Terça-feira, 12 de Junho de 2018

Como culpar o vento pela desordem deixada, se fui eu que deixei a janela aberta?

Autor desconhecido

 

 

O senhor está, desde há 5 anos, na presidência dum clube (e da respetiva SAD) que integra o tridente dominador do futebol cá do burgo.

Nesse espaço de tempo, adregou muitas taças em competições de n modalidades, outrora tidas por amadoras, cá dentro e lá fora. Mas, para mal de seus pecados, apenas juntou no museu da agremiação 3 títulos secundárias na modalidade-rainha, o futebol (bola), pelo que a seca de glória continuou, quando ele fizera questão de proclamar o fim das vacas magras.

Assim sendo, e para mal dos pecados do promitente senhor, começaram consócios, adeptos e simpatizantes insatisfeitos a apontar dedos acusatórios na sua direção, outros a querer fazer-lhe a ficha (afinal, quem se lembrou dele para ocupar o cargo?). Aí o senhor deu início a um complicado período de transferência de culpas para atletas, para staff técnico, para antagonistas, para dirigentes da bola (verdade seja dita, sempre se mantiveram impávidos e serenos!), para órgãos do Estado, para desconhecidos, para entidades sobrenaturais possivelmente malévolas e para o diabo a 4.

O senhor é comummente tido por habilidoso estratega em delinear cruzadas desportivas virtuosas (ele está sempre do lado do bem), em conseguir boas contratações de atletas para a miríade de modalidades suas, em fechar operações financeiras favoráveis à coletividade, ou por aí. Por isso, muitos sócios, adeptos e simpatizantes da coletividade o têm na conta de salvador da pátria.

Para mágoa do senhor, opositores há que apontam aos altos salários, bem como a outros valiosos emolumentos e a outras mordomias disfrutados pelo senhor, para tão fraca obra. Mas, sem provas objetivas, a maioria silenciosa (e não só) vai ficando do seu lado e tanto lhe basta!

O senhor é bem-parecido (tem confiado a definição de um perfil sedutor a quem percebe do assunto), a que junta uma voz cava, bem treinada e que lhe vai a matar com o jeito mordaz de enfrentar os importunos e conquistar prosélitos para a sua causa.

Opositores bem podem alcunhá-lo de mauricinho, de casquilho, ou mesmo de canastrão, é para o lado que dorme melhor, tem a maioria silenciosa (e não só) do seu lado e tanto lhe basta!

O senhor safa-se muito bem em debates na língua de Shakespeare (coisa rara entre os seus pares), para além de dominar a preceito o dialeto mátrio e pátrio, verdade seja dita que costuma impressionar, quando participa em simpósios, em conferências, debates, sessões de esclarecimento realizados à porta de casa, ou mesmo na AR (os seus congéneres têm mais pilim que paleio).

No entanto, opositores há que do senhor o que Mafoma não se atreveu a dizer do toucinho, outros consideram-no um narcisista primário, enquanto outros os batizam de mitómano chapado. E ele, nas tintas, desde que a maioria silenciosa (e não só) esteja do lado dele, tanto lhe basta!

O senhor será o detentor do recorde individual (nacional, pelo menos) do tempo e espaço atribuído nas tevês a convidados estranhos à política profissional e ao mundo das artes e das letras (numa das suas melhores atuações, debitou palavradura, por mais de 2 horas, sem parar). De resto, qualquer suspiro do senhor sujeita-se a ser dado em direto, ou em diferido (as redes sociais também o cumulam de atenções).

Os opositores não estão com meias medidas: ele é dono dum ego maior que o país, duma cupidez maior que o continente e duma lata maior que o mundo. E ele não lhes liga meia, a maioria silenciosa (e não só) não o dispensa e tanto lhe basta!

O senhor diz que ama o seu clube, até ao delíquio – como se fora sua família, vê-se pela cara! - e, a quem não lhe dá crédito, trata abaixo de cão, clama pelos seus nomes na praça pública, enquanto os recobre de opróbrio, chegando ao ponto de pedir aos circunstantes que o agarrem, ou vai aos fagotes dos pretensiosos contestantes.

Por conta disso, opositores há que o apelidam de abominável homem das neves, de monstro de Loch Ness e de homem do saco, entre outros (não cabem aqui os epítetos e palavrões soltados na Net). Ora, passem bem, a maioria silenciosa (e não só) está com ele, tanto lhe basta!

Mais, o senhor confessa trabalhar 24 sobre 24 horas, para o sucesso da agremiação que chefia e que quer continuar a liderar, dê por onde der («daqui não saio, daqui ninguém me tira»!), que a consagração está aí à mão de semear (para grande cortação dos detratores)!

Opositores estão noutra: ele deixou empresas em escombros, postou muita literatura daninha para os interesses do clube e não se cansa de fazer o mal e a caramunha, em desfavor do clube. Que vão bugiar, a maioria silenciosa (e não só) está com ele e chega!

De momento, a presidência do senhor estará por um fio, mas ele vai-se aguentado ao mastro, a desejar que os maus ventos (também os semeou) não tragam piratas a bordo, ou golfinhos esfomeados!

É que vinha mesmo a jeito um título supremo, na bola; agora só para o ano...

bruno.jpg

Sempre que eu saio vencedora duma discussão, ele organiza uma cruzada para desopilar.

 

 

 

 



publicado por Jorge às 18:45
Terça-feira, 05 de Junho de 2018

«Vive como se fosses uma alface do Lidl» - assim, sem tirar, nem pôr.

O alvitre votivo está assente num folheto aparentemente anódino - dos muitos que caem, todos os dias, em todas as caixas de correio deste país -, a marcar o arranque de mais uma campanha de descontos.

(A poupança no papel ainda não incomoda grandemente as grandes redes de distribuição alimentar do país. Parte de mim acha bem, que a distribuição de tanta papelagem garante a ganha-pão a alguns respeitáveis cidadãos.)

Nas tevês generalistas (sempre predispostas a cavalgar a onda) também passa publicidade afim. Mas, para mim, propaganda só no papel...

À primeira achei que o pregão não tinha ponta por onde se pegasse e não liguei meia.

Mais, até fiquei de pé atrás: querem lá ver que houve engano na mensagem, uma publicidade capaz não se atreveria a fazer votos de vida curta!

(Decididamente não me pareceu uma ideia forte, daquelas que muita gente adota, estilo «tou xim, é para mim!»).

Pus nariz de palmo e meio, eu que me tenho na conta de cliente fiel da sobredita rede que, dispôs, a 2 passos de casa, uma loja catita (não tenho popó às ordens, pelo que tenho de alombar com os sacos de compras).

Pensei de mim para mim: aqui há gralha, ou então o autor da gracinha estaria descompensado, grosso, ou pirado, quando a pariu... Também há a hipótese remota de se ter deixado tentar por outras alfaces, as do dianho, por exemplo!

(Um senhor famoso, Henry Ford de sua graça, terá dito isto: «Sei que metade da publicidade que faço é inútil, mas desconheço qual seja a metade inútil». Ou seja, às vezes, ideias peregrinas funcionam, certo?)

Só um pouco mais tarde, achei alguma piada ao dichote, havia ali um misto de nonsense e de mensagem subliminar capciosa...

(Atração fatal?)

Faço questão de proclamar que me incluo no número de pessoas que acham que um crescimento humano sustentado passa pelo consumo de alfaces, verduras e hortaliças, em geral.

Faço questão de deixar claro que me incluo no número de indivíduos que sabem ser a alface fonte de vitamina C e outros microminerais, que ajuda a prevenir cancro de pulmão e da boca, que retarda a queda de cabelo, que uma infusão de alface ajuda a dormir melhor e por-aí-fora. Há muito que uso e abuso da hortaliça verde em apreço.

Mas, também me incluo nas pessoas que sabem que uma alface é criada, na varanda, em hortas, ou em estufas e que ele se faz num abrir e fechar de olhos; que será comercializada rapidamente, depois de colhida, numa frutaria, num lugar, numa barraca, num super, ou num híper próximo; que aí fica submetida às apreciações dos curiosos, um dos quais acabará por lhe lançar a mão e por ela pagar por ela modesta franquia; que, já em casa do novo legítimo proprietário, na devida altura, será lavada e deglutida, em 2 tempos, desaparecendo do mapa, em 2 compassos.

Curiosamente, até à data, nunca experimentara alfaces do Lidl. Verduras e frutas só as compro nos mercados, mas, por que não experimentar?

 

Assesto os óculos do perto no papelucho e continuo a ler: «Para elas (sim, no plural) não há amanhã».

Aqui chegado, ainda permaneço de pé atrás: uma alface dura pouco e quanto a viver intensamente, estamos conversados, está para ali posta em sossego, com o pé de molho, sossegadinha da Silva...

Mas, a música já é outra, já se fala no plural, em alfaces, quanto mais comer, mais fortunas acumularei, certo?

Pelo-sim-pelo-não, no dia seguinte dirijo os meus passos à loja do costume e, num impulso, encho 2 sacos com alfaces, junto quantidade à qualidade, vamos lá tirar a coisa a limpo!

Em casa, cumulo as alfaces de todas as atenções, depois debulho 2-3 delas, acrescento-lhe tomate, pepino e pimento verde e aí está uma ótima salada, a acompanhar o bife da casa, ao almoço e um picadinho à janta.

À hora da sesta, dou-me a escutar uma voz interior que me desafia a ir surfar as ondas gigantescas de Peniche. Olha lá, nunca, até agora, uma voz interior foi capaz de me desafiar assim, a deixar o meu círculo de conforto e viver uma experiência louca, isto promete!

Na madrugada seguinte, acordo cheio de pica e ponho-me a escutar a mesma voz interior que me desafia, desta feita, a integrar-me no próximo Nepal Trekking que se realiza ali para as bandas de Katmandu.

Nessa manhã, volto às compras e de lá saio com mais 4 sacos de alfaces, não vão elas esgotar-se. Preparo nova saldada, mais substancial, desta feita, a acompanhar umas favas com entrecosto, ao almoço e um peixe feito na chapa, ao jantar.

À sesta e durante o sono noturno habitual, a vozinha impõe-se, com novas sugestões

Nos dias seguintes, atirei-me a um fartote de terrines, tortas, focaccias, pestos, galettes e muffins de alface, do Lidl, naturalmente!

E aquela voz a desafiar-me para novas aventuras e eu a sugerir-lhe que aguentasse os cavalos.

(De momento, todas as minhas refeições incluem daquelas alfaces da marca e seus derivados. Estou na esteira de uma vida emérita, longa e esfusiante, quase não tenho dúvidas...).

 

Dou uma última espreitadela ao citado panfleto, com os óculos do perto: «Os nossos frescos são repostos todos os dias».

Antes assim, a malta apreciadora de alfaces proactivas agradece (dando de barato que alguns frescos sejam renitentes e gostem de se exibir mais que os outros, uma exceção a uma regra bonita)!

Já agora, para que conste, decidi abandonar o regime omnívoro, a comida de plástico (ao regime gourmet nunca me habilitei). Tenho agora para mim que o regime ovo-lacto (mas sobretudo) vegetariano é o melhor para mim e que seria bom para todos os cidadãos do mundo interessados em paz e amor.

Conselhos de amigo são aviso do Céu...

(Entretanto, tenciono buscar panaceia para esta soltura travessa que me acometeu e que faz questão de fazer-se notar, mesmo em horas desencontradas. Como se percebe, só depois de restabelecido, estarei habilitado a seguir à risca as instruções da tal vozinha. Estas alfaces têm, de facto, um potencial diabólico!).

 

 

Diletantismo 2.jpg

- Tens um pedacinho de alface metido nos dentes.

                                                                               - Obrigado!

 



publicado por Jorge às 19:02
mais sobre mim
Junho 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


pesquisar neste blog
 
subscrever feeds
blogs SAPO