Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

Vai por aí uma polémica sobre a proposta de ereção dum museu das descobertas, na capital do país. Há quem opine pelo sim, outros pelo não a tal empreendimento: para os primeiros ele seria uma homenagem à coragem dos nautas afoitos que desafiaram mares desconhecidos, com o credo na boca; para os outros, a proposta valeria como uma consagração das safadezas cometidas por quem se apoderou de bens e pessoas, durante a expansão além-mar.

A questão mergulha efetivamente em ambas as vertentes. De facto, os marinheiros de antanho, a bem ou a mal, conseguiram demandar lugares desconhecidos dos europeus (que já lá estavam, há muito, diga-se de passagem, rezando a todos os santinhos que não houvesse monstros ali ao dobrar da esquina.

Foram os beneficiários políticos da Expansão além-mar – ou Descobertas, ou coisa no género – que se serviram dos achados para realizar milhões, com a traficância execrável de pessoas e também de bens. A defenestração de comunidades, imposta pelos poderosos do Retângulo e do continente europeu, em terras distantes, vista à distância e à luz dos direitos humanos do presente, é revoltante e é chaga que ainda não está sarada para quem teve ascendentes do «lado de lá».

(À época, seria provavelmente questão de fé a existência de etnias ditas inferiores, menos queridas das deidades, a par de etnias ditas superiores, mais estimadas por entidades superiores, que estariam votadas a fazer gato-sapato das segundas, o que se lamenta.)

Para bem da humanidade, há bastantes décadas, que se passou a fazer o elogio da diversidade cultural, da diferença.

(Atualmente o governo de pessoas e bens dispensa a escravização – Portugal foi das primeiras nações a libertar-se -, até porque são mais funcionais à submissão aos interesses económicos dominantes certas derivações dos códigos da ética e da moral.)

Muita da História hodierna – pelo menos a que se faz lá por fora - dá ligeira ênfase ao pioneirismo técnico lusitano, na expansão além-mar, mas não perdoa as trafulhices e pulhices consumadas por avoengos cá da terra.

(Continuasse Portugal nos lugares cimeiros da trama comercial internacional e já teria expiado os seus pecados.)

Já estive em contacto, noutras latitudes e noutras longitudes, com estrangeiros que se apresentaram, com orgulho, como sendo descendentes de portugueses de antanho, viajados até aos orientes. Longe dos olhos longe do coração, a autoafirmação pode trazer no bojo alguma mistificação da realidade...

(Quando se permite que o vento sopre sempre da mesma direção, a árvore crescerá inclinada.)

Por enraizada displicência, ou por má consciência, até hoje Portugal não dispõe de um espaço que vinque os méritos técnicos e (porque não?) os deméritos políticos dos Achamentos.

A existir, e desde que não se esforce por mostrar apenas o «lado bom», reputa-se de meritório.

O espaço museológico pensado até poderia levar o nome de Sagres, onde se apuraram, por exemplo, as caravelas - essa estrela das Navegações - que zarparam mar fora, beneficiando de conhecimentos bebidos de diferentes culturas.

(Museu do Mar Salgado, também não ficaria mal.)

Mas, num tempo em que elementos fundamentais do património material levam nome de viventes que acumularam fortunas ou fama, ou as 2 coisas, até que assentava bem  um museu Infante D. Henrique).

Para os que não querem, há muito, valha-nos Camões (estará ele chateado com a questiúncula da ereção dum museu comemorativo da expansão além-mar?)

PS1 – Há muitos anos, um chefe tribal, de um país do Terceiro Mundo, foi convidado oficialmente para um evento, num país da Europa. Mal pôs pé em terra firme, gritou, alto e bom som: «Descobri a Europa!». A verdade, nua e crua, dispensa enfeites!...

PS2 – O Sr. Eduardo Lourenço afirmou, num destes dias: «"Não sei por que é que neste momento parece haver uma necessidade de crucificar este velho país em função de uma intenção louvável, mas que ainda não redime aqueles que querem realmente a redenção, aqueles que foram objeto de uma pressão forte como o do nosso domínio enquanto colonizadores, de uma certa época".

PS 3 – O criador do «microcrédito». M. Yunus, escreveu, há uns tempos: «O único lugar onde a pobreza deve existir é em museus». Todos os tipos de pobreza, acrescente-se...

Diletantismo.JPG

 



publicado por Jorge às 17:28
Terça-feira, 08 de Maio de 2018

A Justiça branda faz um povo rebelde.

 

     A Comissão Europeia para a Eficácia da Justiça, há muito que acha que Portugal é dos piores países a fechar casos pendentes nos tribunais.

    A Pordata, em meados do ano passado, avançou que, por cada 100 casos resolvidos em tribunais cá da terra 172 ficam pendentes.

    A justiça por estas brandas bandas costuma ser estilo tartaruga, ou estilo caracol: lenta às vezes e muito lenta quase sempre.

    Estão em trâmites da Justiça, há muito, processos que envolvem altas personagens, a que a comunicação social sobretudo interna já dedicou e continuará a dar muita atenção, assim apareçam novidades (a lista não é exaustiva):

. BES/GES;

. BPN;

. Banif;

. Vistos Gold;

. Operação Marquês;

. Operação Monte Branco;

. Operação Rota do Atlântico;

. Operação Fizz;

. Morte de 2 Comandos;

. Desvio de armas em Tancos;

. Investigação a Álvaro Sobrinho;

. Investigações a políticos (Marco António Costa, Luís Filipe Menezes, v.g.);

    Estarão também em tramitação nas instituições da Justiça caseira outros casos que envolvem gente que torna os casos ilustres, como estes:

. Incêndios do Verão de 2017;

. O caso da Raríssimas;

. O caso da Fundação «O Século»;

- Benfica (processo emeiles, vouchers e resultados de jogos, combinados ou não);

. Operação Lex;

. Caso na Universidade Fernando Pessoa;

. Desvios de cheques da Segurança Social;

. Desvios de crianças adotadas.

    A comunicação social - justiça seja feita – dedica também largas franjas dos seus serviços noticiosos a casos de violência doméstica, roubos e homicídios, por exemplo, que envolvem a arraia mais miúda. Não dão tanto brado e têm pavio curto (raramente há massa para recursos). Como diz o outro, da Justiça o pobre melhor conhece os castigos.

    (Tempos houve em que pouco se recorria a tribunais. O meu pai - que deus tenha! -, por exemplo, desfazia-se em suores frios só de imaginar que seria submetido a juízo.)

    A Justiça, liberta e liberal, passa presentemente por muitos trâmites. Desconfio que, por via disso - não por estarmos num país de brandos costumes - ela precisa de mais gente a servi-la.

PS1 – A lentidão na Justiça está para ficar; por exemplo, constou que as decisões dum juiz (acusado de corrupção no caso Lex), irão ser revistas a pente fino.

PS2 – A exceção à regra: A Justiça morosa espreguiçou-se e deu um safanão: em 6 dias ficou arrumada, uma investigação ao ministro presidente do Eurogrupo, por causa duns bilhetes para jogos de bola, pedidos à revelia de códigos valentes e imortais. O caso ameaçava prolongar-se no tempo e no espaço...

 

Zelos XIV.jpg

                              Peixinho - Não há Justiça no mundo.

                              Peixe médio - Há alguma Justiça no mundo.

                              Peixão - O mundo é justo.

 



publicado por Jorge às 12:23
Terça-feira, 01 de Maio de 2018

 

Da dor todos somos escravos.

Aforismo

 

I - A revista «Sábado», no seu nº 693 (10-16 de agosto de 2017, como o tempo passa!), pela pena da jornalista Catarina Guerreiro, apresenta 3 denúncias de escravaria, em Portugal, perante os quais muita gente sentiu muita pena:

. Na Vidigueira, foi denunciado que imigrantes do leste da Europa faziam trabalho escravo na apanha da azeitona: mais de 80 ficavam numa oficina, outros 30 num apartamento, com homens e mulheres misturados

. M.A. cuidou de um casal e do filho deficiente, tratou da horta e dos animais, fazia as refeições, arrumava, limpava e quase não saía de casa. O filho e o marido morreram e ficou a cuidar da dona de casa (uma senhora à moda antiga), falecida aos 99 anos de idade. Nos últimos 20 anos, trabalhando nestas condições e sem folgas, recebia cerca de 150 euros por mês.

. Numa embaixada, R. era insultado, tinha de trabalhar sem limite de horas e sem tempo de descanso. Não tinha autorização para sair, na maioria dos fins-de-semana inclusive (casos similares ocorrem em várias embaixadas e missões diplomáticas.

   A senhora merecia que os abusos e outros similares tivessem conhecido um fim.

 

II - No mesmo nº da revista «Sábado», no mesmo artigo, a mesma jornalista, Catarina Guerreiro, dá a conhecer, com a força de dados, muitas outras situações que apontam ao mundo, perante os quais muita gente sente muita pena:

. Na Índia – as castas tornam a injustiça uma coisa divina, segundo Arundhati Roy - o pó de mica, mineral que dá brilho a maquilhagem e tintas de carros é extraído por 20 mil crianças, na Índia, um país de castas (,) e com 18 (ou 14?) milhões de escravos.

. Na R. D. Congo, 873 mil escravos são, sobretudo na extração de tântalo, muito usado no fabrico de computadores, leitores de DVD e telemóveis que nós consumimos na maior (são ameaçados por militares armados de facas e pistolas).

. Na China, 3,3 milhões de escravos chegam a trabalhar 300 horas por mês, na produção de roupa, flores artificiais, calçado e produtos eletrónicos.

. No Uganda, 244 mil escravos labutam na composição do carvão usado em grelhados, noutros países. Alguns estão ligados ao cultivo de chá, café, tabaco e arroz.

. Costa do Marfim e Gana controlam a produção de chocolate – 70% é feito por escravos.

. No Bangladesh, 15 mil crianças escravas enrolam cigarros à mão.

. Na Mauritânia o problema põe-se com mais gravidade (4% de população vive em regime de escravidão).

    A senhora não merecia a desfeita de saber que muitos destes abusos e outros similares (a bem do negócio) se mantêm.

 

 III – Não anda com muito tempo, uma notícia deva conta que muitas pessoas em fuga da Líbia eram feitas escravas por traficantes e aí muita gente sentiu pena.

       Na ocasião, um jogador de futebol, o senhor Geoffrey Kondogbia, nascido na República Centro Africana e a jogar por um clube de Espanha, no fim de um jogo em que marcara 2 golos, exibe numa camisola interior este dizer: «eu não estou à venda». No Twitter, o centrocampista reforçaria a denúncia: «A rebelião está em movimento. Apoio as pessoas exploradas na Líbia».

        (Sabe-se que a mensagem expressa na camisola interior, completa, rezava assim: «Fora do futebol, não estou à venda».)

       Mal-amanhada, a denúncia foi feita; o senhor merecia ter tido muitos mais seguidores, por mim falo. De mãos atadas, mais facilmente nos invade a dor, ou o estoicismo...

slavery_ndex.jpg

A escravatura (ainda) é uma triste realidade nestes países.

 



publicado por Jorge às 08:42
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