «isto não for sempre para os mesmos». Amigos e conhecidos temem que possa estar criado um cenário de mutismo seletivo.)

(Ao que isto poderá chegar!)

à borla.gif

«O senhor apresenta-se como  «livre pensador (à borla)». Bem bom, assim escusamos de pagar-lhe.»

 

   O Carlos é parco de palavras. Mas, ontem passou-se e pôs-se a falar pelos cotovelos:

. O mais alto dignitário do principal rito do país, durante quase não disse água vai, durante os 4 anos de mandato dos governantes antecessores;

. O mais alto dignitário do principal rito do país ficou em pulgas assim que os adversários dos governantes anteriores afiavam a moca, na pretensão de dispensar o governo breve dos governantes antecessores;

. O mais alto dignitário do principal rito do país ficou com pele de galinha só em pensar no desmancho dos projetos visíveis e invisíveis tidos por favoráveis e aplicados ao país pelos governantes antecessores;

. O mais alto dignitário do principal rito do país ficou pelos cabelos assim que confrontado com a triste sina da substituição do governo breve dos, mal digerida pelo principal magistrado da nação.

O Carlos ia de regresso à mudez anacorética, quando se lembra de arrematar:

- O mais alto dignitário do principal rito esteve feliz com o andar da carroça que leva o andor da procissão, nos últimos 4 anos do mando dos governantes antecessores. Pensou ele: os novos inquilinos do poder executivo temporal podem querer taxar o património que nos foi legado por deus, ou fugir à devolução imobiliária em curso. Portanto, numa jogada de antecipação de quem sabe a missa toda, o purpurado veio lembrar oportunamente que já não há nem missas, nem outras liturgias grátis. Jogada de génio!

(O Carlos diz que só volta a pronunciar-se, quando «esta gente for posta no seu lugar». Amigos e conhecidos temem que ele possa enfrentar um cenário de afonia.)

 (Ao estado a que isto terá chegado!)

Esmola pra rico.jpg«Dar dinheiro para os pobres? - Desde quando os pobres rse puseram a recolher dinheiro para mim?»

 

    O Silvino, esse sim fala pelos cotovelos. Informado de tudo:

- A desestima dos bons dá ousadia aos maus!

  Tirada de génio!

   (O Silvino agora farta-se de pregar aos peixes.)

 (Ao que isto chegou!)

Feito ao bife!.jpg

AJUDE A MATAR A FOME

- Deveríamos contribuir com algum presunto e ovos.

- Falas assim, que para ti é uma contribuição. Para mim seria um sacrifício total.



publicado por Jorge às 08:43
Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2016

Um senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante decide concorrer à posição de mais alto magistrado da nação.

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante abdica de praxes tidas por boas na promoção da sua candidatura.

Portanto, dispensa máquinas partidárias.

Dispensa igualmente máquinas eleitorais.

Cartazes pespegados em todo o lado? - Para que os quero?!

Campanhas à grande e à francesa? – Para quê?!

Afinal o senhor decidira, após demorado retiro, que seria um candidato suprapartidário, senão mesmo apartidário.

(Poucos se haviam atrevido a tal, até então!)

A poupança calha bem e cala fundo, em tempos de dificuldades.

O senhor tinha sido um avaliador diligente e contumaz de cenários sociais na pequena pantalha. Coisa altamente valorizada por quem vota e pouco voto tem em matérias do ramerrão do quotidiano.

O candidato redundante vai de conquistar a rua, nas calmas, de peito feito às balas, sem rebuços.

(Com as doses certas de simplicidade, bondade e verdade se molda a grandeza.)

É ele o candidato favorito de sondagens e de vontades expressas que prodigaliza conselhos, abre-se a muitos sorrisos, descarrega beijinhos repenicados, carrega em dichotes bem-humorados e perde-se em comentários atilados.

(As decisões são escoradas – quantas vezes! - na memória dos bons momentos, duradouros ou fugazes.)

Aos outros concorrentes o povo nunca os vira mais gordos ou por aí.

Os outros concorrentes recorrem às boas táticas de manuais da arte de convencer a esmo, lavram promessas, criam controvérsias em debates, andam por arruadas a mostrar mão firme e beijo solto, comentam as últimas em comícios, tentam falar grosso nos repastos e fazem fosquinhas e trejeitos nos areópagos.

(Vejam a lufa-lufa a que se dão estes coitados e eu na maior, faço isto com um pé às costas, em souplesse!)

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante cultiva um low profile que cativa.

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante parece ter requisitado o carisma todo para si.

Os outros concorrentes dão o seu melhor, mas não se muniram também de doses qb de bonomia e paternalismo.

(Na idiossincrasia de uma comunidade de bons costumes inscreve-se provavelmente a tendência para a reclinação perante anéis, pastéis, jograis e filhos d’algo.)

Apelidaram o senhor de padrinho de batizo, padrinho da confirmação, de morgado, de comendador e coisas no género.

E ele nas tintas, questões de lana caprina não o tiram do sério.

Por cada dia que passa, o candidato por excelência perde os outros de vista: ele olha sobre o ombro e não distingue ninguém nas proximidades.

(Isto vai ser favas contadas!)

Às vezes cede ao cansaço, perante tanta pasmaceira, apetece fazer como a lebre a correr contra a tartaruga. Mas, logo o levam ao colo.

No dia azado, o senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante faz um percurso limpo até à meta.

Os outros contendores, de língua de fora e cara à banda, ficam a milhas dele.

Quem procura sempre alcança. Sempre procurou uma vitória sem espinhos ou espinhas e teve-a!

Assim cumpre o candidato principal um dos seus sonhos de menino; tardou, mas já cá canta!

Uma comemoração mais desbordante, mais triunfal não teria ficado mal, mas não se pode ter tudo, certo?

(É que não lhe cabia um feijão fradinho no cu, verdade seja dita!)

Na hora da consagração, o senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante não manda que repiquem os sinos, claro.

Era imperativo ficar bem na fotografia, mais uma vez!

(Sabe ele bem demais que a sobriedade e a magnanimidade colhem bons frutos, nestes momentos.)

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante aprendera e ensinara, ao longo da vida, que as boas apostas propiciam sempre bons dividendos.

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante que vai ser presidente disse, no momento de consagração, que os sacrifícios feitos para a consolidação financeira devem ser prezados.

Que é como quem diz que deve continuar. Aí o povo da rua não apreciou, mas que sabe ele de mercados? E da redenção da dívida?

Felizes daqueles que têm quem lhes explique como fazer.

(Há quem acredite que o caminho mais honrado na vida é intentar levar à prática a personagem que se finge ser.)

 



publicado por Jorge às 09:51
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