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oitentaeoitosim

10
Nov12

O bom e o bonito! (2)

Jorge

A - O deão acaba de fumar o primeiro cigarro do dia, à revelia dos conselhos do físico da sua congregação e em contradita com o seu propósito -  velho e relho de 10 anos -  de não ceder à tentação da nicotina. Ele sabe também que a acroleína é mal tolerada por confessos e dignatários com quem lida amiúde. Lança mão de alternativas: cigarros a fingir, tratamento de choque, cigarros de enrolar, trabalho numa mina de carvão, aquisição de um chaço expedidor de fumaça por todos os lados. Sem efeitos práticos! Chamado à pedra pelo seu superior hierático e hierárquico, leva que contar, por conta daquelas modernices. No seu registo eclesiástico fica a mancha: admoestação por cedência ao popularucho, ao pimba, à borra-botice. «Missão é vocação, conhaque é bebida!».

    Tenta libertar-se apressadamente da prisca, quando se apercebe que um grupo de devotos estuga o passo, a envolvê-lo numa calorosa receção. Topam-lhe o pivete e a beata na mão e solta-se o remoque: «Então, anda a dar pouca atenção à saúde!» - comenta Tânia Jacqueline, a mais fervorosa. «Os justos pecam 7 vezes num minuto, eu peco 8, paciência», motejou o presbítero. «Vamos às confissões que hoje tenho 7 liturgias».

   Instalado no confessionário, ouve a última penitente:

- Ontem cometi um pecado mortal, reverência - denuncia-se a Faustina Segismunda.

- Deus dá o pau, o pão e o perdão, não temas – diz o deão pachorrentamente.

- Fui a uma manife, excelência – confessa, a olhar para os pés Faustina Segismunda.

- Contra o divórcio, contra o aborto, ou a favor da isenção concordatária de tenças? – pergunta o deão, seguro da resposta.

- Não daquelas para derribar a governação, eminência – desembucha, acalorada a confessa.

- Isso é pecado mortal! A rua serve para andar, não para reclamar. Já agora, tens mais pecados para relatar, idas à praia, borgas, comportamentos sexuais desviantes? - persiste o confessor, com cara de poucos amigos.

- Não, eu limito-me a ver a banda passar, eminência e excelência reverendíssima – assenta Faustina Segismunda.

- Absolvo-te, mas como penitência, terás de cumprir todos os dias uma marcha de 3 km, durante um período experimental de ano, faça sol, nevoeiro ou chuva! Em caso de reincidência, passas a fazer o dobro da caminhada. Imita os anacoretas e aprende a resistir às tentações do danado cornúpeto (desarvora o clérigo com cara de poucos amigos) e atira-se a uma cigarrilha, por conta de uma crise de nervos acabadinha de germinar.

   Faustina Segismunda suspira profundamente. Acometida de má circulação, há 2 lustros atrás, não tem pedalada para tanta andança. Não vá a barca do paraíso deixá-la apeada, ali mesmo decide investir os seus parcos dividendos na compra de um motociclo. Foi o bom e o bonito!

 

B – É dia de manife. Dalila faz as abluções matinais, elimina penugens incómodas, disfarça as cãs, maquilha-se a propósito, toma o pequeno-almoço de derivados de soja, lava os dentes, põe-se garrida e ala que se faz tarde! Contas redondas, todas aquelas demandas tomam-lhe 2 horas do seu tempo. Nos dias de folga, dá férias a relógios, despertadores e outros artefactos controladores do seu tempo.

   Enquanto tenta localizar a carripana, deixada não sabe bem onde (as carraspanas têm o dom de fazer perder o norte), Dalila medita: «Já esteve mais longe o retorno ao horário de trabalho superior a 12 horas de todos os dias da semana». Há dias, um especialista já se atrevera a tal propor. Retirou o proposto, quando uma botifarra do representante do grémio lá do sítio se materializou sobre os seu calo de estimação, durante uma conferência de imprensa, sem direito a perguntas. Que súcia!

   As busca do pópó prossegue, bem como as suas elucubrações intelectuais e existencialistas: «Trabalhar dá saúde e faz crescer, diz-se. Mas, agora poucos investem em bens de valor acumulado, transacionáveis. O que está a dar é mesmo a roleta, russa, vermelha, americana, europeia, qualquer uma serve, para não falar no el gordo, no euro-milhões, no totoloto, nas apostas de cavalos, de grilos, no bacará, etc… Cambada!» Pronto, está ali o carro, 5 quarteirões abaixo de casa.

     Grita-se, escreve-se, canta-se: «Fora com a trinca!», «Fora, fora maiorais, não perdem pela demora!», «Vão gamar para a Conchinchina, seus moinantes!», «Abaixo a cáfila de amigos do alheio!», «Mandadores, vão vergar a mola!», «Não há lã que aguente tanta tosquia!», «Vão chatear o Camões!», «Abaixo a ditadura que nos tortura!» «Serventuários de gatunos, meliantes a dobrar são!», «A sociedade civil é quem mais é ordenhada!», «Os que se abarbataram com os subsídios são nossos conhecidos!», «Vão pregar aos peixes e deixem de nos pregar na cruz!», «Quem muito se abaixa, o fio dental mostra!» Ela própria compõe uma mensagem, em cartolina desmaiada: «Beija-me, gosto de beijos, quando me fazem!». Tinha barbas o dichote, mas mesmo assim foi parar à boca e aos olhos de meio -mundo, dada a serena entoação prestada à tirada e pelos xiboletes e manguitos associados, mais tarde milhares de vezes vistos e revistos na net. A coisa promete!

   Dalila, no meio da mole humana hiperativa, vibra a plenos pulmões com canções de escárnio e maldizer, cantigas de intervenção, baladas dos tempos da velha senhora e hinos à liberdade de todos (não só daquela que rima com propriedade). Por um palco improvisado, mas nem tanto, passam cantores, cantadores, cantautores, recitadores, versejadores, poetas de raiz popular, (pimbas excluídos), palradores e entertainers a gosto da intelligentsia. Que comoção!

   De volta a casa, Dalila revê o episódio 1143 duma telenovela em que é cabeça de cartaz, uma saga intensiva, extensível, mas ostensível, arrulhos, pilhéria, bordoada e venturas q.b., interpretada au ralenti, por alguns cromos lídimos na arte de bem representar à custa de muitos rictos, muitos cruzares de braços e muito jogo de cadeiras. Consola-se com uma ceia de salmão fumado e ovas de esturjão, regada capitosamente por 1 ginjinha, 1 garrafa de um reserva maduro tinto e 1 bagaço. Ainda se dá conta que os noticiários a tiveram debaixo d’olho, na manifestação. Que emoção!

   Quando o noticiarista inicia uma peça sobre as repercussões de um ataque suicida levado a cabo por uma família obrigada a devolver a casa ao banco, por incumprimento das últimas prestações, Dalila, emotivamente esgotada, ferra o galho. As câmaras dão conta de desestabilização da ordem pública, noite dentro. E foi o bom e o bonito!

 

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