Terça-feira, 27 de Março de 2018

    Em tempos idos, Hollywood pôs no mercado um fartote de filmes românticos, tanto para diversão interna, como também para forte compensação externa. A leste do real, as fitas apresentam o jogo da sedução, entre homens e mulheres, invariavelmente em tons cor-de-rosa e em clímaces delicodoces. Por mais empecilhos postos no caminho, os apaixonados não se perdem em tentações e sempre caem, à beirinha do fim, nos braços do amor fatal (tanto quanto o destino!) e sempiterno. Depois, a felicidade cumpre-se naturalmente, pelo que os amantes fervorosos são recompensados com prole ampla, de preferência.

     (Eram tempos de «crescei e multiplicai-vos», em países da frente.)

     Nas fitas, os protagonistas não se cansam de fazer olhinhos e fosquinhas, eles ensaiam declarações arroubadas e juras de amor, eles deliciam-se com canções meladas e serenatas à chuva e em seco, eles resistem às intromissões de parentes e rivais, até limites tidos por inumanos, mas nunca sujeitam o corpinho a atrevimentos exibicionistas.

    Os episódios decorrem em paisagens tranquilas, campestres e luzidias, profusas à época, mas a viver tempos de escassez, no presente, uma das razões para a decadência dos filmes românticos, na meca do cinema.

     (Guiões de filmes melados integram atualmente compêndios de contos de fadas e epítomes de estórias da carochinha, em países da frente.)

     Aos amantes de longa data de películas meladas, prodigalizam-se atualmente festivais revivalistas e ciclos cinéfilos comemorativos, a propósito de efemérides apelativas. Resta-lhes ainda a alternativa de viajar até países onde o ideário romanesco não se tenha perdido em guiões melífluos, produzidos a uma escala interessante e com bastante saída. Quem seja contra o desfasamento cultural entre povos que atire a primeira pedra.

     (Viajar é preciso, para quem sobrevive em países da frente).

     Por cá, foram produzidas umas quantas fitas românticas – as legendas são a parte mais chata, há uns anitos, mas já foi dado o passo em frente pelos especialistas do métier. Não fora assim e não estaria cumprido um dos pré-requisitos para uma notação financeira em alta.

     

     Mais tarde, um número significativo de produtores e realizadores em Hollywood cai na real: a ternura delicodoce do amor romântico hierático – elitista, por igual! – rende-se às técnicas do amor mais basista. Muitas das fitas perdem a aura de santidade que rodeava os pares amorosos, para se espraiarem em estórias maias à mão de semear que dantes se quedavam nas margens da sétima arte. Mostram que os finais felizes não são determinativos, que a vida se metamorfoseia em muitas variâncias e implicâncias, que fazer amor é o melhor (já o dizia Marcuse).   

    As fitas não fogem em propor o jogo da sedução através da beleza etérea dos corpos, de chochos plúrimos, de declarações poetizadas e de consumações, agora explícitas; todavia, propõem igualmente uma abordagem (reflexiva) de perseguições, sarradas, exibicionismos, xingamentos e até estupro, situações presentes no dia-a-dia de grandes cidades, para onde migra o cerne das estórias narradas e passadas à tela, aos cedês, às pens, ou aos computadores.

      (As pessoas abertas às coisas novas, não se esquecem de repisar coisas antigas, seja nos países da frente ou nos que se seguem.)  

     Por cá, este tipo de fitas gringas (vendem-se que nem pãezinhos quentes) naturalmente encontraram seguidores que têm feito pela vida. A imitação é, em certa medida, uma forma de adulação e assim se vai cumprindo o destino do mundo.

 

     Há quem sugira que quem pretenda mudar o mundo que dê antes 3 voltas dentro da própria sua casa. Ao que parece Hollywood estará na eminência de mudar

     Soube-se recentemente que certos figuros de Hollywood se deixaram enredar em cenas gagas e fitas fúfias: o mundo, pasmado, toma conhecimento das pilantragens duns quantos maiorais da sétima arte, machões acusados por senhoras atrizes, de assédio sexual, sem arrependimento. Os ditos cujos ter-se-ão convencido de serem credores de carta-branca, o aval para de pôr e dispor, a seu bel talante, de quem os rodeia, para cevarem, nomeadamente, os seus lúbricos instintos e andarem de papinho cheio.

     Denúncias várias afastaram da boca de cena uns quantos (agora) maus da fita, sendo provável que a lista negra se venha ainda a reforçar, a não ser que a ação humana maila proteção divina lhes estenda um manto protetor, ou lhes dê colinho, o que à partida se afigura impensável de todo. O Mal não é credor de qualquer vitória, no real e nas fitas, não parece? Os aturados apelos à denúncia por enxovalhos sofridos – mas retidos em armários de estimação, naturalmente por questões de sobrevivência – mantêm-se.

     (É tempo de erradicar a crendice globalizada que tripudiar tudo e todos é uma questão de querer de quem tem poder.)

     Mas, cá se fazem, cá se pagam, ora pois!

     Se os indigitados prevaricadores autênticos heróis de pés de barro - não tivessem feito questão de tripudiar do respeito devido aos outros, não tivessem eles mandado às urtigas o conselho que o respeitinho é muito bonito, não tivessem lançado mão do stalking e outros avanços despropositados, tivessem eles em conta que o mútuo consentimento é necessário nas curtes, e outro galo cantaria!

     Porta-te à maneira, ou vais de vela! Tal é o ensinamento de Hollywood para o mundo real.

     Não espantaria a retoma do ideário romanesco, com nova cartilha; os costumes, práticas de sedução e de amor já não recuam, é sempre para diante.

     (Por cá, já houve um ou outro famoso, ou uma e outra famosa – em todo o lado, o povão é mais de comer e calar, anónimo é que se sente bem - a dar tímidas dicas de episódios viciosos. A adaptação, a forma mais avançada de adulação, a um provável novo estágio das fitas,  a seu tempo virá.)

  

Zelos XIII.jpg

Não gosto de maus filmes. Nem sequer os vejo, mas gramo programas que descascam neles.

 



publicado por Jorge às 13:46
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