Sexta-feira, 22 de Dezembro de 2017

     Estou numa de zapping, por entre os canais disponibilizados pela operadora - a empresa pela qual fui contactado e contratado garante que são o triplo daqueles que efetivamente contam e estão ao alcance da minha vista -, quando os meus ouvidos detetam o tom agradável duma voz singular que, naquele domingo à noite, atua num concurso de executantes de música.

    Quedo-me ali extasiado a ouvir aquela moça de voz portentosa, com domínio de voz ainda mais portentoso, a trinar um fado (melhor, ao estilo do fado), com uma naturalidade espantosa, só ao alcance das pessoas dos chamados (nem sempre merecidamente) consagrados. Socorro-me do comando para voltar a ouvi-la um ror de vezes e fico pesaroso, quando interrompo – como quem não quer a coisa – a audição daquela melodia transporta nas asas daquela voz surpreendentemente melodiosa e pungente.

    (Por perto estavam 2 pessoas prestes a cair nos braços de Morfeu, pelo que não se fizeram rogadas em imprecar-me e a atirar almofadas e tudo o que apanhavam à mão; assim age o pessoal consciente que o trabalho dignifica e do qual retiram a gorjeta para comprar o popó, os morfos, os entornos, as águas que o passarinho não bebe, os trapos, as pastilhas, os telelés, as prendas natalícias, etc...).

    Depois deste episódio, não me tenho cansado de ouvir o belo canto da moça, na Net, pois me deixei seduzir, gostosamente, é isso! Quando me tratam bem, com caranço e me dão música à maneira, fico assim mole, independentemente da letra que, por acaso, neste caso, também é apelativa.

    Obrigado, Beatriz (Felizardo), pela ajuda em valorizar as coisas boas da vida; sou eu o felizardo por tê-la escutado!

    Sei que não a quiseram nas etapas seguintes do certame e facilmente me ocorre que isso a penaliza, mas estou em crer que o futuro lhe fará justiça; ele não o pode deixar, de forma alguma, de mãos a abanar.

     Tive muito gosto em conhecê-la assim. Apareça mais vezes, mesmo sem aviso prévio. Fique a saber que, terá contribuído para meu deleite a letra da sua «Fala de mulher sozinha» (como o fez no concurso da tevê e como o faz na Net, com naturalidade).Vá por mim: nunca ninguém cantou tão bem aquela canção como a Beatriz.

     Felizardo uma vez, felizardo para sempre.

Anjos anunciadores.jpg

Não consigo dormir nada, à conta dos cantos de todos aqueles anjos anunciadores!

 

PS – Sinceramente estou em crer que a Beatriz tinha o destino marcado, ou seja, não poderia continuar no concurso: o autor da música é persona non grata por aí. Eu sei que, às vezes, o diabo tece-as. Sabiam?

 



publicado por Jorge às 10:01
Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

- Connosco temos a senhora doutora que naturalmente ocupa lugar de destaque na equipa que luta pela prevenção e erradicação da hepatite A.

- Assim é, de facto!

- Fale-nos, por favor, do atual surto de hepatite A que estará naturalmente a preocupar as autoridades...

- Tem havido algum alarmismo, todavia essa pandemia está em vias de ser controlada. Para tal, tem contribuído de facto a divulgação atempada das previdências cautelares a ter em conta e a disponibilização de vacinas.

- Até por uma questão de profilaxia naturalmente, elucide-nos sobre os grupos sociais mais suscetíveis...

- Está comprovado, por estudo digno de crédito, que, de facto, em cada 10 casos comprovados desta variante de hepatite, 9 envolvem homens.

- Pelo que certos homens naturalmente correm mais riscos...

- Assim é de facto!

- Falemos naturalmente de grupos de risco entre os homens deste e doutros países...

- De facto os homens que assumem comportamentos de risco são sobretudo os homossexuais que naturalmente não seguem à risca, nem coisa parecida, as medidas sugeridas pelas autoridades competentes.

- Naturalmente vamos a causas concretas que se encadearam neste surto de hepatite A no nosso país e não só...

- De facto a hepatite A é transmissível por via fecal e oral, no decurso de determinadas práticas sexuais.

- Naturalmente convém lembrar que, para além da satisfação dos parceiros, as práticas sexuais devem ser seguras...

- De facto uma dessas condições passa pela adoção de medidas de prevenção e também de higiene, antes ou no decurso de trâmites sexuais.

- Naturalmente que estão a ser intentadas campanhas de prevenção em recintos onde decorrem festivais de música de verão.

-De facto, o recente surto de hepatite A eclodiu num festival de música, na Holanda, portanto lógico será que façamos profilaxia em tais recintos.

- Naturalmente que, sem alarmismos, convém que os organizadores destes eventos caprichem na reprodução da higiene em tais recintos...

- Assim é, de facto!

- Naturalmente que seria muito bom que os festivaleiros não se esquecessem, já agora, de lavar as mãos, antes das refeições...

(A doutora - de facto - entrou em estado de choque, ali mesmo nos estúdios da tevê, onde foi de pronto assistida. Esteve em repouso absoluto, por motivos de saúde, pelo que justificadamente esteve ausente do exercício das suas funções...)

Pedicuros.jpg

- No meu tempo tinha os homens a meus pés.    

                                                 - Pedicuros

 

PS – Este escrito esteve para ser aqui aninhado, há mais tempo; tal não sucedeu, por razões que não vêm ao caso. Fica clarto que faltas ao serviço da malta da saúde podem ser ditadas por muitas razões. Isso da facilidade de acesso às fontes não colhe, tão pouco a ideia peregrina de fazer uma perninha ali ao lado...



publicado por Jorge às 13:02
Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

    No tempo da outra senhora se fulano da santa terrinha desviasse todas as conversas para o futebol se fosse para a caminha ou dela saísse a pensar na bola a rever mentalmente a lista de erros apontados ao árbitro em desfavor do clube do coração se fizesse cativações das verbas orçamentadas para o lar doce para satisfazer obrigações financeiras de sócio do clube da sua predileção se ameaçasse com a justiça de Fafe quem se atrevesse a denegar que o seu clube era o melhor do país e do mundo se para ele todos os árbitros todos os cartolas dos clubes opositores todos os dirigentes federativos da santa terrinha eram indivíduos empedernidos em artimanhas para deslustrar e para tramar o clube da sua predileção ao qual dedicava amor acima de todas as coisas se comemorasse efusivamente nas ruas e praças os feitos vitoriosos se comprasse toda a parafernália alusiva ao clube nas lojas oficiais ou no contrabando se numa palavra a paixão clubística e o fanatismo fossem o farol dos seus passos e pensamentos dele se dizia às claras ou sugeria-se malevolamente nas entrelinhas que reunia todos os quesitos dum alienado (as mulheres resguardavam-se mais).

    No tempo da outra senhora na santa terrinha se beltrana cumprisse com todas as obrigações religiosas emanadas de Roma se comparecesse de preferência todos os dias às liturgias e pontualmente às festividades em honra do orago e doutros santos da sua paróquia e da sua devoção se reservasse parte do horário de trabalho a ministrar os ensinamentos do catecismo se insistisse em fazer do marido dos filhos dos pais e vizinhos mesários ou festeiros caso se deslocasse em peregrinação a Fátima em agradecimento de graças alcançadas comprando tudo o que de bento houvesse à venda velas santinhos bentinhos garrafões de água e não se esquecendo de deixar chorudos óbolos nos mealheiros do santuário se dispensasse com prioridade as flores do seu jardim para enfeitar altares andores festões e a casa do cura se cumprisse com as abstinências e os jejuns agendados e/ou alternativamente pagasse a bula para toda a família se rezasse um terço ou um rosário todos os dias como se tornou preceito depois das 6 aparições em Fátima na santa se passasse todos os tempos mortos do dia a encomendar-se a beato(a)s e santo(a)s da santa terrinha e doutras paragens se desfizesse insidiosamente em quem fugia ao cumprimento dos ditames religiosos ditados dos avoengos ou em quem não enviasse os filhos à catequese e aos sacramentos dizia-se de fulana que era uma alienada (os homens resguardavam-se mais e até lhes assentava bem patrocinar remoques a curas seminaristas sacristães e ao beatério).

    No tempo da outra senhora na santa terrinha caso sicrano passasse todos os bocadinhos livres metido a ouvir fado na rádio na televisão no leitor de cassetes ou no gravador se puxasse todas as conversas para arengar dos superiores interesses defendidos por fados e fadistas se divinizasse as vidas de fadistões e bandarras se percorresse festivais ao alcance da sua vista dos seus passos e dos seus soldos numa de comunhão fervorosa com os fados com a fadistagem e com bailões renomados e por lá adquirisse adereços cassetes discos cedês do fado aristocrata do fado bailado do fado batê do fado corrido do fado-canção ou do fado castiço se conhecesse de cor as letras dos fados mais badalados se fizesse os possíveis e os impossíveis financeiros para bater amiúde à porta de casas de fados se passasse o tempo a tentar convencer quem dele se acercasse que não há nenhum tipo de música no mundo que chegue aos calcantes do fado da santa terrinha se revelasse instinto exímio no conhecimento do currículo de faias e fadistas se até no duche cantasse o fado se estivesse convencido que o fado é que induca e o vinho é que instrói dizia-se dele que era um alienado (às mulheres assentava melhor ouvir fado em casa).

    Nem todo o pessoal alinhava pelos 3 efes acima expressos muita gente até fugia deles a 7 pés mas a maioria sedentarizada na santa terrinha embarcava agora é impossível imaginar que um alienado encasquetasse por igual aquelas 3 valências senão vejamos admite-se que um maluquinho do futebol possa encaminhar os seus passos à igreja mais próxima a fim de agradecer v.g. uma derrota do clube arquirrival mas o mais provável é que festeje as vitórias ou cure as derrotas na tasca mais próxima que fica mais em conta só um aparte se porventura um indígena amante do pontapé na chincha caso se desse ao trabalho de ir em peregrinação isso talvez não passasse de pura perda de tempo que a Senhora nunca terá dado ideia de embarcar em futebóis outrossim talvez pareça perfeitamente plausível que um tifoso se comprometa a festejar uma vitória do clube do seu coração numa casa de fados ou afim mas letras pungentes de fazer chorar as paredes não se coadunariam com a função aí está as letras fadistas não dão gozo de igual modo quem adora Fátima na maior parte dos casos não tolera por um lado o calão que campeia muito nos campos da bola e o fado convida à copofonia e à faca na liga daí às tentações da luxúria por exemplo o que é pecado mortal por fim quem gosta de fadejar pode nas calmas ser um tifoso da bola e devoto de aparições mas estes 2 efes figuram invariavelmente em segundo plano é fado adquirido que não se pode servir a 2 ou 3 senhores em simultâneo só à vez é que o fado leva ao quebranto da alma e convém contrariar quebrantos múltiplos no dia-a-dia caso se aspire a vida longa.

Atualmente já não são cultivados com desvelo em estufas apropriadas com tanto aqueles 3 efes tão queridos da velha senhora só o futebol justiça lhe seja feita se mantém pujante tendo até arrebatado muitas almas sistematicamente arredias dos estádios todos enquanto as 2 outras instâncias encalharam quando a equipa da gente ganha o ego impõe-se quanto mais não seja à vizinhança ou ao(à) consorte por alguma razão as tevês generalistas da santa terrinha insistem em dar bola a granel por seu lado o fado mudou muito os cantadores já não se limitam a trinar fadários de esgraçadinhos e esgraçadinhas de olhos fechados e veste preta o que à puridade pode ser uma cedência e uma corruptela da identidade imaterial do fado (ó tempo volta para trás!) no entanto a presença de cantadores em festivais de verão e a tendência recente de descantar letras de amores melífluos ao estilo de melopeias populares pimba baladas e rock só revela o lado de cosmopolitismo muito a gosto das gentes da santa terrinha quanto a Fátima suspeita-se que os tempos de materialismo puro e duro estão a implantar-se aos poucos na santa terrinha embora não haja estudos que comprovem se tal se trata de fenómeno ou epifenómeno certo é que a fé vive um período de provação mais-a-mais os milagres andam escassos.

    Verdade seja dita que o atual nosso primeiro não é indivíduo seduzido pelos 3 efes aliás depois do vinte e cinco de abril nesta santa terrinha nenhum dos nossos primeiros que me lembre se esforçou em reimplementar a política dos três efes em conjugação até porque as telenovelas e os programas de bilhardice servidos por almas bem-intencionadas mas prendadas a milhares doutras almas abençoadas menos prendadas ganharam avanço a cânticos mais ou menos solenes figurando as estórias do homem do saco (travestidos de cobradores da dívida pública e de serviço da dívida pública)do bicho-papão e do bandido nos primeiros lugares da lista de espera da alienamento de trazer por casa. 

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publicado por Jorge às 12:37
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