Sábado, 13 de Outubro de 2012

 

Um homem com um relógio sabe a hora certa. Um homem com dois relógios
sabe apenas a média.

 

   Em momentos de precariedade, que se apresentem os esmoleres, já que os santos são abstrusos a ações não planificadas. À costa da república vêm dar milhares de pares de sapatos, provenientes de aquém e além oceano, de forma a obviar a mais uma crise dos valores, de há muito encasulada, recentemente instalada. Amontoado em armazéns de uma doca seca caída em desgraça, impunha-se encafuá-los nos pés certos, uma tarefa, por vezes, chata. A batuta da comissão de distribuição é empunhada por uma matrona daquelas de antes-quebrar-que-torcer, com coração de pomba. Militante da caridade, sempre havia dado a cara em causas filantrópicas e pelo voluntariado e à militância por causas filantrópicas, nas horas vagas que eram muitas. A convocatória pública para a convenção é desenrolada em pancartas de letras garrafais sobre todas as rotundas e passeios com viaturas de cidadãos automobilizados.

   No dia da assembleia, são postos à discrição dos eleitos lidadores pequenas távolas prenhes de acepipes, petiscos e postres afrodisíacos, lado a lado com garrafeiras a abarrotar de sumos, vinhos e águas de reserva e licores generosos. A maestrina, sem grandes delongas, agarra-se ao camartelo, brande-o e percute-o, sobre o estefanóforo revestido de alambéis, sem aviso prévio, situação denunciada por 2 delegados a contas com tinitos. O leitmotiv é o esvaziamento da sapataria; os moldes da distribuição seriam ali determinados. Esgotados os preâmbulos, assoma-se à porta dos fundos, pé-ante-pé, um estafeta, indivíduo de confiança do alto-comissário das causas sociais latentes a comunicar que um grupo de missão adóque havia já reunido durante 7 dias e 7 noites, para chegar à conclusão que a distribuição teria de ser equitativa, num local só, numa parte da manhã apenas. Falta afinar a estratégia fidedigna de creditar os destinatários e quantificar os quinhões respetivos.

    A primeira interveniente, com pedra no sapato, lamenta que o grupo adóque se tenha imiscuído onde não era chamado. Propõe que os potenciais beneficiários sejam portadores de atestado de pobreza do regedor; mais teria direito cada um deles a um par de chanatos, proposta 1.

   Um segundo interveniente acha que o grupo adóque tinha agido em conformidade, em tão momentosa questão. Já em bicos de pés, sugere que todo o candidato seja portador de atestado de pobreza de uma IPPS e receba um par de cada tipo de calçado (3 no total,) proposta 2.

   Uma terceira interveniente mete os pés pelas mãos como quem não quer a coisa, acabando por declarar para a ata que está de acordo com as 2 propostas, venha o fute mais velho e escolha. Acha que ambas as propostas são um must e quanto à creditação, alinha com as sugestões avançadas pelos anteriores oradores. Distribui sorrisos à direita, à esquerda e ao centro. O esforço vale-lhe um torcicolo e um estorcegão.

   Chega-se à frente o quarto interveniente no egrégio areópago, um feirante vendedor de banha da cobra. Estilha do alto dos seus tamancos, tartamudeia citações dos clássicos, com cara de poucoa amigos, para se manifestar contra as 2 propostas, pois é pessoa do centrão da política e da virtude. As comissões de bairro, a constituir, fariam uma listagem das pessoas a socorrer. Quanto ao quinhão, 1,5 pares de um só tipo está bem, proposta 3.   

    Um quinto interveniente, exímio consumidor de farturas, declara, alto e bom som, que se tinha manifestado, num comité, o do Rapapé, por uma distribuição de 24 horas, uma habilitação certificada pelo Comité do Desemprego e que cada pessoa tivesse direito a 2 pares de cada tipo de sapatos, abrangendo todos os pontos de Paris. Mas, não se importa de mudar para qualquer uma das propostas anteriores.

     Uma sexta interveniente, detentora de cartão de cliente frequente de solário renomado e cabeleireiro transformista, diz que está nas tintas para os moldes da distribuição, o que a traz verdadeiramente preocupada é o pivete de tantos chanatos juntos. Dona de 60 pares de botas e de 60 pares de escarpins e 60 pares de Mary Janes, de chinelos e ténis mil, entre outros, propugna uma desinfestação preliminar do material a atribuir, com recurso a exaustores topo de gama. Advoga uma distribuição pela calada da noite, por uma creditação e por quinhões sem limitações. Porém, fica por concretizar a proposta 4.

     O sétimo interveniente, farto de sapatos de defunto, pergunta se não seria mais correto dar mais a quem menores declarações de rendimentos apresentasse. Mas, lembrado das afamadas manobras de síndicos, harpagões e tartufos diplomados, hábeis em fugir com o rabiosque à seringa, oferece-se para ser ele próprio a confirmar as condições materiais dos necessitados (cor, cheiro, roupas, hálitos, fluidos) e daria um par a cada elemento das famílias representadas. Acha que a distribuição deve ocorrer num terça-feira, entre as 10 e as 11 horas, proposta 5.

     Uma oitava entende que a distribuição deve ser feita como aprouver a deus, ao alto-comissário e à matrona, sem se rir. Que os candidatos tragam comprovativo do não pagamento de água, luz, gaz e ao dono e colaboradores do supermercado do bairro, para terem direito a número de chanatos que der na cabeça a uma, a 2 ou a 3 daquelas entidades, em todos os dias do ano, proposta 6.

      A distribuição faz-se mesmo, segundo o preceituado na proposta de síntese das 6. Na manhã radiosa do dia seguinte, a maioria dos candidatos, mal transpõe o umbral da porta fronteira, apercebe-se que só estão disponibilizados botifarras, sapatorras de biqueira larga, sapatos de sola de pneu, alguns esventrados, outros com gáspeas soltas, descasados.

   O estoque fora depenado, a coberto da noite, pela porta do cavalo, por amigos do peito.

  



publicado por Jorge às 11:16
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