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oitentaeoitosim

06
Mar21

Maneirismos (4)

Jorge

A mercadoria de maior valor é a informação

 

I

Lopo retirou a máscara cirúrgica - com ar de ter andado em muitas guerras -, às 3 pancadas. Dobrou-a em 2, de mãos desnudas e, sem mais cautelas, pespegou-a no bolso esquerdo traseiro. Afinal um ritual corriqueiro…

Vinha de remexer contentores de lixo, à procura de ferro velho para reciclagem, assim faz uns trocos. Habituou-se aquela vida e não quer outra coisa, contra a vontade expressa da família extensa, farta de lhe recomendar que privilegie um trabalho formal. Deu-lhe para acolher monos a dar com um pau, num armazém, perto da residência, para mais tarde os vender na siderurgia.

Lopo usou aquela máscara, todos os santos dias, uma semana a esta parte e disse a quem bem o quis ouvir, que ainda não chegou a hora de a entregar ao contentor do lixo comum, venha algum metediço convencê-lo do contrário.

II

Angélica, ao reentrar em casa, cansada como habitualmente, retirou a máscara cirúrgica, manuseou-a com todos os desvelos e, ato imediato, dependurou-a, no braçal da sua cadeira preferida. Sem tempo a perder, atirou-se ao jantar que naquele dia lhe competia fazer. Sem que se apercebesse, o cão lá de casa deu umas quantas lambidelas à máscara que caiu ao chão; ocorreu, pressuroso, o filho que a repôs no braçal da cadeira, e não se lembrou mais de prestar contas à mãe pelo sucedido.

Floripes, mais tarde, acondicionou a máscara, de 3 dias, em saco de plástico, envolta em guardanapo novo, para a voltar a usar no lufa-lufa do quotidiano, só até amanhã.

III

Lopes ia pela rua central da povoação, quando lhe apeteceu cigarrar. Puxou para o pescoço a  máscara cirúrgica que levava entalada na cara, acendeu um paivante, enrolou umas quantas fumaças, atirou a pirisca ao chão, à confiança (já o ouviram defender a teoria que os agentes da autoridade não estão particularmente vocacionados para enxecar a populaça por tão pouco) e, ato contínuo, voltou a repô-la na posição convencionada.

Lopes, desfaz o puxanço daquela máscara de 1 semana as vezes que bem entende e sempre que cede ao apelo da sua dependência, ele nunca foi pessoa de tratar com muitos desvelos os adereços de vestuário, que nunca se habituou a requintes na sua vida.

IV

Angelina não quer ouvir falar de máscaras, a pandemia é uma brutal intentona, por detrás duma inventona, ou vice-versa: diz-se que há um novo vírus mortífero; se ele existe, foi criado por forças obscuras; as vacinas nada resolvem; os gajos que montaram a cabala estão feitos com grandes empresários que querem menos gente por aí, eles acham que o mundo não chega para todos. Verdade pura e sagrada!

Angelina tem uma máscara cirúrgica, há muitas semanas, uma atenção da sua autarquia local e não lhe dedica especiais atenções; só a põe, às 3 pancadas, quando lhe cheira a multa, ou a forte chatice, como daquela vez em que foi ameaçada, à porta dum restaurante que servia comidinha takeaway (estava bem concorrido, no momento), por uma outra cliente mais afoita que lhe exigiu a proteção devida,  só ela não estava a preceito.

 

A grei sofre, se a sapiência cede o passo à insciência.

01
Mar21

Nota bene IV

Jorge

Tem mais de 1 ano a publicação da última sondagem da InterNations, uma comunidade mundial de expatriados, pessoas que, por sua iniciativa ou forçosamente, vivem fora do seu país.

Portugal figura em 3º lugar global, como melhor país para estrangeiros, à escala mundial - com melhoria em relação a anteriores inquéritos  -, só batido por Taiwan e Vietname, logo o primeiro país da Europa.

Aos inquiridos, são feitas perguntas sobre várias vertentes. Na categoria «qualidade de vida» (saúde e bem-estar, segurança, vida digital, viagens e transportes, vg), é onde Portugal se safa melhor, atinge mesmo o 1º lugar, no mundo: mesmo assim, faz figura triste, nomeadamente em subcategorias como «satisfação da carreira», «economia e segurança laboral» e na «relação entre trabalho e lazer».

Não se pode ter tudo.

Não me lembro que tenha sido dada cobertura a esta façanha nos média e nas redes sociais, estas notícias até que animam!

(Ou então, o caso foi muito badalado e eu já me esqueci, que a idade não perdoa…)

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