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oitentaeoitosim

21
Nov16

O Dias

Jorge

Não basta fugir, é necessário fugir para o lado mais conveniente – Charles Ramuz

 

Pedro João é tipo de meia-idade, alto (e altaneiro), espadaúdo, bem-parecido e sem traços de ter passado mal, em qualquer momento da sua vida. Empresário agrícola e pecuário, ganhou um gostinho especial por andar aos tiros à bicharada, ao ar livre, em caçadas e seus derivados. Em situações de aperto – confessou, há pouco -, sobrevive à custa de nozes e castanhas e da manducação do que lhe vem à rede ou à mão que pode ser peixe.

Diz-me o pouco que comes, dir-te-ei por onde tens andado.

Um dia estava ele nas imediações dum estaleiro dum novo hotel, à noitinha, quando foi abordado por 2 agentes da GNR (Guarda Nacional Republicana). Dá-se uma cena canalha, de tiros à mistura, em que morre um agente e o outro fica muito mal tratado, desafortunadamente.

Pedro João faz-se ao largo, durante 4 semanas, período durante o qual ver-se-á envolvido em vários episódios escabrosos, durante os quais morre ainda outra pessoa e cinco ficam feridas, infaustamente, dando de barato episódios de gamanço a que o seu nome está associado.

Muito corre quem bem corre, mas mais corre quem bem foge, em tempo de paz, quando se  tem por intolerável a subtração de vidas humanas.

Por conta da fuga, Pedro João passa ao rol dos assassinos potenciais e dos orates de quem é preciso evitar as vistas e/ou denunciar o paradeiro. Ele confessou, há pouco, que fugiu para não ser abatido à má fila.

O temor sempre suspeita o pior.

Concidadãos do Pedro João, sobretudo os das vizinhanças mais batidas, vivem com o credo na boca e sem pregar olho, jornadas a fio. Eu confesso que temi e não passou uma hora em que não tenha pensado no que fazer caso ele vagueasse pela minha porta. Avisaria a PSP (Polícia de Segurança Pública) e que o engazupassem.

Posso ser acusado de falta de sensibilidade social, mas confesso que fiquei mais aliviado, quando constou que o homem teria sido visto, pouco tempo depois de iniciada a fuga, no norte do reino de Portugal, em Castela e talvez por Franças e Araganças.

Do suspeitoso não muito perto, só muito longe...

Os órgãos de comunicação social andaram-lhe no encalce, com reportagens, diretos, telejornais feitos em locais supostamente frequentados pelo fugitivo. Andaram à cata de vizinhos e amigos do rapaz e quase todos afiançavam que ele era um paz de alma; ao invés, os familiares, amigos e vizinhos das vítimas diziam dele o piorio.

 É inumano calar a dor.

Uma amiga do Pedro João diz pôr as mãos no lume por ele, portanto que se entregue de mãos a abanar. Um médico amigo da sua família, uma das mais estimadas dos arredores, jura e trejura que o rapaz é um Portugal-velho. Mas, que venha a terreiro a pôr as coisas em pratos limpos, que se renda.

A culpa atribuída a quem se ama dói mais, mas perdoa-se mais depressa.

Estava-se nessa fase, em que a maioria da população acharia que o Pedro João merecesse um lugar à sombra, que não passava dum sacripanta, dum crápula, dum estrupicento, dum estabanado estoira-vergas, dum estúrdio dado ao palmanço, etc...

Em simultâneo, os órgãos de comunicação também andaram no encalce de jornalistas, advogados, psicólogos, psiquiatras, sociólogos, especialistas em linguagem propriamente dita e linguagem corporal, gente que não conhecia o Pedro João de lado algum, por isso mais capaz de juízos independentes.

Quanto sabes, quanto vales.

Os videntes são postos de lado, porque estavam todos em contacto com o além, quando foram abordados. Bombeiros, batedores e exploradores de trilhos lá da terra, invocaram problemas de comunicação, para não serem ouvidos.

A fome que tu sabes já dela me esqueci...

Mas, seria o Pedro João culpado? Já depois daquela cena de o saber bem longe do meu posto de reportagem, confesso que vacilei. Cheguei a acreditar que sim, que aquela bisarma de homem estaria implicado, mas a dúvida metódica veio ao de cima. Tanto tempo a dar à sola, só se fosse protegido de um deus, sim os deuses não costumam proteger safados assim...

Para pôr os pontos nos is e os traços nos tês, o homem desistiu do jogo do gato e do rato, há pouco. Lá combinou a coisa com arte. Primeiro vai ter a casa de uma amigalhaça, depois convoca causídicos que falam diretamente com o chefe da PJ (polícia Judiciária), por sua vez, convocam jornalistas que naturalmente fazem o seu papel com a emoção contida ou coisa que o valha.

Ouvi-lhe dizer na entrevista que bateu os shares todos das audiências televisivas, dada, há pouco, que era inocente. Logo se vê. Agora, não gostei que tenha insinuado que comeu as papas na cabeça dos gendarmes. Fica mal, à uma, por fazer dos polícias más reses, sempre de arma nervosamente engatilhada, pronta a despachar uns balázios na sua direção. Às duas, rebaixa os agentes, porque tantos não foram capazes de apanhar um. Não contente, como quem não faz mal a um escaravelho, às três, ainda se atreve a insinuar que os terroristas por cá fariam o que é habitual fazerem as raposas em vinhas vindimadas.

A vingança é, muitas vezes, o deleite de almas despiciendas.

Já agora, há boa gente que anda para aí a insinuar que o Pedro João se rendeu, porque andava de calças na mão, com o credo na boca e farto da ração e das vistas.

Mas, agora que está posto em sossego, há pouco, vá ordenando as suas notas e surpreenda-nos com um livro de memórias. Seria mias uma prova que tem bom jogo de cintura.

Sabe que ganhou pontos a seu favor o seu ar cordato que pôs, com o qual aceitou, sem protesto, o par de pulseiras que uns humildes agentes da PJ lhe colocaram? 

Diz-se que tempo não come o lobo, oxalá não fosse tanto assim...

Isto lhe garanto: eu não era capaz de andar foragido tanto tempo, borrava-me todo, ou encafuava-me na toca mais próxima, até me encontrarem, por minha incompetência. E não queria cenas filmadas ou gravadas, sou assim, que se lhe há de fazer... Não é para me gabar, mas até sou bastante conhecido cá no burgo...

Tenciono liderar uma campanha para que os futuros homiziados disfrutem dos apoios que o Pedro João teve. Se alguma vez estiver de mãos livres, apareça, Sr. Dias, já seríamos dois a fazer força!

Só no amor quem foge é o vencedor.

O Dias.jpg

 «Greg pôs-se ao fresco, com um sofisticado disfarce.»

21
Nov16

Zelos VI

Jorge

     Os senhores administradores principais da CGD (Caixa Geral de Depósitos) não querem fazer declarações, ainda não percebi bem, se de rendimentos, se do património. Que devem fazê-lo, nota-se uma certa unanimidade, entre quase todos os cidadãos dos quadrantes partidários todos. Inclusive o PR (Presidente da República), dirigentes da atual CnP (Coligação no Poder) dizem que querem e o TC (Tribunal Constitucional) exige o preenchimento do respetivo impresso. Mas, os administradores não querem e o ME (Ministro da Economia) embezerrou. Todos os dias se fala e se comenta o assunto nos média e nas ruas, quase tanto como os acontecimentos que rodeiam o Sr. presidente do SCP (Sporting Clube de Portugal).

      Pouca gente saberá se o ME fez a promessa de emendas nas leis ou nos procedimentos protocolares para evitar que se falasse à boca cheia das possessões do elenco administrativo efetivo (uma pouca vergonha, só inclui uma mulher!). Num país de cuscas e de devassas públicas, não é pormenor despiciendo que a lei obrigue a declaração formal de bens de executores públicos, já é boa altura de proteger as elites, em casos como este.

      Já agora, essa regra não deveria ser válido apara todos quantos mandam na gente, a sério e que estão do lado do sector privado? Sopram-me, aqui do lado, que, para tal efeito, basta comprar, na altura certa, as revistas «Forbes», ou «Exame», quando trazem os rankings dos altos e poderosos...

       Tomo por edificante a posição do PM (Primeiro Ministro) que diz que não se incomoda que, na gestão da coisa pública, haja outra gente a levar-lhe à palma, na questão dos honorários. Porque os senhores administradores da CGD – com distintas experiências na gestão da coisa privada - têm enormes responsabilidades, etc ...e tal.

        Então a responsabilidade do PM não é a mais alta do país (que me perdoe o PR)? A modéstia assenta-lhe bem, a generosidade (para com os vencedores) também, mas deixa à mostra mais uma vez a careca, que manda quem pode, obedece quem deve. O cetro, a coroa e o manto quase sempre estiveram privatizados. Sempre que o poderoso roga – ele que está semi-encoberto pela cortina -, rogando manda.

     Dizem que os apoiantes secundários da CnP não têm mãos a medir aos sapos que (não) engolem... Ainda-por-cima, o chefe máximo é um casmurro dum ex- militante duma formação useira e vezeira em dizer cobras e lagartos deles, muito azar mesmo!

      (Seja perdoado a atrevimento, não seria possível dar oportunidade aos administradores efetivos da CGD de registarem lá fora os patrimónios, ou, alternativamente, de promoverem vendas fictícias?)

      O senhor que se segue!...

Teimoso.jpg

 Será que tens de fazer sempre as coisas da maneira mais complicada?!

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