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oitentaeoitosim

10
Nov12

O bom e o bonito! (1)

Jorge

I – As finanças e a economia estão submetidas a tratamentos de polé, em período induzido de vacas magras. Mandantes encomendam estudos sobre estudos, fervilham pareceres, comentadores debitam parlendas, possidentes querem soluções, (nota-se um indisfarçável restolhar de mãos à sorrelfa, como quem manda valores acumulados, para parte incerta, onde estarão a precato e a recato). O povão braceja, abnega-se, reforça diques e muralhas, enquanto reza, dado o hastear do sinal 10 de borrasca. Neste salve-se-quem-puder, de forte travo a realidade oculta, o contrato social dispõe que as passas do algarve sejam deglutidas pelo peixe miúdo, pelo Zé Mexilhão, a contas com maior trabuco, menor manduco e viva ó velho!

   «Eu não quero saber de política. Temos uma vida a viver» - a tirada de filosofia barata dantes repetido à exaustão, em conversas de compadres e comadres, parece ter as horas contadas. Em tempo de vacas gordas é da praxe olhar para o lado, fazer vista grossa a quem tem mão baixa, ou canta a palinódia, ou coleciona xénios, ou dá cobertura a lóbies, desde que chegue para todos. Agora que «a pátria está de calças nas mãos estendidas», a maioria do silêncio, em transe se der sacrificada na pira sacrificial, começa a querer sacudir a muita água que se agarra teimosamente ao capote.

    «Alguém tem vindo a comer as papas na cabeça da gente, sem-dizer-água-vai» - proclama-se. A boa-fé no pacto social já não é um facto adquirido: «são todos iguais, uns capiangos, uns Metralhas de trazer por casa, vão para o poleiro, para se encher». Abrenúncio! Os líderes visados agarram-se de unhas e dentes ao capachinho, não vá ficar a careca à mostra; quedam-se especados, siderados, olhos vidrados e coração esfriado. Já não há respeito (tão bonito que o magano é) aos que se sacrificam pela coisa pública!

   «Vamos às urnas, bora daí!...» - é convocado, a trouxe-mouxe, novo sufrágio, ao qual concorrem 15 partidos e 5 coligações (a do Povo Invencível ensaia o enlace de uma dúzia, numa plataforma de união minimal, sem sucesso). A Aliança do Cupido (A.C.), comanditada por homens bons e mulheres boas - do arco da governabilidade - promete a regeneração. O receituário cinge-se à reciclagem do maná do deserto, das especiarias do Oriente, das delícias dos haréns arabescos, do eldorado, do céu na terra. O ciclo virtuoso delineado pelos cupidíneos dá-lhes as maiorias todas - absoluta, qualificada, simples, aferidas pelo método de Hondt, e o de Saint-Largue, apesar do montão de votos em branco e de abstenções.

    Já ao comando dos destinos do burgo, a A.C. intenta a recuperação, com passos de dança e toques de magia. Todavia, o panorama gera mais do mesmo: crédito mal parado, juros da dívida impostos por somíticos rapaces, abate de mercados internos, procura curta, investimento magro, entre outros. O ciclo de prosperidade prometido converte-se em miragem. Anjos, arcanjos, querubins e serafins (em greve, por tempo indeterminado), não se dão conta que um ciclo vicioso dá o golpe do baú e se alapa, de armas e bagagens, ao cofre-forte do burgo.

    Da conjuntura, filha legítima da estrutura, só se emerge com sacrifícios equânimes aplicados ao povão (besta de carga, pagador sistémico, congénito e contumaz), é voz corrente. «O destino marca a hora pela vida fora, desde os primórdios da acumulação primitiva, que havemos de fazer?»

   Os conciliábulos enchem-se de carpideiras (os rios correm sempre para o mar, verdade?) e às ruas chegam acusações e lamentações, com maior acrimónia. Os novéis entronizados recolhem a penates, atafulham as portas com ferrolhos e resistem, sempre a dizer que não há alternativas para o mal e a caramunha. Agora dizem que, se os cafres defenestram os cofres, tal é a deriva da imperícia de governantes e governantas que os precederam. Por isso, só há exceções para bem-aventurados indigitados pelas divindades, o resto da malta fica entregue à trinca: tanga, pão-e-água-e laranjas e carro de S. Francisco.

   Enfadados, alguns cidadãos de alguma nomeada e que não tinham votado na coligação A.C. demandam os mandadores, em sede forense, com vista à reparação por perdas e danos. Na oportunidade, os julgadores supremos determinam que sejam esmifrados os que comprovadamente tenham contribuído com o seu voto para aquela vitória. Foi o bom e o bonito!

 

  II - Um comissionista da praça diz, de viva voz, que nada obsta a que os governantes deitem mão à racionalização de medicamentos destinados a doentes terminais. Há limites ao acesso às drogas mais caras, quando falta pouco tempo para deixar esta vida e ingressar na outra.

   Ouviu das boas o profeta da desgraça, nas tertúlias, nos cafés, nos postos de trabalho, nos corredores de acesso aos balneários e do poder, nos programas teledifundidos, nas liturgias, nas spas, nos eventos culturais, ai se ouviu!

   Maria, reformada encartada, classifica a tirada de repugnante e nela descobre contornos de eutanásia por receita e encomenda. João, desempregado de longa data, pretende saber se aos médicos já foi concedido o direito de dispor, a seu bel talante, da vida dos outros, em tempos de procela, situação que lhe é sonegada em tempos de paz. Francisco, afamado conselheiro da praça, é taxativo: racionalização e racionamento são como azeite e vinagre, exigindo sempre talento na separação das águas. António, outro comentador realista e lealista, reconhece que a solução já está em aplicação em gafarias, sifilocómios e lazaretos do país. Joaquim, microempresário, pergunta se terá sido publicado recentemente algum diploma legal que diferencie os doentes de primeira dos de segundo, terceiro e quarto escalão. Pedro, estudante universitário, diz que ninguém pode pôr em xeque a vida dos outros; guerras à parte, só deus. Paulina, paladina de causas sociais, apoda o comissionista de marrão torpe, varrão nazi e paparrotão lendeoso, assim por esta ordem. Bernardo, enfermeiro em vias de emigrar, admite, com ar comiserativo, que os mercados estão a deixar cair os velhos, os estropiados e portadores de deficiência, pelo lado da receita e da despesa.

    (O debate público quase descamba para insultos, sopapos, caneladas, beliscões, esticões de cabelos, dentadas, ferimentos; se mais nada de gravoso acontece e mesmo tiros, tal se deve à suspeita que os tratamentos da saúde já não dão garantias, estarão pela hora da morte).

   «Alguém está a distorcer propositadamente a recomendação do meu grupo de missão. No balneário, o grupo defende a equidade, o progresso, o aumento da esperança de vida à nascença, à adolescência e à maturidade e a igualdade de condições. Só que, no campo, grandes opções não rimam com ilusões. Todos somos iguais perante a Lei, só que a Lei não admite ser igualitária para todos». Nem ele desmente a ingente e evidente urgência de poupar uns cobres, mesmo à pala de mais indigência.

   Nos dias seguintes, todos os doentes reais e potenciais esgotam o stock de canetas, no preenchimento do testamento vital. Todos declinam tratamentos de 2ª apanha, antes dos derradeiros suspiros. Foi o bom e o bonito!

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