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oitentaeoitosim

04
Dez16

Preito II

Jorge

 

A morte é uma letra a pagar em parte incerta.

 

Eu gosto de futebol desde garoto quando havia muita gente que decidia do meu futuro por mim e quando eu sofria muito com os relatos de futebol que davam na rádio se o clube do meu coração perdesse comia mal ao jantar dormia mal e depois rabujava com os meus vizinhos que não gostavam do clube do meu coração nessa altura e mesmo na minha adolescência e juventude e adultice preliminar sempre achei que o clube do meu coração era o maior da Terra que os dirigentes do meu clube faziam tudo certo e que os treinadores eram os mestres das estratégias e das táticas e que só eram corridos porque queriam ou se punham a jeito e que os atletas eram todos da elite que é bom um país ter elites.

Na minha juventude já via jogos na tevê e o panorama já tinha mudado já sabia que tinha de lutar pelo meu futuro e dos rebentos mas continuava a sofrer com as derrotas do clube do meu coração que aconteciam quase sempre por aselhice do árbitro por causa do estado do terreno ou devido ao azar e continuava a dizer cobras e lagartos dos clubes com os quais não ia à bola que tinham péssimos dirigentes piores jogadores e treinadores que não valiam um caracol mesmo que já tivessem treinado o clube do meu coração e não me cansava de denunciar tramações urdidas por outros dirigentes desportivos contra o clube do meu coração.

Um dia estava a ver um jogo de futebol bem à noitinha jogo esse transmitido a partir do Brasil só podia ser aquela hora ou então da Argentina já não sou propriamente um jovem conheço de cor o nome de clubes brasileiros tenho cá um pó a alguns deles que já tinham feito morder o pó ao clube do meu coração então pus-me a dar atenção à transmissão e de entrada vejo-me a perguntar «que clube é esse?» vai daí um meu irmão que sabe muito de futebol e da vida disse que era um clube que jogava há pouco tempo no campeonato principal do futebol do Brasil e eu fiquei-me a ver o jogo a minha simpatia pela Chapecoense penso que começou pela sonoridade do nome que me ficou a pairar nos lábios depois passou ao coração e passei a ter 2 clubes do coração a partir daí não perdia uma transmissão de jogos da Chapecoense deve ter sido atração à primeira vista vejam lá que até me convenci que ali estava o futuro campeão de futebol do Brasil que era o maior em tudo o coração tem razões que a Razão desconhece.

As notícias rezavam inicialmente que um avião tinha caído por terras de Colômbia e que nele seguiam dirigentes e jogadores da Chapecoense mau-mau querem lá ver! talvez um dia os aviões sejam seguros a 100% mas ainda não o são foi o pior que aconteceu depois é assim primeiro estranha-se mas depois não há remédio entranha-se a mágoa a morte deveria ser proibida de agir a seu bel-prazer outras notícias se seguiram que as causas terão sido estas mais aquelas que os causadores terão sido beltrano e sicrano para já não me tragam a listas dos inculpados a prestação de contas far-se-á em devido tempo respeitem os mortos que estão a prestar contas aos deuses que chamaram toda essa boa gente ligada a Chapecó.

Sei que todos os dias morrem muitas pessoas de morte natural sei que todos os dias termina a vida de muitos amantes de futebol sei que todos os dias partem muitas pessoas em guerras declaradas pela ganância humana mas não é de todos os dias que parte para outro mundo de crudelíssima forma e em simultâneo tanta gente assim prendada estando nesse número para além de atletas e dirigentes do clube pilotos pessoal de bordo jornalistas tudo pessoal na estima de muita gente poucas derrotas custam assim quando mereciam da vida um prolongamento que a vitória estava à mão de semear é por isso que uma partida destas dói sobretudo a quem gosta de futebol o que acontece com muita gente por esse mundo por isso as lágrimas e as homenagens são incontroláveis creiam vocês que partiram que deixam saudades e se um coração sente saudades é sinal que já cá não está quem muito se deseja sou eu que vos afianço eu nado e criado no país em que a saudade se materializou.

Requiescant in pace!

 

Só o Homem sabe que é mortal (...)

E é a certeza em que menos se acredita.

    Vergílio Ferreira in, Contra- Corrente 2

 

04
Dez16

Preito I

Jorge

Sou saudosista.

Do tempo da velha senhora, não! Custa-me a admitir que o verbo e os recursos económicos de uma comunidade possam ser exclusivo de ungidos mandantes sem rebuços.

(O «populismo» d’agora tem disto!)

Sou saudosista, repito.

Entrado na idade, também alimento o preconceito que no «meu tempo é que era», fazia-se assim-e-assado, bem melhor que hoje!...

(À falta de argumentos mais poderosos, cá vai disto!)

Sou saudosista, repiso.

Papo tevê a-torto-e-a-direito e acho que ela já teve melhores dias, com menos. Serve-me ela conversas moles, entrevistas às-3-pancadas, doses maciças de pilhérias forçadas, inenarráveis, boçais, com acompanhamento de palminhas, de beijinhos, de contubérnio forçado, enlaçados ou enroupados em música pimba, com pessoal a dar ao beque, em sorteios de popós e de dinheiro, para «ajudar a passar o tempo», numa consagração do dolce far niente do jet set.

(Ressaibos do bucolismo popularucho, tipo ancien régime?)

Sou saudosista, repito e repiso.

Eu acho que, a certa altura do campeonato, os audiovisuais até chegaram a oferecer, a espaços, oportunidades de meditar, de divertir, de informar, com alguma pinta; agora é só formatar, como se todos sofrêssemos de audimudez ínsita.

(Os espetadores, agora, vão valendo por uma variável estatística.)

Já sabem que sou saudosista, ora pois!

Por vezes busco em canais de reminiscências um grãozinho que exiba uma diferença ilustradora. É dado adquirido que os meios de informação, diversão e preenchimento de tempos livres na atualidade esforçam-se ao máximo por cortejar quem mais dá e mais obtém, o resto é cantigas...

(Às vezes até duvido que tenha sido diferente...)

Assim e por ser saudosista, vejo e revejo a rtp-memória.

Há dias, estava numa dessas, quando dou de caras com um programa cómico de dignidade suficiente. Aí descubro (é o termo!) um senhor ator, dono duma capacidade histriónica fantasticamente espontânea. Quedei-me por ali divertido com as suas caretas, as poses, os trejeitos castiços e com a pinta de dominar os textos, eu que não o conhecia de lugar algum! Mais tarde aprendi que já não teria hipóteses de o conhecer, ao vivo. Olhe que doeu!

(Juntou-se ao Sr. Solnado, outro invulgar entertainer que não deve enjeitar a sua companhia...)

Não fosse eu saudosista e não estaria aqui a dar testemunho disto: sempre que o vejo, dou o meu tempo por bem empregue, um bem-haja pela companhia, Sr. Pedro Alpiarça.

Ainda hoje o senhor contribuià distância para a minha boa-disposição e  a lidar com a vida que é cara, mas inclui todos os anos uma viagem em volta do Sol, como dizia o Sr. Maupassant, com pouco riso e muito siso.

(Os tempos não estão para brincadeiras – suponho que daí de cima tenha uma visão mais completa –, mas ajuda a aguentar saber rir dos nossos males, com distinção, fugindo com arte a palhaçadas fúteis e estapafúrdias).

 Ainda bem que, às vezes, me armo em saudosista.

Já agora, perdoe-me a pergunta, Sr. Pedro Alpiarça, foi o amargor da vida que o fez partir de súbito?

 

PS: Duma das vezes em que procurei um programa em que entrasse o senhor Pedro Alpiarça, na rtp-memória, pus-me a catucar o meu filho, entregue a ocupação diferente, ali ao lado, a ver se me acompanhava na experiência. Não ficaria muito feliz, caso soubesse que não o incluiu na lista de favoritos.

 palpiarca.jpg

 

Nunca  se sabe aquilo que basta. Talvez baste um poema, uma coisa mínima, viva, nossa, uma coisa sub-reptícia para empunhar diante do implacável acordo das formas exteriores. Também pode ser que nada baste. E nesse caso tanto faz escrever um romance ou cem poemas ou apenas um poema, ou ler ou emendar o céu astronómico ou manter-se parado no meio de um jardim húmido e silencioso, à noite. Até pode suceder que a morte não seja bastante.

     Herberto Helder, in Público, Dezembro 1990

ou cem poemas ou apenas um poema, ou ler ou emendar o céu astronómico ou manter-se parado no meio de um jardim húmido e silencioso, à noite. Até pode suceder que a morte não seja bastante.

     Herberto Helder, in Público, Dezembro 1990

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