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oitentaeoitosim

10
Nov12

Homem infausto que pôs o pobre a dar ao farto

Jorge

    Nasce em berço d’oiro, de nalgas voltadas à Lua, o enlevo dos ascendentes. Diz papá e mamã, aos 6 meses, recita o abecedário aos 2 anos, fala Francês aos 3 e dedilha o piano aos 4. A partir daí, é sempre a aviar, primeiros lugares no quadro de honra  de alunos de mérito das escolas que frequenta, todas elas constantes dos primeiros lugares dos rankings. Na universidade é mais do mesmo: coleciona 4 licenciaturas, 3 mestrados e 2 doutoramentos – à custa do suor do rosto dele e dos doutos ensinamentos doutrem -, sem que alguém lhe faça sombra. Acresce ainda à peculiaridade de aluno modelar e modular, acrescenta o título de cidadão impoluto, desportista amador exímio em desportos radicais, frequentador compulsivo da noite e marialva dos 4 costados, sem manchas, quanto a consumos espúrios.

   Dá-lhe na veneta de sobraçar o cargo de administrador-mor do burgo. A análise comparada permite uma conclusão muito lhana: bastar-lhe-ia corrigir pequenos destrambelhos e adquirir mais algumas valências, nem que seja à custa de uns pozinhos de perlimpimpim. Em dia meditabundo, dá um pontapé numa pedra e debaixo dela salta o mafarrico (sempre alerta) que lhe perscruta a «excruciante mágoa». Desata a namorá-lo e dá a entender que está em condições de concretizar os seus desideratos, em menos tempo que leva um fósforo a consumir-se, enquanto ele esfrega um olho. «Teu será o poderio, e tomarás conta do navio. Em troca de quê? De coisa pouca, da tua alma de chicharro (este último comentário foi produzido em intensidade pianíssimo e em dialeto do abisso, não fosse a transação às malvas). Assinas aqui um trato e não se fala mais no assunto. Por acaso, até aqui tenho um acabadinho de sair do forno». De afogadilho, (ainda tem tempo para pensar 2 vezes) o ícaro concorda, a troco de um caderno reivindicativo, da qual consta, inter alia, a indexação de toda a lábia e parafernália do príncipe maquiavélico e a indexação impreterível dos mimos, a seguir discriminados (indispensáveis à nobre arte de cavalgar toda a sela):

. Filosofia liberal (na versão neo, ultra ou clássica), radicada em farta experiência de vida;

. Conhecimento e desprendimento do meio;

. Sageza e voz de comando na liderança;

. Sensatez, agilidade e racionalidade nas decisões;

. Adaptabilidade às rédeas do poder;

. Sentido de oportunidade e sentido prático nas decisões;

. Capacidade negociadora e adaptação à mudança;

. Sabedoria em correr riscos calculados;

. Ambição de conquista e poder de iniciativa;

. Recusa de guerras sem sentido;

. Intuição na escolha acertada e confiante dos colaboradores;

. Promoção do alargamento de horizontes;

. Confiança na máxima «o segredo é a alma do negócio»;

. Ductilidade perante novas situações;

. Confiança e promoção do bem-estar dos colaboradores;

 . Perceção que o ataque é a melhor defesa e vice-versa;

. Poder de atacar as tibiezas dos adversários;

. Coragem de manter o rumo traçado;

. Justeza na apreciação das temáticas todas;  

. Caráter na apreciação das medidas equitativas, progressivas e retroativas.

   «De pouco te valerão, mas, se assim queres, assim terás: tu genufletes, eu aperto o nariz e ficas possesso à maneira. Terás ainda direito a mais uns extras saídos da verve de outros grandes vultos da história e de renomadas instituições internacionais especializadas em arrastos, arrestos e arrochos» - garante-lhe satanás. Meu dito, meu feito. Redigido a vermelho ígneo, com imensas alíneas escritas a letra miudinha, cor cinza, o contrato é logo ali rubricado (o beneficiário compromete-se a que nunca o exorcizará), perante o silêncio recalcado dos imortais e um recital de esconjuros, imprecações e rituais mágicos. Apenso a tudo aquilo, o maligno entrega-lhe um receituário, um preceituário e um certificado de garantia. Dão-se as mãos e cada um vai à sua.

   Esfrega as mãos o carismático pretendente, melhor que isto, nem no supermercado, a vida é bela, os homens é que dão cabo dela. Já se imagina a vencer todas as pugnas, em todos os conciliábulos, a levar tudo à sua frente, elaborando códigos, códices e codicilos irrefutáveis. As medicinas provam ser eficazes, embora lhe tenham sobrevindo uns muito secundários efeitos de brotoeja e sarampelho, disfarçados de coceira fortuita.

    «O homem mudou, está mais maduro, mais senhor do seu nariz, mais seguro (lagarto, lagarto!) dos seus passos. Esperam-no grandes feitos!». A vida dá muitas voltas e numa delas obtém a medalha de ouro do mandarinato, pelo que é expelido fumo cinzento da chaminé do senáculo. Impante do seu poderio, é ungido e entronizado, no imediato e na presença de reverenciadores suseranos das 7 partidas do mundo.

   No início as rosas atapetam os caminhos do novel administrador-mor, doces fragrâncias criam uma ambiência de caranço e torpor, tudo na maior. Pôs má cara às primeiras gemedeiras de súbditos menos bafejados pelas sortes do destino. Os seus eméritos méritos estão a render dividendos a uma minoria reclinada à mesa do orçamento, mas foi esse o legado que tem de preservar e contra isso, batatas! O reinante confessa: «houve um ligeiro desvio de percurso, mas é este o caminho por excelência». Pelo sim, pelo não, obriga o capeta a materializar-se, em noite de lua nova e pede-lhe um juízo dos seus atos. «Não te amofines, não foste escolhido para desviar o curso dos rios, mas para trilhar a via dolorosa (lagarto, lagarto!) para alguns, os tais que só se sentem bem a mandar vir. É assim que vos gosto de ver!». Aproveita a oportunidade para lhe entregar em mão fotocópia autenticada do contrato e, no regaço, um punhado de ducados, alguns dobrões e 50 marreis de mel coado, que podem obviar a agruras, penúrias e torturas (o mandante sonega os donativos com sofreguidão, não vá satanás arrepender-se, coisa nunca vista, mas um seu familiar nunca tinha visto porcos a voar, mas, um dia, deu-se conta disso, quando passeava pelas bandas da Pateira de Fermentelos).  

    Numa segunda revista às tropas, depois de muitas festas com feiticeiras apaniguadas e bruxas curtidonas, o chifrudo apercebe-se do tom nacarado, olhos ligeiramente papudos do mandarete que se desfaz em vénias, dobrado até ao chão. «Afinal o meco dá conta do recado com recato, as alcatruzes da nora continuam bem oleadas - desabafa o demo, em intensidade pianíssimo e em dialeto do abisso para a sua entourage, enquanto perpassa o unhame cobiçoso pela bossa untuosa.

   O enfarruscado imperador dos infernos abrevia uma terceira vinda ao burgo, pois lhe tinha constado que o coração do seu cliente se amolancava. Notou-o menos entusiasmado, com menos cabelos no toutiço (ficou de lhe arranjar um champô menos abrasivo), um tom ligeiramente anil de tez e incapacitado de efetuar vénias de meio arco, mas nada que não se compusesse. «Mestre, pode ficar descansado que não vou queimar etapas, muita gente já está chamuscada, mas contra isso, batatas!» Aí está a prova provada que tudo ficará como dantes, quartel-general em Abrantes! Pelo sim, pelo não, deixa um aviso à navegação: «Prá frente é que é Lisboa! Aos arrependidos, aplico a chapa 1: Trabalho a dobrar na seção do alcatrão, sem direito a folgas, nem feriados, nem horas extraordinárias e à míngua de salário».

    À quarta visita, o mafarrico encontra o administrador-mor mais encurvado, um ligeiro tom esverdeado de pele e mal das cruzes (tarrenego!) Faz-lhe o obséquio de reconhecer que ele é a pessoa certa no lugar certo. Cortes nisto, cortes naquilo, cortes à esquerda, cortes à direita, pessoal a espumar pelos cantos da boca, isto é a canção do bandido levada à prática, a ação psicológica a dar resultados. Faz questão de deixar uns trocados no porquinho, para que o protegido acorra despesas mais prementes.

    Da quinta vez o fute assiste in loco a despedimentos, à entrega de casas aos bancos, à devolução de carros, de máquinas nespresso, de computadores, de serviços de louça oriental. Há casas de prego a deitar por fora, lojas de ouro em barda, feiras-da-ladra em alta, muita mais confusão nas ruas, rostos fechados, mãos desanimadas. «Num destes dias, passas a integrar o quadro dos meus educandários» - sussurra o kaiser das barregãs ao ouvido do seu valido que lhe parece mais depauperado de saúde e siso, mais recurvo, mais calvo («não tarda, tás no papo!») Na mesa de despacho deixa-lhe 2 reis de mel coado e bate as asas negras de fumo, a caminho do protetorado seguinte.

    À sexta visita, o dianho, encontra o administrador-mor a definhar-se a olhos vistos, olhos sapudos, capachinho e pele macilenta; são cada vez mais frequentes as crises de figadeira, de gota e até da próstata (e de safadeza igualmente). O médico da privada sugere que vá a banhos, caso não queira sair de casa com os pés para a frente, antes da data prevista. Tenta renegociar com o chavelhudo os prazos previstos no pacto original. «Ó pra ele, assinaste de bom grado e livre alvedrio, não me venhas com canções de embalar. Continuas a pôr o pessoal a dançar o malhão, ou, em alternativa, entregas já a alminha, em 2 tempos, seu danadinho!» - ri-se-lhe nas bochechas o ex-arcanjo endemoninhado, à beira de um ataque de riso incontido. Deu-lhe 30 copeques para umas buchas e ala que se faz tarde, que a vozearia dos desprotegidos da sorte (que pejam as ruas) também lhe fere os tímpanos.

    Está a definhar-se o aio, saltando ais lancinantes a cada 2 passos, mas arrima-se à sina (morra quem se arrenega!), não há outra saída, senão a desbunda. Em desespero de causa, o apoderado faz o diabo-a-quatro: proclama o estado de exceção no pino do Inverno, o de sítio na Primavera, o de guerra no Verão. No Outono, esfuma-se, o desalmado. Dele perdura a alembrança e a lambança numa casa assombrada.

 

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