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oitentaeoitosim

28
Jul09

Enxurrada

Jorge

   

   Esteve prometida  grossa enxurrada para esse dia. As folhas do calendário caíam à cadência das folhas do plátano outonal. Ao ritmo diabólico do tempo sucedia-se tempo cada vez mais quente e o ar ficava mais difícil de sorver. Cedia-se às tentações do ar artificialmente arrefecido. Dormitava-se ao ritmo da maquineta refrigeradora; as actividades da casa de banho e da cozinha não dispensavam o suave refrigério. Fora de casa, em 2 passadas céleres alcançava-se o popó, o autocarro ou o comboio, em busca do consolo do ar frio. A vulgarização do ar climatizado eliminou a preocupação de manter os carros particulares símbolos-da-civilização no fresco das garagens. Ficavam esparramadas ao pino do sol, em sobre passeios avençados, longe das sombras de ervas, arbustos e árvores que tantos riscos podem fazer nos popós.
     Esteve prometida grossa enxurrada para esse dia. Sob o céu e a terra há muito que se resistia aos dias soalheiros. O ar climatizado ampliava a resistência dos viandantes que gastavam a rodos energia arrancada às explosões solares, proviesse ela do ar, do vento, das marés, das ondas, dos girassóis ou dos hidrocarbonetos. O sol, quando malha a sério, fere tudo e todos, não poupando a chaparia dos popós. Fazia dó vê-los a estiolar ao braseiro, uma impressão só comparável com os enchidos ao fumeiro ou as sardinhas no forno solar. Mas, eles não se queixavam.
     Nesse dia houve grossa enxurrada, sem que estivesse prometida. A atmosfera sobreaquecida saturou, despejou água a cântaros e a potes, cães e gatos rebolaram de encontro ao chão ressabiado. Putos de tenra idade e velhos da última  desatinaram e puseram-se aos berros. Alvoroçados pela força das gotas, pelo gorgolejar da água nos algerozes, pela dança frenética da água suja em linhas de água abertas à força, pelas poças que se formavam em qualquer desvão de terreno, engrossaram com lágrimas gordas os grossos caudais. Mudaram de registo, assim que se aperceberam das árvores, cães, catres, sofás, contentores de lixo selectivos, hortaliças, entulho, fruta e outros que tais que passavam à porta das casas, a caminho do mar. A perda de uns é o ponto de encontro de outros.
     Nesse dia houve grossa enxurrada e estava prometida. Os carros atingiram o limite das suas forças. Alapados aos passeios de lugarejos, lugares, vilas, cidades e metrópoles mantiveram-se pletóricos de força na luta contra a intempérie. Fincavam-se ainda aos ramos das árvores, aos bancos de jardins, às vitrinas das lojas, às vedações dos espaços mais ou menos ajardinados, às habitações. Os donos deram-lhes todo o apoio de que precisavam: puseram-nos a ar condicionado, ataram-nos a muros de edifícios públicos e moradias, escoraram-nos a paragens dos autocarros, a carris dos comboios, a pilares dos prédios. Alguns foram mesmo enviados enxutos e climatizados através da raia que separava o país vizinho. Todavia a força das águas, em trabalho de sapa e à desfilada por aquele imenso corpo retiravam-lhes o chão debaixo das rodas e as esperanças na manutenção do seu estatuto social.
  Nesse dia já não houve enxurrada da grossa, apenas da fina. Carros de todas as formas e feitios, com ar condicionado miraculosamente preservado, juntaram-se em grosso ajuntamento ali para as bandas da barra do grande rio castanho. Peixes assustadiços perderam os seus queridos nichos.  Mudaram-se para o mar alto e nunca mais foram vistos.
   Nesse dia parou a grossa enxurrada, o sol festejou sobre os passeios livres e nunca mais houve dias quentes.

 

 

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