Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2016

Um senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante decide concorrer à posição de mais alto magistrado da nação.

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante abdica de praxes tidas por boas na promoção da sua candidatura.

Portanto, dispensa máquinas partidárias.

Dispensa igualmente máquinas eleitorais.

Cartazes pespegados em todo o lado? - Para que os quero?!

Campanhas à grande e à francesa? – Para quê?!

Afinal o senhor decidira, após demorado retiro, que seria um candidato suprapartidário, senão mesmo apartidário.

(Poucos se haviam atrevido a tal, até então!)

A poupança calha bem e cala fundo, em tempos de dificuldades.

O senhor tinha sido um avaliador diligente e contumaz de cenários sociais na pequena pantalha. Coisa altamente valorizada por quem vota e pouco voto tem em matérias do ramerrão do quotidiano.

O candidato redundante vai de conquistar a rua, nas calmas, de peito feito às balas, sem rebuços.

(Com as doses certas de simplicidade, bondade e verdade se molda a grandeza.)

É ele o candidato favorito de sondagens e de vontades expressas que prodigaliza conselhos, abre-se a muitos sorrisos, descarrega beijinhos repenicados, carrega em dichotes bem-humorados e perde-se em comentários atilados.

(As decisões são escoradas – quantas vezes! - na memória dos bons momentos, duradouros ou fugazes.)

Aos outros concorrentes o povo nunca os vira mais gordos ou por aí.

Os outros concorrentes recorrem às boas táticas de manuais da arte de convencer a esmo, lavram promessas, criam controvérsias em debates, andam por arruadas a mostrar mão firme e beijo solto, comentam as últimas em comícios, tentam falar grosso nos repastos e fazem fosquinhas e trejeitos nos areópagos.

(Vejam a lufa-lufa a que se dão estes coitados e eu na maior, faço isto com um pé às costas, em souplesse!)

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante cultiva um low profile que cativa.

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante parece ter requisitado o carisma todo para si.

Os outros concorrentes dão o seu melhor, mas não se muniram também de doses qb de bonomia e paternalismo.

(Na idiossincrasia de uma comunidade de bons costumes inscreve-se provavelmente a tendência para a reclinação perante anéis, pastéis, jograis e filhos d’algo.)

Apelidaram o senhor de padrinho de batizo, padrinho da confirmação, de morgado, de comendador e coisas no género.

E ele nas tintas, questões de lana caprina não o tiram do sério.

Por cada dia que passa, o candidato por excelência perde os outros de vista: ele olha sobre o ombro e não distingue ninguém nas proximidades.

(Isto vai ser favas contadas!)

Às vezes cede ao cansaço, perante tanta pasmaceira, apetece fazer como a lebre a correr contra a tartaruga. Mas, logo o levam ao colo.

No dia azado, o senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante faz um percurso limpo até à meta.

Os outros contendores, de língua de fora e cara à banda, ficam a milhas dele.

Quem procura sempre alcança. Sempre procurou uma vitória sem espinhos ou espinhas e teve-a!

Assim cumpre o candidato principal um dos seus sonhos de menino; tardou, mas já cá canta!

Uma comemoração mais desbordante, mais triunfal não teria ficado mal, mas não se pode ter tudo, certo?

(É que não lhe cabia um feijão fradinho no cu, verdade seja dita!)

Na hora da consagração, o senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante não manda que repiquem os sinos, claro.

Era imperativo ficar bem na fotografia, mais uma vez!

(Sabe ele bem demais que a sobriedade e a magnanimidade colhem bons frutos, nestes momentos.)

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante aprendera e ensinara, ao longo da vida, que as boas apostas propiciam sempre bons dividendos.

O senhor bem-apessoado, bem-disposto, bem-conceituado e sobretudo bem-falante que vai ser presidente disse, no momento de consagração, que os sacrifícios feitos para a consolidação financeira devem ser prezados.

Que é como quem diz que deve continuar. Aí o povo da rua não apreciou, mas que sabe ele de mercados? E da redenção da dívida?

Felizes daqueles que têm quem lhes explique como fazer.

(Há quem acredite que o caminho mais honrado na vida é intentar levar à prática a personagem que se finge ser.)

 



publicado por Jorge às 09:51
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