Quinta-feira, 23 de Abril de 2020

Diálogos de outono 17

 

- Estou sim, é o Sr. Antunes?

- Sim, sim, como está o senhor Fagundes?

- Bem, graças a Deus! E o senhor Antunes?

- De saúde vou bem, obrigado, Sr. Fagundes!

- Estou a ligar-lhe, porque, daqui por 5 minutos, estarei à sua porta, como combinado, para lhe pagar a continha em dívida. Não há problemas, pois não, Sr. Antunes?

- Vai desculpar-me, Sr. Fagundes, mas um imprevisto está a manter-me longe de casa, neste momento!

- Espero que não seja nada de grave, Sr. Antunes!...

- Efetivamente não, Sr. Fagundes, mas, por conta da infelicidade de outros, eu estou retido, numa imensa fila de trânsito, à entrada da ponte 25 de abril!

- Lamento, Sr. Antunes!

- Assim sendo, só nos resta adiar a sua deslocação cá a casa, para depois do fim-de-semana, Sr. Fagundes, desculpe lá o inconveniente...

- Homessa, está claro que sim, Sr. Antunes. Cá estarei, a ver, se, finalmente me vejo livre desta prestação! Não gosto de ter dívidas pendentes.

- Compreendo. Então, até lá, Sr. Fagundes!

A conversa ao telefone decorre, cumpria o Sr. Fagundes uma visita social a pessoa de estima que vivia no primeiro andar do prédio em que também o Sr. Antunes é um dos condóminos.

Terminada a troca de impressões, o Sr. Fagundes despede-se efusivamente e vai à sua vida.

Ao transpor a porta da rua, dá-se conta que as filhas e esposa do Sr. Antunes, ataviadas para ocasião festiva, olham fixamente a porta do elevador, acabadinho de chegar, e do qual sai o chefe da família.

De um salto, o Sr. Fagundes cola-se às paredes do prédio, já tingido pelas sombras do início da noite e, afrontado, desarvora dali para fora, pernas para que vos quero!!!

 

Diálogos de outono 17.jpeg

 

 

 

 

 

 



publicado por Jorge às 19:39
Terça-feira, 21 de Abril de 2020

Apetece gritar, mas ninguém grita.

Apetece fugir, mas ninguém foge.

Um fantasma limita

Todo o futuro a este dia de hoje

Excerto do poema Dies Irae, de Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

 

Uma doença, Covid-19, está a deixar em casa a maioria dos habitantes da Terra (acontecimento singular!).

Uma doença que é entretecida pelo voraz SARS-CoV-2, (sigla do Inglês), o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2, que ninguém conhecia de parte alguma e que, pelos vistos, é mimético.  

(Sabe-se que o resfriado comum é provocado por um microrganismo, mais benigno, desta família).

Uma doença, inesperada, revertida em pandemia – que seja breve! -, está a pôr a maioria dos habitantes da Terra (o aumento não para, de há muito), não só de pés enfiados em tamancos, mas também lívido, de nervos à flor da pele e de credo na boca, neste período de clausura.

Uma doença quase ubíqua, entretecida, em pouco tempo, por um inimigo de muito reduzido porte, sagaz, de pé ligeiro, está a deixar muita gente órfã de familiares e de sentimentos.

(É estarrecedora a frivolidade oficial na declamação das estatísticas de vítimas).

Uma doença que só pode ainda ser combatida à espadeirada, quando o generalíssimo dela tem a seu dispor manchis topo de gama, dispostos a manter respeito em todas as frentes e campos de batalha.

 

Muitos crentes, com um encolher de ombros, veem nesta coita uma profetizada intervenção de divindades que, há muito, andam a torcer o nariz a muitos pecados levados a cabo por seres humanos, ao ponto de estar prestes a chegar-lhes a mostarda ao nariz e ir tudo a raso, chega de brincadeiras!

(Os entendidos que controlam o relógio do juízo final dizem que o futuro da Terra está por um fio, acaba de ficar a 100 segundos da meia-noite fatídica).

 

Outros, não-crentes, não vão por aí, preferem versões, mais comezinhas, como estas:

1 - A Covid-19 difunde-se, por más práticas, depois do microrganismo SARS-CoV-2 ter sido parido em laboratório - no âmbito da guerra bioquímica?- , na cidade da Wuhan, na China (país que pretende conquistar a liderança da economia e das finanças globais, ou não fosse ela o País do Meio da Terra e do Universo também).

2 – A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2, microrganismo transmitido aquando de repastos de animais exóticos - como o pangolim e a cobra que o terão ido buscar ao morcego – e que são tidos como boa pitança e/ou boa mezinha, pela maior população do mundo, a da China (país que estará empenhado em tomar o leme do mundo).

3 - A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2, microrganismo que dantes hospedava seres vivos irracionais, mas que, com o encurtamento dos ecossistemas passa a colonizar também os humanos ávidos de arrecadar mais fundos e que se chegam perto, sem muitas cautelas.

4 - A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2, microrganismo que se fortalece nos diferentes tipos de poluição, a qual já assumiu um caráter global e que tem vindo a ser vituperada por muita e boa gente, a viver principalmente em países de abundância material.

5 – A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2 - microrganismo cuja patente será detida por uma empresa dos EUA - que poderá ter sido espalhada aquando duma competição desportiva internacional de militares, realizada, em outubro passado, precisamente em Wuhan, na China (ação supostamente intentada para contrariar o expansionismo sínico?).

6 - A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2, microrganismo peçonhento e capaz de ser burilado por conta de radiações emitidas das antenas que alimentam as novas tecnologias de comunicação 5G; na China, a cidade de Wuhan é fiel depositária dalgumas.

7 – A Covid-19 surge por ação do SARS-CoV-2 e é uma infestação extraterrestre, pois consta que terá mesmo caído um meteorito, em outubro, perto de Wuhan e dos seus resíduos se libertou o sobredito infestante.

 

A pandemia existe, sem que qualquer profeta da desgraça a entrevisse tão arrasadora.

A pandemia existe e tomou de surpresa o planeta, há poucos dias - que mais parecem anos - e terá vindo para ficar.

A pandemia existe e está sobretudo a ser combatida com ações profiláticas que têm exigido muito a profissionais ligados à Saúde, de colaboração com a clausura imposta à maioria dos cidadãos, por esse mundo fora (tão inimaginável quanto os preços do crude a preços negativos!).

A pandemia existe e não há ainda arma eficaz – apenas paliativos - que a desterre; seja em países de carestia, seja em países onde corre o leite e o mel, as vítimas contam-se por largos milhares.

A pandemia existe e muitos laboratórios esgotam-se ao pretenderem criar uma panaceia capaz de pôr a salvo a imensa mole humana que habita a Terra e que desespera pela sua aparição.

 

Aqui e agora, esperam-nos mais tempos difíceis, na expetativa que as medidas de controle e o Sistema de Saúde caseiro se aguente firme, na contenção desta pandemia do dialho.

Aqui e agora, esperam-nos mais tempos difíceis, tanto mais se os rendimentos teimarem em diluir-se na austeridade e na inflação que aí vem a galope, na linha da lógica dos mercados que não se deixam envolver em perdões de dívida, ou lucros maninos.

Aqui e agora, esperam-nos mais tempo difíceis, sobretudo porque ainda vivemos num país vergado ao peso da dependência financeira e económica de outros mais poderosos (são poucos, mas não quererão largar o osso).

 (Maiores angústias habitam os refugiados e todos aqueles que sobrevivem em áreas de conflitos bélicos).

 

Muitos milhões de habitantes da Terra andam consternados, mas afiançados na sobrevivência.

Morituri te saluant?

Qual quê!

Lamenta-se todos aqueles gladiadores que já partiram e que provavelmente, lá no espaço etéreo, fazem uma forcinha para que lhes sobrevivamos, cá em baixo, preferencialmente em moldes mais solidários.

A esperança e a vida são formas de património inalienável.

 



publicado por Jorge às 20:31
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