Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018

     A santa terrinha tem um presidente muito ágil comprometido com a reaproximação de toda a gente é visto quase todos os dias em campo no exercício do seu múnus presidencial valendo-se do verbo fácil de gestos tendencialmente amistosos mas sobretudo de doses industriais de chochos e de chi-corações para já não falar nas imensas selfies que protagoniza por ser muito fotogénico acresce que Sua Senhoria (S. Sª.) aparece e desaparece qual flor humana em imensos palcos quase sempre de motu próprio como no rescaldo de incidentes ou acidentes ou outras desgraças indizíveis sabendo S. Sª. que os afetos funcionam num momento como refrigério espiritual e cauterizador de sofrimentos daí que muitos habitantes da santa terrinha sobretudo os mais desvalidos vejam nele um líder como já não se fabricava à moda antiga mesmo assim a modos dum condestável sem armas protetor do pessoal reinadio da santa terrinha pouco habituado a que o tratem com miminhos oficias.

     O senhor presidente da santa terrinha tanto está como peixe na água quando chefia viagens oficiais e dirige cerimoniais e receções oficiais como se apresenta descontraído em festas de oragos feiras castiças festivais populares ou ainda a fazer compras de artigos de vestuário ou de artigos lá para casa num supermercado próximo S. Sª. não se faz rogado em dar o bacalhau em dar dois dedos de conversa fiada em distribuir sorrisos de circunstância e em entrar no jogo das blandícias dos enlaces e das selfies assim vai atalhando os caminhos do nosso primeiro e seus ajudantes há muita gente disposta a dizer que antes assim os anteriores presidentes da santa terrinha eram uns macambúzios uns caras de pau S. Sª. foge a tal estereótipo ele quer a malta de cara alegre e peito ufano dado às balas e espalha a boa nova por todos os torrõezinhos da santa terrinha para gáudio dos profissionais da informação que não têm mãos nem pés nem notícias nem comentários a medir na esteira da pedalada vigorosa de S. Sª. ao longo de quase todos os dias e noites naturais.

    O senhor presidente da santa terrinha também gosta de prestar homenagem a concidadãos de nome e estatuto firmados que tenham partido paro o Além ou a parabenizar os que obras valorosas tenham conquistado louros em certames internacionais de renome dirimidos dentro de portas ou fora de portas nessas alturas S. Sª. tem sempre disponibilizada uma mensagem um elogio ou uma comenda porque é preciso dar ânimo à malta que somos tão bons ou melhores que os bons mas que infelizmente estamos infelizmente metidos em dívidas até às orelhas mas a gente vai dar o fora se deixámos para trás no passado o cabo das tormentas a troika também não se ficará a rir por muito tempo ora venham daí abraços beijos e selfies  a ver se isto vai malta esta é mais uma razão pela qual a malta da santa terrinha ama S. Sª.

    O senhor presidente da santa terrinha tanto veste o traje de cerimónia ou o traje de luces como se apresenta em trajes menores estilo fato de banho num qualquer areal antes ou depois de mergulhar em águas frígidas ou garantidamente despoluídas para grande júbilo de muitos compatriotas e correligionários que lhe prestam preito e que estão sempre à espreita na oportunidade dum afeto duma palavrinha ou de uma selfie para a posteridade é sabido e consabido que a maioria da malta da santa terrinha adora S. Sª. e não admirava ninguém que já muitos o vejam ombrear com todos as deidades acostumadas a preces altares e andores assim não admira que vá ainda em crescendo crescendo a admiração por S. Sª. na santa terrinha.

    No entanto não se conclua que o presidente da santa terrinha só distribui sorrisos mimos beijos e abraços à moda antiga e ceda à novidade das selfies quando acha que as coisas estão mal S. Sª. também se presta a ralhetes puxões de orelhas e até lategadas no rabo a mandantes esquivos e que não se portem à altura das circunstâncias é notório que por mais duma vez se travou de razões com o nosso primeiro e seus adjuntos mais S. Sª. poer exemplo não esteve com contemplações e despachou a alta velocidade uma senhora ministra apanhada a fazer flagrantes figuras tristes na pretérita época de incêndios tava na cara S. Sª. entendeu que a credibilidade da nação estava em causa e a senhora lá pagou as favas fica assim provado que S. Sª não dá só colinho quem dá o pão dá o pau lá diz o povo da santa terrinha que delira com a justiça rápida acreditem embora no terreno ela seja lerdinha aí está mais uma razão para que o povo loe S. Sª.

    Aliás o senhor presidente da santa terrinha já tem aposto o seu veto a diplomas legislativos oriundos das cortes nomeadamente a um deles que determinava o recebimento de lautas avenças por parte dos partidos que pelos vistos andam de bolsos furados ou se convenceram que não valem menos que as fundações as IPSS as PPP institutos ONG certas empresas com direito a subsídios da nação S. Sª. fez saber que só passando sobre o seu cadáver haveriam de o persuadir a assinar «vão mas é trabalhar malandros!» ouvia-se a plebe gritar por todo o lado e aí S. Sª. escutou a vozearia e aí ficou com mais uma razão para não assinar o que deixou chateados os partidos sobretudo que tinham combinado a gaziva aí muito dirigentes partidários bem lembraram serem eles os pilares e as traves-mestras da democracia e que sem dinheiro não há democracia duradoura daí que possa estar a ser cozinhada nova propositura legal a garantir benesses financeiras aos partidos que dispensa a firma de S. Sª. que não deixará de seringar tão certo como S. Sª. ser uma fonte inesgotável de miminhos e selfies para gáudio de muitas almas da santa terrinha.

    Aparentemente o senhor presidente da santa terrinha detesta os desmancha-prazeres que se atravessam no caminho sem aviso prévio ou vêm falar de assuntos não agendados ao que parece S. Sª. gosta de ter a última palavra nos convites que recebe aos milhares por isso não espanta que se tenha furtado à partilha de beijocas abraços e selfies com senhoras que lhe bateram à porta a pedir uma ajudinha depois de saberem que a empresa que as explorava iria para o galheiro claro que elas temem pelo desemprego que não dignifica e pela perda de direitos adquiridos aliás as ditas senhoras até ofertaram a S. Sª. por interposta assessora uma liga de meias vermelha cor que não me parece ser muita do apreço de S. Sª. com exceção do encarnado do equipamento dos seu clube de futebol de estima por sorte talvez por prever qualquer marotice no género acertou para a hora prevista uns exames e análises médica e a coisa morreu por ali uma coisa é distribuir beijos e abraços e ficar em selfies à sua maneira outra bem diferente é fazer figuras tristes perante os próceres da santa terrinha que não toleram abébias seja a quem for ou saia do trilho pré-definido.

    Com a proatividade do seu presidente lucra a santa terrinha que já era conhecida por uma solução de governo do arco-da-velha por ter sido o berço do melhor jogador de futebol do mundo por ser a pátria dos campeões de futsal da Europa e do melhor jogador de futsal do mundo e por ser o solo pátrio dos chefes da ONU e do Eurogrupo e agora passa a ser conhecida por dispor dum presidente como já não se fabrica em parte alguma do globo terráqueo que adora afeições e selfies e é adorado pela maioria do povo da santa terrinha.

    Mais se o presidente da santa terrinha continuar neste afã de dar corda aos sapatos e a espalhar brasas hão de cair em breve todos os recordes detidos por anteriores presidentes e reis da santa terrinha d’ora e de antanho e por isso num dia destes S. Sª. talvez venha a figurar nas páginas do Livro Guiness dos Recordes pelo que é provável que futuras edições da obra se vendam como pãezinhos quentes o que seria muito bem pois da leitura de livros anda muito necessitado o pessoal da santa terrinha não só de tevê de benquerenças e selfies vivem as mulheres e os homens da santa terrinha.

     Entretanto um numeroso grupo de diligentes amigos fiéis pacientes sábios e lúcidos do senhor presidente da santa terrinha recolhe já assinaturas para submeter uma petição às cortes no sentido de determinar que o dia treze de abril (o dia do beijo) o dia vinte e dois de maio (o dia do abraço) e o dia vinte e um de junho (dia das selfies) sejam efetivamente declarados feriados nacionais.

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(Sorry for the copy...)

 



publicado por Jorge às 08:56
Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018

Quando a escolha é entre cobardia e violência, aconselharei a violência.

M. Gandi

 

I - João nasce de um caso de 2 paixões assolapadas, a da mãe e a do pai. Morre-lhe a mãe à nascença e o pai põe-se a milhas, sem nunca mais dar novas, tão pouco mandados.

     Ignorado pelos familiares mais diretos do pai, recolhe a casa onde viviam avó e avô maternos, na companhia de 3 filhos que se tinham deixado ficar para tios.

     Quando a avó e o avô partem para o Outro Lado, João fica entregue aos cuidados dos tios, dos quais passou a ser o ai-jesus.

     Faz-se infante e depois adolescente, sempre amparado na trindade de tios que levam vida desafogada.

    Ao primeiro melro que se atreve a chamar-lhe de filho de tríade, João esfacela-lhe o trombil, ficando o provocador de olho deslocado, cana do nariz partida e queixo descaído, caraterísticas anatómicas que sobrevivem nele, facilmente identificados à vista desarmada.

     O episódio vale a João, 5 dias de suspensão na escola (palco do episódio) uma tremenda reprimenda do pastor da sua congregação e muitos calduços dos tios que, no intuito de reforço das defesas do rapazola, o inscrevem num ginásio competente as manhas e artimanhas da luta livre, ali à beirinha de casa, da qual se tornou exímio praticante.

     Por estas e por outras – e também porque a fama o precede – João tem vindo a eximir-se com sucesso a várias formas de bullying.

 

II - Lena nasce de uma paixão efémera, da mãe e do pai. Quando solta os primeiros vagidos, já o pai cavara do rincão natal, para bem longe, donde nunca mandará novas, tão pouco mandados.

     Lena fica ao encargo da mãe, frequentadora da alta-roda, vem registando sucesso na gestão de negócios e manobras financeiras.

    Um dia, a mãe de Lena decide pôr a sua vida em ordem e arruma os trapinhos com outra senhora de classe alta, por quem se apaixonara perdidamente.

   Lena faz-se infanta e adolescente, tendo à sua disposição todas as comodidades desejadas da vida e nunca nada lhe falta.

     À primeira pucela que se atreve a chamar-lhe filha de díade, Lena arranca pela raiz madeixas volumosas de cabelo louro tingido, pelo que a atrevida nunca mais terá dispensado a cobertura de chinós das melhores proveniências e marcas.

     Na sequência do facto ocorrido na rua, a Lena pouco sucede de especial, a não ser uma reprimenda, en passant, do polícia, do oficial de justiça e do magistrado do Ministério Público que tomam conta do ocorrido.

     Desde então, Lena torna-se praticante de umas quantas artes marciais, em vários ginásios das suas redondezas, da qual se converte exímia praticante.

    Por estas e por outras – e também porque a fama o precede – Lena tem vindo a eximir-se com sucesso a vários tipos de bullying.

 

III - Estela nasce de procriação assistida. O pai e a mãe biológicos desentendem-se e cada um segue a sua vida e nunca mais se cruzaram na vida.

     Estela bem tenta encontrar a mãe que a gerou, sem sucesso; é institucionalizada, por especial intercessão de um seu tio-avô que era prior, num lar operado por freiras carinhosas, onde se faz infanta e adolescente.

     Nos primórdios da vida adulta, regressa ao mundo laico, quando é adotada por uma senhora virginal, de idade provecta, a quem Estela se dedica de-alma-e-coração.

    Ao primeiro gabiru que, na fábrica onde trabalha, se atreve a chamar-lhe filha de mónade e Estela parte-lhe as costelas todinhas, de forma que, ainda hoje em dia, o atrevido mantém certas dificuldades em, deglutir, andar e evacuar.

     Na sequência do sucedido, ocorrido na fábrica onde trabalhava, Estela, já uma jovem linda e bem-sucedida, fica 2 semanas com termo de identidade e residência e paga uma indemnização ao atingido que fica a padecer de ginofobia, até hoje.

    A partir de tal episódio, Lena dedica-se ao pugilismo, na coletividade desportiva mais próxima da sua habitação e converte-se em exímia praticante.

    Por estas e por outras – e também porque a fama o precede – Estela tem vindo a eximir-se com sucesso a vários géneros de bullying.

        

IV - Moisés é o benjamim duma família pouco menos que remediada, mas numerosa – 3 raparigas, 3 rapazes e o pai – que sobrevive à custa do empenhamento titânico diário de todos os seus elementos.

     A mãe tinha partido, depois do parto de Moisés, com um primo afastado, visita habitual da casa térrea, cheio de notas; cansado de lhe dar música, o familiar faz um ultimato à senhora que cede a muito custo e ambos vão constituir outro ninho, em cascos-de-rolha.

   Faz-se infante e adolescente nestas condições, no desconforto dum lar apertado e da comiseração alheia.

    À matulona que um dia lhe faz frente e insinua que ele é, afinal, filho de mãe desnaturada, Moisés assenta-lhe duas taponas velhas, e, não satisfeito, desfaz-lhe no cocuruto um computador acabadinho de lhe ser emprestado, no centro social do bairro. Curiosamente a atingida refez-se rapidamente do incidente, deliciando-se com o estudo de informática.

     A reação vale a Moisés a expulsão, a título definitivo, da frequência das instalações do centro social lá do bairro; para além disso, leva pancada, a-torto-e-a-direito, duns grandalhões que gramam a vítima da sua fúria ocasional.

    Curiosamente Moisés e Clementina, a vítima, não resistem à atração exercida pelas tecnologias de informação e tornam-se peritos na coisa e acabam de associar-se numa startup que promete.

     Apesar da fama que o precede, Moisés sabe que novas formas de bullying os aguarda, ao virar da esquina.

Vidas 3 (2).gif

«Diz-se que a música facilita a produção. Toca a trabalhar, ou começo a cantar!» ( Sorry for copying...)

 

 



publicado por Jorge às 08:32
Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018

(A propósito de continência sexual)

 

Na noite de núpcias:

- Amor, vamos à deita.

- Não te apresses, doçura.

- Como não?! Já não sobra nenhum convidado, amor...

- Há sempre Alguém que nos vê, doçura.

- Como assim, já te disse que só estamos os dois, amor...

- Deus vê-nos, doçura.

- Que eu saiba Ele não é voyeur, amor...

- Não fales assim que é pecado, doçura!

- A mim sempre me pareceu que Deus fica feliz, quando nos vê a colher prazer das coisas pequenas e grandes da vida, amor...

- Já pareces a serpente do Éden... Não te enerves e não te precipites, doçura!

- Bem sabes que esta não é a minha primeira vez, já fui casado de igreja, amor...

- Mas, vamos fazer tudo segundo os cânones, está bem, doçura?!

- A continência que me impuseste antes da boda foi muito penosa para mim, amor...

- Pois sim, portaste-te à altura, doçura!

- Olha que não te levei a bem não teres cedido à tentação, ficas a saber, amor...

- Agora me lembro, ainda não pediste escusa canónica, doçura!

- Assim é, mas já tivemos tantas despesas com o casamento e essa pode esperar, amor...

- Olha que não, sem a dispensa do teu primeiro casamento, não há nada para ninguém!

- Olha-me esta, agora, que raio de bicho te mordeu?!

- Nenhum, eu serei sempre fiel aos princípios que orientaram a minha vida, adquiridos no berço, não quero viver de futuro a acumular remorsos!

- Ora bolas, mas tu até aceitaste casar apenas pelo civil!

- Esse pecado já confessei e obtive indulto por antecipação, mas logo o cura me avisou que, em favor da minha salvação, não me convém abrir outras frentes de pecado!

- Ora bolas, Deus sabe que casámos para o que-desse-e-viesse!

- Estás porventura decidido a ir malhar ao caldeirão de Pêro Botelho, tás?! Eu não quero corre tal risco!

- Pois sim, mas olha que é muito triste chegar às portas de Roma e por aí se quedar, sem ver o ver o papa!

- É um risco que corremos, caso não tenhamos na nossa posse o documento que te libera do teu anterior casamento!

- Nem quero pôr-me essa hipótese! Tu sempre foste muito dada a greves sobretudo as selvagens, julgava que tinhas mudado!

- Portanto, ou pagas a desobriga, ou ficas a chuchar no dedo! Das minhas palavras, qual a parte que ainda não entendeste?!

- Suplico-te, abre uma exceção, uma que seja, que a tua lista de pecados é curta, a minha é mais grandita, vá lá mor!

-Que assim seja, mas será uma vez sem exemplo, que deus me perdoe! Mas, não vai haver nada mais para ninguém, sem que antes venha a desobriga, doçura.

- Fica combinado, a gente recasa na ermida mais próxima, logo a seguir, mor!

- Ora, assim é que é falar! Suporto melhor a continência da luxúria que a dos sacramentos, mas desta vez passas, doçura!

- Verás que vai valer a pena, mor!

- Um bom malandro me saíste tu! O que te vale é que te quero muito, mas deus é minha testemunha que não perdes pela demora disso mesmo, doçura!

(E foram fazer pela vida, mas só daquela vez. No dia seguinte, foram à igreja de casamento tratar de papeladas. A desobriga de casamento chegaria por via postal. Depois de largos anos de espera - e de reformulação dos serviços postais -, continuam de esperanças, mas já se desconfia que terá havido sonegação de correspondência...)

Diálogos de outono 16.gif

«Comunicação sem fios não é novidade para mim. Há 75 anos que não me canso de rezar»

 



publicado por Jorge às 09:58
Quinta-feira, 01 de Fevereiro de 2018

     

 

Abundam, nas sociedades hodiernas, leis, posturas, regulamentos, estatutos, normativos, ordenamentos, ordenações, ritos, praxes, regimes, códigos, regras de etiqueta, regras e muitas diretivas disto e daquilo, de regulamentação da vida social, em tempos de paz (para tempos de guerra por ora estão estabelecidas disposições dissuasoras).

As disposições sociais supostamente brotam de princípios universais da condição (condução?) humana e de sequentes leis-quadro fundamentais. Os articulados, a atuação de zeladores, o processamento de causas dolosas, as coações previstas e as penas aduzidas derivam naturalmente de tais fontes.  

Nos países mais favorecidos pela superestrutura globalizada, os enquadramentos normativos parecem mais operosos, um qualquer desvio pode ser a morte dum artista. As manigâncias e contravenções (evasão fiscal, criminalidade violenta e assédio sexual, v.g.) acabam nas praças públicas de todo o mundo, seja em periódicos, em magazines, em livros, em filmes, na Net e até no mundo das artes, porque convém deixar bem lembrado que o crime – a descoberto - não compensa, por isso mesmo levam que contar pela medida grande.

(Por lá, a má culpa vende-se bem, mas convém não exagerar que ela pode trazer cizânia atracada ao bojo; a boa ordem foge a exageros, naturalmente.)

Por sua vez os caídos em desgraça (com vida de estadão garantida, de preferência), em países desfavorecidos, ou em países assim-assim, já não permanecem muito tempo nas bocas do mundo (uma destrinça a ter, de futuro, em conta na diferenciação escolástica dos agrupamentos países). Nestoutros países e no plano interno o desassossego também é garantido a quem se atreveu a mijar fora do penico, quase sempre até à ignoscência final, naturalmente.

No caso das plagas lusitanas, muito boa gente diz que há muitas e boas disposições sociais, adequadas à frugal confraternização social e ao cosmopolitismo tão do agrado dos íncolas. Não fossem certos achaques culturais - a espórtula, a cunha, o abanar altivo de ombros, a varridela para debaixo do tapete, o topete de alguns e muita bonomia doutros – e a vendada Justiça estaria nas suas 7 quintas, na paz do Senhor, naturalmente

Por cá, episódios dolosos, crimes que envolvam figurões da praça, com cabedais suficientes para fazer render o peixe, têm tendência a distender-se ao Juízo Final; aos malfeitores comuns as tribulações são abreviadas, naturalmente.

Por cá também, as venturas e desventuras dos maus da fita vendem bem e as audiências televisivas repercutem isso mesmo, enquanto as ações dos bons da fita ficam em recato.

A virtude não se compadece com espalhafato, antes é mais solicitada pelo recato. Daí que a virtude seja naturalmente mais trombeteada nas entregas de prémios e de comendas, ou por altura de passamentos.

Se à malta não valer a capacidade inata de destrinça entre bem e mal, poderá valer, em situações comezinhas do quotidiano, a navegação à vista desarmada, numas quantasem questões de moral e bons costumes públicos.

Eurico é um velho perieco – logo, pouco dado a altas cavalarias - que se ufanava de nunca ter atirado uma beata, ou uma cusparada ao chão, sempre arrumara a sua viatura à maneira, sempre passeara o cão atrelado, de saco na mão e nunca fora inconveniente para a vizinhança. Há dias, andou de cuecas no metro, mas esqueceu-se de se tapar, à saída. Detido para inquirições, Eurico andou, por uns dias, nas bocas do mundo que desfizeram nele, para seu grande desgosto naturalmente.

(Uma rádio local aludiu ao caso do Eurico, um jornal regional aludiu ao caso, numa minúscula caixa, sem dogmatismos; um jornal nacional obscuro e outro estrangeiro do mesmo calibre foram mais generosos, no espaço concedido, com foto a acompanhar.)

Doutra sorte, Pietro atira lixo a-torto-e-a-direito para a rua, arruma o carro em 2ª ou 3ª linha, ou sobre os passeios, põe o cão a deambular na via pública sem rebuço, a qualquer hora, para alívio do bicho, está sempre a causticar a vizinhança, sem que alguma coima tenha travado os maus fígados (aos zeladores do cumprimento dos normativos estão relegados para o cumprimento de valores mais altos que sempre se alevantam). Um videoamador captou-o a defender um sem-abrigo: «ele tem direito a ser sem-abrigo», ponto final». Agora anda aos ombros.

(Pietro, hoje-por-hoje, é convidado de jornais, rádios e tevês, à escala nacional que não olham aos pecadilhos do senhor; na estranja, ou já se não fala no assunto, ou é assunto muito longe de encerrar, naturalmente.)

A civilidade é um pau de 2 bicos, naturalmente. 

PS – Um dia, António, tuga dos 4 costados, passeava numa área pública, duma cidade chinesa. Tinha acabado de atirar uma beata ao chão (atitude banal, por casa), quando alguém lhe puxa pela flanela da camisa e se lhe dirige com ar de poucos amigos. Uma senhora, fiscal municipal, apontava a um cartaz, redigido em língua chinesa (era chinês para António), que mandava punir o lançamento de beatas e bisgas para o chão, naquele rincão. A senhora fez questão de dar a entender que não saia dali sem o dinheirinho para saldar a contravenção e de imediato colocou um recibo à frente do nariz de António. A este não restou outra solução, a não ser pagar e mais não bufar. Quando se afastou do local do crime, estranhou que na sua terra natal, nunca tivesse enfrentado sobrerronda com tal função.

 

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«O diretor suspendeu-me! – A escola é o único sítio do mundo em que te dão tempo livre por  mau comportamento.»

 



publicado por Jorge às 13:28
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