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oitentaeoitosim

20
Mai21

Mudança de campo

Jorge

O rapaz era camone mas jogava futebol cá nesta ocidental praia lusitana há 2 anos a esta parte dantes dava uns toques mas apurou-se já era um atleta de fino recorte e melhorou muito no aspeto técnico-tático ele veio cá parar graças aos prestimosos esforços dum empresário do país vizinho o empresário apostou nesse rapaz de 20 anos os dirigentes ligados à secção do futebol daquele clube da zona oeste acharam-no promissor pelo que o puseram assinar um contrato jeitoso para as 3 partes.

Ele costumava jogar atrás na defensiva mas o treinador não descansou enquanto não o pôs lá à frente no ataque já o seu pai lhe dizia que é lá na frente que um jogador pode dar mais nas vistas e pode resolver um jogo a adaptação custou mas deu-se mais rapidamente que o previsto.

Num dos primeiros jogos que fez a titular marcou 2 golos e até o escolheram para homem do jogo pelo que teria de botar palavradura aos órgãos de comunicação social ele que só tinha aprendido meia dúzia de frases em bom português a par do vernáculo muito usado dentro das 4 linhas nas cabinas e nos treinos. Nisto os holofotes as câmaras de gravar e os microfones convergem para ele e ele à rasca. Valeu que a entrevistadora de serviço amavelmente se lhe dirigiu em bom inglês e até lhe traduziu para o dialeto indígena os seus dizeres ufa safei-me de boa!

Nos jogos seguintes em que foi eleito o melhor jogador em campo sempre esteve nas suas 7 quintas nenhum jornalista se atrevia a estragar-lhe o gostinho do prémio pondo-lhe questões em português invariavelmente comentava na sua língua nativa manda quem pode obedece quem tem juízo.

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O rapaz nascera nesta ocidental praia lusitana mas jogava futebol em terras de Sua Majestade há 2 anos a esta parte dantes dava uns toques mas agora era um refinado atleta e melhorou muito no aspeto técnico-tático ele foi lá parar graças aos prestimosos esforços dum empresário da velha aliada que apostou no rapaz de 20 anos os dirigentes ligados à secção do futebol daquele clube da zona leste acharam-no promissor pelo que o puseram a assinar um contrato jeitoso para as 3 partes.

Ele costumava jogar à frente no ataque mas o treinador não descansou enquanto não o adaptou lá atrás na defensiva por entender que na última linha de oposição ao adversário é que um jogador pode dar mais nas vistas já o avô lhe dizia que uma defesa consistente é o melhor ataque custou a adaptação mais deu-se mais rapidamente que o previsto.

Num dos primeiros jogos em que foi titular cortou 3 lances de golo feito do adversário e perpetrou na sequência 3 assistências venenosas terminadas em 3 golos por colegas das linhas mais avançadas por isso ninguém ficou espantado por ter sido escolhido homem do jogo. Logo tinha de botar palavradura e ele à rasca que só tinha aprendido meia dúzia de frases a par do vernáculo muito usado dentro das 4 linhas nas cabinas e nos treinos. Nisto os holofotes as câmaras de gravar e os microfones projetam-se sobre ele uma entrevistadora põe uma primeira questão em inglês e ele não percebeu cheta atirou okay I am okay ri-se e dali não tencionava sair quando inopinadamente se dá uma quebra de energia no estádio e arredores e ele pernas-para-que-te-quero aquele era o dia do seu santo protetor soube depois safou-se!

Da vez seguinte em que foi eleito para «man-of-the-game» já tinha no ativo umas quantas lições da língua inglesa ainda não dava para uma análise técnico-tática aprofundada ao jogo mas foi dizendo num inglês razoável que estava muito feliz com o prémio que esperava continuar a jogar ali muitos anos e que o seu objetivo era de ganhar sempre em todas as competições ainda o jornalista de plantão não tinha formulado qualquer questão mas safou-se lindamente.

19
Mai21

Sacanice

Jorge

I

 

- Sempre há pessoas muito esquecidas.

- Por que dizes isso?!

- Recentemente passaram por uma comissão de investigação da AR que investiga os maus negócios do BES 2 empresários desmemoriados.

- Como assim?

- Ora não se lembravam do nome das empresas que administravam, ora não se lembravam das condições dos empréstimos para essas empresas, etc.

- Coisa estranha!

- Como as Finanças Públicas tem entrado com pipas de massa para solucionar o problema do BES, as fintas ao cumprimento de obrigações sucedem-se.

- Sói dizer-se que a honradez do devedor vale mais que a melhor hipoteca.

-  A resolução do BES é um fardo incompreendido, sobretudo por quem não foi tido, nem achado, mas que não tem hipóteses de fugir com o cú à seringa.

- O caso BES vai perdurar para sempre como um marco ímpar de ilusionismo político...

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14
Mai21

Safadices I

Jorge

i

- João, vou concorrer a vereador do concelho, numa lista de independentes.

- Bem me parecia que tinhas um certo jeito para te coçares para dentro, ó Silva!

- Alto e para o baile, não temos ligações a esquemas, somos pela honestidade acima de tudo.

- Mas, toda a gente que vai para as autarquias, para a AR e para o governo diz o mesmo.

- Dizer não custa, nós queremos estar mesmo ao serviço da população cá da terra.

- Os políticos costumam favorecer os seus negócios e os da sua família.

- Se ganharmos e isso acontecer, que nos denunciem na praça pública.

- Não te esqueças de melhorar a tua figura, o teu discurso e os teus trapinhos.

- A responsabilidade social tem as suas exigências e as sondagens dão a vitória à nossa lista.

- Cuida-te!

- É pá, vai ser chato, já não posso cortar na casaca dos mandantes!

- Não te esqueças de mim, se chegares ao pedestal, sempre fomos amigos, vê lá!…

 

ii

- João, parece que a maioria dos partidos quer um combate mais eficaz à corrupção.

- Acho boa ideia, ó Silva!

- Quase toda a gente tem conhecidos em repartições públicas, ou em cargos políticos.

- E depois?!

- Num caso de aperto, lá se mete uma cunha.

- Há muitas formas de pagar os favores.

- Geralmente em dinheiro vivo, por baixo da mesa.

- Num país de brandos costumes assim é.

- Quem nunca pecou que atire a primeira pedra.

- De um favor poucos desmerecem.

- Também por isto se pretende-se legislar sobre o enriquecimento ilícito.

- Para quando uma lei sobre o enriquecimento lícito?

11
Mai21

Inconexões

Jorge

I

Olho para o placar publicitário, colocado ao longo da estrada; nele, uma moça dengosamente irresistível proclama: «Eu posso comprar um carro de luxo e vocês?».

Em casa, olho-me ao espelho e vejo umas trombas vulgares, como me já havia habituado; tiro a t-shirt e por baixo não topo nada de especial, antes pelo contrário; baixo as calças e fico a mirar um par de pernas enviesadas, entre outros argumentos; dos pés é melhor nem falar, cheios de joanetes que me tornam doloroso o andar.

Sinto-me mal, assim não dá para conquistar o carro!

Vou antes telefonar a um dos meus padrinhos, ainda não decidi se o do batismo, do crisma, ou do casamento…

II

- A senhora é um perigo para os condutores, livra!

- Seu atrevido de merda!

- Sua malcriada, a senhora atravessou a rua fora da passadeira!

- O senhor é que vinha lançado, seu ordinário!

- Porra, vinha a 20Km/h!

. Deve estar ainda a sonhar e a sonhar não se deve conduzir, chiça!

- Podia tê-la atropelado e a senhora ficava maltratada, olha o raio da mulher!

- Diga-me lá, ó seu cara-de-cu, que diferença faz ter atravessado aqui, a passadeira está ali a 2 metros!

- Faz uma grande diferença, se eu a atropelasse, nunca seria dado como culpado, sua megera!

- Por acaso também não viu que outras pessoas estavam a atravessar a passadeira no momento, já ouviu falar em distanciamento social, seu brutamontes?!!!

III

Hoje morreram mais 5 cidadãos com covid19.

Fossem eles cidadãos destacados e aqui estaríamos a falar da sua obra e das exéquias previstas, mas sinceramente, temos pena…

06
Mai21

Imprevisto

Jorge

É relativamente fácil suportar a injustiça, difícil é suportar a justiça

L. Mencken

 

 

(O poder judicial é exercido de forma independente de quem detém o poder legislativo e executivo: os detentores do poder judicial, devem ater-se fielmente à produção legislativa daqueles.).

Aquele senhor juiz reparte funções com outro colega, no tribunal central de instrução criminal do país, ambos lidam com casos judiciais complexos. Eles decidem de processos que podem baixar a tribunais doutras instâncias, em caso de prevaricação culposa comprovada de arguidos.

O senhor juiz lê, a contento, mas e surpreendentemente em direto para o país, a súmula duma sua decisão instrutória muito aguardada, a qual, na versão original, tem 6728 páginas, uma incumbência que lhe toma para cima de 3 horas.

(Ele havia sobraçado aquele caso de colarinhos brancos, há menos de 3 anos, uma operação dantes entregue ao seu outro colega.)

A decisão do senhor juiz estriba-se na análise de 53 mil páginas e 13,5 milhões de ficheiros informáticos reunidos por magistrados do Ministério Público (o MP prepara o terreno aos juízes) e investigadores daqui e além mar, ao longo de aproximadamente 7 anos, período em que também foram efetuadas cerca de duas centenas de buscas, inquiridas mais de 200 testemunhas e recolhidos dados bancários sobre cerca de 500 contas, quer domiciliadas em Portugal, quer no estrangeiro, (nesse lapso de tempo, alguns dos arguidos já tinham passado os seus maus bocados).

O senhor juiz exara a sentença daquela operação bicuda que envolve 28 arguidos, 9 pessoas coletivas (empresas) e 19 pessoas singulares, entre os quais um ex-primeiro - chegou a estar encarcerado - que tinha dado azo a muito falatório nos média, nos domicílios e nos cafés; aos 28 indigitados eram atribuídas sérias prevaricações no domínio da lisura de negócios e da gestão da coisa pública.

(Qualquer juiz, magistrado ou advogado faz as suas composições num elevado nível de linguagem, inteligível sobretudo para pessoas versadas em Direito e áreas correlativas, por que será?).

A mensagem chega-me com muito ruído de fundo. Não fora o acompanhamento da transmissão por parte de médias que contam com pessoas de formação jurídica, sobretudo nas tevês, que foram trocando a mensagem judiciosa por miúdos e ainda hoje andaria às voltas com o texto e o contexto!

(A Economia e mesmo a Política também recorrem a códigos de comunicação cerrados, difíceis de desconstruir pelo comum dos mortais, um estratagema de liderança social não despiciendo).

O senhor juiz deixa cair provas atrás de provas (MP com as orelhas a arder?); apenas 5 dos envolvidos na operação - o ex-primeiro e um seu grande amigo de longa data incluídos - serão chamados a dar explicações sobre 17 maquinações, de branqueamento e falsificação, apontadas no libelo, mais lá para a frente.

As decisões do senhor juiz deixaram, por certo, muito contentes um parco número de famílias, que, a páginas tantas, ainda festejam aquele desfecho, não é de ânimo leve que se lida com tamanha badalação social, durante tanto tempo. Para muitas famílias a montanha pariu um rato...

(A Lei é peça única, mas os diferentes intérpretes não afinam pelo mesmo diapasão; de tal forma que chega a parecer que a cada cabeça sua sentença, afinal um traço de humanidade, certo?).

Por acaso, eu até estava convencido que os arguidos iam levar todos pela medida grande, dada a quantidade de informações gravosas trazidas a público, pela porta do cavalo, da mesma forma que pressinto que o outro juiz daquele tribunal central estaria noutra onda.

Na sequência, houve muitos cidadãos a contestar: que o senhor juiz meteu água, que borrou a pintura, que costuma ser brando com implicados em casos de colarinhos brancos (o reverso do que sucede com os colarinhos azuis, os quais, normal e geralmente, ficam mal na fotografia!), etc...

Outros contestatários dizem que era caso para o povo patear e protestar e que mais uma vez consentiu, como em tantas vezes ao longo da história (invasores foram entrando por aí dentro e o povo quase sempre amouxou; quando fizemos de invasor, a pintura ficou borrada, como se vai dizendo por aí!); que foi outra oportunidade perdida pela ação popular, agora muito centrada na luta pela sobrevivência.

O povo tem as costas largas, mas há notícias que uma justiça branda pode fazer rebelde um povo, por enquanto sobram as queixinhas, neste país de brandos costumes....

(À minha memória, assoma a imagem de meu pai, comerciante honesto muito temente a deus, que tremia que nem varas verdes só de pensar de ir a tribunal. Nunca lhe cheguei a perguntar por que seria, lamento!).

PS – Será que um dos arguidos, presente na sala do tribunal, onde o senhor juiz debitou a sentença, terá à sua espera um outro processo, por ter arredado momentânea e impensadamente a máscara, quando teve vontade de espirrar, neste tempo de pandemia?

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